Mensagem- Pe. José Nuno

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Jan 3, 2012, 10:04:52 AM1/3/12
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Olá.
 
Dou-me conta que não partilhei convosco a minha meditação de Natal. Faço-o agora e aproveito para informar que defenderei tese de doutoramento a 26 de Janeiro às 15.30h, no pólo da Foz da Universidade Católica.
 
Um abraço e um 2012 pleno da Bênção.
 
Pe. Nuno
 
Cá vai
 

Caríssimos Amigos
Este lugar é o mundo às avessas. L’Arche/A Arca, Trosly Breuil, 100km a norte de Paris, mesmo na borda da Floresta de Compiègne. Aqui me trouxe o itinerário do tempo sabático que cumpro. Escrevo ainda a viver o inverso do Natal como sempre o conheci. É longo o escrito, mas de mais breve não fui capaz e é muito mais o que guardo.

Cheguei há uma semana. Deixei o Mosteiro de Bose, onde permaneci dois meses, percorri o deslumbramento da estrada do Vale de Aosta e adivinhei o mais alto Pico da Europa, o Mont Blanc, escondido na névoa, entre nuvens e neve.

Detive-me num dos mais altos cumes culturais (não digo “e espirituais”, porque sempre me custou – e cada vez mais – admitir a possibilidade de uma cultura não espiritual, que a explicitação pressuporia) do nosso velho continente – Cluny, lição muda de história, entre memórias de grandeza e de ruína; mais adiante, reencontrei a oração que, há uns dez anos, deixara suspensa na Igreja da Reconciliação, num Taizé quase deserto nestes dias frios de Dezembro e mais pequeno do que as memórias que guardava.

Agora, em Trosly, reencontro e aprofundo a experiência do inverso do espírito do tempo. L’Arche/A Arca foi criada no ano em que nasci – 1964 por Jean Vanier, um dos últimos gigantes que a Igreja do séc. XX legou ao séc. XXI e ainda está vivo, a olhar ternamente o mundo e a perscrutar as profundezas do mistério do homem e os modos de lhe dizer Deus, com o seu olhar azul, do alto dos seus mais de dois metros, que os anos nevaram. L’Arche acolhe deficientes mentais e jovens assistentes que vivem em Casas (Foyer) de dimensão e ambiente familiar, partilhando a vida uns com os outros. Nas palavras de Jean Vanier, que ouvi durante o retiro que orientou entre quarta e Domingo, a finalidade de L’Arche não é receber deficientes mentais e resolver a dificílima questão do que fazer com eles. L’Arche tem como finalidade ser um Lugar de Paz. E é! Em menos de cinquenta anos, esta profecia em acto estendeu-se já aos cinco continentes e há Comunidades L’Arche de vários Credos.

Aqui, não vigora a mentalidade a que, nas suas obras mais recentes e no seu discurso, Jean Vanier recorrentemente chama “a tirania da normalidade”. De facto, são escandalosamente “anormais” as pessoas que aqui se encontram e vivem um quotidiano espantoso de encontro em reciprocidade no acolhimento e na dádiva: não são normais, basta olhar para eles, os deficientes mentais; e também não são normais os assistentes, a maioria jovens na casa dos vinte, que se comprometeram por um ano, alguns mais velhos que vieram, também para um ano, há cinco, ou dez, ou quinze… e ficaram. Um grupo, dezena e meia, constituíram, no coração de L’Arche, um centro de espiritualidade – La Ferme, assente no acolhimento de quem chega, também para formação e acompanhamento dos assistentes desta Comunidade como de outras, polarizado na adoração eucarística, num belíssimo e recolhido oratório muito bem conseguido da adaptação de um antigo estábulo – adequadíssimo ao espírito da Liturgia do Natal.

O retiro de Natal foi orientado por Jean Vanier; tema: O Verbo fez-Se carne. Uma hora por dia de meditação com o grupo – éramos sessenta, vindos de vários países, de todas as idades, com todo o tipo de formação. Muito mais gente vem às meditações – das várias Casas da Comunidade, da paróquia, das povoações vizinhas. Percebi que queiram aproveitar. Jean Vanier não prega, não fala para nós; medita connosco! Cada vez, ele começa e acaba o fio das palavras como se as inscrevesse mansamente no desenho leve de uma sabedoria que vem de sempre e permanecerá sempre. Compreende-se que a sua familiaridade é com Jesus manso e humilde de coração, constantemente evocado, no mistério da sua Encarnação, a Criança, o Despojado, o Pobre, o Recusado, o Humilhado, o Crucificado… e a Ressurreição. Algumas palavras consegui captar tal e qual: Todos somos humanos, logo todos somos frágeis – e insistia muito em medos, em vergonhas e em sedes de poder e de sucesso e de reconhecimento e… e acrescentava: Deus respeita-nos profundamente e vem ao nosso encontro a oferecer a sua ternura às nossas feridas interiores, porque todos somos seres profundamente feridos – dizia e repetia para que não ficassem dúvidas; e pedia: continuai a caminhar para revelar a outros que são mais belos do que o que nem se atrevem a acreditar, para os ajudar a encontrar confiança em si mesmos, a saber quem são, para os ajudar a recolocarem-se no caminho de Deus.

Jean Vanier tem umas mãos muito grandes e muito lentas e serenas na expressão da convicção íntima que mora nele e que se sente que ele ama profundamente: o Verbo fez-Se Carne. E fala da carne – com a autoridade única de quem gastou uma vida de já oitenta e três anos a oferecer a ternura e o respeito do seu próprio corpo ao corpo do outro que, deficiente mental, só a linguagem da carne percebe – fala da carne que nós somos, mortais incapazes de olhar a morte e, por isso, incapazes de viver senão “um bocado de vida” – diz, citando Etty Hillesum, a jovem judia gazeada em Auschwitz. Em momentos mais intensos da meditação, as suas mãos grandes desenham encontros tranquilos e sempre cordiais no silêncio de quem ouve.

Às vezes traz a Bíblia e lê; mas mesmo que não traga, a Palavra dança sempre entre as suas palavras… melhor, as suas palavras bailam entregues aos braços abertos da Palavra. O seu rosto, inclinado para o chão, olha para dentro de si e narra Deus na história como a vê, uma história feita de rostos dos muitos sujeitos das vidas que conta, rostos des – nas suas palavras, trans – figurados pela deficiência mental, rostos assustados e desnorteados pela deficiência do outro, quando o outro é um próximo, um muito próximo, principalmente um filho – e pára, como se chorasse as dores todas que esta possibilidade dá à luz, escurecida por si própria. Os seus olhos azúis, sempre disponíveis no diálogo pessoal, aqui guarda-os para olhar o que diz, no lugar de si em que as palavras lhe são dadas. E, quando termina, retira-se, simples, um pouco curvado, modesto no porte e no trajar, um irmão que nunca se despede dos irmãos, apenas parte, com tanta leveza como chegou e chegará ainda, até que chegar e partir se enlacem num único e definitivo acto, tão naturalmente teologal como a própria vida.

À tarde, em pequenos grupos organizados segundo o critério linguístico, fala-se do que falou e a radical solidão de cada um vem ao de cima numa estranha e efémera confiança que partilha os nomes das sedes e dos medos acenados na manhã. É também estranha e efémera, e real, a familiaridade vivida por tão aleatoriamente reunidos companheiros em Ceia de Natal.

A Missa da Noite… são tantos, entre os deficientes presentes, os rostos de olhar vago, fechados no seu próprio mundo. E é aí que o trajecto da encarnação se compreende na sua realidade mais funda: fechados no seu mundo interior enigmático, solitário, não são deixados entregues ao seu mundo – fazem parte do nosso mundo! Estão ali, em celebração paroquial com centenas de pessoas – o pároco, quando jovem, foi assistente de L’Arche; são muitos os que ali escutaram a vocação ao Ministério ordenado – com o seus assistentes; são amados, estimados, respeitados, cuidados; não sabemos o que pensam e sentem, sequer se pensam e sentem, mas estão ali, e os seus gritos desconexos e espontâneos, por serem gritados ali e por serem ouvidos e terem direito de cidadania na assembleia celebrante, valem como aclamações; e o seu abandono confiante à ternura envolvente di-los tão inteiramente pessoas como o Menino divino foi, na noite que recordamos festivamente. Todos comungam.

Poderia dizer que estou a viver um Natal diferente, mas isso, para além de ser um lugar-comum, não bastava. Como não basta esta memória breve, aliás - repito - mesmo se longa seria insuficiente para a espessura da experiência do Natal neste – repito, também – lugar do mundo às avessas. Poderia falar da ausência dos artifícios do Natal – mas reparo, agora, que nem dei por tal ausência e penso que não teria dado pela presença, se tal acontecesse. Não sei se isto poderá significar que o processo de esvaimento da Festa da Encarnação do nosso Deus, mais do que nos artifícios fátuos de que “a tirania da normalidade” – como diria Jean Vanier – exteriormente a veste, radica na falta de nudez interior dos sujeitos da Festa.

Uma coisa me perturbou, confesso. Foi recentemente publicado, pela Fayard, uma das mais reputadas casa editoriais francesas, um livro que reúne a correspondência mantida ao longo de 2010 entre Jean Vanier e Julia Kristeva, psicanalista, escritora, conhecida pelo seu pensamento e empenhamento cívico. Ponto em comum entre ambos, que contextua a troca de cartas: a deficiência – Jean Vanier, fundador de L’Arche e Julia Kristeva, mãe de um filho com deficiência. Esta mulher é um dos expoentes da cultura laica que a sociedade francesa respira. Ela é um dos representantes do Ateísmo que o Papa Bento XVI convidou para o Encontro de Assis, em Outubro. Até que Jean Vanier lhe revelou, numa das cartas, que havia desejado ser padre e não lho consentiram, ela pensou que ele era padre. O que é que uma mulher com este perfil de exigência, tão significativa dos desafios que se colocam à Igreja no séc. XXI, vê em Jean Vanier, a quem admira e estima, de modo a pensar que ele seja padre? A dedicação integral ao serviço dos outros, concretamente daqueles em quem, de modo tão radical, se expressa a fragilidade humana? A familiaridade testemunhada com Jesus? O testemunho de vida evangélica? A profundidade da sua vida espiritual? A liberdade inteligente e esclarecida do seu compromisso como filho da Igreja? O elevado grau do seu saber e da sua sabedoria? A sua capacidade de leitura dos sinais dos tempos? Que padres, nesta Europa à espera? Que aprender, sobre os padres que a Igreja deve oferecer ao tempo, com o leigo Jean Vanier, a quem a Igreja não deixou ser padre?

Alguns dos meus amigos poderão achar que falo de Jean Vanier como de um santo. Se calhar falo. E, se calhar, é. E, neste ano singular que me é dado viver, em que tentei atravessar o Advento monasticamente a despir a espera, a melhor coisa que me poderia ter acontecido seria o que me está a acontecer: viver o Natal guiado por este homem, Jean Vanier, neste lugar, L’Arche, em que a realidade a celebrar é tão real – a misteriosa vinda de Deus em pessoa ao mistério da fragilidade humana, mistério, também, de uma Mãe virgem que O dá à luz… mistério que não pode não desassossegar a Igreja para um mais humano perfil de maternidade que ouse a reinvenção da ternura.

Agradeço a quantos se me fizeram presentes nestes dias bem como a todos quantos me tiveram presente. Desejo-vos continuação de um Santo Natal e um 2012 pleno de bênção. Entrarei nele celebrando a Eucaristia de encerramento de um Retiro de Jovens que começa amanhã.
Estareis comigo.
Pe. JNuno


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