Omdulo ir at 5 de junho. O professor pretende aproximar a reflexo e a crtica de Nietzsche sobre a moral ocidental com o comportamento do protagonista do filme, que abandona a sociedade e se isola no Alasca.
O curta-metragem "Meu amigo Nietzsche" estreia na TV Brasil nesta sexta (23), s 23h45. O filme dirigido por Fusto da Silva fez sucesso em vrios festivais de cinema no Brasil e no exterior ao oferecer uma abordagem crtica sobre a educao no pas.
A trama mostra o improvvel encontro entre o menino Lucas e o filsofo alemo Friedrich Nietzsche. A magia da leitura provoca uma violenta revoluo na mente do jovem, em sua famlia e na sociedade. Ao final, ele no ser mais um garoto: ser uma dinamite.
"Meu Amigo Nietzsche" traz um enredo curioso para discutir o analfabetismo funcional que prejudica a educao brasileira. A produo nacional acompanha o desenvolvimento do menino Lucas que encontra no lixo um exemplar do livro "Assim Falou Zaratustra" de Nietzsche e comea a ler a obra.
Considerado um pssimo aluno, Lucas muda a partir da leitura do clssico: o estudante passa a dominar conceitos, a falar bonito e a expor raciocnios impressionantes. Entretanto, o garoto no consegue admirao, pois os novos hbitos preocupam a me e professora.
Elas tentam descobrir o mal que aflige o menino. Na viso da me, esse comportamento coisa do demnio e apenas a igreja poder salv-lo enquanto a professora v na desenvoltura de Lucas a possibilidade de surgir uma liderana negativa na escola.
A trama do curta se passa na Cidada Estrutural, periferia do Distrito Federal, e prope uma reflexo sobre a desigualdade social sob a perspectiva da educao. A abordagem sobre o tema repleta de humor e fluncia narrativa.
A pelcula acumulou vrios prmios da stima arte no pas, durante o Festival Internacional de Cinema Infantil, o Festival de Braslia, o Festival Curta Braslia, o Curta SE e o Festival de Cinema com Farinha do Cear.
A produo dirigida por Fusto da Silva tambm faturou conquistas em importantes eventos internacionais de cinema. O filme foi premiado em festivais da Frana, Espanha, Alemanha, Sua, Argentina, Chile e Colmbia.
Este artigo visa apontar algumas relaes que podem ser estabelecidas entre o filme A Chegada, de 2016, e o mito do eterno retorno proposto pelo filsofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Assim Falou Zaratustra (2011), publicado em 1883. Partindo de consideraes sobre o tempo, como a do fsico Carlo Rovelli (2018), alm de determinadas questes trazidas pelo prprio filsofo e pelos estudiosos de suas obras, como Scartett Marton (2016), buscou-se analisar de que maneira algumas situaes vividas pela personagem Dra. Louise Banks poderiam ser observadas por meio da tica da profecia nietszchiana, e quais os possveis caminhos para tal feito. Com relao anlise do tempo, na obra cinematogrfica em questo, foram utilizados autores como Jlio Cabrera (2006), que analisa as interseces entre a filosofia e o cinema, e Benedito Nunes (1995), que teoriza algumas metodologias especficas de anlise de tempo nos filmes.
O objetivo deste artigo discutir o ensino de literatura no Brasil a partir da anlise do curta-metragem Meu amigo Nietzsche (2012)MEU AMIGO NIETZSCHE. Direo: Fuston Silva. 2012. Disponvel em: =FroyMvgYfm0. Acesso em jun. 2019.
=FroyMvgY... , que representa, a nosso ver, um discurso de resistncia no cenrio de crise democrtica em que vivemos. O filme apresenta a histria de Lucas, um menino da periferia de Braslia que encontra dificuldades de leitura na vida escolar e, advertido pela professora, tenta melhorar suas prticas por iniciativa prpria. Ao se deparar com um exemplar de Assim falou Zaratustra (NIETZSCHE, [1883] 2011NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ningum. Trad. Mrio Ferreira dos Santos. 6 ed. Petrpolis: Vozes, (1883) 2011.), Lucas parece desenvolver prticas de letramento crtico a partir de um processo de descoberta dos sentidos das palavras, que evoluiu para uma reflexo filosfica sobre o mundo a seu redor. Assim, a partir da anlise de algumas cenas do curta-metragem, tencionamos refletir sobre a literatura e seu ensino, assim como sobre a recepo da leitura crtica em um mundo conformado.
This article aims to discuss literature teaching in Brazil with the analysis of the short film Meu amigo Nietzsche (2012)MEU AMIGO NIETZSCHE. Direo: Fuston Silva. 2012. Disponvel em: =FroyMvgYfm0. Acesso em jun. 2019.
=FroyMvgY... . In our perspective, this film presents a discourse of resistance in the scenario of democratic crisis we are living. The film presents the story of Lucas, a boy from the periphery of Brasilia who has reading difficulties and, advised by the teacher, tries to improve his practices on his own. When he finds a copy of Assim falou Zaratustra (NIETZSCHE, [1883] 2011NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ningum. Trad. Mrio Ferreira dos Santos. 6 ed. Petrpolis: Vozes, (1883) 2011.), Lucas seems to develop critical literacy practices in a process of discovering the meanings of words that evolved into a philosophical reflection on the world around him. Thus, from the analysis of a few scenes of the short film, we intend to reflect on literature and its teaching, as well as on the reception of critical reading in a conformed world.
Em 2012, Fuston da Silva lanou um curta-metragem dirigido por ele, intitulado Meu amigo Nietzsche. Nessa produo, contada a histria de Lucas, um menino brasileiro que, por apresentar um desempenho escolar aqum do esperado para os padres estabelecidos social e academicamente, tem a ateno chamada pela professora, que afirma que ele repetir de ano caso no "melhore" suas prticas de leitura. Contextualizado na periferia de Braslia, o curta evoca possibilidades de reflexo sobre o analfabetismo funcional1 1 De acordo com o Instituto Paulo Montenegro (ao social do IBOPE - Instituto Brasileiro de Opinio Pblica e Estatstica), "[] considerada analfabeta funcional a pessoa que, mesmo sabendo ler e escrever algo simples, no tem as competncias necessrias para satisfazer as demandas do seu dia a dia e viabilizar o seu desenvolvimento pessoal e profissional". Disponvel em: Acesso em: jun. 2019. ao mesmo tempo em que nos faz ponderar sobre os perigos da leitura crtica em um mundo conformado com a superficialidade da interpretao de textos, sem desconsiderarmos os tempos de (des)governo que orientam, por meio do Ministrio da Educao, os processos de ensino e aprendizagem no Brasil.
No curta, no se sabe ao certo em que ano escolar Lucas estaria, mas podemos supor que o protagonista esteja entre o sexto e o nono ano do Ensino Fundamental. Considerando esse contexto e a temtica deste artigo, cabe, ento, apontar o que os Parmetros Curriculares Nacionais (PCN) preveem em relao ao ensino de leitura e de literatura, j que esse documento orienta a educao bsica no Brasil e, portanto, estabelece os critrios de que se serve a professora para apontar o fracasso do aluno. Nesse sentido, no que se refere leitura, os PCN apontam que ela deve ser um processo ativo de construo de sentidos e no apenas de extrao de informaes ou decodificao. Assim, o que parece ser esperado pela professora
a leitura fluente [que] envolve uma srie de outras estratgias como seleo, antecipao, inferncia e verificao [...]. o uso desses procedimentos que permite controlar o que vai sendo lido, tomar decises diante de dificuldades de compreenso, arriscar-se diante do desconhecido, buscar no texto a comprovao das suposies feitas, etc. (BRASIL, 1997BRASIL. Secretaria de Educao Fundamental. Parmetros curriculares nacionais: lngua portuguesa. Braslia: MEC/SEF, 1997., p. 41).
J quanto ao tpico de ensino da literatura ou da leitura literria, o documento aponta que esperado que haja um "reconhecimento das singularidades e das propriedades compositivas que matizam um tipo particular de escrita" (BRASIL, 1997BRASIL. Secretaria de Educao Fundamental. Parmetros curriculares nacionais: lngua portuguesa. Braslia: MEC/SEF, 1997., p. 30). Dessa forma,
possvel afastar uma srie de equvocos que costumam estar presentes na escola em relao aos textos literrios, ou seja, trat-los como expedientes para servir ao ensino das boas maneiras, dos hbitos de higiene, dos deveres do cidado, dos tpicos gramaticais, das receitas desgastadas do "prazer do texto", etc. Postos de forma descontextualizada, tais procedimentos pouco ou nada contribuem para a formao de leitores capazes de reconhecer as sutilezas, as particularidades, os sentidos, a extenso e a profundidade das construes literrias (BRASIL, 1997BRASIL. Secretaria de Educao Fundamental. Parmetros curriculares nacionais: lngua portuguesa. Braslia: MEC/SEF, 1997., p. 30, grifo nosso).
Assim, essa ideia de literatura como algo que deve servir - criticada nos PCN - que questionamos no primeiro item deste artigo, para fazermos, no segundo, a anlise do curta, levantando alguns pontos sobre o ensino de literatura e a formao de leitores crticos na atualidade. Em seguida, na concluso, chegamos ao que compreendemos como uma emancipao do protagonista a partir dos subterfgios de que lana mo para ler Assim falou Zaratustra, de Nietzsche ([1883] 2011)NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ningum. Trad. Mrio Ferreira dos Santos. 6 ed. Petrpolis: Vozes, (1883) 2011.. Destarte, entre o ensino de literatura no Brasil e o evento de letramento crtico que nos mostra o curta que localizamos a discusso apresentada a seguir.
Dentre as diversas ponderaes a serem feitas a respeito da literatura na sala de aula quando discutimos seu ensino nas escolas, h um debate sobre faz-lo de forma a privilegiar a leitura literria (REZENDE, 2013REZENDE, Neide Luzia de. O ensino de literatura e a leitura literria. In: DALVI, Maria Amlia; REZENDE, Neide Luzia de; JOVER-FALEIROS, Rita (orgs.). Leitura de Literatura na escola. So Paulo: Parbola, 2013.), focando na experincia e na subjetividade (ROUXEL, 2018ROUXEL, Anne. Ousar ler a partir de si: desafios epistemolgicos, ticos e didticos da leitura subjetiva. Trad. Rosiane Xypas. Revista Brasileira de Literatura Comparada, n. 35, 2018, p. 18-25.) implicadas nesse processo, ou a sua sistematizao, mais voltada teoria, crtica e histria literria (DALVI, 2013DALVI, Maria Amlia. Literatura na escola: propostas didtico-metodolgicas. In: DALVI, Maria Amlia; REZENDE, Neide Luzia de; JOVER-FALEIROS, Rita (orgs.). Leitura de Literatura na escola. So Paulo: Parbola, 2013.). A esse respeito, acreditamos que o ensino de leitura e de literatura esto ligados a uma proposta pedaggica geral de ensino, em que no seria produtivo dissociar a leitura literria da sistematizao do ensino de literatura, visto que uma complementa a outra. Ademais, considerando o que Street (1984)STREET, Brian. Literacy in theory and practice. Cambridge: Cambridge University Press, 1984. prope acerca dos modelos ideolgico e autnomo de letramento2 2 O modelo ideolgico de letramento est voltado a formas de ensino e aprendizagem que contam com uma leitura crtica, contextualizada e aplicada sociedade. O modelo autnomo de letramento, por sua vez, foca na "autonomia" do aluno perante a aprendizagem de leitura e escrita, como se esse fosse um processo completo que depende apenas do sujeito para ser desenvolvido, independentemente de sua insero social e/ou cultural ou de suas condies materiais de acesso educao (alimentao, transporte, higiene, entre outros). , apesar de os j mencionados PCN e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) proporem um ensino que esteja mais voltado ao que entendemos por modelo ideolgico, o modelo autnomo que parece ainda ser (re)produzido nas prticas pedaggicas da educao bsica brasileira. Sua aplicao, como analisaremos no curta, acaba no s responsabilizando o aluno por seu "fracasso escolar"3 3 Entendemos o fracasso escolar como um juzo de valor antipedaggico, principalmente porque est atrelado, de acordo com nossa experincia, mais a uma busca por individualizar culpas do que responsabilizao das instituies e (des)construo do sistema de ensino. , mas tambm impedindo-o, em um primeiro momento, de se engajar em uma prtica de letramento crtico, como veremos adiante.
3a8082e126