AvanMilton
unread,Sep 14, 2010, 12:48:04 PM9/14/10Sign in to reply to author
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to Rancor do Passado
Arrumar as mesas, esfregar o chão, limpar as manchas de sangue, esse é
o meu trabalho, todo abençoado dia a mesma coisa, pode não ter o
esplendor de uma vida de aventuras, ora, pode não ter esplendor algum,
mas me dá o que ter de comer e um teto para dormir.
A confusão de ontem até que foi divertida, um grupo recém-chegado e
bem disposto a gastar seu dinheiro com o que tínhamos a oferecer,
malte puro, fermentado, hidromel, até uma boa porção de romãs, o lucro
que o taverneiro teve deve ter sido o suficiente para ele finalmente
trocar a mobília, eu acredito que deva ter um limite de vezes que um
móvel possa ser reparado antes de virar pó, possivelmente umas duas
mesas e com certeza três cadeiras já passaram desse limite.
Seja como for, o chão já estava melhor e eu já desistira de tentar
limpar o sangue de meio-orc da tapeçaria, talvez algum mago saiba como
limpar aquilo pois minhas idéias ficaram limitadas a utilização de
álcool e fogo. Já anoitecia e eu já podia sentir o cheiro da comida
sendo preparada, o grupo de ontem ficou pra retornar hoje, falaram
algo sobre estarem esperando por mais alguém, seja como for, vou
preparar umas ervas tranquilizantes caso eles se exaltem novamente,
uma ou duas gotas em cada bebida costumam resolver, bem, talvez não
resolva com o anão, mas nele é melhor não tentar, eles costumam ter um
paladar bem aguçado para bebidas, os outros não vão ter a mínima
idéia.
Logo no cair do dia começam a chegar nossos clientes, em sua maioria
de fazendeiros locais em busca de algo forte pra recuperar suas
energias, ninguém fala abertamente mas nosso preço diferenciado é o
que faz a diferença no negócio, cobramos cinco peças de cobre por
semana para cada fazendeiro, e uma peça de prata em média por cada
bebida para os aventureiros, assim os fazendeiros não precisam se
endividar pra encher a cara e o bar mantém sua economia graças aos
heróis beberões, em troca os fazendeiros costumam ajudar os
aventureiros com dicas e mistérios que ouviram falar, no caso de maior
criatividade, inventar, com isso o tempo vai passando e nossa vila
fica conhecida como ponto de encontro para heróis, a economia gira, e
todo mundo sai feliz, uma ou outra confusão até acontece mas
normalmente a quantidade de aventureiros acaba evitando que a coisa
assuma um nível mais perigoso.
Mesas cheias, cheiro de comida no ar, o barulhos dos talheres se
confundindo com a música, as risadas, os palavrões, de repente me
sinto em casa, dou uma breve olhada, hoje tem duas delas, uma mal
encarada e uma se sentindo completamente deslocada nesse mundo,
praticamente encolhendo-se em sua cadeira. Estava na hora de
trabalhar, com o passar do tempo eu passei a reparar mais nas pessoas,
ouvir e pressentir suas reações, não que eu esteja me orgulhando da
minha habilidade mas pelo menos não faço nada ilegal, me aproximo da
primeira, possivelmente bárbara do povo nômade de Kausur, afinal em
nenhum outro lugar uma mulher poderia conseguir um físico daqueles, é
como se alguém esculpisse uma ninfa em granito sólido e depois desse
vida a ela, porém sem tirar a dureza do granito, o povo de Kausur
costuma desprezar os fracos, o que me deixa numa posição
desconfortável mas, não seria a primeira vez, servi primeiramene aos
seus companheiros, o que já a deixou irritada, ficava bem claro que
ela era a líder do grupo e por isso deveria ser a primeira a se
alimentar, mas minhas ações tem um motivo, assim que só restava ela a
ser servida eu notei o quanto ela estava se contendo, deduzi que ela
tinha o costume de perder o controle e estava quase a ponto de jogar a
mesa na minha cara, a cara de preocupação de seus companheiros
confirmou minha hipótese, foi exatamente quando eu bati com o copo na
mesa, espalhando um pouco a cerveja, virei de costas e fui para atrás
do bar, com um gesto simples eu avisei o taverneiro, que olhava
impressionado pra mim e aflito para a bárbara que naquele momento
estava vindo em minha direção como um javali enfurecido, virei para
sala atrás do bar, saindo de seu campo de visão, assim que ela
atropelou a porta com um martelo do tamanho de um homem adulto eu a
puxei a jogando contra umas mesas quebradas, podia ver o fogo sair de
seus olhos e sabia que minha vida iria acabar aqui se eu não fosse
perfeito, antes dela avançar eu saltei por cima dela, por pouco eu não
hesitava, mas, segurei suas mãos e dei-lhe um beijo forte, ela me
arremessou facilmente segundos depois, eu senti o encantamento do meu
cinturão enfraquecer, a cara de espanto dela foi a minha vantagem, de
mão fechada eu desferi o soco mais forte que eu pude, ela deu apenas
dois passos para trás, minha cara dizia que eu era o macho alfa mas
minha cabeça estava rezando pra que tivesse dado certo senão minha
maior preocupação seria quem iria jogar meus peaços na limpeza de
amanhã. Ela se recompôs, um filete de sangue escorria de seu lábio,
ela saltou rápido demais pra eu reagisse e me comeu com seus lábios
enquanto rasgava minha roupa, um pouco atordoado pelo choque, consegui
ser hábil o suficiente para esconder o cinturão de força de gigante,
caso ela o visse eu teria sérios problemas, bem, descrever o que
aconteceu não é pra mim, teve horas que eu temi em ter quebrado alguma
costela ou coisa do tipo, quando terminamos eu me apresentei e pedi
desculpas se a ofendi, ela aceitou, se identificou como Ranak, e
agradeceu as desculpas, tudo conforme o que se espera de alguém nativo
de Kausur, ela se arrumou, desejou-me o hintar, palavra que pra nós
pode ser rudemente traduzida como “uma vida com muitas aventuras com
possivelmente com uma morte em batalha” e voltou ao bar, terminei de
me vestir, tomei uma poção cura por via das dúvidas e voltei ao salão,
os companheiros de Ranak levaram um susto quando me viram inteiro, o
susto maior talvez tenha sido de ter visto sua companheira gargalhando
e pedindo por mais cerveja, o taberneiro disse que eles tinham ido
pará-la mas como eu tinha gesticulado, ele os impediu, pelo que ficou
sabendo, ela destruiu meio bairro da última vez que alguém a ofendeu,
sorte minha eu saber a cultura dos Kausur principalmente sobre como
cortejar uma mulher, ou fêmea como eles chamam.
O taverneiro abriu um sorriso, afinal ele sabe que um bárbaro feliz,
homem ou mulher, significa muitas bebidas a noite toda, uma já foi,
falta a outra, essa tinha a cara de ser clériga, possivelmente recém
ordenada, essa vai dar mais trabalho, não pra conquistar, mas pra
seguir adiante, não me entenda mal, eu não sou um calhorda ou coisa do
tipo, eu sou um acompanhante, um prostituto se preferir, é ofensivo
mas eu já estou acostumado, nem sempre as coisas acabam em sexo,
aliás, quase nunca, a maioria das mulheres querem conversar, ouvir
histórias românticas, se sentir amadas e que elas tem importância e
valor nesse mundo, eu faço isso, eu acalento, levo pra passear, canto
canções, massageio os pés, enfim, faço o que a maioria dos
aventureiros deixa passar, assim como eles procuram companhia na casa
de prazeres, eu faço o mesmo serviço só que sem cobrar, bem, lógico
que costuma rolar algum benefício como o cinturão que mencionei
anteriormente mas não é algo que eu peça, são só presentes que eu
aceito, meu verdadeiro benefício é a emoção da conquista.
Essa clériga porém é uma cliente difícil, primeiro, mesmo que os
deuses não costumam exigir castidade alguns clérigos escolhem essa
opção de vida, e costumam se afastar de qualquer ser do sexo oposto
pra evitar a tentação, os sinais que eu captei dela eram confusos, não
tinha certeza se o comportamento dela era pelo motivo que eu
descrevera ou se era o fato dela ter sido provavelmente cantada por
seus companheiros de aventura, seja como for, algo na atitude dela me
prendeu a atenção, eu ela estava aflita demais, a minha primeira
impressão dela ter sido ordenada a pouco tempo não fez mais sentido,
ela estava bem equipada demais pra uma novata, e pior, eu senti o
cheiro de rosas ao me aproximar, o cheiro exalando de seu corpo,
efeito clássico de quem tem alta conexão com alguma divindade, me
recordo de apenas de duas outras ocasiões de que senti esse efeito, e
as pessoas envolvidas não poderia ser chamadas de novatos.
Com o desconhecido a frente eu me aproximei, ficou claro que minha
presença incomodou diretamente o guerreiro do grupo, assim como eu, um
humano, mas com o dobro do meu tamanho, por um instante pensei se foi
uma boa idéia ter guardado o cinturão mágico, enfim, os servi com o
básico, para ela preparei um prato especial, não que eu seja um
cozinheiro de mão cheia, mas eu sei certas receitas que agradam
especialmente aos sentidos, coisas que a maioria não presta atenção,
afinal, se vai encher a barriga pra quê se preocupar com o gosto?
O prato foi um frango servido ao molho de tomate com orégano, batatas
assadas com hortelã e bastões de noz-moscada e canela, trouxe o prato
tomando o cuidado de mantê-lo fechado, assim que o servi e tirei a
tampa eu pude ver os olhares de todos em direção àquela mesa, mas a
melhor reação foi dela, por um segundo seus olhos se fecharam e quando
abriram eu tive a certeza de que era outra pessoa, como eu tinha
adivinhado, ela era de origem nobre, esse prato não sairia por menos
que uma peça de ouro, já contando o desconto, eu tinha certeza que ao
sentir o cheiro ela iria se lembrar de sua época de boa vida, afinal,
meses comendo apenas comida salgada e provisões de viagem acabam com
as forças de qualquer um.
Com o passar da noite ela me perguntou quem teria feito o prato, daí
nós continuamos a conversa, e minha habilidade conseguiu tirar até
umas boas risadas dela, conforme o tempo passava eu sentia o olhar
frio do guerreiro aumentando, me desculpei dela e combinei nos
encontrar mais tarde, capturei sua atenção quando mencionei meu
conhecimento sobre a ordem dos Piratas de G’ere, então logo marcamos
nos encontrar a poucos metros daqui, debaixo de uma cerejeira.
Bem mais tarde, vejo ela ao longe se aproximando, agora estava sem sua
armadura, só seu símbolo divino a denunciaria como aventureira,
trajava vestes azuis com detalhes em prata, seu movimento criava
riscos no ar como se estivesse envolta em estrelas, nos sentamos e
conversamos sobre a vida, sonhos futuros não pareciam ser seu assunto
favorito, muito menos família, conversamos então sobre pessoas
distantes, lendas, contos locais e histórias de amor, foi quando eu
avistei Enok cambaleando em direção à taverna, a peguei pelo braço e
perguntei se ela gostaria de ouvir o melhor contador de histórias da
região, ela ruborizada disse que sim, sabia que agora não tinha mais
como falhar, Enok ia me dar a oportunidade de ouro, suas histórias
sempre foram o melhor pano de fundo para minhas conquistas.
Assim que entramos, a levei até o terceiro andar, onde eu tinha um
quarto reservado e a iluminação é precária, ficamos na varanda olhando
aquele velho senhor se aproximar no balção, quando ela me perguntou
quem era ele, eu expliquei que ninguém sabe ao certo, ele chegou na
cidade a alguns meses e permaneceu desde então, anda sempre com uma
bolsa retangular grande amarrada nas costas e com as roupas que nós
damos pra ele, de dia é costume encontrá-lo andando na cidade e nas
redondezas, se resume apenas a responder cumprimentos e agradecer
quando lhe dão comida e roupas, mas nunca aceita dinheiro ou
hospedagem, outro dia afugentou uns animais que estavam prestes a
atacar algumas crianças próximas ao riacho, isso acabou fazendo
crescer um respeito das pessoas por ele, os guardas só o incomodam
quando ele esquece de tomar banho, e mesmo assim eles fazem uma
espécie de perseguição pela cidade sempre acabando com ele caindo no
riacho, virou uma atração na cidade. De noite ele costuma sumir,
normalmente visto indo pra floresta, ocasionalmente ele vem a taverna
contar histórias, histórias maravilhosas de um mundo que ninguém ouviu
falar, tudo que ele faz é quase teatral, demorou um pouco pro
taverneiro entender mas agora ele entrou na brincadeira, você só
precisa prestar atenção no que eles vão fazer.
Entramos um pouco depois de Enok, mas deu pra notar que a taverna que
estava quase vazia lotou novamente, a maioria de locais que já
conheciam Enok, a banda parou o que alertou os poucos grupos de heróis
que ainda estavam presentes a prestar atenção no que acontecia. Enok
se aproximou do bar, xingando aos quatro ventos como sempre, o
taverneiro se esforçou ao esconder o sorriso e entrou no personagem,
“Que foi velho bêbado? pra que você vem aqui se não tem com o que
pagar”, dava pra sentir a raiva e orgulho ferido do velho Enok “VELHO?
VELHO BÊBADO??? escuta aqui seu filho de orc com kobold, eu sou um
nobre guerreiro, eu sou uma lenda no meu mundo!!! eu posso destruir
ordas de demônios só com um golpe de espada!!!”, a platéia estava
atenta em também interpretar seu papel, podia se ouvir as vaias
misturadas com “mentira”, “velho bêbado” ou o novo e com certeza
previamente pensado “a merda do meu cavalo tem mais nobreza que você”,
para quem é novato como a nobre clériga que eu estava abraçando,
parecia que a cidade toda tinha se transformado, outrora os
civilizados e acolhedores habitantes de Riverside se transformaram em
completos selvagens, Enok estava em vão tentando responder aos
xingamentos mas estava em desvantagem, ele então voltou-se ao
taverneiro e pediu por uma dose ao menos, era a deixa que todos
esperávamos, todos ficamos em silêncio, ele serviu uma dose e antes
que Enok pudesse pegar ele a puxou de volta e disse que para beber ele
teria que fazer por merecer, a banda já tinha se retirado do palco à
tempos, Enok novalmente xingando respondeu “Eu posso contar histórias
do meu mundo, serve?”, a platéia ja tinha toda se arrumado em volta do
palco quando o taverneiro disse que sim, Enok se dirigiu ao palco,
pegou um violão convenientemente deixado e olhou para todos,
pareciamos crianças diante de um presente, a ansiedade na sala era
imensa. Enok abriu a sua bolsa de modo que ninguém pudesse ver o que
lá tinha, tirou um papel pequeno retangular, colocou denovo na bolsa e
tocou o violão.
Não há como descrever a habilidade dele, então eu vou usar eufemismos
pobres, entenda que o que eu descrevo não chega aos pés da realidade,
a música de Enok atinge a alma das pessoas, a gente perde a noção do
tempo e do espaço, ninguém com o que já tenha conversado faz idéia do
que seria aquilo, alguns magos a contragosto afirmaram que aquilo não
era magia mas sim pura habilidade, diversos bardos que ousaram vir a
desafiá-lo desistiram assim que ouviram os primeiros acordes de suas
canções, talvez a única maneira de compará-lo seria com o desaparecido
bardo Darpheus, um vilão que escravizou todo um reino com o poder de
sua magia de sugestão, alguns que já viram os dois tocarem descrevem
sensações semelhantes mas a ausência de magia pôe todas as teorias
malucas por terra. E como sempre, a música é só o acompanhamento para
a história.
A história de hoje é sobre um guerreiro poderoso, o nome dele a muito
foi esquecido, ele fazia parte de um grupo de heróis conhecidos em
todo o mundo, os vilões temiam ter que encontrar aquele grupo,
milhares de pessoas foram salvas por eles, mas a melhor história ficou
para o final, o grupo decidiu enfrentar os próprios deuses e libertar
uma deusa de um castigo imposto por seus irmãos, para isso o grupo
precisou entrar no maior e mais perigoso labirinto conhecido, um
labirinto construído pelos próprios deuses para julgar as pessoas, foi
uma tarefa árdua, os aventureiros foram caindo um a um, quase próximos
de completar a tarefa restou apenas o Guerreiro, preso num labirinto-
plano que mudava de forma constantemente, triste pela morte de seus
amigos ele caiu em uma tristeza incomparável, sua mente estava quase
totalmente perdida quando ele viu uma figura se aproximar, uma figura
baixa e verde, usava um máscara estranha com tubos que iam para dentro
de uma mochila na sua costa, essa parou na sua frente como se pensasse
sobre o que fazer, o guerreiro então sentiu um calor no peito, algo o
queimava, ele então puxou de seu pescoço um cordão, e nele uma pedra
vermelha brilhava, a Ordem o chamava, aos poucos a sua mente foi
voltando, primeiramente ele lembrou onde ele estava, por fim lembrou
quem era, o guerreiro ergueu-se, para surpresa da figura verde a sua
frente, e com um gesto recusou o que seu amigo goblin oferecia, ele
podia sentir o efeito do ar daquele local, como estava querendo voltar
a afetar seus sentidos, assim como tivera feito anteriormente e aos
seus amigos, o globin então explicou que as proteções do labirindo
enfraqueceram muito, aparentemente alguns dos deuses estão perdendo
poder, o Trapaceiro era um deles por isso que ele pôde teleportar
diretamente para esse plano, o Guerreiro então olhou ao seu redor e
avistou o mundo em que estava entrando em colapso, rapidamente
agradeceu seu amigo que disse não ter feito nada “Fez sim amigo, me
lembrou que nunca estamos sozinhos, agora volte a Arton, que eu
pretendo voltar para lá em breve”, numa explosão elétrica o goblin
desapareceu a tempo de ver o Guerreiro avançando em direção ao um
templo grande nas fronteiras da cidade em que estavam, o guerreiro
saltava entre os prédios, havia recuperado uma energia a muito
perdida, ele parou assim que encontrou o que procurava, avistou ao
longe um grupo de pessoas fugindo por um portal na cidade,
aparentemente três humanos estavam organizando a saída de todos
daquele plano em colapso, por uma mera quantia é lógico, o Guerreiro
então se preparou, assim que percebeu que a bolsa com as moedas tinha
sido trocada o Guerreiro pulou com fúria e brandiu um pedaço de
madeira que tinha pego de um dos telhados, sem surpresa ele notou ter
atingido algo, e esse mesmo algo ter voado alguns metros com o
impacto, antes que alguém pudesse notar o que tinha acontecido o
Guerreiro já estava por cima desse criatura invisível, ele então disse
“Guardião do portal eu presumo, passei no teste do labirinto.” assim
que disse essas palavras um portal se abriu no lado do Guerreiro que
entrou logo após de jogar a figura invisível longe.
O Guerreiro apareceu em uma sala branca, o choro de uma pessoa podia
ser ouvido, ele olhou pros lados e viu um homem maltrapilho no chão,
aparentemente ele sentia uma enorme dor, o Guerreiro entrou num
segundo portal e deixou aquele deus para trás.
O próximo labirinto estava pior que o anterior, uma floresta em
chamas, o cheiro de morte no ar, pessoas mortas por todo lugar, o
Guerreiro avançou em direção a uma luz verde distante, ao lá chegar
ele viu uma linda elfa deitada num mármore azul, sua beleza era
majestosa, seu corpo emitia uma luz verde acolhedora e ao mesmo tempo
poderosa, perto da deusa havia um portal já aberto, centenas de elfos
mortos estavam ao redor do mármore, o guerreiro se aproximou, foi
quando notou uma criança entre os corpos, a criança tinha um olhar
assustador, como se milhares de furacões estivessem concentrados
naquele minúsculo ponto, o guerreiro de aproximou da falecida deusa e
disse, “O que eu preciso fazer para trazê-la de volta?” a criança
respondeu e sua voz desintegrou os corpos que os rodeavam “O que você
pode fazer que eu não possa? EU JÁ TENTEI DE TUDO!!”, o guerreiro
respondeu, “eu sou filho de Valkíria, eu não tento, eu faço”, a fúria
da criança pareceu diminuir, de repente o brilho verde da deusa morta
desapareceu, agora ele estava rodeando a criança, sem aviso aquela
energia entrou no Guerreiro e ele sentiu a vida de milhões de elfos
pelo seu corpo, ele podia ouvir a vida deles, como nasceram, como
viveram, quem amaram, quem foram e o que odiaram, como sofreram e como
morreram, o Guerreiro então levantou-se pois o choque o havia levado
ao chão, com um gesto acariciou a cabeça da criança que parecia
enormemente cansada e mandou ir pra casa e se proteger, pois a ajuda
estará a caminho, ainda um pouco atordoado o guerreiro entrou no
portal.
A sala branca estava vazia, o Guerreiro sentiu uma tristeza em seu
coração, fez uma última conferida nos itens que carregava, mascou umas
ervas medicinais, fechou os olhos e entrou no próximo portal.
De olhos fechados o Guerreiro permaneceu, sentia o veneno entrando em
seu corpo, as ervas ofereciam uma proteção temporária, sentia suas
pernas sendo roçadas por incontáveis cobras, aos mordidas eram
constantes, mas como alguém andando em um terreno lamacento ele
continuou andando na escuridão, diversas vezes vozes conhecidas o
chamaram, ele as ignorou, pessoas o tocaram, algumas pediam ajuda,
outras ofereciam conforto, ela as ignorou, foi quando ele notou a
presença dela, com rapidez sobrehumana ele correu naquela direção, as
cobras já não conseguiam o prender e mal conseguiam arranhar sua pele,
as vozes que ele ouvia claramente antes como sendo de conhecidos agora
tinham um sibilar proeminente, o veneno no ar que já estava o
incomodando passou a ser desapercebido, o guerreiro sentia criaturas
se aproximando e com gestos rápidos e poderosos ele as cortou sem nem
diminuir sua velocidade, cada vez mais ele se aproximava daquela
presença e cada vez mais ele se sentia melhor, já tinha cuspido as
ervas faz tempo, abriu seus olhos e viu um mundo de ilusões ao seu
redor, persistiu em seu caminho até que parou em um ponto onde não
haviam serpentes, só um chão negro como a noite, ele havia achado a
presença dela. Com um sorriso ele olhou pro mundo ao sei redor e disse
a si mesmo “Noite, sou seu fã.” aparentemente a Noite havia feito um
pedido interessante a Ordem a que pertence o Guerreiro, na qualidade
de pessoa oprimida ela pediu auxílio ao Guerreiro, e com sua
interferência fez com que o tempo naquele plano passasse diferente do
mundo real, acelerando-o, resultado, um campeão do povo, que no caso é
o nosso Guerreiro da história, ao receber uma missão fica mais forte a
cada dia que a missão não é cumprida, não se sabe quanto o tempo foi
alterado naquele labirinto mas o guerreiro olhou o mundo ao redor e
gritou “EU E VOCÊ, AGORA” o plano todo tremou como resposta, as cobras
fugiram, a própria névoa venenosa se dissipou, uma figura distante
tremia de horror enquanto outras centenas fugiam de perto dela,
caminhando em sua direção o guerreiro via as ilusões quebrando ao seu
redor, antes mesmo de chegar o portal para o próximo plano já estava
aberto, bastou encarar a naga sacerdote para ele força-la a abrir o
portal verdadeiro, após esbofetear a naga longe, ele entrou no portal.
Na sala branca ele encontrou uma figura encapuzada e um portal aberto,
assim que ele entrou o sorriso da Traição sumiu, ele perguntou
surpreso “Qual a misssssão que ela lhe deu? DIGASSSS!!!”, o guerreiro
apontou o braço com o punho fechado pra criatura e levantou o dedo
médio para cima antes de entrar no portal.
Último labirinto, Ambição, assim que entrou o Guerreiro sentiu um
calor no seu peito, tudo naquele lugar parecia atraí-lo, ele podia ver
castelos dominados por dragões, labirintos, diversas entradas de
calabouços, um paraíso para um aventureiro, o Guerreiro sentou-se e
pediu a presença da deusa, estranhamente ela apareceu em sua frente,
embora o Guerreiro pareceu não se surpreender, ele pegou um suas
coisas uma garrafa de vinho que havia pego no labirinto da Vida e lhe
ofereceu, a deusa aceitou e sentou-se ao seu lado, eles conversaram
sobre a viagem e sobre tudo o que tem acontecido, trocaram boa
gargalhadas por um tempo, era como se os dois fossem amigos de muito
tempo, quando a garrafa de vinho acabou, eles se olharam e a deusa
perguntou se ele realmente ia fazer o que ela estava pensando, ele se
ergueu, e com um reverência disse que sim, os olhos da deusa pareciam
brilhar como mil estrelas, o tipo de olhar que só se vê nos olhos
daqueles atingidos pelo verdadeiro amor, ela se levantou, e com um
sorriso disse “Sinto muito por você desistir do labirinto”, o
Guerreiro respondeu “Pois é, muito difícil, sabe como é”, contendo as
gargalhadas ela responde “Verdade, é ambição demais pra qualquer um,
assim que você quiser é só avisar que eu abro o portal pra você sair”,
o Guerreiro então andou em direção a um pequeno ponto no chão próximo
deles, cravou sua espada feita do cristal criador de planos e disse
“Em um segundo minha deusa”.
De repente, um turbilhão de energias se formou ao redor do guerreiro,
a espada estava sugando a energia dos planos do labirinto, os mais
fracos completamente, os mais forte só um pouco, assim que terminou,
ele estava com uma nova arma, uma fina espada longa de cor roxa, a
energia daquela espada não é possível ser mensurada, mas possivelmente
a simples menção de atacar algo com ela já faria o alvo ser destruído,
o guerreiro observou sua nova arma e disse “Bonita, mas um tanto
chamativa” e como por um passe de mágica a espada desapareceu um uma
adaga curta e simples “Hum! melhorou, minha deusa, o portal por favor,
pra última área de tormenta por gentileza”, o portal já estava aberto
antes dele terminar de dizer isso, o plano ao redor agora parecia bem
menor e os desafios assustadoramente mais fracos, antes de entrar o
guerreiro disse “Eu tratei de deixar energia suficiente pra você se
proteger do que vai acontecer, não precisava me dar tanto”, “Eu não
consegui evitar, sabe como é, aumentar a dificuldade” foi o que ela
respondeu, com uma gargalhada os dois se despedem e o guerreiro entra
no portal.
O guerreiro sai numa área horrenda cercado de criaturas insectóides,
com um gesto ele aplaca qualquer reação hostil dessas criaturas, no
seu lado aparece uma figura humanóide completamente armada empunhando
um poderoso martelo, um velho amigo, logo atrás um golem gigantesco
serve de local de pouso para alguns dragões, a sua frente a uma
considerável distância ele vê o maior exército que já vira na vida, e
pensa consigo, vai ser lendário.
Segundos se passam antes de alguem reagir, alguém da platéia pergunta
“e daí, o que aconteceu?”, o velho Enok só responde, eu já falei
demais, já vou indo, os protestos foram enormes mas o velho Enok é
irredutível, apanhou seu trago e saiu da taverna, eu pude ver as
lágrimas de emoção da minha companheira que me abraçava fortemente,
procuramos abrigo para nossos corações no meu quarto onde ficamos até
de manhã.
Após deixá-la partir, eu voltei aos meus afazeres, mais um dia de
limpar o chão, arrumar as mesas e limpar o sangue, “hum, essa mancha
não vai sair mesmo?”, pela tarde pensei em procurei a clériga, ela me
disse se chamar… deixei o prato cair no chão, ouvi o taverneiro falar
alguma coisa, mas minha mente estava em outra coisa, o nome dela
Hilerenoir, é elfico! ela estava com alguma ilusão, por isso cobria a
cabeça quando saiu hoje de manhã! ainda não tinha tempo pra repetir a
magia, meu deus!! uma élfa aqui! se o regente souber ela vai morrer,
corro pela vila a sua procura, só consigo saber que ela já tinha
saído, quando perguntei para onde me respondem que ela vai pro
reinado, e que o grupo iria ver o regente!
Não, não posso deixá-la assim, o que raios ela está pensando em fazer,
todo mundo sabe que o regente odeia elfos por algum motivo, ninguém
sobreviveu pra ouvir a resposta do porquê, embora as cidades e vilas
costumam aceitar tranquilamente a presença de elfos, afinal todos
achamos o preconceito do regente completamente desmotivado e
insensato, mas ele não perdoa e caça qualquer boato que exista elfos
em seu reino, droga, porque ela vai vê-lo, eu não posso deixar, eu não
vou deixar… mas como eu faço pra ir pro reinado? Como se ouvisse as
minhas preçes, eu escuto duas pessoas falando na rua, “Ei, ouvi que o
velho Enok foi convidado a contar histórias pro próprio regente!”,
“Quer dizer que vamos ficar sem ele? sacanagem, pô mas parabéns pro
Enok, haha”.
Eu corro procurando o velho Enok, pouco depois o encontro fugindo dos
guardas gritando que ele já tomou banho a dois dias atrás, os guardas
gritam de volta dizendo que só querem falar com ele e que é ordem do
regente, o velho Enok só responde com profanidades e continua a fugir,
observando-os consegui arrumar local para interceptar o velho Enok,
quando consigo emparelhar com ele eu peço por ajuda, explico que
preciso de carona pra ir pro reinado salvar uma amiga, o velho me
olhou e por um piscar de olhos eu me senti frágil, tanto que tropecei
e caí, assim que levanto envergonhado e depois de limpar a sujeira da
minha cara, vejo o velho Enok de pé na minha frente erguendo a mão
dizendo “Então vamos”.
Eu arrumando minhas coisas pra viagem, taí uma coisa que não passava
pela minha cabeça desde quando o circo Delene passou por essas bandas,
assim como naquela época, hoje eu ainda não sei o que levar, pego umas
três mudas de roupa, ponho na sacola e me dou por satisfeito,
estranhamente me perguntava se essas roupas iriam dar uma boa
impressão à clériga.
Quando sai da estalagem pude ver a pequena comoção de cidadãos indo
saldar e se despedir do velho Enok, até a banda da cidade se
apresentou, Enok entretanto estava irascível, aparentemente tinha sido
obrigado a tomar banho e vestir roupas novas, mesmo assim a multidão
ria e curtia como nunca.
Assim que nos afastamos da cidade eu tive mais consciência do que
estava fazendo, resumidamente eu estava andando com um velho gente
fina porém doido de pedra, acompanhados de três guardas reais indo em
direção à capital pra salvar uma elfa da morte certa... “é, deve ter
um jeito melhor de fazer isso”.
Os primeiros dias foram tranquilos, poucos monstros cercam nossa vila,
poucos ainda se arriscam a se aproximar das estradas, as caravanas
costumam sair com escolta de nossa vila, e as escoltas costumam ser de
aventureiros, ou seja, o tipo de pessoa que defende a caravana,
rastreia o atacante até seu lar e destrói tudo que respira por lá.
Na segunda semana tivemos alguns encontros com trolls e bugbears,
felizmente os três guardas reais provaram que nossos impostos vem sido
bem aproveitados, os três moviam-se espantadoramente, era como se cada
um fosse o equivalente a cinco ou seis soldados, Kurt era o lanceiro,
ele se responsabilizava por todo um flanco da batalha, seus golpes
eram rápidos, mal se podia acompanhar seus movimentos, contra os
bugbears ele mesmo enfrentou seis, sendo que os monstros toda vez que
tentavam cercá-lo eram rechacados a espetadas e caíram um a um. Josh
era tudo o que pode de se esperar de um guarda real, típico arma e
escudo, ele avança sem hesitação contra os oponentes, com o escudo em
um braço e um martelo na mão ele empurrou trolls com o dobro de seu
tamanho, seus movimentos faziam como se ele tivesse o controle
completo da batalha, eu podia vê-lo forçando os oponentes, seja para
se moverem, seja para atacarem ou recuarem, era como um dançarino
levando seus parceiros à morte. James era o terceiro, um guerreiro dos
deuses, contra os bugbears ele se conteve em curar seus companheiros,
mas contra os trolls ele mostrou uma ferocidade igual aos seus
colegas, sua espada explodiu em uma lâmina flamejante, colunas de fogo
e luz surgiram do céu sob os pés dos pobres trolls, o cheiro de carne
queimada e incenso logo ficou predominante, por um instante eu me vi
perguntando, porque três guerreiros tão capazes foram pra nossa vila
buscar o Enok, não bastaria contratar uma caravana? O caminho que
pegamos também não me era conhecido mas, pelo que pude perceber,
estávamos viajando praticamente em linha reta, saindo das estradas
principais optando pelo caminho mais curto do que o mais longo e
seguro, seja como for, a velocidade me agradava, quanto à segurança,
ficou bem provado que nem eu nem o velho Enok sofreríamos nada se
continuássemos dentro da carruagem, quem sabe talvez nessa velocidade
a gente alcançasse a clériga.
Nas noites o velho Enok nos encantava com suas histórias, logicamente
depois de muita insistência minha, os três guardas logo ficaram fãs
dos contos, o que me obrigou a resumir as estórias anteriores para
nossos novos companheiros tendo em vista que Enok recusava-se a
repetir seus contos. Pode ter sido pura impressão minha mas eu poderia
jurar que ao contrário do que acontecia comigo e até com os guardas
reais, que, embora tivéssemos com provisões suficientes acabamos por
demonstrar feições de cansaço e de dor por noites dormidas ao relento,
quanto mais o tempo passava, melhor parecia o velho Enok, minha
habilidade de compreender as pessoas me deixou confuso, talvez pela
quantidade de tempo passados juntos, eu passei a ver as diversas
reclamações do velho Enok, reclamações sobre o calor, sobre a carroça
tremer demais, sobre as costas dele estarem doendo, como sendo
exageros, como se ele tivesse falando apenas pra chamar atenção, coisa
que eu atribuo à solidão.
Na noite após uma difícil batalha, Enok continuou a história da
taverna, enquanto James aplicava seus poderes de cura, Enok abriu sua
bolsa e tirou novamente um papel pequeno e retangular, o fitou por
alguns segundos, dessa vez eu consegui ver que o tal papel possui
algum desenho, infelizmente não consegui distinguir nada mais antes
que Enok o guardasse novamente em sua bolsa. Com uma voz que nos
acalentou, Enok continuou.
Era como se todo um reino se juntasse contra um inimigo, soldados de
todo o mundo haviam se reunido, mesmo ao longe o Guerreiro pode
observar algumas lendas vivas, nomes que por si só já fariam um
exército recuar, e junto deles ainda haviam dragões, cinquenta no
mínimo, ele havia estudado o povo de Galrin a muito tempo atrás, nunca
pensara que os veria novamente e prontos para lutar, na linha de
frente milhares de mortos-vivos e golens, com intuito óbvio de
enfraquecer nossa linha de frente, os arcanos e divinos estavam em sua
maioria mais atrás, de longe ele pode ver uma revoada de grifos juntos
com o seu mestre arcano, talvez buscando uma revanche? arqueiros de
todas as raças fechavam os flancos, foi quando o Guerreiro estranhou o
porque deles não terem atacado, afinal com certeza já estavam dentro
do alcance e não havia muita lógica de adiar o ataque, foi quando
surgiu dos céus, em um cavalo alado branco coberto por armadura
completa, em cima estava o deus, com sua lendária espada e em sua
armadura azul, diversos efeitos mágicos atingiram as tropas, eles
tinham recebido sua benção, o Guerreiro só abaixou a cabeça e numa
breve oração ouvida por poucos disse “obrigado”, em seu lado esquerdo
estava aquele senhor de cabelos grisalhos cujo olhar demonstra firmeza
e experiência infinitas, um ser tão bélico que é apenas conhecido como
Arsenal, segurando seu elmo com uma das mãos enquanto na outra
descansava seu enorme martelo de batalha, atrás dele estava o maior
golem já construído, um colosso de duzentos metros feito e alimentado
pelo poder de incontáveis armas magicas que seu mestre adquiriu em
vida, dentro desse colosso estava o bem a ser protegido o lorde da
tormenta, um ser demoníaco cuja aura de maldade é quase tangível, seus
milhares de servos e generais dragões são o que resta da ultima área
de tormenta do mundo, ele luta porque não tem opção, preso por Arsenal
ele virou uma marionete do lich, deixando sua vida e seu exército nas
mãos de arsenal, até que o ritual esteja pronto, o exército em si é um
amontoado inimaginável de aberrações, seres grotescos, monstros
gigantes, exames de insetos devoradores de carne, centenas de demônios
colossais que além de poderosos ainda exalam uma névoa mortal, dragões
da tormenta, mestres de magias proibidas, sua aura de horror e de
profanidade macha o próprio ar onde eles voam, a própria presença
deles ofende tudo que é vivo. De repente, de seu lado direito abre um
portal, dele sai a guerra encarnada, o chão quebra onde ele pisa, sua
armadura vermelha brilha e no reflexo das placas de metal se pode ver
incontáveis cenas de guerra, sua espada fere só de olhar e a terra
tremeu de dor quando ele a apoiou no solo.
Assim que a Guerra chegou todos se impressionaram, mas a reação mais
estranha foi do guerreiro e de Arsenal, o guerreiro o segurou pelo
ombro e Arsenal logo ficou na sua frente, ambos falaram juntos como se
tivessem combinado “Aquele ali é meu!!” enquanto apontavam pro deus
montado em seu cavalo alado, nunca se viu uma discussão tão calorosa e
ao mesmo tempo tão educada, cada argumento tinha uma resposta, cada
interjeição tinha um motivo, naqueles minutos os três provaram que uma
guerra não e só vencida pela luta armada, o conhecimento sobre o
inimigo e a diplomacia são essenciais, naquele momento ficou claro
para os que ouviram o porque do deus da justica ter preferido uma
batalha militar ao invés de uma alternativa diplomática e com menos
mortes, ele não teria a mínima chance.
Quem deu o primeiro passo à frente foi Arsenal, com as duas mãos ele
colocou seu elmo, um ato tão simples para muito, mas naquele dia
significou o início da batalha, flechas cruzaram o ar, barreiras de
lava foram erguidas em resposta, o céu explodia em conjurações,
demônios e elementais surgiram de portais, milhares de criaturas da
tormenta avançaram, algumas escondidas até então sob a terra, o som da
música dos bardos se confundia com o grito de centenas de bárbaros,
dragões abatiam os mais dispersos enquanto o colosso da tormenta
pisoteava dezenas de criaturas, o ácido, veneno e podridão dividia
terreno com o celestial, o sagrado e o divino, neste cenário ele
conjurou um dos seus maiores troféus, uma espada bastarda com cabo
dourado de design simples, só o rubi cravejado no meio da lâmina é que
a diferencia das demais, lentamente e em meio a destruição ao seu
redor, Arsenal voou em direção à Justiça, o choque inicial das duas
lâminas dividiu a batalha em duas tamanha a ferocidade de seus
portadores, magias divinas era canceladas com magias clericais, grifos
rasgavam a pele de dragões, em terra o Guerreiro e a Guerra
organizavam o exército, mesmo sem falar uma palavra que as criaturas
entendessem, os berros e ordens dos dois forçavam a uma obediência
quase mágica.
O tempo foi passando e pouco a pouco as proteções mágicas foram
esvaindo-se, consequentemente as mortes foram sendo mais frequentes, o
chão do local ficou preenchido com o sangue de uma centena de heróis,
dentre os conflitos, a luta da Justiça com Arsenal se destacava, em
pleno vôo os dois se enfrentavam em um misto de ataque e defesa, a
Justiça por diversas vezes invocou um poder de destruição superior,
mas as habilidades da espada de Arsenal equilibrava a disputa, magias
foram conjuradas de ambos os lados, como as magias de um clérigo
afetaram um deus é que não se podia explicar, cada lutador aplicava
uma sequência de golpes visando a total destruição do adversário, com
cuidado poderia se observar que a luta estava mais favorável à
Justiça, enquanto Arsenal focava em se defender, foi quando um enorme
grito vindo do céu chamou a atenção de todos, um grito de horror
tremendo, o sinal que a verdadeira batalha tinha começado.
O primeiro a reagir foi Arsenal, ele desceu ao chão perto de onde a
Guerra e o
Guerreiro estavam, “Está na hora” Arsenal disse, “Eu cuido dele”
respondeu a Guerra, um portal se abriu e o clérigo da guerra o
atravessou, antes do portal se fechar se pode diferenciar três sons, o
primeiro som de centenas de milhares de goblinóides em fúria, o
segundo de uma arma sendo cravada no chão, e o terceiro foi um desafio
tão horrível que não ouso repetir aqui. De volta à batalha, a Guerra
troca algumas palavras como Guerreiro e depois caminha em direção à
Justiça, que no momento estava celebrando a retirada de Arsenal do
combate como uma vitória.
A guerra não avisou seu ataque, embora todos estivéssemos olhando, não
tínhamos como prever o que estava acontecendo, mesmo quem viu não
consegue descrever, é como se o deus tivesse se transformando em uma
fúria de metal viva, um incontável número de armas surgiam e revolviam-
se, o som de metal rangendo era assombroso, máquinas infernais de
guerra apareciam e sumiam meio ao turbilhão, a Justiça respondeu como
atacando o centro da estrutura viva, de longe podia-se ouvir o som de
milhares de pessoas gritando ordens de combate, o som de fogo,
explosões e de máquinas provocava terror nos mais fracos, pouco depois
o cavalo alado surgiu em queda livre, caindo inerte a alguns metros da
batalha, em terra as tropas estavam enfraquecendo-se, tudo se resumia
a conflitos menores, ouviu-se um segundo estrondo no céu, era a hora
do plano B.
A única maneira de descrever o som era como se o céu fosse uma pessoa
e ela estivesse sendo rasgada ao meio, lentamente, logo os deuses
pararam de brigar, podia-se ver que ambos estavam enfraquecidos, mas
só a Justiça parecia surpresa, a Guerra se afastou e chegou ao solo
próximo ao Guerreiro, as palavras do deus foram “Você tem menos de
três minutos, vou reunir os outros, vejo você em outra vida”. O
Guerreiro avançou.
Sua espada era de um poder nunca visto, cada golpe mudava o ambiente
ao redor, montanhas era criadas, vale inteiros apareciam do nada,
florestas surgiam, era como se deus tivesse tirado férias e deixado um
louco qualquer moldar seu mundo, após alguns golpes, o Guerreiro parou
olhou pra lâmina com uma cara de admiração e preocupação, depois,
encarou a Justiça, que ainda estava surpresa com seu enfraquecimento e
ainda mais com o que acabava de presenciar, foi então que uma montanha
o atingiu, por quilômetros a Justiça foi arrastada até conseguir sair,
mal tinha se recuperado quando uma geleira o enterrou no chão que em
segundos já se transformava em um pântano. Numa explosão de poder a
Justiça desintegrou centenhas de metros ao seu redor, seus olhos
ardiam em fúria mas a visão de um filete de sangue em sua testa foi o
que fez o Guerreiro rir, logo vulcões explodiram ao redor da Justiça
que respondia com golpes de espada que partiam o mundo, do exército
não se podia mais saber, todo o cenário de batalha tinha desaparecido,
ao longe só se podia ver ao longe o gigantesco colosso do Arsenal
rodeado de energias mágicas.
A tormenta havia se dissipado, mas o sol não estava mais presente no
céu, a noite também não mais existia, o plano estava em andamento, a
vida no mundo estava sumindo, sendo guardada em algo que o Lich
preparou, a Justiça foi aos poucos notando o fato, de que estava
ficando só, a batalha parou por um instante, ao redor dos dois
apareceram os outros deuses, os poucos que sobreviveram, assim o
Guerreiro pôde ver o estado de todos, os que ainda estavam fortes
Guerra, Natureza, Vida, Paz, Trevas, Caos, Oceano, os que estavam
enfraquecidos Sol, Magia, Dragão, Força, Justiça, Traição, Morte,
Mostro, Profecia, os que morreram Trapaça, Conhecimento, os que não
estão presentes, Ambição, Elfa. Aos poucos, cada um foi se
transformando em cristal, e depois desaparecendo, um surto de
desespero surgiu no Guerreiro, a Justiça não estava cedendo à magia e
avançou em fúria, ela atravessava as montanhas e planaltos que surgiam
para separar os dois, o Guerreiro passou a se defender e fugir do
combate, os segundos pareciam horas, num golpe de sorte o Guerreiro
conseguiu mover todo o reinado até botar a capital debaixo dos seus
pés, de lá ele pôde ver a estátua, tal esforço o distraiu, e a Justiça
feriu suas costas, um bolsão de magma explodiu entre os dois jogando o
Guerreiro aos pés da gigantesca estátua da Ambição, respirando com
dificuldade o Guerreiro crava sua espada enquanto vê a Justiça se
aproximando brandindo sua arma em um último golpe, a estátua explode,
o mundo se quebra, dois cristais desaparecem, a Justiça crava sua
espada no corpo do Guerreiro, e depois desaparece na forma de um
cristal, do mundo só se vê destruição, terremoto, magma e enxofre, o
Guerreiro sente dor, ainda vive, mas por pouco tempo, seu sangue se
evapora, sua carne queima, a dor não é mais suportável, mas ele não
está sofrendo, ele descansa.
Mas algo está errado, ele não entende ao certo, mas algo lhe diz que
ainda não acabou, com esforço ele puxa sua espada, e olha para ela
como se estivesse procurando alguma coisa, de repente encontra, e ri,
então o mundo explode.
E enfim terminou.
Surpreso eu pergunto “Como assim? acabou a estória?”, “Não” ele
responde, “Terminou nossa viagem, chegamos à capital” e apontou para a
cidade, onde se podia ver o castelo do regente, nesse instante a minha
preocupação sobre a cleriga voltou, e enquanto desmontavamos o
acampamento não consegui deixar de pensar em me comparar com o
Guerreiro, que por algum motivo lutava contra a própria Justiça, assim
como eu estou tentando ir contra as leis do regente, só me faltava a
coragem, força e a espada poderosa... “Mas fora isso, somos iguais!”
eu gargalhei depois de perceber ter falado essa última parte em voz
alta, com o coração apertado, entramos na cidade.