A PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA
NOS VESTIBULARES DO RIO E NO ENEM
1. A MUDANÇA DE PARADIGMA DAS PROVAS DE LÍNGUA PORTUGUESA
Toda língua tem dois lados: forma e função. Estamos usando a palavra “forma” como um termo geral para abarcar as estruturas fonológica, prosódica, morfológica e sintática. Por outro lado, o termo “função” inclui todos os aspectos semânticos, pragmáticos, discursivos ou propriamente funcionais.
Até a década de 90 do século passado, o foco das provas residia, claramente, na forma linguística. E, na prática, isso significava quase exclusivamente uma abordagem taxonômica – ou seja, uma abordagem preocupada com a classificação das desinências, palavras (em classes ou de acordo com seu processo de formação), sintagmas (segundo a sua “função sintática”), orações (coordenadas, subordinadas ou absolutas) e períodos (simples ou compostos).
Na década de 90, contudo, é possível identificar o início de uma mudança de paradigma, que pode ser sintetizada da seguinte maneira: o foco das provas se desloca da forma para a função. Isso não significa que os aspectos formais tenham se tornado irrelevantes; significa, isso sim, que eles deixaram de ser o foco da questão (ou seja, aquilo que é direta e explicitamente perguntando) para se tornar pré-requisito (ou seja, uma informação necessária para que se possa analisar a questão e chegar à resposta).
Essa mudança reflete a seguinte mentalidade, que começou a ganhar força nos meios acadêmicos na década de 80 (mas que só se consolidou mesmo nos anos 2000): a escola não deve preparar o aluno para se tornar um especialista na sua língua materna; deve, isso sim, transformá-lo em um usuário competente dessa língua.
A diferença entre especialista e usuário é clara. Basta pensar, por exemplo, no conhecimento de informática. A grande maioria dos usuários de computador não entende de programação e não sabe nada sobre o funcionamento do hardware. E isso tampouco é necessário. Essas pessoas precisam saber usar o computador de maneira eficiente, mas não precisam entender profundamente como eles funcionam.
Com a língua, é a mesma coisa. Da esmagadora maioria dos cidadãos, deve-se esperar que saibam usá-la de forma eficiente. “Usar a língua de forma eficiente” significa se virar bem nas quatro habilidades linguísticas: ler e escrever (modalidade escrita), falar e escutar (modalidade oral). Para usar bem a língua, não é preciso compreender tecnicamente o seu mecanismo de funcionamento ou conhecer as nomenclaturas gramaticais (os melhores escritores e jornalistas não saberiam classificar as orações subordinadas de um parágrafo qualquer escrito por eles mesmos).
É nesse raciocínio que se baseia a mudança de paradigma das provas de língua portuguesa dos vestibulares. Hoje em dia, elas procuram avaliar se o aluno é um usuário competente da língua. Evidentemente, as habilidades orais (falar e escutar) não são avaliadas; restam, assim, as habilidades da modalidade escrita. E esse é precisamente o foco das provas atuais: a produção e a compreensão de textos escritos. Quer dizer, trata-se de avaliar a leitura e a escrita dos alunos.
E onde entra a gramática aí? Ou, melhor dizendo, a gramática ainda tem espaço nessas provas? Certamente, mas não em todas as questões. Ocorre que há duas maneiras de cobrar produção e compreensão de textos: com referência explícita a elementos gramaticais e sem referência explícita a elementos gramaticais. E aqui é preciso acrescentar um dado importante: as questões podem remeter não apenas a elementos gramaticais em sentido estrito, mas a elementos textuais de modo geral (figuras de linguagem; funções da linguagem; tipos textuais; gêneros textuais, discurso direto, indireto e indireto livre...).
Tudo isso posto, é possível encontrar basicamente quatro tipos de questão nas provas atuais: (i) questões de leitura sem referência explícita a elementos gramaticais/textuais; (ii) questões de leitura com referência explícita a elementos gramaticais/textuais; (iii) questões de produção sem referência explícita a elementos gramaticais/textuais; e (iv) questões de produção com referência explícita a elementos gramaticais/textuais.
Vale chamar a atenção para o caso (ii). Ele traduz um tipo de questão, muito frequente, no qual se pergunta sobre o papel de determinado elemento gramatical na construção dos sentidos do texto. Incluem-se nesse caso, questões que perguntem, por exemplo, “o efeito causado pelo uso do futuro do pretérito”, “a alteração provocada no texto pela mudança da 3ª pessoa para a 2ª pessoa”, “a razão pela qual o autor empregou muitos adjuntos adnominais”, etc.
Questões com esse perfil, bastante comuns nos vestibulares atuais, focalizam o efeito de sentido provocado pelos elementos gramaticais. Note que é o aspecto funcional que está em primeiro plano – afinal, a questão está perguntando sobre um efeito de sentido. Apesar disso, o aspecto formal não deixa de estar presente, ainda que em segundo plano; afinal, para acertar a questão, o aluno deve necessariamente saber reconhecer um adjunto adnominal.
Por outro lado, o que as provas não trazem mais são questões que perguntem diretamente sobre estrutura e taxonomia fonológica, morfológica ou sintática. Ou seja, perguntas como as seguintes não têm lugar nesse novo paradigma: qual a classe gramatical dessa palavra?; qual a classificação das orações do primeiro parágrafo?; qual a função sintática do termo sublinhado?; quantos fonemas tem a palavra “carro”?; etc.
Em suma, as provas atuais dos vestibulares do Rio de Janeiro e do Enem avaliam as duas competências de uso da língua na modalidade escrita: produção e compreensão. Isso pode ser feito com ou sem referência a elementos gramaticais. É exatamente por isso que se diz que a gramática não desapareceu (afinal, aspectos gramaticais podem ser – e de fato são – mencionados em questões sobre o uso da língua), mas deixou de ser o foco (afinal, mesmo que aspectos gramaticais sejam mencionados, a pergunta diz respeito à leitura ou produção textual, e não à análise gramatical em si).
A esta altura, é preciso dizer que a imagem construída acima é, em alguma medida, uma idealização, e isso por dois motivos. Primeiro: nem todas as bancas passaram pela mudança de paradigma ao mesmo tempo. Por exemplo, na segunda metade da década de 90 do século passado, enquanto a prova da UFRJ já estava inteiramente adaptada à nova abordagem, as provas da Uerj e da UFF passavam por uma transição, mesclando questões “novas” e “antigas”. Segundo: mesmo hoje em dia, ainda é possível encontrar questões que refletem uma abordagem taxonômica baseada na forma. Por serem resíduos de uma época passada, trata-se de questões raríssimas, mas nada impede que continuem aparecendo aqui e ali, como resquícios de um paradigma superado.
Por fim, é preciso fazer uma ressalva para falar da prova de LPLB (Língua Portuguesa e Literatura Brasileira) da Uerj, que compõe a segunda fase do concurso exclusivamente para candidatos aos cursos de Letras e Direito (ver item 3 abaixo para conhecer a estrutura de cada concurso). Essa prova traz, em grande quantidade, questões focadas nos aspectos formais e com abordagem taxonômica. No que tange aos candidatos ao curso de Letras, é possível entender essa opção. Pode-se alegar que esses candidatos devem conhecer bem a língua na condição de especialistas, e não apenas na de usuários – já que é isso que se espera de linguistas, gramáticos e professores de português. Mais difícil, no entanto, é entender a extensão dessa exigência para que candidatos ao curso de Direito.
3. AS PECULIARIDADES DE CADA PROVA
3.1 Aspectos objetivos
3.1.1 Enem
Fase única, com dois dias de provas, totalizando 180 questões. No primeiro dia, 90 questões divididas pelas seguintes áreas do conhecimento: Ciências Humanas e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias. No segundo dia, mais 90 questões – das áreas Linguagens Códigos e suas Tecnologias e Matemática e suas Tecnologias – e ainda uma redação argumentativa.
Ao todo, são 45 questões de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, das quais 5 são de língua estrangeira (inglês ou espanhol).
A partir de 2012, o MEC planeja aplicar duas provas do Enem por ano, mas ainda não há certeza de o plano será efetivado.
3.1.2 Uerj
Ocorre em duas etapas. No Exame de Qualificação (que ocorre duas vezes por ano, ou seja, há duas chances para os candidatos conseguirem uma boa nota na 1ª etapa), o candidato obtém um conceito: A, B, C, D ou E. Os conceitos A a D classificam o candidato para a segunda fase (Exame Discursivo), ao passo que o conceito E o elimina.
O conceito A, que corresponde a um acerto de mais de 70% das questões do Exame de Qualificação, obtêm um bônus de 20 pontos para o Exame Discursivo. O conceito B, correspondente a um número de acertos maior do que 60% e igual a menor do que 70% das questões, dá direito a um bônus de 15 pontos. Com um conceito C, obtido com um número de acertos maior que 50% e igual ou menor do que 60%, o bônus é de 10 pontos. Aprovados com conceito 10 – número de acertos maior do que 40% e igual ou menor do que 50% - ganham 5 pontos de bônus.
Nos Exames de Qualificação, as provas são divididas por área do conhecimento, e não por disciplinas. Assim, há provas das seguintes áreas: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias; Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias; e Ciências Humanas e suas Tecnologias.
No Exame Discursivo, há dois tipos de prova ligados à disciplina Língua Portuguesa. Por um lado, todos os candidatos são obrigados a fazer a prova de Língua Portuguesa Instrumental com Redação (5 questões mais uma redação argumentativa). Por outro, apenas os candidatos aos cursos de Letras e Direito fazem a prova de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, ou LPLB (que tem 10 questões). Veja as diferenças entre essas duas provas no item 3.2.
3.1.3 Cederj
Fase única, aplicada em um só dia, incluindo questões objetivas e discursivas divididas segundo as disciplinas tradicionais (e não por áreas do conhecimento). No que tange a língua portuguesa, são 5 questões objetivas de LPLB para todos os candidatos e 5 questões discursivas de LPLB apenas para os candidatos ao curso de Pedagogia.
3.1.4 UFRJ
Fase única, aplicada em dois dias, apenas com questões discursivas, divididas segundo as disciplinas tradicionais (e não por áreas do conhecimento). No que tange a língua portuguesa, há apenas uma prova, obrigatória para todos os candidatos, com 10 questões de LPLB. A nota de LPLB tem o mesmo peso das notas das disciplinas mais diretamente vinculadas ao curso para o qual o candidato está tentando a vaga.
3.1.5 UFF
Prova em duas fases: primeira etapa com questões objetivas, segunda etapa com questões discursivas. A primeira etapa conta com 75 questões, sendo: 12 de LPLLP (Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa), 8 de Biologia, 8 de Física, 8 de Geografia, 8 de História, 8 de Matemática e 8 de Química.
São aprovados na primeira fase os candidatos que acertarem pelo menos 33 questões, excetuadas as de Língua Estrangeira (portanto, num total de 66), desde que não zerem nenhuma disciplina (inclusive Língua Estrangeira). Caso a eliminação dos candidatos resulte em uma relação candidato vaga menor que 3 para 1 na segunda fase, são convocados os candidatos seguintes por ordem de pontuação, mesmo que não tenham totalizado 33 pontos excetuando Língua Estrangeira. Por outro lado, a partir do momento em que se alcança uma relação candidato-vaga de 8 para 1, os candidatos seguintes são eliminados, mesmo que tenham feito 33 pontos ou mais excetuando-se Língua Estrangeira.
O detalhe peculiar dessa prova é que as questões não são distribuídas por disciplinas, mas por eixos temáticos. Assim, dentro de cada eixo temático, há questões de diferentes disciplinas. Dessa forma, a sequência das questões não obedece ao agrupamento por disciplina. Por outro lado, cada disciplina é identificada por uma cor (rosa para LPLLP, vermelho para História, cinza para Química, etc). Dessa maneira, o candidato que preferir responder a prova por disciplina – e não por eixo temático – pode fazê-lo guiando-se pela identificação por cores.
Na segunda fase, cada candidato enfrenta duas provas específicas discursivas, cada um com cinco questões. A prova de LPLLP é específica para candidatos a carreiras como Comunicação Social, Letras, Direito, Administração, Serviço Social, Pedagogia, Ciências Contábeis, Educação Física e muitas outras.
É de se notar, aqui, a denominação LPLLP (Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa), uma mudança recente (o Vestibular 2011 foi o primeiro em que esse termo foi usado) e que abre espaço para que sejam explorados textos de autores não-brasileiros que escrevem em português (portugueses, angolanos, moçambicanos, etc.).
3.2 A abordagem de cada banca
De uma maneira geral, todas as provas seguem a tendência geral apresentada no início desta Parte 2: o foco na função (com a forma presente, porém em segundo plano) e a rejeição de uma abordagem taxonômica (ou seja, voltada unicamente para a classificação de desinências, palavras, sintagmas, orações, etc). A exceção aqui fica por conta da prova de LPLB da Uerj, que inclui diversas questões alinhadas ao modelo tradicional (pelas razões já expostas acima), ao lado de outras coerentes com o novo paradigma.
Apesar dessa tendência geral de convergência, é inegável que cada prova tem suas peculiaridades. São essas especificidades que nós iremos conhecer agora.
3.2.1 Enem
Visão geral
Ø Em todas as áreas do conhecimento – e não apenas no que se refere às questões de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias –, a prova do Enem é, em parte, uma avaliação de leitura, já que, em muitos casos, a resposta da questão pode ser encontrada no (ou inferida do) texto que a antecede. Vale ressaltar que a palavra “texto” aqui inclui não apenas textos verbais típicos como também gráficos, tabelas, diagramas, fotografias, quadros, etc.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Ø Tende a focalizar mais os elementos textuais / estilísticos (funções da linguagem, conotação, denotação, estratégias retórica / argumentativas, recursos expressivos / figuras de linguagem, tipos textuais, gêneros textuais, etc) do que propriamente os elementos gramaticais (pronome, verbo, desinência, subjuntivo, futuro do pretérito, predicado, etc.), embora estes últimos não estejam ausentes.
Ø Uma peculiaridade do Enem é o grande número de “questões de interpretação” que, em vez de indagar sobre o conteúdo explícito ou implícito de um determinado texto, perguntam sobre o seu objetivo ou função. Esse tipo de questão decorre de descobertas feitas no âmbito dos estudos sobre processamento de leitura. Tais estudos mostraram que leitores proficientes, além de entender o que um determinado texto está dizendo (seu conteúdo), também sabem inseri-lo no enquadre apropriado (é uma ameaça, uma crítica, um alerta, uma brincadeira ou piada, uma promessa, uma tentativa de convencimento/sedução, etc.). Saber identificar o enquadro correto para cada texto corresponde a conseguir depreender corretamente o objetivo do texto/do autor: ameaçar, criticar, alertar, prometer, ironizar, convencer/seduzir, etc. Perceba que questão tradicionais de “interpretação” abordam apenas o conteúdo dos textos (ou seja, quais as informações contidas nele e quais as informações inferíveis a partir dele), mas não o enquadre dentro do qual ele deve ser interpretados (ou seja, se as informações que correspondem ao conteúdo do texto devem ser entendidas como uma crítica, um alerta, uma promessa, um conselho...). E é precisamente esse enquadre que é diretamente contemplado em um bom número de questões do Enem. Nesse aspecto, o Enem segue a tendência das avaliações internacionais de proficiência de leitura, como o Pisa.
Ø Diferentemente dos vestibulares do Rio de Janeiro, a prova do Enem evoca explicitamente, e com frequência, o conceito de gêneros textuais. Na maioria das vezes, esse conceito aparece em questões que indagam sobre o objetivo ou a função de um determinado texto – conforme comentado no item anterior – mas, em outras ocasiões, os aspectos formais são focalizados. Nesse sentido, é também a prova que explora, em seus textos, uma maior variedade de gêneros textuais.
Ø O Enem também se destaca pela ênfase dada às questões sobre variação linguística. Embora esse assunto também apareça em outras provas, o Enem é o exame que dá mais destaque a ele.
Ø Outra característica bastante peculiar ao Enem é a abordagem, relativamente freqüente, do tema Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). A prova explora aspectos tais como: registro linguístico típico de espaços virtuais como chats ou redes sociais (uma questão desse tipo aborda, ao mesmo tempo, três eixos do Enem: TIC, variação linguística e gêneros textuais); impacto das TIC no uso linguístico (com a popularização, por exemplo, do hipertexto); impacto das TIC na sociedade de modo geral.
Ø Inclui questões sobre a história da literatura brasileira, evocando as diferenças entre as diversas escolas literárias. Muitas vezes, contudo, as questões não exigem conhecimento prévio das características de cada estilo de época – embora isso, é claro, facilite a sua resolução – já que se fundamentam na interpretação e análise do texto apresentado.
Ø É o único exame de acesso ao Ensino Superior a focalizar características de movimentos artísticos ligados às artes plásticas, como o impressionismo e o expressionismo.
Ø Tem a peculiaridade de explorar a diversidade cultural brasileira, incluindo ritmos, danças, manifestações folclóricas, culinária, vestimentas, etc.
Em resumo, os seguintes elementos formam um bom painel da abordagem do Enem: em parte, trata-se de uma avaliação de leitura que recorre inclusive a textos como gráficos, tabelas, diagramas, fotografias, quadros, etc; prioriza os aspectos textuais e estilísticos (funções da linguagem, figuras de linguagem e recursos expressivos. conotação e denotação, estratégias retóricas/argumentativas, gêneros textuais, tipos textuais, etc.), embora não deixe totalmente de lado os elementos gramaticais (pronome, subjuntivo, futuro do pretérito, conector, etc.); com frequência, as questões indagam não sobre o conteúdo de um determinado texto, mas sobre seu objetivo ou função; explora, de modo explícito, a noção de gêneros textuais; é a prova que mais enfatiza a questão da variação linguística; explora as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs); aborda aspectos da história da literatura brasileira; é a única prova a explorar características de movimentos artísticos ligados às artes plásticas; contempla, com a intenção de valorizar, a diversidade cultural brasileira.
Presumivelmente, o caráter de prova oficial do Enem, cuja realização é responsabilidade do Inep (um órgão do MEC), justifica características como a valorização da diversidade cultural brasileira e a ênfase na questão da variação linguística. Ao mesmo tempo, ajuda a entender sua nítida convergência com os documentos oficiais, como os PCNs. Exemplo dessa convergência é a ênfase sobre a questão dos gêneros textuais bem como a diversidade de gêneros contemplados.
A propósito, esse caráter oficial explica ainda algumas peculiaridades da prova de Redação, como as temáticas sempre ligadas a questões sociais ou socioambientais (e nunca mais filosóficas, por exemplo), a obrigação de se respeitar os direitos humanos incluída como critério de avaliação e a exigência de se apresentar uma proposta de solução para o problema discutido.
3.1.2 Uerj
Exame de Qualificação – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
É uma prova de português instrumental: a abordagem não é taxonômica e a metalinguagem gramatical nunca é cobrada do aluno, embora possa ser mencionada. Ou seja, as questões avaliam unicamente o uso da língua, e não o conhecimento gramatical específico. Também não cobra características dos estilos de época.
Ø Mais do que qualquer outra prova, explora de modo razoavelmente aprofundado a estrutura do texto argumentativo. Além de contemplar habilidades como identificação da tese e dos argumentos, o que também aparece em outras provas como a do Enem e a da UFRJ, aborda ainda aspectos como: tipos de argumentos (estratégias argumentativas), métodos de raciocínio (indução, dedução, dialética, analogia) e falhas na argumentação.
Ø Quase todas as provas contêm pelo menos uma questão explorando o valor semântico dos conectivos. A questão pode estar ligada à habilidade de leitura (caso peça para o candidato identificar o valor semântico) ou à habilidade de produção (caso peça para o candidato apontar qual o conectivo que melhor substitui o da sentença original, por exemplo).
Ø Embora menos recorrentemente, mas ainda assim com frequência significativa, explora as figuras de linguagem, vistas como recursos expressivos na composição de textos literários, publicitários, etc.
Ø Traz ainda, embora com frequência relativamente mais baixa, questões que exploram os efeitos de sentido de determinados elementos gramaticais ou ortográficos nos textos (por exemplo, o futuro do presente, as aspas, o modo subjuntivo, etc.).
Ø Apresenta com bastante frequência questões de coesão referencial, nas quais o candidato deve identificar o referente (em geral anafórico, mas às vezes catafórico) de um determinado elemento de coesão.
Ø Ultimamente, tem explorado os anguladores ou modalizadores: elementos linguísticos que sinalizam, no texto, a perspectiva ou ponto de vista do enunciador a respeito do conteúdo enunciado (por exemplo, “evidentemente”, “é evidente que”, “obviamente”, “é óbvio que”, “surpreendemente”, “felizmente”, etc.). Muitos desses elementos correspondem ao que a gramática tradicional chama de “advérbios de frase”.
Ø Em geral, cada prova traz um texto com elementos não-verbais ou mesmo inteiramente não-verbal (fotografia, quadro, anúncio publicitário, charge, tirinha, etc.).
Exame Discursivo – Língua Portuguesa Instrumental com Redação (LPIR)
Também é uma prova instrumental, ou seja, não cobra nem conhecimento gramatical específico (taxonomia, metalinguagem) nem história da literatura brasileira. Do ponto de vista dos conteúdos abordados, aproxima-se bastante da prova do Exame de Qualificação. Valem aqui as quatro primeiras observações feitas acima em relação à prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
Exame Discursivo – Língua Portuguesa e Literatura Brasileira
No Vestibular Uerj, é a única prova de Língua Portuguesa que não tem exclusivamente caráter instrumental. Exige o conhecimento de metalinguagem gramatical relativamente avançada (aposto, oração subordinada substantiva, derivação sufixal). Nesse sentido, traz questões com abordagem taxonômica, sobretudo de classificação morfológica (classes gramaticais) e sintática (período simples e período composto).
Por outro lado, assim como a prova do Exame de Qualificação e a de LPIR, traz também questões instrumentais, incluindo tanto questões “interpretação de texto pura” (sem referência a elementos gramaticais) quanto questões que exploram o efeito de sentido no texto de elementos gramaticais.
Por fim, é a única prova da Uerj que exige o conhecimento da história da literatura brasileira, de maneira que o candidato deve estar bastante familiarizado com as diferenças entre as escolas literárias.
Em suma, é a prova de perfil mais técnico, e por isso mesmo talvez mais apropriada, de fato, a quem pretende cursas Letras. É a única prova de Língua Portuguesa da Uerj que avalia o candidato não como usuário da língua, mas como especialista.
3.1.2 Cederj
Prova objetiva
Ø A marca mais evidente dessa prova é a ênfase dada ao estudo da tipologia textual, incluindo tanto as características gerais de cada modo de organização quanto duas suas marcas linguístico-gramaticais típicas.
Ø Aborda, com frequência, o efeito de sentido produzido por elementos gramaticais e ortográficos, em especial os tempos verbais e os sinais de pontuação (vírgula, aspas, parênteses, etc.).
Ø Outros temas com chances nada desprezíveis de serem cobrados, embora menos frequentes, são valor semântico dos conectivos, figuras de linguagem, variação linguística e tipos de discurso.
Ø Pode incluir (embora isso não ocorra em todas as edições do exame) questões tradicionais sobre a história da literatura brasileira, exigindo conhecimento das peculiaridades de cada estilo de época.
Prova discursiva
A prova discursiva tem perfil bastante semelhante ao da objetiva, com a diferença importante de que não contempla a história da literatura brasileira.
3.1.2 UFRJ
Ø A principal marca dessa prova é a grande ênfase dada às questões que exploram os efeitos de sentido, nos textos, de diferentes elementos gramaticais – sobretudo tempos verbais, modos verbais, diferentes classes de palavras (em especial, substantivos, adjetivos e verbos) e pessoas do discurso (1ª, 2ª e 3ª).
Ø Uma das peculiaridades dessa prova é uma tendência acima da média a explorar aspectos morfológicos, como o valor semântico dos afixos (prefixos e sufixos) e os processos de formação de palavras. Isso não significa que esses temas sejam extremamente frequentes; significa apenas que, na prova da UFRJ, a uma probabilidade de encontrá-los é mais alta do que nos demais concursos (nas quais a possibilidade é quase nula).
Ø Inclui questões tradicionais sobre a história da literatura brasileira, focalizando as características das diferentes escolas literárias. Modernismo e Romantismo são os estilos mais cobrados, seguidos de perto do Realismo e do Barroco.
Ø A prova é sempre composta por textos de diferentes gêneros que abordam um tema comum. Dessa forma, há sempre questões que exploram a comparação entre os diversos textos da prova no que diz respeito ao tratamento desse tema. Trata-se, portanto, de contemplar a intertextualidade.
3.1.2 UFF
Primeira etapa
Ø Uma das marcas mais evidentes dessa prova é o gosto por textos total ou parcialmente não-verbais, como fotografias, quadros, anúncios publicitários. Nenhuma outra prova de vestibular recorre tanto a textos dessa natureza.
Ø Outra marca dessa prova é também um fator que eleva sensivelmente seu grau de dificuldade. São frequentes, na 1ª etapa da UFF, questões com enunciado muito amplo, muito aberto, do tipo “A afirmativa que apresenta comentário pertinente a aspectos sintáticos, morfológicos e semânticos do texto é:” ou “Identifique o comentário adequado à situação de comunicação da charge” ou ainda “Assinale a afirmativa que não corresponde ao texto”. Enunciados desse tipo permitem alternativas muito diversas, de maneira que cada item pode dizer respeito a um trecho ou um aspecto absolutamente distinto do texto que serve de base para a questão. O vestibular da UFF é o único que traz questões com esse perfil, que aumenta consideravelmente o nível de dificuldade da prova por exigir que o candidato dê conta de diversos conteúdos, muitas vezes não relacionados, em uma mesma questão.
Ø Explora com muita frequência a intertextualidade, seja entre diferentes textos apresentados na prova seja entre um texto da prova e diversos fragmentos de outros textos, apresentados nas alternativas. Há uma grande preocupação em verificar se o candidato é capaz de perceber a relação entre dois textos – ou seja, perceber se um dado texto A confirma, refuta, exemplifica, amplia, etc, o conteúdo de um texto B. Explora-se inclusive a intertextualidade multimodal, com a aproximação, por exemplo, entre uma notícia de jornal e um quadro e uma foto.
Ø Aparecem, com frequência significativa, questões sobre coesão referencial (identificação de referentes anafóricos e catafóricos) e efeitos de sentido produzidos no texto por elementos gramaticais, dentre os quais se destacam tempos e modos verbais, conectores (valor semântico) e pessoas do discurso.
Ø Inclui questões sobre história da literatura brasileira e exige o conhecimento das escolas literárias.
Segunda etapa
São válidas aqui as mesmas
observações feitas em relação à prova da 1ª etapa. A única particularidade é que
o formato discursivo permite questões nas quais o candidato é solicitado a
escrever um pequeno texto, que será avaliado de acordo com o conteúdo
(articulação adequada de ideias e argumentos) e com a forma (vocabulário
apropriado e boa estruturação dos períodos).
2. ALGUNS EXEMPLOS
Nesta seção, veremos alguns exemplos dos tipos de questão que foram mencionados na seção anterior.
2.1 Modelo antigo: foco na forma e abordagem taxonômica
Como já ficou dito, a década de 90 é um período de transição. Por isso, ainda é possível encontrar, nas provas da Uerj e da UFF, questão focadas na forma e com abordagem taxonômica. Além disso, algumas raras questões alinhadas a esse modelo tradicional ainda podem ser encontradas em provas mais recentes, testemunhando uma espécie de sobrevivência residual desse modelo. Por fim, questões desse tipo são comuns – e compreensíveis no caso dos candidatos ao curso de Letras – na prova de LPLB, que compõe a segunda fase do Vestibular Uerj. Abaixo, há alguns exemplos.
UFF 1ª fase – 1996
Dentre as seguintes palavras extraídas do texto I, a que destoa das demais quanto ao processo de formação é:
(A) retorno (linha 97 )
(B) ataque (linha 7 )
(C) bombardeios (linha 67 )
(D) emprego (linha 82 )
(E) clarão (linha 31 )
UFF 1ª fase – 1996
Numa das alternativas abaixo, a função sin-tática do pronome relativo é a mesma que seu antecedente exerce na oração principal. Assinale-a:
(A) Depois disso entrou-se na era do vale-tudo, que desembocou nos aniquilamentos de Hiroshima e Nagasaki.
(B) Hiroshima desapareceu sob o clarão de uma explosão que provocou, quase instanta-neamente, a morte de cem mil pessoas.
(C) A bordo do navio Augusta, que retornava pa-ra os EUA, Truman autorizou o bombardeio.
(D) As bombas que os EUA jogaram sobre o Japão tinham como alvo a URSS.
(E) Como não houve qualquer ataque, muitos japoneses que estavam em terra imagi-naram tratar-se de uma provocação.
UFF 1ª fase – 1998
Assinale a opção em que o fragmento sublinhado não é um exemplo de locução verbal.
(A) “ faz-lhe crescer as asas” (linha 17)
(B) “certo sinal de haverem de durar pouco” (linhas 5 - 6)
(C) “que terem durado muito” (linha 6)
(D) “não há amor tão robusto que chegue a ser velho” (linhas 11- 12)
(E) “basta que sejam usadas” (linhas 20 - 21)
Uerj 1ª fase – 1997
"Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro – esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo..." (versos 13/17)
No trecho acima, o termo que apresenta o mesmo valor sintático da oração sublinhada é:
(A) na mão (B) guerreiro
(C) Waterloo (D) ante Deus
Uerj 1ª fase – 1997
A palavra extraída do texto II, cujo processo de formação está explicado corretamente, é:
(A) doutoral (linha 1) = é formada por parassíntese
(B) equivalem (linha 5) = é composta por justaposição
(C) homenzinho (linha 13) = tem sufixo de valor irônico
(D) hidráulica (linha 28) = tem prefixo de origem latina
Uerj 1ª fase – 1997
"por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos." (texto III - verso 30)
A palavra sublinhada tem papel interrogativo indireto (a expressão é sinônima de por qual motivo), não podendo ser analisada como pronome relativo.
O único dos trechos abaixo, porém, que contém exemplo de um que relativo é:
(A) "Bendito o que semeia livros" (texto I - versos 25/26)
(B) "é lógico, portanto, que vos fale do ensino" (texto II - linhas 1 e 2)
(C) "são bem maiores do que quaisquer outras" (texto III - versos 22/23)
(D) "Se bem que seja difícil compreender" (texto III - verso 29)
Uerj 1ª fase – 1998
“Melhor é que seja menina” (texto III – linha 22)
A palavra sublinhada introduz uma oração substantiva, não podendo ser analisada como pronome relativo. Um
dos trechos abaixo, porém, contém exemplo de um "que" relativo. Esse exemplo está indicado em:
(A) “dum cismar tão puro, que sorrias por noites de vigília” (texto I – versos 2 e 3)
(B) “Sempre que se agita esta questão das reivindicações femininas” (texto II – linha 1)
(C) “a única razão séria que podemos apresentar contra as pretensões” (texto II – linhas 5 e 6)
(D) “Até parece que já não sou capaz” (texto III – linha 15)
Uerj 1ª fase – 1998
“O mal de Isaías é ser ambíguo.” (texto III – linha 1)
O período acima contém uma oração subordinada substantiva, reduzida de infinitivo.
A oração sublinhada que também se classifica como subordinada substantiva reduzida é:
(A) “Ninguém chega a uma grande obra sem passar por obras pequenas.” (Machado de Assis)
(B) “Publica-se um livro como se correm os dados: para ver o que sai.” (Manuel Antônio de Almeida)
(C) “Para entender nós temos dois caminhos, o da sensibilidade e o da inteligência.” (Manoel de Barros)
(D) “O sujeito que não se considera um gênio não deve se dedicar a fazer literatura.” (Nelson Rodrigues)
Uerj 1ª fase – 2000
“As letras fizeram- se para frases” (linha 5)
A única alternativa em que a palavra “se” tem o mesmo valor morfossintático que no trecho acima é:
(A) “Seja como for, sempre se morre, muitas vezes um minuto depois de dizer: Vou ali e volto já.” (Millôr Fernandes)
(B) “Enquanto houver escrita e memória as coisas que se foram voltarão sempre.” (Affonso Romano de Sant’anna)
(C) “Certamente os leitores conhecem o texto da Constituição Federal em que se permite a livre manifestação do pensamento pela imprensa.” (Graça Aranha)
(D) “Uma das pragas nas r e laçõe s humanas é a cobrança que todos se sentem no direito de fazer sobre aqueles que preferem pensar com a própria cabeça.” (Carlos Heitor Cony)
UFRJ – 2008
O vocábulo ex-cineclubista resulta da aplicação de quatro processos de formação de palavras. Identifique-os, valendo-se de elementos constitutivos desse vocábulo.
UFRJ – 2011
Classifique, quanto à função sintática, os constituintes do último verso da primeira estrofe.
Uerj LPLB – 2009
Só o homem nas grandes cidades, o tigre nas florestas, o mocho nas ruínas, as estrelas no céu e o gênio na solidão do gabinete costumam velar nessas horas que a natureza consagra ao repouso. (l. 29-32)
Classifique sintaticamente a segunda oração do período acima. Em seguida, substitua essa oração por outra de sentido correspondente, sem conectivo, preservando sua estrutura inicial.
Uerj LPLB – 2008
Considere a seguinte passagem:
mesmo contrariando Ortega y Gasset, mesmo reconhecendo o interesse dum certo lado da obra de Murilo, o lado
mais realista, não o situo no plano dos outros três pintores. (l. 35-39)
Classifique as orações reduzidas quanto à circunstância adverbial que expressam. Em seguida, preservando esse sentido, reescreva as orações com tempo e modo adequados, coordenando-as por meio de uma conjunção aditiva.
Uerj LPLB – 2002
(B) Indique a classe gramatical e a função sintática de cada um desses pares de palavras na 2ª estrofe do poema
Uerj LPLB – 2007
Apreendemos o significado de muitas palavras graças a relações que podemos estabelecer entre elas e outras que já conhecemos, como acontece com porteira, derivada de porta. Existem em português diferentes recursos para derivar palavras, e as formas derivadas podem pertencer à mesma classe ou a uma classe diferente da forma primitiva. As palavras daninho e bocejo, presentes no texto III, são uma prova disso.
Explique como cada uma destas palavras foi criada morfologicamente a partir da respectiva forma primitiva.
2.2 Modelo atual: foco no uso da língua (aspectos funcionais)
2.2.1 Leitura sem referência a elementos gramaticais/textuais
Uerj 1ª fase – 1998
O eu-lírico no texto I se dirige a uma mulher com características específicas.
A alternativa em que se atribuem à mulher características semelhantes às definidas nesse texto é:
(A) “Pra distrair minhas mágoas / Namoro e toco vitrola.” (Murilo Mendes)
(B) “É um característico do século: a mulher está perdendo a superstição do homem.” (Machado de Assis)
(C) “Não creias, não, mulher: ele te engana! / As lágrimas são galas da mentira” (J. Manuel de Macedo)
(D) “Eu senti-a tremer, e a transluzir-lhe / nos olhos negros a alma inocentinha” (Álvares de Azevedo)
Uerj 1ª fase – 1998
O narrador do texto II expressa a seguinte opinião a respeito da mulher:
(A) Sua função consiste em proteger o lar e as tradições.
(B) Suas aspirações coincidem com as prerrogativas seculares do homem.
(C) Suas pretensões esbarram na resistência do homem a abrir mão do poder.
(D) Seu papel limita-se ao de mulher casta encarregada das coisas domésticas.
UFF 2ª Etapa – 2008
Na reportagem “A riqueza da língua” da revista VEJA de 12/9/07, o músico Tony Beloto também reflete sobre a questão do acordo ortográfico.
Qual a importância que Tony Belloto dá ao acordo ortográfico? Justifique sua resposta.
UFF 2ª Etapa – 2008
O narrador apresenta o Dr. Bacamarte como representante da ciência do século XIX, exemplificando uma atitude determinista predominante na estética literária da época.
Transcreva a passagem em que o narrador desconstrói a relação causa e conseqüência preconizada pelo Dr. Bacamarte.
UFRJ – 2011
No texto I, há uma desconstrução do que é habitualmente concebido como felicidade. Apresente, com suas palavras, em que consiste essa desconstrução.
UFRJ – 2011
Explique como se configura a experiência da perda nos poemas “João, o telegrafista”, de Cassiano Ricardo, e “Uma alegria para sempre”, de Mario Quintana.
Cederj – 2010.2
A figura da mulher pode ser representada na literatura, nas canções, na artes plásticas segundo uma visão estereotipada: é uma figura mítica, divinizada, maternal, senhora da casa. Dependendo, no entanto, do ponto de
vista de sua representação estética, ocorrem diferenças temáticas significativas na referência à mulher em diferentes contextos.
Assinale a passagem que exemplifica a figura da mulher em um contexto marginal:
(A) De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Chico Buarque
(B) Lata d’água na cabeça
Lá vai Maria
Lá vai Maria
Sobe o morro e não se cansa
Pela mão
Leva a criança
Lá vai Maria
Luís Antonio e J. Júnior
(C) De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava roupa, seca os olhos
Ah, como essa santa não se esquece
De pedir pelas mulheres, pelos filhos, pelo pão
Joyce e Ana Terra
(D) Artista, tua voz é a melodia
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Castro Alves
(E) Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
Lya Luft
Enem – 2010
Da comparação entre os textos, depreende-se que o texto II constitui um passo a passo para interferir no comportamento dos usuários, dirigindo-se diretamente aos leitores, e o texto I
(A) adverte os leitores de que a internet pode transformar-se em um problema porque expõe a vida dos usuários e, por isso, precisa ser investigada.
(B) ensina aos leitores os procedimentos necessários para que as pessoas conheçam, em profundidade, os principais meios de comunicação da atualidade.
(C) exemplifica e explica o novo serviço global de mensagens rápidas que desafia os hábitos de comunicação e reinventa o conceito de privacidade.
(D) procura esclarecer os leitores a respeito dos perigos que o uso do Twitter pode representar nas relações de trabalho e também no plano pessoal.
(E) apresenta uma enquete sobre as redes sociais mais usadas na atualidade e mostra que o Twitter é preferido entre a maioria dos internautas.
2.2.2 Leitura com referência a elementos gramaticais/textuais (efeitos de sentido)
UFRJ – 2011
No primeiro e no terceiro parágrafos, observa-se, em relação aos demais, uma mudança de pessoa discursiva no tratamento do conteúdo.
a) Explique o efeito dessa mudança no plano da enunciação (atividade linguística numa situação comunicativa dependente da co-atuação de locutor e interlocutor).
b) Indique, no plano do enunciado (expressão linguística resultante da cena da enunciação), dois tipos de elementos gramaticais que marcam essa mudança.
UFF 1ª etapa - 1997
"Onde quer que haja um brasileiro adulto, existe com ele o Brasil e, no entanto – tal como acontece com as divindades – será preciso produzir e provocar a sua manifestação para que se possa sentir sua concretude e seu poder." (linhas 36-41)
O uso dos travessões no trecho acima se justifica para destacar
(A)
reflexão complementar, à margem do que se afirma
(B) oração intercalada com verbo declarativo
(C) oração, indicando mudança de interlocutor
(D) final de um enunciado, enfaticamente
(E) termos ou expressões não usuais
Cederj – 2011.1
Identifique a opção em que a expressão do sujeito gramatical indica que o eu-lírico evoca a participação dos interlocutores:
(A) Voa tão leve / Mas tem a vida breve / Precisa que haja vento sem parar (v.5-7)
(B) Brilha tranquila / Depois de leve oscila / E cai como uma lágrima de amor (v. 19-21)
(C) Tudo de bom ela tem / E é por ela ser assim tão delicada / Que eu trato dela sempre muito bem (v. 27-29)
(D) Falem baixo, por favor / Pra que ela acorde alegre com o dia / Oferecendo beijos de amor (v. 36-38)
Cederj – 2010.2
Assinale a opção que explicita o procedimento narrativo para a progressão do tema do Texto 1:
(A) O poema apresenta, ao final de cada estrofe, uma síntese da possibilidade do amor.
(B) O eu-lírico constrói relações de concessão que enfatizam a situação antagônica da relação amorosa.
(C) O poema se organiza pelo predomínio do presente histórico na progressão textual.
(D) O eu-lírico se utiliza de fatos históricos como cenário para retratar a relação amorosa.
Cederj – 2010.2
Transcreva desse trecho dois pronomes possessivos que identificam, respectivamente, o homem do 1003 e o vizinho do
UFF 2ª etapa - 2010
Os Textos V e VI apresentam marcas linguístico-discursivas que caracterizam uma interlocução do narrador. Transcreva, de cada um dos textos, um fragmento que apresenta essas marcas de interlocução, identifique-as e justifique seu emprego.
Gabarito:
Nos dois textos, as marcas de interlocução são expressas pelo emprego do pronome como vocativo:
Texto III: O senhor… mire, veja: o emprego do pronome de tratamento como vocativo e o emprego de formas no imperativo identificando a interlocução entre as pessoas do discurso.
Texto IV: Ah, meu senhor, a vida é cheia de espanto.
Ocorre o emprego de formas no imperativo identificando a interlocução entre as pessoas do discurso:
No Texto III “… mire, veja”
No Texto IV “escute seu pressentimento”
No Texto IV: o emprego do pronome de terceira pessoa “Já lhe aconteceu” que equivale a “você”/ “a ti” e de
tratamento “digo e repito ao senhor” que são elementos discursivos de interlocução
UFRJ – 1998
No texto, o eu-lírico constrói progressivamente sua visão da realidade: nas estrofes 1, 2, 3, tenta decifrar o significado da imagem “levantados do chão”; nas estrofes 4, 5, 6, vai reforçando sua opinião crítica sobre a realidade.
Releia:
"Um rebanho nas nuvens? Mas como?" (verso 19)
"Um arado no espaço? Será?" (verso 22)
Nos versos acima, a conjunção adversativa "mas" e o futuro do presente do indicativo são utilizados para enfatizar esse posicionamento crítico.
Explique por quê.
UFRJ – 1999
No texto, é utilizada repetidamente a função sintática presente nos termos destacados acima.
a) Indique que função sintática é essa.
b) Explique qual a finalidade do emprego tão frequente dessa função sintática no texto.
UFRJ – 1999
No texto, observa-se uma nítida mudança de atitude do emissor: nos dois parágrafos iniciais, ele fala sobre São Cosme e São Damião; a partir do terceiro parágrafo, ele se dirige a São Cosme e São Damião.
No terceiro parágrafo, além do uso das aspas, identifique dois recursos gramaticais que expressam essa mudança de atitude do emissor.
Enem – 2010
O Flamengo começou a partida no ataque, enquanto o Botafogo procurava fazer uma forte marcação no meio campo e tentar lançamentos para Victor Simões, isolado entre os zagueiros rubro-negros. Mesmo com mais posse de bola, o time dirigido por Cuca tinha grande dificuldade para chegar à área alvinegra por causa do bloqueio montado pelo Botafogo na frente da sua área.
No entanto, na primeira chance rubro-negra, saiu o gol. Após cruzamento da direita de Ibson, a zaga alvinegra rebateu a bola de cabeça para o meio da área. Kléberson apareceu na jogada e cabeceou por cima do goleiro Renan. Ronaldo Angelim apareceu nas costas da defesa e empurrou para o fundo da rede quase que em cima da linha: Flamengo 1 a 0.
Disponível em: http://momentodofutebol.blogspot.com (adaptado).
O texto, que narra uma parte do jogo da final do Campeonato Carioca de futebol, realizado em 2009, contém vários
conectivos, sendo que:
(A) após é conectivo de causa, já que apresenta o motivo de a zaga alvinegra ter rebatido a bola de cabeça.
(B) enquanto tem um significado alternativo, porque conecta duas opções possíveis para serem aplicadas
no jogo.
(C) no entanto tem significado de tempo, porque ordena os fatos observados no jogo em ordem cronológica de ocorrência.
(D) mesmo traz ideia de concessão, já que “com mais posse de bola”, ter dificuldade não é algo naturalmente esperado.
(E) por causa de indica consequência, porque as tentativas de ataque do Flamengo motivaram o Botafogo a fazer um bloqueio.
Enem – 2010 (segunda aplicação)
As doze cores do vermelho
Você volta para casa depois de ter ido jantar com sua amiga dos olhos verdes. Verdes. Às vezes quando você
sai do escritório você quer se distrair um pouco. Você não suporta mais tem seu trabalho de desenhista. Cópias
plantas réguas milímetros nanquim compasso 360º. de cercado cerco. Antes de dormir você quer estudar
para a prova de história da arte mas sua menina menor tem febre e chama você. A mão dela na sua mão é um
peixe sem sol em irradiações noturnas. Quentes ondas. Seu marido se aproxima os pés calçados de meias nos chinelos folgados. Ele olha as horas nos dois relógios de pulso. Ele acusa você de ter ficado fora de casa o dia todo até tarde da noite enquanto a menina ardia em febre. Ponto e ponta. Dor perfume crescente...
CUNHA, H. P. As doze cores do vermelho. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2009.
A literatura brasileira contemporânea tem abordado, sob diferentes perspectivas, questões relacionadas ao universo feminino. No fragmento, entre os recursos expressivos utilizados na construção da narrativa, destaca-se a
(A) repetição de “você”, que se refere ao interlocutor da personagem.
(B) ausência de vírgulas, que marca o discurso irritado da personagem.
(C) descrição minuciosa do espaço do trabalho, que se opõe ao da casa.
(D) autoironia, que ameniza o sentimento de opressão da personagem.
(E) ausência de metáforas, que é responsável pela objetividade do texto.
Uerj Exame de Qualificação – 2011
tudo levaria a crer que essa questão está sendo resolvida. Será? (l. 35)
O emprego da forma verbal “levaria” e a forma interrogativa que se segue – “Será?” – sugerem um procedimento argumentativo, empregado no texto.
Esse procedimento está explicitado em:
(A) a exposição de um problema que será detalhado
(B) a incerteza diante de fatos que serão comprovados
(C) a divergência em relação a uma ideia que será contestada
(D) o questionamento sobre um tema que se mostrará limitado
Uerj Exame de Qualificação – 2011
“Estão vendo?”, diria às amigas, se estivessem por perto.
O trecho acima revela o choque entre o mundo imaginário da personagem e a realidade de sua solidão.
Esse choque entre imaginação e realidade é enfatizado pela utilização do seguinte recurso de linguagem:
(A) o uso das aspas duplas
(B) o emprego dos modos verbais
(C) a presença da forma interrogativa
(D) a referência à proximidade espacial
Uerj Exame de Qualificação – 2011
Ele ressaltou que as “metamorfoses” no cenário do trabalho não são “indolores” para os que trabalham e provocam erros frequentes, retrabalho, danificação de máquinas e queda de produtividade. (l. 14-15)
No fragmento acima, a exemplo de outras passagens no texto, o emprego das aspas pelo autor tem a função de:
(A) dar destaque a termos pouco conhecidos
(B) assinalar distanciamento de sentido irônico
(C) retomar uma ideia enunciada anteriormente
(D) identificar citação de palavras do entrevistado
Uerj LPLB – 2009
Identifique o foco narrativo do texto de Guimarães Rosa. Em seguida, indique três recursos linguísticos empregados pelo narrador, nos fragmentos acima, para aproximar-se do universo infantil.
UFF 2ª etapa – 2010
A articulista, Flávia Oliveira, apresenta um tópico explicativo para relacionar as transformações socioeconômicas
com as referências construídas nos versos da canção Bye,Bye,Brasil: Puseram uma usina no mar/Talvez fique ruim pra pescar/Meu amor (Texto II, versos 10-12).
Aponte uma (1) característica linguístico-discursiva que diferencie estes dois gêneros textuais de que se vale a articulista: tópico explicativo e canção.
Gabarito:
A matéria publicada em O Globo se vale de dois gêneros textuais diferentes: o tópico explicativo e a canção Bye Bye, Brasil. O tópico explicativo se constrói com características da narração, destacando a transformação socioeconômica em um texto informativo, com base em dados, cifras e datas; já a canção se limita a citar um fato e sua consequência utilizando-se de recursos poéticos como versos, rima e ritmo.
UFRJ – 2003
Identifique e explicite, no Texto III, 2 (dois) usos linguísticos que caracterizem a evolução cronológica ocorrida da primeira para a última estrofe do poema.
UFRJ – 2006
Um pronome, para assumir valor indeterminado, não deve estar associado apenas a um interlocutor específico, mas também a outros interlocutores, depreensíveis do contexto.
UFRJ – 2006
Considerando a afirmativa acima, explique o valor indeterminado da forma você no texto II e justifique seu emprego para a construção do sentido do texto.
A conjunção adversativa mas, utilizada no penúltimo verso do texto II, além de implicar contraste, desempenha papel argumentativo específico.
Explique esse papel.
UFRJ – 2007
Verifica-se, no poema, a alternância entre a 2a e a 3ª pessoas do discurso.
Explique essa alternância na construção do poema.
Uerj – LPLB – 2007
O emprego das palavras com finalidade artístico-expressiva envolve recursos variados, dois dos quais estão exemplificados nas formas sublinhadas nas seguintes passagens dos textos II e III, respectivamente:
entre olhagens que me folham. (l. 15)
subindo ladeira custosa, fluque-fluque, (l. 21 - 22)
Nomeie o recurso lingüístico empregado em cada passagem e descreva o valor estilístico de cada um.
2.2.3 Produção sem referência a elementos gramaticais/textuais
UFF 2ª etapa - 2010
A canção Bye Bye Brasil (Texto II) apresenta, em relação à construção linguística, uma série de exemplos de registro familiar. Transcreva dois (2) exemplos e reescreva-os em registro padrão.
PUC-RIO - 2011
Reescreva a frase abaixo, substituindo a palavra sublinhada por outra de valor equivalente.
Nenhum juízo estético pode ter pretensão legítima ao assentimento de todos
PUC-RIO - 2011
Um internauta escreveu o comentário informal abaixo. Reescreva-o fazendo as correções necessárias para adequá-lo às regras da norma culta escrita.
Não gosto muito de poesia, mais aqueles poemas do Manuel Bandeira que eu falei ontem, mudou a minha vida.
UFRJ - 2008
“Porque constitui uma arte fazê-lo bem no interior de recintos cobertos, mormente quando se dispõe da vantagem de ambiente escuro propício.”
Substitua o vocábulo em destaque – pouco usual na língua falada – por outro que preserve o sentido do termo e a estrutura da frase.
UFRJ – 2002
b) Identifique a idéia expressa pelo termo sublinhado e o substitua por outro, de tal forma que o resultado dessa substituição não altere o sentido do fragmento original.
Cederj 2010.
Reescreva o trecho acima, modificando a pontuação depois de “Prometo” sem alterar, essencialmente, o seu significado.
2.2.4 Produção com referência a elementos gramaticais/textuais
Uerj Exame de Qualificação – 2011
A pergunta da personagem Mafalda, no segundo quadrinho, inicia-se com a palavra “então”, que estabelece uma relação de sentido com a situação anterior.
Identifique a relação de sentido estabelecida e reescreva a pergunta, substituindo o vocábulo “então” por outro conectivo.
Uerj Exame de Qualificação – 2011
Eles não podem ser pensados independentemente uns dos outros, porque todos são portadores da mesma humanidade. (l. 14-15)
Identifique a relação de sentido que a oração sublinhada estabelece com a parte do período que a antecede. Reescreva todo o período, substituindo o conectivo e mantendo essa mesma relação de sentido.
PUC-RIO - 2011
Em relação às frases abaixo, faça o que se pede:
a) Um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela.
Transforme o adjunto adverbial em oração adverbial.
b) Tosquiou-lhe os longos cabelos.
Reescreva sem utilizar o pronome lhe, mantendo a ideia original.
c) Ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas.
Reescreva de forma modalizada, iniciando a frase com Talvez ela…
d) Homem nenhum se interessava por ela.
Reescreva, mantendo a ideia original, mas iniciando a frase com Ela não...
UFRJ – 2002
a) Reescreva em discurso direto o trecho em que um dos personagens faz a defesa da cultura mestiça, identificando esse personagem.
UFRJ – 2002
a) Qual o efeito pretendido pelo narrador ao utilizar, ironicamente, o termo sabidórios?
b) Que outro termo, derivado do mesmo radical de sabidório, poderia ser utilizado, sem prejuízo do efeito pretendido pelo narrador?
Uerj LPLB – 2006
Transcreva a forma de futuro do subjuntivo empregada entre os versos 12 e 23 do texto I e indique outra forma do mesmo verbo apta a substituí-la sem provocar alteração relevante de sentido no poema.
Uerj LPLB – 2006
Reescreva o segundo trecho de modo que a expressão o interesse e a incerteza desempenhe a função de sujeito composto.
Uerj LPLB – 2007
– Realmente as rosas de suas faces viçavam; era cintilante o brilho que desferia a sua pupila negra. (l. 25)
No trecho acima há um período constituído de três orações. Os termos essenciais da segunda e terceira orações estão colocados na ordem inversa.
Transcreva separadamente estas duas orações. Em seguida, forme com elas um novo período composto, de modo que o sujeito de cada uma seja colocado antes do respectivo predicado.
Cederj 2009.2
Reescreva a expressão cujas idéias substituindo o pronome cujas pelo substantivo antecedente.