Um “papai” noel ou o Filho de Deus? Contradições do Natal
É comum esquecermos dos aniversários dos amigos, principalmente quando nos afastamos deles. A comemoração natalícia é o melhor exemplo. Considerando as imagens difundidas nessa época, percebe-se a enorme contradição entre os dois principais personagens. Um, gordo e velho, o outro magro e jovem. Aqui, nada além de oposição. O primeiro, enfeitado com roupa vermelha e cintilante, o outro, despido e “adornado” com uma coroa de espinhos. O vermelho em seu corpo é do sangue derramado até hoje. Em cada gesto de desamor, uma gota.
A presença daquele invade até mesmo alguns locais próprios do culto ao filho. Seus brinquedos e demais “presentes”, úteis à ideologia consumista e ausentes para a maioria das pessoas, estão facilmente visíveis nessa época. Contrastam com a pouca visibilidade do filho e de seus irmãos, que a todo instante tornam-se o próprio presente a aliviar a angústia humana.
Não fosse a divulgação da marca mundial de refrigerantes e sua principal bebida, talvez nunca lembrassem da imagem criada pelo cartunista estadunidense Thomas Nast (1840-1902). Em 1863, ele publicou em uma revista a efígie original da imagem que nem lembrava mais São Nicolau, que o originou. Quase um século depois, um publicitário teve a idéia de remodelar sua figura (sem o cachimbo, pois crianças não fingem que aceitam fumaça no rosto) e associar ao consumo dessa, que apesar das versões vendidas como dietética e zero caloria, continua sendo uma bebida nada saudável, para crianças ou adultos, gordos ou magros.
Entre tantas mentiras que seriam propagadas, a de que entra por chaminés (quantas casas não estadunidenses as possuem?) é a mais ridícula. Andar num trenó, puxado por renas, em época de aquecimento global, é até ecologicamente correto, mas aquele que trouxe muitas verdades inconvenientes e a oferta de vida plena é comumente esquecido ou lembrado somente como o que foi pregado numa cruz de madeira. Mais um “prego” doloroso, que insistem em enfiar.
Poucas igrejas que usam imagens para lembrar dele escolhem uma figura menos sofrível. Até parece que veio dizer que ser feliz, dançar, bebemorar e comemorar a vida é algo ruim. Como muitos socialistas que passaram a impressão que a pobreza é que deveria ser socializada e não as riquezas, muitas pessoas religiosas difundem a idéia de que é necessário sofrer para chegar ao paraíso, assim como vários educadores afirmam que é preciso errar para aprender.
Sem negar a dimensão didática do erro ou do sofrimento, o que se fez nosso irmão disse que veio para que todos (repito, todos, daí sua dimensão política) tenham vida em abundância. Quem lembra de sua primeira intervenção na história humana pode concluir que não há nada errado em passar o natal bebendo e dançando, desde que se lembre do motivo da festa, e obviamente não o torne inútil, como muitos que se embriagam e acabam uma festa de vida gerando tantas mortes.
Alguém conseguiu escolher uma melodia tão triste que se não fosse o refrão, teria pouco sentido o nome da canção ser Noite Feliz. Uma amiga me contou da reclamação de seu pai, que trabalhava o ano inteiro para chegar dezembro e poder lhe comprar presentes e o dito “papai noel” é que ganhava o mérito. Pior que isso é transformar o aniversário (pouca gente lembra que é um) do filho de Deus em uma festa que nem de longe lembra o nascimento em uma simples manjedoura.
Pudera termos visto as pessoas naquele casamento, com tantos dias de festa, sentados no chão e bebendo em vasilhas de barro. Talvez conseguíssemos perceber quanta felicidade existe em uma festividade verdadeira, com abundância de justiça, amizade e compaixão com a angústia do próximo, enfim uma demonstração de amor, o maior presente que se pode oferecer, cujo valor incalculável é facilmente percebido por quem se sente amado.
Maurício Façanha, cristão, natal de 2007.