AvanMilton
unread,Sep 27, 2010, 1:42:49 PM9/27/10Sign in to reply to author
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to Rancor do Passado
A capital é algo de encher os olhos, prédios de apartamentos e torres
por todo o lado, as ruas são largas e arrumadas, o comércio é diverso
e organizado, embora não seja um ponto principal de comércio algumas
das principais casas mercantes e escolas de magia fazem residência
aqui, se Ismethem é o porto e ponto comercial do reino, a capital
Kelsen é o ponto da nobreza. Assim que chegamos nos apresentamos à
guarda fronteiriça, e logo fomos escoltados ao palácio, pelo que pude
ouvir, iríamos ficar hospedados por lá para uma apresentação esta
noite, fiquei me indagando se o velhor Enok teria sido trazido
especialmente para esse evento ou não, afinal chegamos na capital em
tempo recorde, como se tivéssemos um prazo para cumprir.
Entramos pela lateral leste do palácio e logo percebi que obra de arte
era aquilo, a luz do dia entrava e refletia-se nos lustres e espelhos
no teto, fornecendo uma iluminação eficiente de cada corredor e sala.
No local onde ficamos estavam diversas outras pessoas, mercadores
aparentemente, estavam entregando todo tipo de encomenda, comidas,
tecidos, tapeçaria, etc, Enok estava estranhamente calmo em um canto
da sala, com a cabeça baixa e encolhida, resmungando algo para si
mesmo, nossas ordem foram de esperar até sermos chamados a conhecer
nossos aposentos temporários, como eu estava de penetra, provavelmente
ia ser encaminhado ao mesmo aposento do Enok, estava pensando nisso
quando escultei uma pequena discussão, um velho mercador acompanhado
de seu filho estava argumentando com os guardas para falar com o
regente, aparentemente tinha algo a ver com problemas nas colheitas e
consequentemente a dificuldade de pagas os impostos, o guarda até que
foi educado em responder, disse que com o regente seria impossível mas
que iria solicitar que o conselheiro o atende-se, meio contrariado mas
conformado o fazendeiro indagou o porquê do tratamento diferenciado,
afinal só porque aquelas pessoas eram aventureiros elas poderiam falar
com o regente, mas ele que é um reles fazendeiro teria que se
contentar com o conselheiro, quando eu me aproximei, indaguei sobre
esse tal grupo de aventureiros, minhas preocupações tomaram forma pois
a descrição que eu recebi foi dos mesmo que acompanhavam a clériga.
Eu sentir o mundo sumir, me encostei na parede antes que caísse pela
tontura, era claro que não tinha como passar por aqueles guardas,
tinha que arrumar outro jeito, foi quando minha cabeça enlouqueceu, eu
me vi cogitando centenas se não milhares de alternativas, minha visão
ficou turva me forçando a fechar meus olhos, foi quando eu senti
vertigem e um vento forte na cara, quando abri meus olhos denovo ví
que estava em outro lugar, um lugar aberto, olhei ao redor e ví que
estava pendurado em uma das torres do palácio, o susto foi o
suficiente para eu me largar, uma queda de vinte metros no mínimo,
achei que se fechasse os olhos acordasse daquele sonho diurno, até que
senti um baque na testa, um baque bem menor do que esperava, tateei de
olhos fechados uma espécia de estátua, confirmei ao abrir meus olhos,
ví que estava numa sala larga, onde um grupo de pessoas falava com
alguém sentado em um trono de mármore, ao redor daquelas pessoas
estavam dezenas de guardas prontos para avançar caso necessário.
Demorei alguns segundos pra passar a perceber o que estava acontecendo
a minha frente, minha cabeça aos poucos digeriu ou ignorou o que tinha
acontecido antes, seja como for, de alguma forma eu cheguei na mesma
salaaque o regente, exatamente na hora em que a cleriga falava com
ele, olhando agora com mais calma, percebi que a elfa estava afastada
de seus companheiros, e eles estavam contando uma considerável
quantidade de dinheiro, a clériga estava sem seu disfarce de humana,
argumentando forte contra o regente, que respondia energicamente,
ambos falavam uma linguagem que eu não entendia, mas ficou claro que
não era uma conversa amigável, fiquei escondido em meu canto quando
derepente o regente se levantou e empunhou sua arma, uma espada enorme
repleta de energia mágica, a elfa se encolheu de medo foi quando todos
pararam e olharam para mim, eu estava na entrada do salão, agora bem a
vista de todos e uma palavra ainda ecoava nas paredes do palácio, a
palavra que ecoava provavelmente tinha saído da boca de algum lunático
e seu eco só fazia afirmar mais a insanidade de tudo aquilo “PARE,
Pare, pare...”.
Eu não conseguia ouvir nada, eu via a boca das pessoas se moverem mas
eu não ouvia as palavras que saiam, minha visão ficava turva denovo,
eu senti meu coração parar de bater, minha boca mexeu mas nenhum som
saia, minhas pernas, meus braços tinham se transformado em pedra, eu
não consegua movê-los, eu via o grupo de aventureiros e parte da
guarda se movendo em minha direção sem poder fazer nada, assim que o
guerreiro do grupo encostou sua mão em meu ombro eu senti o mundo
sumir denovo, quando acordei, a guarda estava afastada mas apontando
as armas para mim, ao meu redor estavam os aventureiros desacordados,
e TODOS os músculos do meu corpo doiam.
O regente já de pé e com sua arma olhava pra mim com curiosidade, a
elfa caída no chão olhava para mim com surpresa, eu olhava a mim mesmo
com desespero, quando e regente perguntou quem eu era eu ouvi passos
se aproximando, “Enok senhor, muito prazer”, o velho Enok apareceu do
mesmo local em que eu estava escondido antes, todos os olhares se
dirigiam a ele, que estava segurando dois pedaços de papel
retangulares na mão. Com passos lentos ele se aproximava de mim, com
gestos ele fez menção a todos se acalmarem, o regente ainda de pé
questionou “Enok o contador de estórias? que insolência é essa? e esse
aí que atacou esses aventureiros? como ousam demonstrar hostilidade
perante minha pessoa?”, Enok só fez exibir um sorriso discreto, “Calma
senhor, eu posso responder tudo, sou sim um contador de histórias,
esse é meu companheiro de viagem, quanto ao que aconteceu, bem eu
posso contar mas primeiro preciso pedir a essa nobre senhorita que se
afaste, afinal é feio apontar armas mágicas a moças bonitas”.
O regente olhou pra elfa a sua frente e em seguida olhou para nós
dois, “Pois bem bardo, é justo que se explique antes que eu destrua a
todos pela insolência”, Enok abaxou a cabeça em agradecimento e sentou-
se no chão com as pernas cruzadas, “Sobre quem eu sou, é fácil, sou
Enok, sou a babá da senhorita a sua frente, bem, dela e de outras
crianças, eu cuido para que certas coisas de ruim não aconteçam com
elas, como por exemplo brigarem entre si, ou serem empaladas por uma
vossa senhoria, no geral é um trabalho tranquilo, meus pais deram
ferramentas suficientes para eu cuidar de tudo, como esse livrinho de
páginas removíveis, ele contém todo o conhecimento de um mundo antigo,
inclusive essas duas folhinhas que eu estou guardando devolta. Pois
bem, minha infância foi bem peculiar, meu pai e minha mãe me levava a
diversos lugares, e não estou falando de cidades, estou falando de
masmorras, calabouços, covís de dragões e planos distantes, minha
diversão quando criança era rastrear monstros e conjurar magias,
brincar de combate era normal, não que eu esteja reclamando, sempre
que possível descansávamos em uma cidadezinha onde eu tinha diversos
amigos, uns mais velhos, uns mais novos, lembro-me que nossa diversão
era pregar peças no tio Keen e tio Senal, os donos da taverna onde
ficávamos, era engraçado vê-los reconstruindo a taverna toda semana,
com o passar dos tempos fomos envelhecendo e muitos dos meus amigos de
infância resolveram partir, mas sempre eu pude saber onde cada um
deles estava, mamãe disse que isso era devido ao meu pai, que antes de
falecer tinha me dado sua missão, que era proteger essas crianças,
filhos dos meus tios. Nas minhas viagens eu acabei por encontrar o
amor da minha vida e nós estamos esperando nosso segundo filho, será
uma menina pelo que Thyatis me disse, minha esposa está adorando
afinal sempre quis um casal, como andava meio ocupado e como ficou
arriscado levar minha esposa grávida comigo, eu criei esse corpo,
baseado no meu pai, assim eu posso continuar minhas jornadas e caso
necessário agir em defesa dessas crianças. Como o senhor sabe, os meus
tios ficaram sem seus poderes, alguns estão buscando se recuperar,
como o senhor, outros decidiram apenas cuidar dos seus domínios de
outra forma, mas todos estão de certa maneira buscando seu lugar no
mundo, alguns acordando antigos companheiros, os antigos habitantes do
mundo deles que hoje em dia vivem novas vidas. Só tem um único porém,
uma tia minha foi salva, porém ela já chegou morta, sua energia era
pouca e não conseguia sobreviver sem um hospedeiro, por muito tempo o
meu pai foi esse hospedeiro, até que ele encontrou a linhagem élfica
deste mundo, por meio de um ritual ele conseguiu transferir a energia
da minha tia para uma criança natimorfa, alguém que tinha nascido sem
alma, o ritual funcionou, a criança teve vida, porém suas memórias
eram confusas, não tinha consciência de quem era, ao estudar-la o meu
pai descobriu que a criança precisava de uma centelha divina, algo que
só os outros tios teriam, conseguir isso era mais difícil, papai já
tinha estabelecido certas regras, a mais importante de todas era que
nenhum dos meus tios poderia agir contra algum dos seus irmãos ou
mesmo algum de seus sobrinhos, e essa missão ficou pra mim, evitar que
esse tipo de coisa aconteça, pois bem, aqui estamos, um tio meu
tentando matar uma tia minha”
O silêncio que se seguiu foi só interrompido pela indignação do
regente, “Não pode ser, eu não sinto nada vindo dessa garota!!!, ela
não tem a centelha... eu não tinha a mínima idéia”. Algo havia
atravessado o peito do regente, uma lâmina roxa estava em seu peito,
sua espada caiu ao lado, a guarda real desapareceu em uma fumaça azul,
os olhos do regente fitavam Enok, agora aparentando quarenta anos de
idade, uma energia tomou conta do corpo do regente até fazê-lo
desaparecer por completo, numa explosão a energia se espalhou pela
sala, atravessando portas e paredes, uma pequena parte dessa energia
ficou no lugar onde o regente estava, lentamente essa energia se moveu
em direção a elfa e entrou em seu corpo, um brilho forte me cegou por
alguns segundos, quando eu pude enxergar novamente, eu via a elfa, e o
jovem Enok, mas a elfa estava diferente, embora sua aparencia fosse a
mesma, ela tinha uma aura diferente, mais poderoza, o jovem Enok se
curvou, e ela também o reverenciou, meu corpo ficou dormente por
alguns segundos e reaparecemos a alguns metros da fronteira da
capital, Enok, agora aparecendo velho novamente, disse algumas
palavras que eu não consegui compreender, olhou para mim e se
despediu, simplesmente virou-se de costas e partiu, antes que eu
pudesse digerir o que tinha ocorrido a elfa se aproximou e disse meio
a um sorriso “Então tá... um meio elfo... essa foi ótima! Eu preciso
encontrar algumas pessoas, você me acompanha?” Por algum motivo, as
palavras saltaram do meu coração “Por toda a vida”. E então partimos.