Deus esqueceu-se de mencionar a natureza... Ou os homens que escreveram as palavras em nome de Deus(a)?

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Maurício Façanha. Eppur si muove...

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Jul 14, 2012, 2:59:34 AM7/14/12
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Eduardo Galeano é muito inteligente, mas talvez tenha que aprender muito de Teologia, até mesmo para falar do mundo tão bem como tem falado...

A natureza está fora de nós.

Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão. Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper seu próprio céu.


Do site pragmatismo político.

Felipe Penaforte

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Oct 2, 2012, 10:51:29 PM10/2/12
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 A tese de Eduardo Galeano, que afirma que natureza não pode ser confundida com paisagem, indica que a maneira de lidar com os problemas ambientais pela civilização contemporânea ("natureza protegida") não conduz a uma solução viável para a questão do relacionamento social com o que chamamos de natureza. Aliás, quem conhece a obra do autor não a confundirá com uma imprópria apologia da idade da pedra lascada.  



Para introduzir sua tese, ele fabula, re-imagina a narrativa e a história. Galeano, como escritor brilhante que é, usa de algumas licenças poéticas nesse texto que não são inteligíveis se tomadas ao pé da letra. Sobretudo nas três primeiras linhas. 
  

Por que não?


Um mandamento bíblico sobre o respeito à natureza teria, hipoteticamente, contribuído para atenuar a sanha dos "monarcas agrícolas" na América Latina, como o grande jornalista e escritor uruguaio os chama (através da metáfora, designando as relações político-econômicas respetivas). O açúcar, o cacau, etc. A questão é que, considerado denotativamente e à luz da história, o raciocínio resulta extemporâneo. 



Na Bíblia, a natureza é criação divina, por Deus podendo ser alterada como melhor lhe parecer. Ele diz: "Haja luz!" e a luz se faz, etc.; produz cataclismas como o dilúvio e as pragas do Egito e, em seguida, faz cessar a chuva e desaparecer os males, etc. Qualquer menção mais respeitosa a árvores e montanhas, por exemplo, referida por um hebreu que se apresentasse como um profeta, ou juiz, naqueles contextos, provavelmente motivaria uma acusação de idolatria.       


 Digamos que, no livro do Gênesis, não paira sobre os hebreus a ameaça de destruição da camada de ozônio, entre outras discutidas a partir de algumas décadas atrás, que resultam da atividade social moderna. Essa questões não fariam sentido para aqueles ouvintes. Uma obra dialoga com seu público imediato de uma maneira distinta daquelas de públicos posteriores. 


Seria extemporâneo, igualmente, tratar as culturas indígenas existentes antes da ou sobreviventes à invasão européia como se fossem formadas por militantes da causa ecológica. Pode ser que os haja hoje em dia, mediante o impacto cultural da modernidade. A relação com a natureza que esses povos mantinham (ou mantêm) relacionava-se (ou deriva) não com a consciência dos riscos do agravamento do efeito estufa ou da poluição do rio Tietê, por exemplo, mas de sistemas simbólicos e religiosos vinculados ao modo de vida daquelas, dessas populações. Tanto assim é, que a problemática do chamado "desenvolvimento sustentável" é virtualmente ausente dos sistemas simbólicos pré-modernos e que as queimadas (coivaras) eram utilizadas sistematicamente no cultivo da mandioca por povos do troco tupi-guarani. 


Ou seja, os povos indígenas do Brasil pré-colonial não conheciam, até onde se sabe, o que conhecemos modernamente por "natureza" - o que não significa que não atribuíssem significados às coisas e compartilhassem de explicações sobre elas e compreendessem interrelações entre os fenômenos.   


Vistos em retrospecto, costumes dessas culturas podem aparecer como exemplos inspiradores de soluções para certas questões ambientais suscitadas pelo desenvolvimento do capital porque, antes, o problema precisou aparecer em sua manifestação mais desenvolvida.      
 

Seria discutível afirmar que a civilização cristã à época da América colonial mantivesse, de forma homogênea, essa percepção da natureza dinâmica, mutável, progressiva, uma máquina, em síntese. Inclino-me a pensar o contrário.


 O feudalismo em desagregação se manteve, na Europa, por longos séculos, ao lado dos processos de acumulação primitiva do capital, pondo entraves ao seu desenvolvimento. A maior parte da população européia, pobre e analfabeta, vivia nos campos, não nas academias ou nas cidades. Assim sendo, seria razoável encontrar nos meios eclesiásticos, entre os séculos XV a XVII, pelo menos, a defesa da velha escolástica e de sua base aristotélica, a qual pressupõe um mundo imutável, centrado e hierarquicamente ordenado - distinto, pois, daquele mundo que manifesta atualmente, para nós e em nós, os horrores, mas também as maravilhas e possibilidades promissoras do presente.           



Saudações,




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Subject: Deus esqueceu-se de mencionar a natureza... Ou os homens que escreveram as palavras em nome de Deus(a)?
Date: Sat, 14 Jul 2012 09:59:34 +0300
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