reedição de uma história supostamente a ser contada por várias
pessoas, uma pegando na continuação da outra
esta história foi concluÃda em 1997
Olha, andei outra vez desaparecido. Estava ja'meio esquecido do
sucedera no Sto Antonio da Av. da Liberdade, com aquelas duas
estrangeiras, como te deves lembrar da msg 2073 daqui. Ontem,
terca-feira ia a sair do servico, ja'na rua, quando um senhor se
aproximou, e pediu lume. Estava eu a procurar o isqueiro quando
outro homem se chegou de lado e com uma arma debaixo do jornal,
me indicou um carro que como por coincidencia parara ali para
deixar sair um senhor. Um mercedes de luxo, com vidros escure-
cidos. Ora eu que so'vi cenas destas nos filmes fiquei sem saber
se fugia se entrava no carro, ate'por que havia gente na rua so'
que, para desfazer as duvidas, um dos cabroes espetou-me uma
agulha no rim direito que ate'vi estrelinhas.
Verdade! dentro do carro, ainda a suar da dor, aviaram-me tal
qual se ve no cinema, com uma joelhada no estomago, e depois
umas cotoveladas nas costas e, - outra vez - nos rins. Nao sei
se desmaiei ou nao, mas que perdi o sentido de orientacao,
perdi. Sei que cheguei a uma garagem onde, sem cerimonias, me
fecharam numa caixa de madeira, onde fiquei desconfortavel o
resto da tarde, noite e parte da manha seguinte. Com sede e fome
e `a rasquinha para ir `a casa-de-banho, senti a caixa ser
levantada, colocada numa carrinha ( vi-a mais tarde ) e fui
levado durante duas horas ate'outra garagem, onde me desenpaco-
taram.
Os tipos que me abriram a caixa, tinham ares de poucos amigos.
Do genero que tanto podiam ir comigo beber um copo como dar-me
um enfarte de porrada, ou cortarem-me `as tirinhas, glup! mas
nao... limitaram-se a mandarem-me para a cave, onde me
trancaram.
Cheio de fome, que agua ja' tinha bebido da torneira da casa de
banho da cave, observei bem a sala e vi uma entrada de ar condi-
cionado, que dava para a sala das maquinas ao lado. Bem,... nao
vou contar as horas que levei a desaparafusar a placa e a passar
para a sala ao lado. Fiquei todo arranhado nas costas e apanhei
um jeito no pescoco e estou coxo da perna esquerda, mas estou
ca!
Por sorte havia aqui um terminal. Consegui ligar`a CATS e enviar
esta mensagem. Nao sei bem onde estou, mas por uma conversa em
ingles que ouvi de manha, quando ainda era e'de noite e o ar
estava desligado, parece que me querem fechar numa sala com dois
paneleiros bebados e filmar tudo em video.
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003
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So' agora e' que arranjei um bocadinho para responder. Continuo
escondido, pois se antes me queriam dar uma licao, agora querem
cortar-me`as fatias !
Foi assim:
Eu estava naquela sala do ar condicionado. Era de manha ainda e
depois de entrar no sistema informatico do edificio a partir do
terminal da sala do ar, consegui enviar para a CATS aquela men-
sagem. O Bye Bye apercebeu-se do meu drama, pois a virgindade
(do cu) num homem e'tao importante como na mulher, salvaguardan-
do a suas diferencas, bof! enfim, continuando - o Bye Bye ( mais
conhecido por BB ... ) leu a mensagem e mediante a hora tentou
saber a origem da chamada, tarefa que conseguiu recorrendo a
varios truques existentes nos TLP.
Mas eu nao sabia que ia ser ajudado e procurei safar-me. Entao
antes que o plano de me atarem e me filmarem a ser enrrabado por
dois bebados fosse executado aproveitei o ter conseguido entrar
para a sala de ar condicionado ao lado, e regulei o aquecimento
para o maximo. Com o calor que estava la'fora e a qualidade do
equipamento, o edificio estava onze graus mais quente que na rua
quando chegou a hora das primeiras pessoas chegarem. O piquete
de manutencao do ar acabou por ser chamado, naturalmente. E o
ingenuo entrou sozinho na sala do ar. Levou tamanha cacetada que
deve ter ficado com um pe'ca'e outro no outro lado...
Fiquei com alguns remorsos, mas tinha de ser. Vesti entao a
roupa do fulano, regulei o ar condicionado para dali a dez
minutos passar a dar frio e desbloquear os comandos das salas, e
sai'pelo corredor, acenando para a camara no fundo. Entretanto
os bebados entravam na sala de onde fugi, acompanhados do reali-
zador video e deram o alarme da minha fuga. Entrei numa porta
que pertencia tambem ao sistema de ar condicionado e aquecimento
de agua e aguardei.
Entretanto chega ao edificio o BB ! e com a sua labia consegue
convencer os segurancas de que ele era uma pessoa conhecida dos
Big-Boss e foi entrando. O alarme tinha sido dado e no interior
do edificio BB procurou pelo projecto do mesmo os locais de onde
poderia ter vindo a mensagem. Mas, pese embora o seu heroismo,
acabou por ser apanhado por uma camara de infravermelhos e foi
conduzido ao chefe de seguranca.
KK "ONDE ESTA'O CABRAO DO TEU CUMPLICE !!? " berrou enquanto lhe
dava um estalo com a mao bem aberta.
BB "AI!! " e debateu-se, mas os dois gorilas agarravam-no bem.
BB "Ja'fugiu. Estava precisamente a ir ter com ele. "
KK quase espumava de raiva! mas acreditou. Eu estava ali mesmo
ao pe'a ouvir a conversa, atras de uma porta metalica mesmo `a
frente da sala. Os bebados comecaram a cantar e a berrar:
"QUEREMOS CU tan tan tan QUEREMOS CU tan tan tan " etc
Entao o chefe da seguranca, um gajo barbudo e de ar macilento e
perverso, riu como se fosse uma cabra a dar`a luz e fez sinal
para chamarem os bebados. BB horrorizado percebeu o seu destino,
ia ser enrrabado em publico ! entao num gesto instintivo de
desespero tentou libertar-se, mas em vao. Estava ja' atado, e
comecaram a tirar-lhe a roupa, rasgando-a `a bruta. Os bebados
tiraram as calcas e a camara de video fez um grande plano...
Para aproveitar o sacrificio do meu heroi, deixei de espreitar
pela fresta e sai' de manso pela porta dos fundos, pois a
seguranca estava mas e' com atencao ao monitor da sala onde o
espectaculo cruel e macabro ia comecar. Alguem teve a ideia de
avisar o resto do pessoal que creio se reuniu dentro da sala e
ate'`a porta para ir ver... e pude sair para a rua. Estava na Av
da Republica ! apanhei o Metro e mais nao digo para nao ser
localizado.
O BB ( Bye Bye ) que conte o resto se quiser... deve ter sido
horrivel, nao foi ?
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005
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BB fica momentaneamente sem saber para onde fugir. O facto de
ter entrado no meio de uma cena da "roda da felicidade" em que
doze homens masculos se enrrabavam aos gritos e risos de prazer
nao ajudou BB em nada. Houve dois ou tres que se vieram ao ver o
fugitivo surgir na sala semi-nu. O realizador, um veterano de
guerra capado por uma granada, sorriu sadicamente.
MauPe' " Agarrem esse gajo, vou alterar o guiao ! antes da
roda vai uma geral !! " e riu que nem um perdido.
Bye Bye " Over my dead body ! "
MauPe' " La'por isso podes ficar por baixo " nova gargalhada...
Segue-se uma cena de pancadaria cheia de golpes baixos, em que
punhos, pontapes, e penis erectos a abanar nao faltavam. Bye Bye
por fim e'dominado e novamente atado, mas desta vez a uma peca
almofadada, onde ficou de joelhos, bracos atados a duas algemas
metalicas e pes presos com cavilhas.
"Podemos entrar ? " Perguntou o pessoal que veio em perse-
guicao do Bye Bye da outra sala.
MauPe' concedeu a graca e a assistencia foi-se arrumando aos
cantos da sala, esfregando as maos de contente. E'que, estes
doze, eram enrrabadores profissionais, sempre era melhor que uns
bebados quaisquer. Na sala um pequeno caldeirao com oleo
perfumado e vaselina, aquecia. O cenario tropical foi de novo
ajeitado, e veio uma assistente lavar o cu ao Bye Bye com agua
quentinha, uma porno-star de medio porte.
MauPe'" CeCe'!! despacha-te. Nao quero esse filho da mae
esvaziado... "
CeCe'deu um beijinho na nadega do Bye Bye que infelizmente de
tao preocupado, nao a apreciou devidamente. As camaras comecaram
a ser colocadas em posicao, e o MauPe'aproximou-se de Bye Bye e
mexendo umas manivelas fez inclinar a peca onde a vitima aguar-
dava de modo a ficar a 45° de inclinacao com o cu para cima, ja'
devidamente lubrificado pela assistente com um oleo proprio e
com outra manivela fez as duas pecas da base se afastarem,
arrastando consigo as pernas do BB que ficou " todo aberto ". E
o filme comecou. Primeiro o enredo, doze homens de negocios,
vestidos a rigor terminam uma reuniao de negocios e decidem
divertir-se. pensam em varias solucoes, desde o casino a
mulheres, mas esta'tudo muito visto. Entao dois deles sugerem um
pequeno clube de Gays onde poderiam ver ou experimentar algo
novo. O pessoal concorda e dirigem-se ao clube. Ai'um fulano
esta'atado num banco grande, de cu para cima, e uma fulana boa
esta'a massaja-lo todo com oleo quente perfumado a opio. A luz e'
electrica mas tambem da lareira ao lado. Os homens de negocios
comecam a despir-se, e ja'com de pau feito, tiram a'sorte quem
vai ser o primeiro...
Alguem lhe faz sinal para se calar. A cena continua depois de a
ordem de enrrabe estar bem determinada.`A volta do BB atadinho e
de cu lavado e oleado virado para o ar, os gay sentam-se nas
poltronas para assistirem convenientemente ao servico do primei-
ro, o M. Baixinho Enfesadinho Vitorino, que com uma ereccao
fenomenal se aproxima de BB a sorrir e a babar-se. A porno star
vestida de romana, pincela-lhe o caralho com uma substancia
perfumada e eis que agarrando BB pelas coxas afastada, aponta a
glande do penis ao himem do cu do BB preparando-se para a lenta
penetracao.
Longe deste drama GI nao havia contudo esquecido o heroi que o
procurara salvar e por sua vez tinha sido apanhado. " Pobre BB o
que e'que nao lhe estarao ja'a fazer por esta altura ... " e
dirigindo-se a uma cabina telefonica fez um telefonema anonimo
para a CATS onde alias estranhavam o pouco movimento da BBS
nessa altura. Parecia que todos tinham saido para ver chover
dinheiro, comentava um dos SysOps. Isto passou-se no exacto
momento em que Bye Bye era apanhado no corredor, antes de ser
atado, pelo que quem atendera o telefonema pode chegar`a Av da
Republica bem a tempo de entrar no edificio, com a seguranca
ainda a filmar mas e'a sala. Por isso nao se admirem de na
precisa altura em que M. Baixinho Enfesadinho Vitorino ajeitava
a ponta do penis com a sua mao esquerda`a abertura do cu do BB
alguem entrar na sala e avancar bem para o meio desta, fazendo
gelar de horror toda a gente. " MAS QUE VEM A SER ISTO ?! "
disse ela na sua voz suave e firme, lancando um olhar flamejante
aos homens nus que logo puseram as maos a tapar os coisos.
Inclusive M. Baixinho Enfesadinho Vitorino ficou primeiro branco
tendo logo a seguir corado que nem um tomate e perdido a
ereccao, tapando de imediato tambem... os coisos. Pareciam todos
criancas apanhadas em falta. Alguns loggies que la' estavam a
assistir ja'se haviam safado, com remorsos na consciencia. Esta
mulher que assim a todos subjugada e fazia impor o respeito
maternal era a MarBelle.
MarBelle " Voces sao todos uns idiotas. E tu oh minha lambisgoia
desata o coitado do rapaz ! " e a porno star obedeceu
(pausa)
(aproximou-se de BB)
Entao estas bem ? "
BB " Ahh, uu, caaraanho meetiio aaah ... snif "
MarBelle " VIRAM !? O DESGRACADINHO ESTA'EM ESTADO DE CHOQUE. "
" VOU TELEFONAR JA'AO M.V. !"
O panico tomou conta da sala, houve desmaios, e quem se sentasse
no chao sem forcas nas pernas, pegando na cabeca ( a das orelhas
) com as duas maos. Gritos, choros, corridas de alguns
desesperadamente tentando dar com a porta da rua. " NAO!! O M.V.
NAO!! " gritavam.
MarBelle " E' aprenderem a nao se meterem nestas coisas ! " e
avancou resoluta para o telefone. MauPe' - o tal realizador de
filmes porno ( capado por uma granada na guerra ) - que ate' ali
permanecera calado e imovel - pois MarBelle lembrava-lhe a
falecida irma de que tanto gostava caiu em si e em tres pulos
chegou ao telefone e arrancou os fios !
BB entretanto ja'recuperara encontrando-se um pouco melhor mas
ainda com dificuldade na memoria e na fala. Conseguiu
levantar-se e depois de dar um peido olhou em redor e dando um
par de estalos num fulano que estava a chorar com medo do M.V.
obrigou-o a tirar a roupa, calcas e camisa, e principiou-se a
vestir. Ao canto MarBelle e MauPe' debatiam-se ao pontape'e`a
canelada, enquanto ele a procurava atar, o que conseguiu.
O pessoal ao ver a MarBelle atada e sem telefone, comecou a
recuperar e a levantar a crista. Boa parte saiu pela porta fora
enquanto duas duzias deles, alguns dos actores inclusive,
dialogavam com MauPe' ora para libertarem a rapariga atada e
amordacada, ora para continuarem as filmagens, ao que se
lembraram de BB e olharam para ele. BB ao sentir-se de novo alvo
das atencoes, e sobre o efeito do susto, saiu pela porta fora
correndo como se o proprio inferno viesse atras dele.
La'dentro aprisionada, estava a nossa estimada heroina MarBelle.
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007 De: R.S.
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Os capangas que ja' tinham corrido atras do BB, vem a cena,
comecam de novo a correr atras do BB.
BB ve-se atrapalhado consegue achar a porta de saida do telhado,
ve-se finalmente preso no telhado sem saida com dois Gorilas
atras dele Pensa "Merda do Caralho finalmente estou Fudido!".
Aparecem os dois Gorilas pegam nele e trazem-no de volta para a
sala das filmagens, o MauPe'que ate'ali estava a pensar o que
iria fazer do filme. Pensou falando "Porra o que e'que eu irei
fazer com 11 Paneleiros, HAHA ja' sei vou po-los em circulo a
enrrabarem-se todos".
Virando-se o BB para o MauPe'Diz :
"Isso e'que nao posso comer no CU mas enrrabar e'que nao ,nao
tenho caralho para tal".
Diz MauPe': " Ja'sei vou arranjar um Vibrador a MarBelle para te
enfiar no CU!".
Diz BB : "Na........".
MauPe': "Calado e nem mais uma palavra, desde quando e'que os
actores mandam no papel que fazem".
BB sente-se frustrado que nem tinha sido chamado para tal papel,
nem tinha sido convidado, mais a mais a infelicidade de ser
Violado por uma mulher, era a total vergonha de toda a sua vida.
Entretanto continuando a cena :
BB volta a posicao inicial MarBelle com o Vibra. pronto para
enrrabar o BB, diz o MauPe'"ACCAO!".
Entra sem mais nem menos uma figura alta, forte, figura impune
na sala e diz "CORTA!!!!" ......
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008
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Era o Vito Marques que acabara assim de entrar assim tao `a-von-
tade. Pudera, alem daquele fisico trazia na mao direita uma
pistola metralhadora Yakusi. Alias teve logo de a usar num
capanga que tentou puxar da arma, mas acabou projectado contra a
parede com uns balazios no colete `a prova de balas: nao deixam
passar as balas, mas nao impedem o impacto.
MauPe'e restante companhia estavam perfeitamente dominados. Com
monossilabos, grunhidos e gestos muito significativos com o cano
da arma, o Vito fez libertar BB e MarBelle ( pela qual estava
secretamente enamorado - ninguem e'perfeito 8). Por fim ordenou
que amarrassem MauPe', alcunha do Ruim Silvas devido a ter uma
protese numa das pernas e num braco, perdidos em luta com um
tubarao. BB verificou os nos e seguiram todos pela porta fora,
nao sem o Vito disparar`as cegas uns tiros para dentro da sala
so'para impor o respeito.
Vito a caminho da saida entreteve-se a desmanchar as camaras de
video em circuito fechado da seguranca do edificio, com um tiro
certeiro, como sempre. E dada a sua reputacao, ninguem se atre-
veu a aparecer no seu caminho.
Ca'fora GI estava ao volante de um jipe preto, com o motor a
trabalhar. Entraram todos, ficando MauPe' e Vito atras e a
MarBelle`a frente. E arrancaram no carro.
GI " Entao BB estas inteiro ou que ? "
BB " Porra! se soubesse que me ia suceder tudo isto, olha que
bem te deixava la'entregue aos bebados. "
GI " (sorrindo) Ora, sei bem que eras incapaz disso, mas...
chegamos a tempo ou... "
BB " Nao houve nada. Continuo virgem. E ate'tive o cuzinho
lavado por uma gaja boa como'milho. Mas (suspiro) bolas !
nunca estive tao perto. "
Vito " Mas quem nao perde pela demora e' este filho da puta aqui
(disse apontando com o queixo para MauPe) "
E la' continuaram viagem. Vito e MarBelle (algo contrariada no
meio disto tudo) dormitavam, MauPe' estava algemado ao jipe numa
posicao algo incomoda e disse para GI que guiava:
MauPe'" Para onde vamos, e o que planeiam para mim ? "
GI " Bem... era para ser surpresa, mas olha, como somos
velhos inimigos, posso bem dizer-te, eh eh eh ...
E GI explicou que no Algarve, para onde se dirigiam, tinham la'
uma quinta de producao de gado e leite. Num dos cantos da
propriedade haviam feito uma pequena arena, onde um touro fora
desde pequeno treinado a cobrir as vaquinhas. Bastava pintar o
traseiro da vaca com faixas de tinta vermelha, e logo o animal a
procurava e em tres tempos estava o acto em accao. Era um habito
reflexo, ou condicionado. Poupava imenso trabalho. Ora o progra-
ma era despir MauPe', pinta-lo `as faixas vermelhas e mete-lo
dentro da arena. Havia rede`a volta de todo o recinto, de modo
que nao era possivel saltar para as boxes. MauPe'sentiu suor a
escorrer-lhe pelo rosto. Sabia que eram capazes disso.
BB " Olha: estamos a chegar, e'la'ao fundo ! "
Vito " Bhruuhm ? ... ja'chegamos, foi ? " e pegou no casaco que
estava ao seu lado esquerdo, destapando a metralhadora ,
vestiu-o e pegou na arma.
MauPe'" Olhem... eu quero negociar convosco... "
Mar- " Eh pa' esta historia de o levar`a quinta nao me esta' a
belle agradar, deixem-me mas e'na estacao da CP que eu quero e'
voltar para o meu trabalho"
Vito " Shiu! tu Rui'm Silva's nao tens nada a negociar, e oh
querida, mas hoje e'sexta-feira e o MV ficou la'a tratar
do equipamento, esta'descansada."
A simples mencao do nome MV fez passar alguns calafrios a todos
os presentes, mesmo ao Vito que sem querer pronunciou as
palavras. MauPe'ficou branco. E fizeram o caminho ate'`a quinta
em silencio angustiado. Mas a lembranca do dito cujo passou e
quando o jipe parou`a frente do portao verde - uma obra prima de
tempos em que os faziam muito pesados e trabalhados - Vito
saltou da carro, olhou em redor - ninguem - e tocou numa das
caras trabalhadas do portao metalico. Um pedaco de pedra rodou
no recanto do muro junto onde se via um teclado alfanumerico
onde Vito introduziu o codigo de abertura. O portao rodou sobre
si quase sem ruido. Entrou de novo no jipe, tomando o lugar do
volante enquanto GI saia para " dar uma volta a pe'pelo jardim".
O portao fechou e Vito, Marbelle, Brazuca Byebye e MauPe' la'
seguiram ate'junto `a mansao Manuelina. O caseiro, um homem de
quase dois metros, entroncado, e forte como um touro, de raca
aciganada, esperava com aquela cara mista de ferocidade e esper-
teza contida. Seu nome havia-se perdido e era conhecido ali pelo
Maxime. [ Maxi, isto e'para ti ;-) ]. Marbelle entrou na casa
enquanto BB e Vito instruiam Maxime para preparar a arena para
amanha de manha, com o touro das faixas, como era conhecido o
animalzinho que ali nas redondezas cobria as vacas da regiao e
tinha sido educado a cobrir as vacas que estavam pintadas com
faixas vermelhas, um engenho pratico mas que o touro tomara
demasiado`a letra... e tudo quanto tinha faixas vermelhas era
atacado... que o diga o benfiquista que um dia foi visitar a
quinta, que foi salvo pela rapida intervencao de Maxime, Vito e
mais oito visitantes que o tiraram de baixo do touro, que com os
cornos e patas havia ja' retirado a roupa ao desgracado. Passou
uns dias numa casa de repouso, com sedativos, em estado de
choque.
Maxime conduziu o prisioneiro a um quarto da mansao com casa de
banho propria, janelas com grades e porta com tranca automatica.
Era uma sala com uma historia estranha, mas que talvez se venha
a contar aqui mais tarde.
Cada um recolheu aos seus quartos, lavou-se, repousou um pouco e
Marbelle entretanto com a ajuda do microondas e da cozinha
sofisticada havia ja'preparado um jantar delicioso para toda a
gente. Maxime, como costume havia solto os caes e dormia ja'na
sua casa propria, dentro do mato. Era ele quem tratava de tudo
ali dentro. Nunca saia dali. Os fornecedores deixavam-lhe as
coisas junto ao portao e os pagamentos e encomendas eram feitas
pelo telefone. Era um cadastrado internacionalmente procurado
pela Interpol, extremamente perigoso, mas suficientemente
inteligente para saber que com sessenta e dois anos ( apesar de
aparentar quarenta e poucos ) o melhor que tinha a fazer era ter
ali uma vida sossegada e com liberdade, onde nada lhe faltava,
do que ir parar a uma prisao. Vito salvara-o disso e de perder a
vida numa outra ocasiao, dai'a sua gratidao, e servico.
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010
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Marbelle aproximou-se do intercomunicador e chamou o pessoal
para o jantar. Vito foi buscar MauPe'que veio para a mesa ja'
apresentavel, com smoking e laco, mas ainda com uma corrente nos
pes. E sentaram-se todos, enquanto Marbelle acabava de colocar
na mesa as bebidas frescas e a sopa para o BB, de camarao com um
terco de pedacos de camarao - delicioso.
BB " Esta sopa esta'uma delicia! "
Marbelle " Obrigada "
MauPe' " Nao estava`a espera de ter um jantar destes, afinal
sou prisioneiro "
Vito " Ora, nao queremos que estejas fraquinho e mal-dispos-
to quando amanha te pusermos na arena... "
MauPe' " Mas... acho que podiamos entendermo-nos, sabem ?
tenho uma ideia que, creio, ira' agradar tanto ao
Brazuca ByeBye como a si, caro Vito " e sorriu
conseguindo despertar a curiosidade na mesa.
BB " Tu! precisavas mas e'que te espetassemos um espeto
quente pelo cu acima e te assassemos sobre carvao!"
disse BB ainda sobre a lembranca do estudio onde ia
sendo enrrabado por meia duzia de fulanos a mando do
gajo que agora lhe vinha com falinhas mansas.
MauPe' " Compreendo a atitude do Sr, BB. Contudo eu era uma
pessoa muito correcta e com muitos amigos antes de um
dia conhecer GI. Ele apresentou-me a um casal que
aproveitando a minha ingenuidade acabou por me atar e
me fazer coisas que me violentaram bem fundo e no fim
ainda por cima deitaram-me a um tanque com um tubarao
onde a muito custo consegui sobreviver e onde perdi o
meu braco e a minha perna - e contou-lhes a historia"
Os presentes ouviram como Ruim Silva fora atado, fora usado pela
mulher e pelo homem, e no fim espancado e deitado ao tubarao. As
lagrimas vieram aos olhos de Marbelle e de BB enquanto Vito ora
sorria ora ficava vermelho. MauPe'havia contado a historia da
sua vida e de como GI o destruira.
MauPe' " A proposito, onde esta'GI ? "
Vito " Esse gajo e'esquisito. Deve estar algures ai' pelo
jardim, a brincar ao cao e ao gato com os caes. Ora
aparece, ora desaparece, mas prometeu nao faltar `a
tourada de amanha."
BB " Nunca pensei que GI fosse capaz de fazer o que te
fez, como e'que sei que nao estas a inventar ? "
MauPe' " Eis o que proponho: amanha como quem nao quer a
coisa, perguntem-lhe, e se entao estiveres conven-
cido, mandem-no a ele para a arena. "
Vito " Bem... isso era uma traicao para um nosso amigo, mas
eheh, era uma boa partida, e bolas! ele que se desen-
rasque ! "
BB " EhEh, sim... "
Marbelle, desgostosa com aquela conversa levantava a mesa e
tratava de lavar a loica. Entretanto GI que dormia num tronco de
uma arvore depois de ter atado a cauda entre dois caes que o
perseguiram durante meia-hora, mal sonhava no que o esperava
amanha...
Uma aragem percorreu a quinta. Ao canto dois caes enrrabavam-se
vai ja' dez minutos, alternando, com dois ou tres outros a
esperar vez, que isto de serem treinados e com disciplina para
alguma coisa lhes tinha servido.
Na sombra de uma nuvem sob a lua quarto crescente um vulto negro
salta o muro que veda a propriedade. No entanto nao atinge o
solo e o som que produz e'inferior ao agitar das folhas, pois
fica suspenso numa engenhoca de corda e borracha. O vento esta'
contrario de modo que os caes nao o cheiram, alem de estarem
ocupados, por alguem ter misturado afrodisiacos na comida para
os caes, entre o talho e a entrega. Podia ter posto veneno, pen-
sou, mas achou melhor assim...
Tal discreta personagem era o Ninja JOS BOTO, um atleta excepci-
onal, perfeitamente controlado embora descontraido, e com pre-
ferencias sexuais bem assumidas, num bom quadril de rapazinhos
novos ou homens musculados. Nao permitia que o enrrabassem, mas
por outro lado gostava de masturbar os penis dos seus companhei-
ros com a boca e maos. Extremamente sedutor, hipnotico e delica-
do tinha contudo um defeito: so'lhe dava prazer apanhar homens
que dessem luta, que nao quisessem ser montados por ele e que
nao fossem homossexuais, embora ja'tivesse tido casos, inclusive
duas ou tres vezes com mulheres, mas o que ele queria mesmo era
macho! Alias o seu nome era no inicio JOSE "BOca, Cu, e Tu" que
se simplificou para JOS BOTO, o terrivel Ninja.
De arvore em arvore, sempre contra o vento, aproximou-se das
traseiras da casa. Ali, enlacou a chamine'e atraves de um gancho
deslizou ate'la',sem tocar o telhado. Pendurado, com uma gazua e
um jeito extraordinario abriu a janela do sotao, a unica que
nao tinha grades, pois o telhado era muito ingreme.
Entrou dentro do sotao como se fosse uma sombra. La'dentro
retirou da mochila umas sandalias especiais e um pequeno frasco
que prendeu no cinto. Deslizando sem ruido, abriu a porta do
sotao e tal como uma aranha na noite desceu ate'junto aos
quartos. Num quarto ouviu duas pessoas dormir (nao da'- pensou )
e prosseguiu ate'onde vinha um ressonar.Com a gazua abriu a por-
ta devagar, olhou, e entrou. Aproximou-se muito lentamente de BB
e pegando no frasco destapou-o colocando-o junto ao nariz da vi-
tima, que entrou em inconsciencia profunda por causa daquela
droga poderosa, embora de efeito curto. Retirou da mochila corda
uma seringa, uma mordaca, um toalhete, e uma ampola. Destapou BB
apalpou-lhe as coxas e os quilhoes e sorriu satisfeito, vindo-
-lhe a saliva`a boca. Com metodo atou BB como se fosse um porco,
ou seja, maos com pes e cu ao alto. Enfiou a seringa na ampola e
procurando depois uma veia em BB injetou-lhe o conteudo: um
afrodisiaco de origem africana *poderosissimo*, e amordacou o
pobre homem.
La'fora ninguem suspeitara de nada. Assim como enquanto uns dor-
mem em paz, outros se masturbam, fodem, encornam ou sao encorna-
dos assim naquela quinta serena e tranquila tudo se passava em
silencio. Era a especialidade do Ninja JOS BOTO. Que retirou a
capa, e o quimono, e a "fralda", ficando apenas a cara tapada,
acima do joelho. Com uma ereccao colossal, aguardava disciplina-
damente que BB despertasse com o efeito do afrodisiaco...
Talvez por instinto, ou coincidencia, o Touro cobridor estava
acordado, olhando a casa, talvez pressentindo que ia ter carne
nova para amanha, ou que algo de interessante se poderia estar a
passar dentro da casa dos donos.
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012
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BB sonhava com uma ra gigantesca, sedosa, que pulava ao pe'dele
vestido de bailarino, com um chapeu de chuva na mao, quando duas
mulheres muito boas passam ao pe' dele e sorrindo se despem
deitando-se na relva e convidando-o a se deitar no meio delas,
ao mesmo tempo que uma chuva de flores azuis e brancas perfuma-
das cobre o local. BB estava sobre uma delas com a outra por
cima dele, e lentamente abriu os olhos com uma vontade danada de
dar ao pedal, quando notou estar alguem junto`a cama no quarto ,
que lhe fazia festas como se fosse um caozinho, e dizia muito
baixinho " tadinho do caozinho, quer foder nao e', tadinho do
caozinho... " repetindo a mesma frase repetidamente, com varia-
coes de tom. Sob o efeito da droga BB sentia-se a arder de von-
tade, e tentou la'chegar com a mao. Mas o ninja trepou silencio-
samente para a cama e fixando bem as cordas, nao parando de
dizer " tadinho do caozinho, quer foder nao e'" etc envolveu num
abraco forte BB e dum so'golpe enfiou-lhe o caralho todo pelo cu
acima.BB viu uma garrafa de whisky a esvoacar pela sala e sentiu
os impulsos ritmados de um estranho objecto e sensacoes novas...
e por fim algo como um clister quente. Quis gritar de desespero
quando olhou para cima e tinha um touro a fornica-lo e...
acordou de verdade, com suores frios.
Ainda a tremer acendeu a luz do quarto e infantilmente, olhou
para debaixo da cama, viu a janela e a porta do quarto -
fechadas - e saiu para a cozinha para beber um copo.
Apanhou um susto quando viu a luz da cozinha acesa, e aproximou
-se devagar. La'dentro estava Vito e MauPe', com ma'cara, cansa-
dos e com um copo de cerveja gelada na mao de cada um. Ao verem
BB entrar comentaram:
Vito " Entao ? dormiste mal ? estas ca'com uma cara que ate'
parece que viste um fantasma "
MauPe'" Entao ? "
BB " Tive um pesadelo terrivel com um ninja, flores, uma
garrafa de whisky voadora e um touro... "
MauPe'" Pois,... nos sonhamos tambem com o touro e o especta-
culo de amanha, quer dizer, hoje, e no fim o maldito
bicho enrrabava-nos "
Vito " Isso de mandarmos o GI pintado para a arena esta' a
dar-me um certo gozo, mas tramou-me o sono. "
BB " Bah. O gajo depois de entrar na arena nao pode fugir, ja'
que ela tem aquele muro a toda a volta. "
MauPe'" Mal posso esperar pela vinganca "
De facto a " arena " estava tres metros e meio cavada no solo,
com paredes absolutamente lisas onde ate'as moscas mal se segu-
ravam, quando eram polidas com um oleo especial. O diametro era
de seis metros e tinha uma entrada para o curral do Touro e
outra para um corredor que vinha do lugar das vacas, mais abaixo
estando uma bancada para uma duzia de espectadores montada acima
em angulo panoramico.
Ao longe ouviu-se um muuuu de um Toiro. Os tres homens sentiram
um calafrio nas costas. O raio do bicho parece que adivinhava. E
apareceu `a porta da cozinha a Marbelle num lindo fato de noite
semitransparente beje que fez a todos esquecer os seus padeci-
mentos. Sorriu para o Vito e restante companhia e tapando os
seios com o braco esquerdo pegou na mao do famoso Vito que a
seguiu como um colegial todo contente... uns barulhos tipicos
ouviram-se pela casa toda durante um breve quarto de hora,
fazendo sorrir os dois que ficaram na cozinha, a beber mais uma
cerveja gelada.
La' fora o Sol dava os primeiros toques no ceu a Este, e Maxime
ja' levantado ha'meia hora, foi buscar o pao ao portao, enquanto
pensava na preparacao da "arena" e sorriu muito maliciosamente.
GI continuava completamente relaxado a dormir na arvore, de
grandes ramos, numa plataforma larga e natural de troncos entre-
lacados.
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013
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O Sol nasceu. Na cozinha da mansao MauPe' e BB eram agora bons
compinchas. Com meia duzia de cervejas em cima estavam mais
descontraidos e riam de vez em quando ao contarem as suas peri-
pecias com as mulheres, a policia, o fisco, etc Vito e Marbelle
chegaram ja'vestidos e lavados ao pe'deles.
Vito " ENTAO ?! AINDA POR VESTIR ? "
BB " E' pa'... nao grites que me doiem os ouvidos, ja'me vou
arranjar, pronto " e levantou-se da cadeira.
MauPe' " O senhor esta'cheio de vitalidade hoje de manha. "
Vito resmungou e em resposta ouviu-se apenas o destravar da arma
automatica e a entrada da primeira municao na camara. MauPe'per-
deu logo aquele sorriso cinico e apressou-se a seguir BB pela
porta fora que nao era boa ideia para ninguem implicar com Vito
antes de ele tomar o cafe'da manha. Marbelle preparava o pequeno
almoco: cafe', leite, torradas, geleia de morango, gelado misto
de baunilha, after-eight e noz, dois sumos de tomate ( ordem do
Vito para os dois que acabavam de sair ), mais manteiga, normal
, com alho e de amendoim. Ao lume estrelavam tres ovos e pedacos
de presunto e fiambre. O Sol entrava pela janela e la'fora
ouvia-se os caes a serem de novo guardados no canil pelo Maxime
que havia dado ja'de comer ao touro Catanhete, o tal das vacas
pintadas de vermelho`as faixas. No pasto do bicho, um estimulan-
te sexual bovino...
GI despertou com o Sol a bater-lhe na cara e esperguicou-se todo
feliz de ter sonhado com o paraiso, com duendes, diabretes,
Peter Pan, a bruxa da floresta e um PC 586 com XWindows em ROM,
a 250 Mhz com 2 Gb de memoria RAM e um disco de 90 Gb com tempo
de acesso instantaneo. Desceu a arvore, desatou as caudas aos
dois caes que o tinham perseguido de noite, que correram para o
canil, e dirigiu-se para casa, para ir cumprimentar as pessoas,
lavar-se e tomar um bom pequeno almoco. Viu Maxime e
aproximou-se dele para o cumprimentar. Maxime trazia consigo um
pequeno tronco, e uma serra. Apertou as maos ao homem, perguntou
ao capataz como estava, etc e voltou as costas despedindo-se
delicadamente. Eis senao quando - seguindo as instrucoes de Vito
da noite anterior - GI leva com o tronco em cima do toutico de
volta para o seu 586 a 250 Mhz, ficando estendido ao comprido no
chao. Maxime meteu GI`as costas, e levou-o para o barracao. La'
despiu-o, deitou-o em cima de uma mesa e pegando em tinta
indelevel vermelha, pintou-lhe as costas com faixas vermelhas. E
deixou-o ali a secar.
Marb. " Entao o GI nao aparece para o pequeno almoco ? ele gosta
tanto de gelado... "
Vito " Olha, querida, o GI esta'a tratar de uns negocios do meu
conhecimento, coisa de amigos, e nao vai se calhar
chegar a tempo. Tu nao querias ir `a cidade comprar
aquela mala branca que viste a semana passada ? "
Marb. " Sim, vou mal acabe de vos dar o pequeno-almoco "
Vito " Ofereco-te a mala, diz-me depois quanto foi que eu
passo-te o cheque... "
Marbelle sorriu para Vito e pensou com os seus botoes que ele
devia pensar que ela era idiota pois ja'tinha topado que queria
era ficar na quinta a sos e nao era nada de bom agoiro para GI
essa " coisa de amigos ", mas fez-se desentendida, que a avozi-
nha ja' lhe havia ensinado ha' muito que os machos puros nao
gostam de mulheres espertas...
BB e MauPe'chegaram entretanto vestidos a rigor, como se fossem
para uma opera. Vito, ao ve-los assim desatou a rir`a gargalha-
da vindo-lhes as lagrimas aos olhos. Sorrindo, MauPe'e BB pro-
seguiram no seu papel e comecaram a comer. No fim do animado
pequeno almoco, Marbelle lavou a loica depois de arrumar a mesa
e saiu no jipe para a cidade.
Maxime voltara entretanto GI e pintara-lhe a frente. Depois da
tinta seca, atou-o com fio de aco de 3.0 mm e enfiou-o num saco.
Pos o saco`as costas e levou-o assim ate'`a arena, onde o deixou,
despejando o saco. Com uma trincha comprida untou as paredes com
uma substancia *extremamente* escorregadia e verificou a porta
de abertura ao touro, electrica e que vedava a unica saida da
arena, que - recordemos - tinha cerca de tres metros de altura,
em forma de vaso de modo que era impossivel saltar dali para
fora, pois mesmo saltando alto a superficie junto aos bordos era
tambem lisa e foi igualmente untada. La'dentro o Touro ja'se
fazia ouvir, aflito por um buraco qualquer... Maxime saiu,
fechou a unica porta de acesso`a arena que vedava perfeitamente
e de um dos intercomunicadores simulados no arvoredo, avisou
Vito que " a mosca ja'estava na teia ".
BB, MauPe'e Vito sairam muito euforicos da mansao e dirigiram-
-se para arena, naquela solarenta manha. Chegaram ao local, e
sentaram-se ao pe' do bordo da arena, e Maxime, no papel de
perfeito anfitriao, perguntou a cada um o que desejava beber.
Vito pediu um cafe', e os restantes dispensaram. Estavam todos
excitadissimos. La'no fundo, ainda atado com o fio de aco, GI
despertava, pintado de vermelho, em faixas, e cheio de areia e
po'na pele nua. Lentamente a porta electrica do curral abria-se
e um Touro espreitava para fora com um olhar miope e alucinado,
para uma mancha vermelha a meio da arena, e fez um Muhhhh de
satisfacao enquanto corneava a porta de ansiedade de.. e o touro
saiu em disparada, fechando-se a porta rapidamente atras dele.
GI aparvalhado via-se atado como um vitelo, maos ao pes, e ouvia
a gozacao estridente dos espectadores, e o riso histerico de
MauPe'. O touro, esse, estudava babando-se a melhor posicao para
cobrir, e com o focinho fez rebolar por duas ou tres vezes GI...
Sera'que GI consegue escapar ?
MauPe' apalpava a perna artificial, e olhava para a sua luva na
mao esquerda, que nao tirava em qualquer circunstancia, do braco
artificial. Gozava cada atrapalhacao de GI junto ao animal de
uma forma tao intensa que era percorrido por espasmos nervosos.
Vito secretamente - pois no fundo era boa pessoa - acariciava a
arma para atingir o animal caso fosse necessario. Que GI ficasse
com o anus rasgado, ainda va' la', agora nao ia de modo algum
permitir que morresse ali espezinhado...
BB sentia-se algo constrangido em ver GI ali. Agora que a coisa
estava efectivamente a ter lugar, a acontecer, ja'nao lhe pare-
cia tao boa ideia. Nao que a situacao nao fosse de partir o coco
a rir, mas ( eh eh eh ) receava a possivel vinganca. Mas sugerir
isso ao Vito, nao era de bom senso, em especial por o ver a
mexer na arma dentro do casaco...
Maxime havia ido buscar mais gelo para as bebidas, mas no fundo
afastou-se para poder rir `a gargalhada e ficar a ver o especta-
culo de cima duma arvore, mais adiante.
GI completamente impotente para qualquer movimento ganhou alguma
calma e nuns curtos instantes de raciocinio a frio apercebeu-se
da sua situacao em toda a sua dimensao, apesar de sentir ja' a
pressao do penis do touro entre as nadegas. Sentia-se sujo, mal
cheiroso, arranhado, marcado pelo fio de aco que o atava, e aci-
ma de tudo extremamente desgostoso pelos amigos da onca que la'
de cima faziam uma festa do caralho. Nao lhe passava pela cabeca
porque razao lhe podiam estar a fazer tal partida de mau gosto.
Soltou um grito quando a pata sofrega do animal o empurrou mais
contra si e contraiu o mais que pode pernas e o cu, e uma luta
ingloria se travava ali entre a forca animal e GI.
Um rasgo de luz se fez na cabeca de GI... tinha de ser isso ! e
a plenos pulmoes gritou: "Sassa'Mutema!!!" . O pobre animal ate'
se assustou mas redobrou avido os esforcos, enquanto na plateia
algo de bizarro se passava: MauPe' como que atingido por uma
faisca havia ficado aparvalhado ao ouvir aquele nome. Parara de
rir. Caira sentado e com uma cara de parvo chapada no rosto. BB
e Vito nao estavam a perceber nada, e voces tambem nao. Pois ...
Maxime tambem estranhava, pensava que o gajo ja'se havia passa-
do da caixa de oculos. Mas MauPe'leva a mao com a luva`a boca e
mordendo a luva puxa-a: ESPANTO: a mao estava boa, nao era arti-
ficial! leva as maos `as calcas rasgando a bainha e ve que nao
era artificial tao pouco. Olha para GI ali deitado, olha para
Vito que puxara a arma e para BB que esta'esbugalhado e vermelho
de raiva. Vito havia concordado nesta feira por que acreditara
na historia de Ruim Silvas ( MauPe' ) em como havia sido
violentado e depois lancado a um tubarao, onde perdera um braco
e uma perna. Ora ali estava um homem inocente na arena e um
vigarista com todos os membros na plateia. Ia haver merda. De
arma na mao Vito aponta a MauPe' e continuando a rodar com o
braco desfecha um tiro na cabeca do touro, de raspao, o equi-
valente a uma pancada com um tubo de ferro na cabeca do animal,
que ficou logo ali prostado, caindo de lado.
GI "Vito! Nao dispares. Nao dispares no MauPe! Vito ?! "
MauPe'via o cano da arma apontado entre os olhos. Por um segundo
Vito esteve quase a disparar um tiro que iria partir os dentes a
MauPe' e alojar-se na garganta, causando uma hemorragia e ao
mesmo tempo uma paralisia por fractura na coluna. ( Vito era
mesmo bom na pontaria e precisao das suas armas ), mas ao ouvir
GI gritar hesitou e, por fim, parou. Deu ordem a Maxime para
agarrar MauPe'.
Ja'dentro de casa, depois de GI ter tomado um banho, bebido um
Whisky e se vestido, explicara a MauPe'e ao restante pessoal o
que se havia passado: GI havia levado Ruim Silvas a um Pub na
companhia de duas amigas, onde hipnotizara Ruim Silvas, fazen-
do-o acreditar ter sido violentado e comido por um tubarao. Ora
isso tinha sido uma brincadeira ( de certo mau gosto - reconhe-
cia e'certo ) que deveria dissipar-se mal a vitima ouvisse ou
lesse o nome de "Sassa'Mutema". Ora MauPe'( Ruim Silvas ), nao
via telenovelas, nem lia jornais, coisa que GI ignorava. Real-
mente havia achado estranho ele andar sempre de luva, e coxear
um pouco, mas pensou - estupidamente - que deveria ser outra
coisa qualquer, afinal havia um actor conhecido que tinha a
mesma mania... Quando gritou o nome a trama hipnotica desa-
pareceu e MauPe'levou a mao`a boca vendo a mao boa.
Estendidos e encaralhados os dois no chao olhavam para Vito com
espanto.
Vito "... e nao quero voltar a ouvir no assunto. "
GI "Oh meu cabrao, mas tu julgas que sou o bastardo do teu
filho para me andares a dares licoes, oh boi de merda ?!"
MauPe'"Caralhos me fodam se nao parto a cara a este animal "
BB "..."
Vito "Voces calem-se ou ponho-vos a render no Cais do Sodre' e
e'ja'amanha! " - e riu-se
GI e MauPe'atiram-se a Vito, agarrando-o um nas pernas e outro
deitando mao`a arma. Vito, desprevenido a beber um whisky mal
teve tempo de recuar, e acabou caindo no chao mais os outros
dois. E uma grande cena de pancadaria comecou ali. Copos, talhe-
res, imprecacoes de varia ordem, tudo rolava no chao.
BB acabou de beber o gin, e trepando para cima do lavatorio foi
ate'junto`a porta e saiu dum salto. Ja'fora de casa trancou a
porta - era uma daquelas que se tranca por dentro e ao fechar
nao deixa ser aberta por fora.
BB olhou para o relogio, enquanto ouvia loica a partir dentro de
casa, e viu que daqui a duas horas, devia chegar a Marbelle.
Hum... pensou ele. E foi dar uma volta pelo jardim. Acenou a
Maxime, foi atras de uma arvore mijar, que a noite de cerveja
tinha sido longa. Maxime nao gostava que lhe mijassem nas arvo-
res, aquilo era quase uma ofensa pessoal... ah, se ele pudesse
dar uma licao`aquele convidado do Senhor Vito...
BB descontraido abriu a berguilha, puxou a picha e olhou para a
copa da arvore, comecando a molhar o tronco. Quem nao gostou
tambem foi uma cobra venenosa que estava num buraco logo abaixo
e que lhe ferrou os dentes mesmo na ponta do caralho.
BB sentiu uma dor terrivel, e saltou para tras, esborrachando a
cobra com uma sapatada. Apertou bem o penis e devido`a dor
deitou-se na terra. Maxime sorriu com um luz *muito* maldosa e
cruel nos olhos e sacando da naifa aproximou-se de BB.
Maxime " desculpe mas tenho de capar o senhor antes que o veneno
atinja a circulacao sanguinea "
BB " naaaaoooo! "
Mas Maxime, agil, ja' rasgara as calcas a BB e com o fio da
lamina encostado aos quilhoes preparava-se para cortar...
A dor do veneno ja'se nao fazia sentir, contudo...
Maxime, sempre frio e visivelmente satisfeito, apesar de formal,
puxava agora de uma guita e envolvendo o coto e quilhoes daquele
desgracado de calcas meio tiradas, estendido ao comprido no
chao, muito palido, em estado de choque - pegou na guita ,
dizia, e apertou em torniquete para estancar o sangue. O que
conseguiu de imediato.
GI, Vito e MauPe'tinham entretanto largado a briga amigavel e
apareceram`a porta alarmados pelo berro de BB. Com a roupa toda
amarrotada e um ou outro ferimento na boca e nariz, e um olho
negro, pareciam ridiculos. Vito correu seguido de MauPe'parta
BB, enquanto GI caminhou devagar, ajeitando a camisa e o cabelo,
e estancando o sangue do nariz com um lenco.
Vito " ... ??! que se passou Maxime ? "
Max " O Sr BB foi mordido na ponta do caralho por uma cobra
venenosa. Tive de o amputar. "
MauPe'" Foda-se [ antes ele do que eu - pensou ] "
GI " ... "
BB " ai!, que ira'ser de mim, que irao dizer as minhas
mulheres, ai! que me estou a sentir mal "
GI despertou da surpresa e correu para a cozinha, de onde trouxe
um frasco cheio de gelo. Pediu ao Maxime o penis cortado e
envolveu-o com um lenco limpo, e meteu-o no gelo. Vito compre-
endeu a ideia e sem dizer palavra correu ao telefone para chamar
um helicoptero, para levar BB ao hospital Sta Maria de Lisboa.
Mas o dito so'chegava dali a meia-hora, pois estava a ajudar a
combater um fogo ali das redondezas. Contudo dada a urgencia iam
largar aquele servico, so'que levavam meia-hora para chegar ali
em condicoes de fazer a viagem para Lisboa ( reabastecimento,
carta aeronautica, previsao do tempo na rota, etc )
Maxime voltou, aparentemente indiferente`a sua rotina de tratar
do parque e das suas queridas arvores. Alias, *ele* estava
vacinado contra as mordeduras daquelas cobras. Com que entao a
mijar na Rita Marques, nome da sua arvore preferida, hem? bem
feito, e mexeu a terra`a volta da arvore, fazendo-lhe festas
ternas no tronco...
GI e MauPe' descalcaram BB e tiraram-lhe as calcas. Vito foi ao
telefone novamente e envio um codigo ao telebip de Marbelle, que
telefonou passado cinco minutos.
Marbelle " Esta'? es tu ? "
Vito " Sim!, onde estas ? "
Marbelle " estou a telefonar do salao de cha'QUADRIGA, desculpa
mas estavam os telefones todos ocupados... que se
passa ? "
Vito " Houve um acidente grave com o BB e temos de o levar
de helicoptero para Lisboa "
Marbelle " Credo! que lhe aconteceu ? "
Vito " Anda depressa para aqui que o helicoptero deve estar
a chegar... depois ves "
Marbelle largou o telefone, deu um encontrao numa velha que
nunca mais se despachava do balcao, deixou uma nota de quinhen-
tos escudos para a despesa e sem esperar troco saiu disparada
pela porta fora. Chegou ao jipe e viu que algum idiota a havia
entalado, estacionando em segunda fila. Ora Marbelle nao tinha
duvidas: o codigo 913 do telebip significava urgencia absoluta.
Vito queria concerteza sair da fazenda *antes* do helicoptero
chegar, pensou ela, pois concerteza os seus inimigos o iriam
localizar pela chamada do helicoptero. Sendo assim entrou para
dentro do jipe, empurrou o carro da frente, e subiu para o
passeio, assustando os peoes, e saiu cinco metros`a frente para
a estrada, acelerando em derrapagem, num espectaculo digno de um
filme americano.
Tenente " Esta'? e'da residencia do Exmo Dr Kananga ? sim ? sim.
Tenente Julio, ele conhece. Vai ver se esta'? eu espe-
ro. E'urgente. (...) Ora viva, como vai o Dr ? optimo
... telefono-lhe a dizer que o Vito, GI e BB estao com
o seu agente na herdade das Pedras Pretas. Sim senhor.
Recebemos aqui no aeroporto um pedido de urgencia para
um transporte medico... Ora essa Sr Dr, sempre`as suas
ordens. "
Longe, muito mais longe, dois lindos olhos observavam interessa-
dos o desenrolar deste drama, num ecran tridimensional envolven-
te. Tinha sintonizado acidentes e a aparelhagem captara a emocao
sentida de BB ao ver-se capado. Nas janelas por baixo da imagem,
surgiam acontecimentos relacionados, nomeadamente um helicoptero
numa, o telefonema da torre doutra, um tal Dr Kananga a dar
ordens pelo radiotelefone noutra, pessoal armado a acelerar num
carro, e a mulher preferida de BB a fornicar com outro. Hum...
franziu os olhos para essa ultima janela e ela desapareceu.
Seleccionou "Futuro previsivel" e viu o helicoptero avariado no
aeroporto por um mecanico, uma mulher a chorar sobre os corpos
crivados de balas de Vito, BB e GI, e MauPe'a fumar um cigarro
sorrindo...
Hum... pensou ela. Neste caso podia intervir. Levantou-se e deu
ordem ao computador da nave para se descolar da superficie lunar
onde estava e se dirigir rapido para as coordenadas da fazenda.
A nave espacial levantou suavemente do solo, e como um raio
dirigiu-se para a Terra. Entretanto ela afagava os seios...
aquele indigena apesar de primitivo, excitara-a. Nao podia per-
mitir que acabasse capado e morto, coitadinho... e apertou o seu
mamilo, azulado claro, como o resto da sua pele.
Tinham la'na constelacao de origem meios de se relacionarem por
telepatia, fusao transcendental, empatia energetica, mas bolas !
uma foda de vez em quanto`a antiga tambem nao ia prejudicar a
harmonia universal, antes pelo contrario, desde que sincera.
* * *
Vito deu instrucoes a Maxime para se ir esconder dentro do mato
e so'sair de la'dali a dois dias. Caso acontecesse alguma coisa
ele que saisse da fazenda para a casa que Vito lhe prometera,
com a nova identidade. Emocionado Maxime abracou Vito, pegou na
arma, dinheiro e papeis que este lhe entregara e desapareceu no
meio do mato. Vito pegou em algumas granadas, caixas de municoes
e duas armas automaticas, de rajada, e dissimulou tudo no casaco
e calcas que acabara de trocar.
La'fora, tres mercenarios haviam ja' entrado pelos muros, por
passagens anteriormente preparadas pela Organizacao, para um
caso deste genero, pois era uma das propriedades de Vito, e
tinham ja' na mira das metralhadoras, GI, BB e agora Vito que
saia da porta de casa. Tinham ordem para nao eliminar o outro
sujeito, um tal Ruim Silvas, de que tinham fotografia. Aponta-
ram... e aguardaram ordem do chefe de grupo.
A ideia era primeiro disparar para as pernas, depois para os
bracos, fazendo depois tiro a tiro morrer um a um, dando por fim
o golpe de misericordia com uma rajada geral por todo o corpo,
comecando naturalmente pelos quilhoes...
Um outra rajada apanhou os bracos de Vito... que eles sabiam da
habilidade deste gajo a atirar...
Estavam os mercenarios a sairem do abrigo das arvores, para
cumprir a sua tarefa, quando um silvo agudo encheu todo o local,
fazendo silenciar tudo o mais. O dia ficou um pouco mais escuro
como se um filtro tivesse`a frente do Sol, violaceo. Um vento
frio desceu sobre o local, e nuvens surgiram no ceu limpo por
cima da fazenda e os mercenarios sentiram-se agarrados electri-
camente ao chao como se estivesse cheios de estatica. E algumas
arvores comecaram a torcer-se com um ruido irreal, vagamente se-
melhante ao de queimar de folhas.E por fim uma nave surgiu visi-
vel a cinco, seis metros do solo. Algo como finas placas de
metal saiam da base da nave, e colocaram-se sob GI, BB e Vito,
tendo a ultima embrulhado as pernas de Marbelle, de olhos es-
bugalhados perante tudo isto, tanto, que lhe deu um fanico e
desmaiou. Os mercenario borravam-se de medo, e MauPe' estava com
um ar perfeitamente aparvalhado, insano.
As folhas metalicas levitaram os seus corpos para a nave,
parecendo atravessar as paredes... e uma pequena esfera prateada
saiu correndo a pegar no recipiente com gelo e com o penis que
estava a ser esquecido no meio desta operacao. Felizmente o
computador de bordo nao deixou passar essa falha e inteligente-
mente tomou a iniciativa de o ir buscar.
A nave mudou de cor branca para laranja, depois azul-laranja e
pulsando subiu para o ceu, desaparecendo. As nuvens pouco a
pouco dissiparam-se, o ruido habitual dos bichos da mata regres-
sou e MauPe' e os mercenarios procuravam algo histericos tentar
compreender o que se tinha passado, e principalmente o que iriam
dizer ao Dr Kananga... [ um mes mais tarde os mercenarios foram
enviados para uma missao impossivel na China, e MauPe' teve um
acidente fatal num carro que perdeu os travoes... ]
* * *
Na bloco hospitalar da nave GI e Vito estavam a ser operados
pela Villiam ( o nosso borracho azulinho extraterrestre ),
enquanto BB e o recipiente estavam numa camara de hibernacao
temporal, onde o tempo corria vinte e tal vezes mais devagar que
no exterior. Marbelle ficara deitada num salao, ainda desmaiada,
mas sem perigo. O computador Eko dirigia a nave rumo a Saturno ,
onde se encontrava a base, no subsolo de um dos satelites.
Vito "Calculo que devia estar agora em estado de choque por
estar numa nave extraterrestre, com uma linda mulher
com a pele azul... mas estou calmo, tem graca... "
Villiam "Ja'o GI estava a pensar o mesmo. De facto ia fazer a
mesma observacao ( e terminou neste momento de retirar
o ultimo pedaco de bala ) o seu amigo. Sei por so' lhe
ter faltado falar. Nao lemos pensamentos privados de
ninguem. Por uma questao moral e etica. Digo-vos isso
para que nao estranhem o contacto em Saturno conosco."
GI "Saturno ? " - esquecendo a questao inicial que ficara
habilmente eludida - " estamos a caminho de Saturno ?"
Villiam "Ali o vosso companheiro - e apontou para BB na camara
de hibernacao - esta' pior do que julgam. Alem de ter
perdido uma parte particularmente importante do seu
corpo, esta' traumatizado, com risco de ficar afectado
mentalmente com a experiencia. Tem tambem uma bala
perdida alojada no pescoco. Embora o pudesse operar
aqui, e' caso para uma especialista e equipamento mais
adequado. Alias simpatizo com este homem.
GI e Vito entreolharam-se, e sentiram-se cansados com tudo o que
havia acontecido. Villiam olhou-os como se fossem dois miudos e
deixou-os ali na sala, saindo pela porta para ir tratar de algum
assunto. Sentiram sono e cansaco, e antes que dessem conta esta-
vam a dormitar sentados, encostados`a parede. Automaticamente a
luz do aposento baixou ate'a uma penumbra suave, e a temperatura
foi aumentada em uns poucos decimos, pelo computador Eko, sempre
atento aos seus deveres de anfitriao.
Villiam " Ja'te lembras que foste salva por um 'disco voador' ?
Estas dentro dele. Sou a tripulante. Tratei ja'do teu
amigo e do outro homem. A nave esta'a efectuar a apro-
ximacao a Saturno, queres vir ver ? "
Marbelle" Porra! nao pode ser... devo estar a sonhar "
Villiam riu alto, e ainda sorrindo pegou no braco da rapariga e
ajudou-a a por-se de pe', ajeitando-lhe o cabelo e o vestido.
Marbelle tirou um espelho pequeno da malinha que veio consigo e
ajeitou a cara, pondo um pouco de baton nos labios, gestos que
divertiam Villiam. E puseram-se a andar para a sala de pilotagem
Marbelle" Como esta'BB ? tambem veio ? "
Villiam " Esta'aqui, na enfermaria. Esta' mal. Iria morrer em
meia duzia de minutos. Tem ferimentos na carotida no
pescoco, perdeu muito sangue, e esta'psicologicamente
mergulhado num inferno de caris subjectivo, e receio
um traumatismo mais serio. E'por ele que vamos ali..."
Apontava para o planeta Saturno, agora que haviam chegado ao
hall de entrada da cabine, agora transparente. Com os seus aneis
ja' visiveis, aproximava-se a uma velocidade perceptivel.
Marbelle estava maravilhada: parecia um modelo, de tal modo eram
simetricos aqueles aneis. O planeta, agora ja'do tamanho da Lua
Cheia fazia sentir a sua presenca quase pessoal, misto de liber-
tacao e prisao, num emocionante sentido de realidade diferente
de tudo que ela havia sentido ate'ali.
Villiam " E'o que chamamos de "Vida de Saturno", sente-se ate'
mesmo em orbita dele. E'maravilhoso nao e'? como a
realidade pode ela propria ser diferente em funcao
do lugar. "
Marbelle fez um "hum, hum" e choramingou uma lagrimazinha de
alegria, numa atitude mista de felicidade e respeito ( quase
medo - mas noutro "tom" ) como quando receava e desejava a
chegada do pai em criancinha, depois de ter feito alguma as-
neira, so' que aqui, realmente, nao havia comparacao.
A nave - guiada por Eko, o computador autonomo da nave, e super-
visionada por Villiam que nao deixava de reparar em alguns mos-
tradores, luzes e hologramas - fez umas aproximacoes aos aneis e
algumas tangentes`as luas de Saturno, dirigindo-se por fim para
a maior, Tita. A nave entrou em orbita aguardando instrucoes.
Villiam " Aqueles dorminhocos acabaram agora de acordar. Estou
cheia de curiosidade de te apresentar`as minhas amigas
... temos uma serie de coisas para falar, em especial
sobre os homens, " e sorriu duma maneira marota mas
muito suave, inteligente, ate'.
Marbelle" Oh, nao sei grande coisa acerca deles... " e sorriu
tambem.
Na enfermaria Gi e Vito falavam do que iriam fazer no planeta,
qual seria o seu futuro, onde estaria Marbelle, como seria a
comida, se haveria cerveja a bordo, que tal seriam as mocas
extraterrestres na cama, se haveria maneira de verem o futebol a
partir de Saturno, e por fim onde e' que ficaria a merda da casa
de banho.
Eko " Fica ao pe'da mesa lilas " e abriu-se uma porta ali.
" Nao tenho cerveja a bordo, e vao chamar merda ao caralho
que vos foda, corja de macacos, que so'pensam em foder e
cagar. "
Gi " E'pa',oh meu, tem calma, nao era para te ofender. Era so'
um desabafo. Poe-te no meu lugar. Olha se te pusessem a
tratar de construcao civil em vez de conduzir uma nave ,
tambem ficavas desorientado, e procuravas referencias ao
que fazias anteriormente."
Vito " Porra! estas a falar bem e depressa. Mas oh filho de uma
sucata! quem te manda te meteres na conversa de gente
crescida hum ? se me apetece mijar, mijo, se me apetece
foder fodo, e nao e'um monte de lata que me vai dizer
que fazer. Nao ha'pachorra! Intrometido do caralho! "
Gi (baixinho) " Oh Vito, nao o provoques, olha que estamos nas
maos dele... ate'para encontrar a casa de banho"
Mas Eko nao disse mais nada ( amuou ) e limitou-se a desligar a
sua interface de personalidade. A partir dai'pequenos pormenores
revelavam uma certa simpatia por Gi e o contrario por Vito,
p.ex. deste a torneira que deitava agua morna em vez de quente,
da toalha que encravava quando era Vito a usar,ate'`a lampada de
lavatorio que aparentava estar fundida quando era a vez de Vito
estar a lavar-se ali. E Gi por duas ou tres vezes em que isso
acontecia, notara quase imperceptivelmente um riso muito
baixo como de uma crianca, do mesmo tom de voz de Eko...
Villiam apreensiva pediu a Marbelle que se sentasse num dos ban-
cos laterais da cabine, e dirigiu-se rapidamente para o lugar de
comando. O visor que mostrava Saturno em aproximacao como se
fosse de vidro, tornou-se escuro, acinzentado. E um esquema ta-
tico substituiu a paisagem anterior. A nocao de profundidade,
apesar de evidentemente grafica, causava vertigens a Marbelle.
Ali apareciam varios contadores, mapas do sistema solar, linhas
de aproximacao a Titan ( satelite de Saturno ), estado geral da
nave. E por de tras de Saturno, um objecto estranho, em analise
pelo pequeno visor do cursor vermelho.
-- * --
Gi e Vito estavam a conversar amenamente sentados a uma mesa,
onde uma pequena refeicao quente fumegava. Ja'se haviam arran-
jado para uma boa apresentacao `as meninas de Saturno, e haviam
conseguido, depois de muita argumentacao e empenho pessoal de Gi
que o computador pessoal de bordo lhes voltasse a falar, e lhes
preparasse uma refeicao.
Vito "Estou com uma curiosidade danada de ver uma dessas Satur-
nianas descascadas. Ate'sinto o sangue mais fresco. "
Eko "Isso do sangue e'da bebida..."
Gi "Eko !?"
Eko "... mas nao e'veneno ( e riu`a gargalhada ) "
Vito "bah! se voce julga que vou perder o meu tempo a discutir
com uma maquina, desengane-se. Agora, por favor, nao se
intrometa. (tom de voz gelido e formal)
Eko "Pena... logo agora que estava disposto a falar-vos sobre
as mulheres, bem, entao ate'logo, Clik!"
Vito "...Oh pa', estava a renar contigo, hem!? tu ate'me pareces
uma coisa jeitosa, um gajo porreiro, com personalidade,
hem? hum? va'la', nao amues outra vez. "
Eko "[a ouvir mas em silencio]"
Gi "Nao te responde. Mas deixa la', ele volta. Dizias tu que a
tua especialidade e'com elas sentadas no colo. Mas viradas
para ti ou para a frente ?"
Vito "Depende da gaja. Se for fraquinha, fica com as costas vol-
tadas para mim, se for atleta, ai'o esquema e'outro, mas
ajuda ter a cama atras da cadeira para ela apoiar os pes."
E assim continuaram ate'que a nave deu um solavanco. Porque ?
bem, vejamos o que sucedeu entretanto na sala de comando.
-- * --
No ecran pequeno surgiu no rasto do cursor holografico o seguin-
te relatorio sobre o objecto por de tras de Saturno:
+----------------------------------------------+
|>Objecto nao identificado |
| Propulsao propria |
| Dimensoes: 234.234.118 |
| Velocidade: 1/3 velocidade da luz |
| Rumo: Tangente a Saturno, em direccao ao Sol |
| ATENCAO: PERIGO DE IMPACTO COM ESTA NAVE |
| DENTRO DE CINQUENTA SEGUNDOS. |
|>_ |
+----------------------------------------------+
Villiam " Aperta o cinto! "
Eko " Tomo comando ? "
Villiam " Manobra evasiva, observacao de proximidade,
perseguicao nao ofensiva, executa. "
Eko fez a nave deslocar-se muito rapidamente para baixo e
segundo uma curva apertada. O objecto passou com os defle-
ctores magneticos activados, e apesar de passar ao largo, ai'uns
dez quilometros, ainda fez repulsao.
+----------------------------------------------+
|>Nave espacial tipo AnJi 23 |
| Formas de vida no interior. |
| Perseguicao iniciada. |
| NOTA: preparar para barreira da luz dentro |
| de dois minutos. |
|>RELATORIO DE PROBABILIDADE INDICA PASSAGEM |
| DA NAVE ANJI PROPOSITADA. |
|>_ |
+----------------------------------------------+
Villiam " Aqueles cabroes...! "
Marbelle " Quem sao ?! "
Villiam " Nao sabemos. Veem a toda a velocidade de fora do
sistema solar e fazem-nos`as vezes umas tangentes a
Titan, ou`as nossas naves se se apercebem de alguma,
mas parece nao serem hostis. Apenas nao comunicam. "
Marbelle " E'boa, os OVNIs tambem tem OVNIs na terra deles "
Gi " Podemos entrar ? "
Vito " O que foi esta merda ? "
Eram os machos que depois do abanao tinham sido conduzidos por
Eko ate'`a cabine. Villiam sorriu de orelha a orelha, e molhou a
ponta de um dos dedos na boca. Marbelle olhava para Vito com
agrado.
Villiam " Olhem, queridos, estao uns borrachos. Mas sentem-se
que estamos em missao. Apertem os cintos que a gravi-
dade pode falhar. Depois ja'vos dou a melhor atencao."
E olhou em especial para Gi. Que corou. Mas sentaram-se. No
visor da nave um objecto era perseguido. De forma discoidal e
grandes dimensoes dada ja' a proximidade, uma nave amarelo vivo
seguia`a frente, sem forma bem definida, de facto cada vez com a
forma menos definida, mas mais brilhante.
Eko "LUZ em dez segundos!"
Villiam "Nao se assustem. Fechem os olhos. Sao so'uns segundos."
E a nave passou a barreira da luz. Da luz e nao so', ja' que uma
nova dimensao se tornou presente. Parecia que o espaco era
circular, ou que tinha buracos pelo meio, coisa esquisita. Vito
havia fechado os olhos para dormitar um pouco, mas sentia-se
cair no espaco numa nova especie de vertigem, enquanto Marbelle
reparava que conseguia ver atraves dos objectos, bem assim como
dentro deles, e notava luzes estranhas `a volta dos corpos das
pessoas. Gi havia perdido a consciencia.
Villiam acelerou para Warp 2 e colocou-se ao lado da nave, ten-
tando recolher o maior numero possivel de dados. Mas, como ja'
esperava, a dita *desapareceu* sem rasto.
-- * --
De novo de volta a Saturno, com destino a Titan, conversavam
animadamente do que fariam em Titan, se o casamento era valido
la', se os homens podiam ter duas mulheres, se as criancas iam`a
escola cedo, se etc etc Estavam Marbelle e Vito a discutir sobre
tudo isso, quando Villiam fez um sinal maroto a Gi e sairam os
dois pela porta.
Villiam dizia a Gi que lhe ia mostrar o quarto onde por vezes ia
dormir, embora na raca dela, isso fosse mais espacado. E enquan-
to o conduzia colocou-lhe o braco`a volta do pescoco, massajando
a orelha de Gi que estava nervoso e nao sabia bem o que dizer ou
fazer. Chegados ao quarto ela mostrou-lhe alguns objectos
pessoais, como um cinto de cerimonia, uma boneca de trapos de
crianca, uma fotografia do irmao mais novo. E sentou-se na cama,
larga, circular, ligeiramente inclinada num sentido, cruzando as
pernas e sorrindo, num olhar profundo e de profunda analise.
Gi perdeu as inibicoes e num modo jovial sentou-se ao pe'dela. E
gatinhou para o lado oposto da cama. Colocou-se atras dela e
abriu o vestido de Villiam que rebolou. Enfim, fartaram-se de
brincar, ate'que ficaram nus.
Villiam " Olha que giro. Um penis castanho. "
Gi " Hum.. como eu pensava, o azul da tua e' mais claro
que o resto do corpo. Olha tiras os pelos ou nao
tens ( e mais uma vez passou a mao pela vulva humida
provando o nectar fresco e delicioso que aquela mulher
tinha )"
Villiam mexia curiosa e excitada em todas as partes de GI, em
especial os quilhoes, que a confundiam um pouco. Por fim - e
abreviando - enlancaram-se penetrando-se suavemente fazendo amor
sem preocupacoes de estilo ou forma: deitados e em rebolico.
Villiam "Querido ?" disse ela despertando GI lentamente do seu
extase.
GI "Hummmm ? "
Villiam "hi hi hi (ria algo contida) sabes... tens de mudar o
teu nome quando chegarmos a Titan... sabes o que o som
'Gih' quer dizer entre nos (e abafou delicadamente
outra gargalhada).
GI "Hum? ah... que e'? "
Villiam "Entre as pernas, desde a zona do cu ate'ao clitoris e
passando pela vulva feminina, entrando dentro dela ate'
certa profundidade, segregamos um oleo unico e caracte-
ristico da nossa raca. Gih e'o nome do oleo, e'o nome
do cheiro do oleo, e em calao, e'lamber o oleo, o que
alias nao te soube mal como vi..."
GI "Sim... compreendo o embaraco de chegarmos ao pe'de uma
recepcao e as pessoas suspeitarem que eu tomei esse
nome devido ao uso que tive dele... ( e desatou`a gar-
galhada )
Villiam sorria, enquanto se limpava com um toalhete que tinha
movimento proprio entrando por dentro da cona dela e absorvendo
toda a "humidade", sujidade e resto. GI ( que ia mudar em breve
de nome ) metia-lhe impressao aquilo, parecia um misto de raia e
minhoca, mas Villiam assegurou-lhe ser algo perfeitamente sinte-
tico, tao natural como os pensos higienicos da MarBelle.
GI e Villiam dirigiram-se de novo ao hall que precedia a cabine
de pilotagem onde MarBelle e Vito repousavam poeticamente com os
bracos dados olhando para Titan, ja'em orbita.
Villiam "Meus Senhores, temos de mudar o nome aqui ao vosso ami-
go ja'que, deveras, a sua pronuncia em Titan e'tabu em
publico. Nada que nao se ultrapassasse, mas dado ser eu
uma mulher-tripulante, nao e'recomendavel."
Vito "Nao estou a perceber nada dessa merda. Entao o homem
tem cadastro la'na santa terrinha para nao poder usar o
seu nome de nascimento, o nome que o seu pai e a sua
querida mae lhe deram desde os mais tenros dias de
idade ?! "
MarBelle"Oh querido, deve haver uma razao para bem dele... "
Vito grunhiu. Villiam, *corou* e dominando-se ( facilmente )
perguntou se alguem tinha um nome para o rapaz. Gerou-se uma
discussao que se arrastou com argumentos e contra-argumentos por
mais de meia hora, desde a invencao de um nome, ate' usar o
apelido ou segundo nome, ou ir buscar a um parente.
( suspense )
LAGARTO mais conhecido como Lgo ( gargalhada geral, e um Lagarto
algo encaralhado com a sua ma' sorte. Porque raio havia ele de
lhes ter confessado que o seu animal domestico preferido eram as
lagartixas ?!
Lgo "Oh! que se lixe. "
Villiam "Lagarta linda, nao te chateies..."
Novo surto de risos. Vito ja' rebolava no chao a agarrar-se `a
barriga e a chorar de tanto rir, quando uma voz pousada, mascu-
lina, autoritaria mas bem-humorada ( eventualmente ) troou na
sala, como se viesse de todo o lado ao mesmo tempo, mas sem eco
e bem distinta:
Cap.Eli "Entao tencionam ficar muito tempo em orbita do nosso
astro, ou tenho de vos mandar rebocar ? "
Silencio. Villiam ficou visivelmente atordoada, nao so' pela
chamada de atencao do Capitao de dia, mas por ter reparado que
brincara e se sentira bem no seio destes humanos ao ponto de se
desligar da sua conduta superior. Isso transtornava-a. Fez um
gesto de continencia estranho e sem palavras sentou-se aos
comandos, fazendo o mesmo os passageiros, serios.
A nave acelerou e deu mais tres quartos de volta ao planeta ge-
lado, picando em direccao ao solo para uma abertura que surgiu
so'no ultimo instante, e entrou no interior do planeta. Endirei-
tou a nave no espaco discoide imenso onde penetrara e seguiu por
uma das condutas gigantescas iluminadas na rocha, por uma luz
verde, havendo outras vermelhas, rosa e azuis. Talvez sinais de
transito ou de dois sentidos. Meteu por mais uma ramificacao,
agora deslizando junto ao solo e no fundo de um tunel encostou
numa pequena gare. Sairam da nave, iluminada por uma cor branca
perola. Naquela gare estavam mais quatro naves daquele tipo, e
um lugar vago para outra que devia estar em servico. Montaram-se
numa especie de plataformas, e seguiram ate'ao enorme portal de
saida, com vidros em varias cores, como nas catedrais, dese-
nhando um oceano com um deus mitologico com um Tridente, sorri-
dente.
Ca' fora sairam a pe', e Lgo, Vito e MarBelle ficaram de boca
aberta ao verem ceu, um Sol e ate' aves a voar. O Sol parecia
mais electrico, mas nao era nenhuma especie de lampada e a sua
luz acalmava o espirito, como se fosse algo cheio de vida pro-
pria. Uma plataforma deslizou junto ao grupo com a capsula de BB
que ia ser levada ao hospital la'do sitio. Junto a Villiam esta-
vam mais duas mulheres azulinhas, bonitas de sonho e dois homens
com a graca de bailarinos mas determinacao de cirurgioes ou
generais.
Fizeram-se apresentacoes. Marbelle, Vito, Lagarto (Lgo), e BB
que ia na capsula, e do outro lado Milas, Joall, Martins e Julio
e seguiram pelo jardim a caminho de uma pequena casa terrea onde
deveriam ficar todos ate'os convidados descansarem, e ate' antes
de se fazerem perguntas e respostas como deve ser. Marbelle
ficou na casa de Milas, Villiam na sua, Martins recebeu Vito e
Lgo ficou na de Julio. Conforme combinado, pouco falaram, embora
fossem sempre corteses, e meia hora depois os visitantes estavam
todos a dormir. Explicaram-lhes que era da constituicao do ar
que lhe ia dar sono dai a uns minutos e dito, meu feito.
Entretanto Villiam foi chamada ao Capitao Eli.
Sera' que tinham suspeitado que havia fodido um homem da Terra.
Ela estava super imunizada, nao era pelo contagio concerteza. E
o Martins, aquele cabrao que nao largou os olhos da Marbelle.
Ainda ha'dois dias tinham "meditado" juntos que ate'fervera, la'
na lua da Terra, com ele aqui em Titan. Os homens eram todos
iguais em qualquer parte do universo. Querem e' novidades. Bem
(sorriu para si) isso nao e' verdade, conheco muitos outros que
nao sao como o Martins Jayciais. Mas que merda fiz eu para ter
de seguir ja'ja' para o gabinete do Capitao. O que vale e'que e'
meu amigo. Hum... um dia destes tenho de me atirar a ele.
Tudo isto Villiam ia pensando enquanto conduzia a plataforma
para os servicos do porto, Coordenacao & Comando - dizia a placa
- e virou ali parando no parque, onde ja'duas outras plataformas
estavam. Estas plataformas assemelhavam-se `as motorizadas
terrestres mas nao tinham rodas, flutuavam e podia-se ir em pe'
ou sentado, consoante se quisesse.
Caminhou pelo chao empedrado de marmore azul, ladeado por relva
cinzenta clara, de altura uniforme, natural e que reflectia na
sua humidade os raios esbranquicados do Sol interior. Chegou`a
porta, e como era de tradicao e bom costume, bateu, embora ela
se abrisse automaticamente ao reconhecer um funcionario em
uniforme confirmado.
Villiam " Posso ? " - disse. Enviando por telepatia: "
" Borrachinho lindo "
[a conversacao telepatica era sempre excluida da oficialidade e
sendo somente entre dois individuos, sempre off-record ]
[telepatia segue entre < > ]
Eli " Faz favor " < Filha, olha que isto e'serio >
Villiam passou a porta para uma entrada circular com duas outras
portas em arco `a direita, e uma janela panoramica para um
precipicio ao fundo,`a beira do qual estava o posto, isto e', a
casa. Nao ligou`a decoracao simples em tons de preto e branco da
entrada e entrou pela porta do escritorio.
La'estava Eli, em pe', atras da secretaria, e acompanhado por um
sujeito que ela nao conhecia.
Eli "Senta-te ai' se fazes favor."
Villiam "Sim, meu Capitao" - e obedeceu. Aquilo cheirava-lhe a
complicacoes. Eli costumava ser diferente...
< quem e'esse garanhao ao teu lado ? >
Eli < para-me com a telepatia, filha. Vais ver que isto
e' um dos momentos decisivos da tua vida >
Eli "Como sabes as naves de Tangor ( Sistema comunitario
que regulava Titan e muitos outros planetas, a que
aquele posto pertencia ) garantem a maior privacidade a
todos os tripulantes de naves, mesmo em servicos
oficiais. Ao fazeres entrar na tua nave seres
extra-sistemicos accionaste varios protocolos de
vigilancia que tornaram a tua nave vigiada."
Villiam "(com um traco de indignacao e um tracinho escondido de
vergonha que quase a fez corar) Mas *isso* nunca nos
disseram no curso de pilotagem, alias inclusive
tinhamos hipotese pelo regulamento de recolher seres
extra-sistemicos inteligentes em casos especiais, do
que me certifiquei bem antes de ir desencantar este
quarteto`a Terra.
Eli Villiam, querida, meteste-te numa embrulhada muito
grande, apesar de teres seguido os regulamentos para a
tua classe de pilotagem, aqui o Sr Governador de Titan
explica-te"
Eli < Para o Governador: estou a acha-la perturbada vou
avisar a guarda, pelo sim, pelo nao >
Villiam "(Pensando) " O Governador em pessoa, estou frita... "
Eli e o Governador fizeram uma pausa de modo a Villiam, de olhos
semi-cerrados e humedecidos, se aperceber da transmissao
telectrica que estava a constituir-se como sua memoria,
avivando-lhe a cadeira de medicina e psicologia do curso da
Universidade, ha'muitas decadas atras ( Villiam tinha 240 anos e
deveria chegar aos 950 mais coisa menos coisa, sendo contudo a
media os 600 devido`as probabilidades de acidentes ). Ela era
nova, algo equivalente aos nossos 19 ou 20 anos, mas
completamente diferente.
O Governador tinha a compaixao espelhada no rosto e Eli os olhos
humedecidos, pela dor que a compreensao do que ali se passava.
O caso era o seguinte, segundo a teoria e o sindroma citado: Ela
tinha um centro de energia-vida H-feminino sendo o 3.o ramo da
linha-mestra a que correspondia. Era membro de uma alma multipla
de nove elementos, cinco num mundo paralelo a -Ge*245, dois
noutro a -Ge*249 e dentro do terceiro ramo, todos neste
universo, tinha mais um alem dela, que era um dos recolhidos da
Terra. Seguia-se uma explicacao complexa, ilustrada tridimensio-
nalmente, dentro da cabeca de Villiam, acompanhada de sentimen-
tos e demonstracoes, algo cuja descricao mais aproximada e' a
quimica quantica aplicada a um desequilibrio molecular.
Dai' os lapsos que Villiam teve aquando de toda aquela
brincadeira com Gi, Vito e Marbelle ao ponto de se esquecer da
nave em orbita. Distraccao que foi analisada ate'`as ultimas
consequencias uma vez que ali os acasos desses genero eram muito
esmiucados.
Villiam compreendia agora o fenomeno. Dada a diferenca de
corpos, de niveis de inteligencia e capacidades varias, a
proximidade de Gi ( o tal irmao de alma dela ) estava a causar
uma reaccao semelhante a dois polos numa pilha. Ele ganhava
consciencia e harmonia, mas ela comecaria por ter lapsos,
eventualmente perigosos, iria sentir o seu controlo emocional
e psicossomatico ser irresistivelmente atraido por Gi e acabaria
eventualmente com problemas psiquiatricos, raiando a loucura.
Villiam viu tambem a solucao para esse problema e percebeu a
razao da presenca do Governador e de Eli, afinal ali mais como
seu amigo que como Capitao de Frota.
{ Ou seja, esta merda - complicada como o caralho curvo - diz-se
em calao, simplesmente: a gaja estava apaixonada por Gi duma
maneira que ja' a estava a fazer-se passar dos cornos. }
Mais uns momentos se passaram ate' que Villiam encaixasse
emocionalmente o que acabava de perceber. Vieram-lhe`a memoria
as caricias e as sensacoes gostosas do amor que fez na cabine
com Gi e, incontrolada - mais um indicio da gravidade do
problema - comecou a chorar, caindo-lhe lagrimas pela face, que
se mantinha contudo fina e composta, numa atitude de dignidade.
Eli "Desculpa mas o tempo e'precioso para que possas tomar
uma decisao imparcial. Temos dois caminhos, duas opcoes
a seguir. Ou provocamos a morte a Gi, o que dentro da
autoridade do Governador e' possivel, ou temos de vos
juntar aos dois, mas reduzindo-te *a ti* ao nivel
mental e emocional dele, enfim, com melhoramentos
apesar da semelhanca. Nao podemos e'deixar-te assim."
Govern. "Pode crer que pelo poder e creditos objectivos de que
estou formado e autorizado pelo Imperador, e tambem
pelo nosso novo Presidente da comunidade de Tangor [
isto quer dizer: o Governador e' tambem sacerdote mas
dos fenomenos ditos "objectivos" ] posso fazer essa eu-
tanasia considerando que voce, cara Villiam vale trinta
vezes mais em termos humanos e de recursos que esse
terrestre Gi, em *todos* os aspectos.
Villiam "Quanto tempo tenho para decidir ?"
Eli "Lamento, mas menos de dez minutos, para que a decisao
seja verdadeiramente imparcial e logica. Talvez queiras
ir la'para fora pensar..."
Villiam "Sim, sim, obrigada"
E saiu para a entrada decorada a preto e branco. Aproximou-se da
janela e apoiando-se sobre os ombros olhou a paisagem. La'ao
fundo uma queda de agua rodopiava sem chegar a cair na terra,
devido`a gravidade artificial do posto, rodeando o desfiladeiro
como um anel magico lilas, aqui e ali misturado com lama
vermelha. Pensou no que tinha sido a sua vida, da sua paixao
desmedida pelo Espaco, pela carreira de pilotagem. Lembrou-se
dos pais e do irmao mais novo de que tanto gostava, todos eles
desaparecidos quarenta anos atras numa estrela com que a nave
embateu devido a um erro de navegacao que nao previu a presenca
da materializacao na rota de um super-feixe ( fenomeno raro
celeste ) que declinou a nave contra uma estrela. Pensou no seu
futuro. Pensou nas meditacoes que tinha com a sua nave em orbita
de um Sol, nas correspondencias sexuais ( telepaticas ) que
tinha com os seus amigos, na sua vida social fisica, etc
Por outro lado ja' se lhe fazia sentir o "outro lado", a outra
opcao. Mais primitiva, mais animalesca. "Porra!, nao e'que
aquela foda me viciou mesmo no fulano ?" Sentia uma excitacao
menos espiritual, menos harmoniosa, mais fisica, bruta, ardente,
tudo sentimentos que numa Tangoriana nao eram de facto de bom
agoiro, como juntar algo muito frio e afinado, a algo vulcanico
e explosivo. De facto ela estava com o sindroma. "Bolas! a
probabilidade de dois individuos H se juntarem e'de um para 5764
milhoes, e logo tinha de ser com alguem primitivo... mas oh!
como me atrai... de facto tenho de decidir.
Ou ele morre e daqui a dez dias ja'ando a pilotar outra vez a
minha nave em missao, equilibrada e livre como mulher
desinibida, ou reduzem-me`a condicao humana ate'que Gi morra de
morte natural. Uns... cinquenta anos como humana. Tambem nao e'
muito, afinal aquele fodilhao timido e'como se fosse minha alma
gemea, e'capaz de ser divertido... e excitante, eh eh. Oh! mas o
coitadinho envelhece e morre, e eu fico amnesica durante 50 anos
de tudo quanto conheco de Tangor... Porra! que indecisao.
[ que ira'Villiam decidir ? Voltarao`a Terra ? BB ja'tera'um
penis novo ? Irao MarBelle e Vito ficar por Titan ? Hum ?! ]
La'dentro, na sala do capitao, outra conversa, menos hesitante,
se desenrolava. O capitao Eli e o Governador de Titan, a maior
parte do tempo calados, e na expectativa, haviam comecado a
trocar pontos de vista:
Eli "... se ela decidir, pelo que conheco dela, em ficar em
servico de Tangor em vez de ir la'para a Terra com esse
gajo com um nome tao ortodoxo ( e sorriu ) acha que nao
lhe ficarao residuos desta situacao que a ponham emoci-
nalmente instavel, de tempos a tempos ? "
Govern. "Sendo a decisao dela numa base voluntaria, tenho a cer-
teza que apenas lhe restara' uma lembranca agradavel, e
constituira'uma prova de emadurecimento. Alias tendo em
conta isso, tenciono recomenda-la para uma promocao que
lhe vai permitir passar de piloto isolado a lider de
fragata IID, o que ja' tem responsabilidade sobre uma
tripulacao de seis pessoas. Sei que e'um dos sonhos de-
la, contudo, saber isso iria desiquilibra-la. Resumindo
a coisa deve ficar ao nivel de juntar na sua cabine
pessoal uma fotografia desse tal GI ( e sorriu ) eh eh
de facto que raio de nome!
Eli "... de facto, nao lembrava aos infernos de Roan meter
esse nome a alguem... mas voltando ao assunto, se me
permite... ( O Governador consentiu com a cabeca ) ...
e se ela quer mesmo ir com esse fulano ? ha' toda uma
serie de questoes tecnica e de protocolo interestelar a
resolver, alem do mais ainda se poe a fornicar meio
planeta e temos o caso dos filhos...
Govern. "Capitao, vou confiar-lhe elementos confidenciais do ni-
vel T2, confirme."
Eli "Eu, Capitao do sector M14 do planeta Titan do ramo
RM23A2 de Tangor, estou preparado para receber e guarda
dados confidenciais, T2 do Governador em exercicio nes-
ta data de Titan. "
XXXXXXX "Declaracao registada. Posicao definida. Niveis de segu-
ranca estabelecidos. Processo com o numero aleatorio
unico: U02252. ( computador do posto )
Eli "Sim, Mengor Mali compreendo agora a necessidade de
sigilo. Queres estudar a velha questao da multiplicida-
de energetica. Bem, e' decente darem-lhe a decisao
voluntaria a ela com tanta coisa em jogo."
XXXXXXX "Processo U02252 terminado. Obrigado."
Eli "Bem esta'na hora de ela aparecer com uma decisao."
Govern. "Sim, mas e' importante que decida apenas e somente
baseada nos seus criterios e experiencias pessoais"
E aguardaram mais cinco, seis minutos. A porta entretanto tocou
e anunciou-se Villiam, que entrou logo a seguir, com uma cara
algo apreensiva, olhos de quem chorara, mas determinacao na voz:
Villiam "Decidi. Quero continuar o que me parece mais natural.
Quero prosseguir o que tem sido o fogo e o sentido da
minha vida, pelo qual lutei e sofri desde pequena.
Quero ser piloto de Tangor, ao servico de Titan. "
Era indirectamente a condenacao`a morte de GI que por coinciden-
cia nao estava a reagir bem ao ar de Titan ( apesar de artifici-
al ) e ao contrario dos demais, Vito e Marbelle, nao despertara
entrando mesmo em coma, no preciso momento em que Villiam fazia
esta declaracao.
Julio, o Tangoriano que tinha recebido na sua casa GI, estranhou
o comportamento do seu convidado, que nunca mais recuperava e
telefonou ao hospital, enquanto avisava os amigos de GI para
virem depressa ate'ali, que o seu amigo estava em perigo de vida
grave. Estavam Vito e Marbelle a chegar ao apartamento de Julio
quando no monitor junto a GI um alarme de paragem cardiaca soou.
Um pequeno relatorio escrito indicava a probabilidade de recupe-
racao cardiaca: 3% e a diminuir, causa: comatoide por inadapta-
cao profunda ao componente Argon 23 do ar explicacao: acumulacao
de radiacoes estranhas aquando cruzamento com nave alienigena
antes de chegar a Titan. Estado legal: morto.
Vito, estava aparvalhado. Marbelle chorava nos seus ombros e a
equipa medica que entretanto chegara, limitou-se a fazer alguns
testes com aparelhos estranhos, mas sem exito. O paciente nao
respondia, estranhamente, mas nao respondia. Nao havia nada a
fazer, Talvez por a constituicao nao ser tangoriana...
BB abriu os olhos, quase que gritou, vieram-lhe suores frios por
todo o corpo, levantou-se da marquesa e esbugalhado olhou para
os dois personagens de pele azulada que tinha`a sua frente.
BB "Foda-se ! que raio de merda e'essa ?" disse apontando
para a pele deles, mas esquecendo-se do seu trauma
pessoal, ao fim ao cabo o apoio psicologico resultara ja'
um pouco. Tinham-se e' esquecido do pormenor da pele.
Ela "ah.. gaita! ainda bem que nao esta'aqui o supervisor. Eh
pa' tratamos-lhe dos ferimentos e colocamos no sitio uma
coisa que lhe pode vir a dar jeito... nao queremos como
ve senao ajuda-lo e o facto da pele ser azul nao e'
doenca...
Ele "Pois nao. Apalpe antes de mais o caralho, homem! entao
nao se lembra ?
BB "Fogo! Eh... Yupii!!" disse ja'sorridente BB depois de
meter a mao dentro da bata e tactear o penis unido aos
quilhoes.
Ele "Voce esta'num hospital fora da Terra, dentro do sistema
solar nativo ainda, num posto num satelite de Saturno .
Foi recolhido por uma das nossas naves numa altura em que
nao tinha qualquer esperanca de vida. Entende ?"
Ela "Mas vai ver que se vai dar bem por aqui, e tera' agora
concerteza momentos agradaveis..." disse sorrindo com tom
maroto e insinuante.
BB caiu em si. E pensou `a velocidade do relampago. Estava a
lembrar-se da emboscada e duns sons estranhos, e de ter sido
transportado semi consciente para uma camara e depois... mais
nada. Despertara ali. E os outros ? Estaria sozinho ?
BB "E... digam-me, se fazem favor que e'feito do resto do
pessoal que estava comigo aquando do vosso... embarque ?"
- Falava agora com seguranca na voz enquanto se vestia
com as suas roupas, lavadas e cozidas, que estavam ao pe'
em cima de uma cadeira.
Ele "Vito e Marbelle estao bem, mas GI parece nao estar a
recuperar, receamos mesmo estar a perde-lo."
Ela "Infelizmente o rapaz esta'a ser vitima de um sindroma
'decarmiano' onde apesar de toda a logica e tecnologia
nao se consegue ter efeito sobre o paciente."
BB "Hum... nao pode ser! tenho a certeza que havera' alguma
coisa que possa ser feita. Acho essa historia muito es-
tranha." e utilizando os seus conhecimentos terrestres de
marketing e gestao de empresas, comecou a ganhar um certo
`a vontade com os dois jovens assistentes, concerteza
jovens estagiarios.
Ele "Bem... ah... podemos manter a circulacao sanguinea, a
irrigacao do cerebro, e mais umas coisas, mas isso sao
processos primitivos, temos uma maquina - portatil - que
diagnostica e resolve todas essas situacoes, deixe
ver..." e dirigiu-se a um terminal extraindo um relatorio
recente. E passou-o a ela.
Ela "Pois e'. Acabam de aplicar a tal maquina que lhe falamos
ao seu amigo GI, sem resultado. Sindroma 'decarmiano'.
Lamento mas legalmente o seu congenere esta'morto..."
BB "O que ele disse, pode ser feito ou nao ? "
Ela "O que ? "
BB "Manter a irrigacao do corpo."
Ele "Sim, mas isso acaba sempre por degenerar em outras
complicacoes, desde paragens organicas ate' dores
terriveis, ... nao iriamos fazer isso a ninguem! "
BB "Olhe, eu sou o responsavel por esse GI, sou o seu chefe
e dono, e nao so'autorizo como quero que o mantenham vivo
ate'eu falar com quem manda aqui." - disse, exagerando as
reaccoes emocionais e mentindo o necessario,coisa que nao
passaria pela cabeca de um tangoriano, pelo menos um sem
experiencia da Terra...
Ele e ela olharam-se e chamaram o seu supervisor. Puseram-no
rapidamente a par da argumentacao de BB e da sua posicao
emocional e relativa a GI. O supervisor, estranhou ali qualquer
coisa mas achou por bem prosseguir ate' perceber melhor a
historia. Deu ordens aos seus pupilos para improvisarem
rapidamente uma maquina de circulacao arterial, e pediu um
transporte de emergencia para o local onde GI desfalecia, com
uma capsula retardadora do tempo. Precisava de ganhar tempo,
antes que a paragem cardiaca surgisse e o cerebro se lesionasse
devido`a falta de oxigenio.
---*---
-> Vito, estava aparvalhado. Marbelle chorava nos seus ombros e
-> a equipa medica que entretanto chegara, limitou-se a fazer
-> alguns testes com aparelhos estranhos, mas sem exito. O
-> paciente nao respondia, estranhamente, mas nao respondia. Nao
-> havia nada a fazer, Talvez por a constituicao nao ser
-> tangoriana...
Eis que entram de repente na sala dois enfermeiros, com uma
capsula a levitar no ar, pegam em GI e colocam-no dentro, fe-
chando a tampa de imediato e ligando o dispositivo temporizador.
A tampa, de vidro, tornou-se espelhada e uma luzinha comecou a
piscar, por cima da capsula. Isto foi tao rapido que Vito,
Marbelle e acompanhantes estavam a fechar a boca do espanto,
quando o procedimento terminou.
Explicaram-lhes que o hospital ia manter GI vivo artificialmente
ate'terem ordem para desligar a maquina, ou alguma solucao sur-
gisse. E meteram a capsula na ambulancia, que arrancou com tal
velocidade pelo ar que para a vista humana foi como desapa-
recesse e de repente se materializasse junto ao hospital. Vito e
Marbelle dirigiam-se para la'.
BB teve uma longa conversa diplomatica com o Governador, e o
capitao Eli. Villiam ainda nao sabia de nada destes aconteci-
mentos pois tinha ido em missao a Plutao. GI estava ligado a uma
maquina com coracao artificial, pulmoes, rins, etc mas
continuava a nao despertar, embora estivesse vivo. Vito, BB e
Marbelle nao saiam do hospital, e aquela agitacao e apegamento
comecava ja'a afligir os tangorianos, pois a noticia havia-se
propagado pelos jornais e radio de Titan. Imagens ainda nao
havia. Era normal nao filmarem as pessoas em casos destes.
Tinham respeito. BB havia conseguido com a sua diplomacia a
palavra do governador de que nao desligavam a maquina enquanto o
corpo de GI aguentasse por si o mecanismo. Contudo ficara
acordado nao o operar mais em caso de complicacoes...
Eis que em Plutao, depois de cumprir a sua missao de vigilancia,
Villiam Claudine liga o terminal e pede um resumo, como era
habitual, das ultimas noticias, enquanto se preparava para tomar
um banho, ja'que o trabalho fora cansativo. E estacou com o
sabao na mao, quando ouviu a historia de GI e dos seus
companheiros. Paradoxalmente, o facto irritou-a. Estava a ficar
farta dos problemas que aquele GI, simpatico ou nao, lhe estavam
a provocar na sua vida organizada e independente. Alias nao ia
admitir a nenhum homem, viesse ele de onde viesse, e fosse ele
quem fosse, o ascendente que aquele gajo comecara a ter nela, e
dito isto pensou nos conselhos da sua maezinha, ha'uns seculos
atras. Terminou calmamente de tomar banho e de ouvir o resto do
noticiario, e dirigiu-se para Titan onde apos as formalidades do
astroporto e do relatorio da missao, teve uma conversa com o seu
capitao (Eli) onde afirmava estar segura de si em relacao ao tal
caso do terrestre e que queria a situacao normalizada, que ela
tratava do resto. Passado umas horas Eli comunicava-lhe que
tinha autorizacao superior ( que esta situacao ja'comecara a dar
dores de cabeca ao Governador ) desde que se sujeitasse a um
teste cientifico dali a uma semana. O que e' certo e'ter GI -
passado pouco tempo desta posicao oficial - ter vindo a si,
recuperando a consciencia. Foi uma festa e um alivio nao so'
naquele hospital como em Titan. Ficaram assim todos populares e
BB pensava ja'em verificar o funcionamento urgente do seu penis
renovado. Era agora a sua prioridade.
E'tarde. Marbelle de fato de dormir, e Vito em tronco nu, e
calcoes desportivos, falam com GI a proposito de uma visita
proxima fora do sector especial onde ate' entao tinham estado
confinados. Comentavam agora BB, que mais uma vez estava ausente
e nao era esperado.
Vito "Esse cabrao afinal bem te pos os cornos ca'duma maneira
que se nao fosse o facto de ele ter movido ceus e terra
para te salvar, eu proprio lhe partia a cara ! "
Marbelle"Sao coisas que acontecem, querido... sabes bem que`as
vezes nao somos donos do nosso coracao, e tu GI tem
esperanca que has-de encontrar alguem, e nao e'verdade
que ela te deteste. "
GI "Oh nao sei, nao sei. Nao a percebo. Parece que no fundo
nos entendemos optimamente, mas na pratica sai exacta-
mente o contrario. E, Vito, ja'te disse, e redigo, que
ele nao a esta'a obrigar, que sao pessoas livres, e que
lhe devo a vida, de modo que estas a ver... nao ha'nada
a fazer, e'a vida."
Vito "E'a vida, o caralho! se esse filho da puta tivesse tra-
voes nos quilhoes e'que fazia bem. Qualquer dia salva-
-me a vida e tenho de admitir que me foda a miuda nao
?! um favor desses nao preciso: vida paga-se com vida
e um dia lha salvaria tambem. Olha a merda ah ?! mas tu
gostas de ser corneado ou que ?! "
Marbelle deu-lhe um beijo terno na orelha, na cara e depois nos
labios, e Vito voltou a acalmar-se. Despediram-se, e foi cada um
para o seu quarto, enfim... Vito foi acompanhar Marbelle ao seu
de onde se ouviam risos e ruidos tipicos... GI olhava deitado e
triste para a janela, com uma projeccao das estrelas como
estavam a ser vistas na superficie de Titan, e antes de
adormecer, chorou mais um pouco. Coitado. Havia ja'semana e meia
que nao mexia em computadores e a privacao custava-lhe. Alem do
mais aquela historia de Villiam e BB tambem nao ajudava nada.
Era BB que chegava a casa, pela primeira vez desde ha' varios
dias. A Villiam fizera-lhe a desfeita de o deixar ali depois de
terem dado um passeio algo distantes um do outro, para no fim
lhe dizer que precisava ver um grande amigo seu, que ontem tinha
conhecido melhor `a noite, quando ele, ela e o tal Capitao Eli
haviam jantado. Fartaram-se de rir e fizeram um esforco por nao
abordar temas fora do contexto cultural do convidado - que foi
assim que acabou por se sentir - e hoje pelo que percebia, a
fulana preparava-se para trocar mais uma vez de par. BB meteu a
chave `a porta, um cartao, e entrou. Estacou ao ver o interior
todo escuro como breu. Tinha graca que a luz de fora, terminava
bruscamente, nao iluminando mais que os seus pes ainda na
soleira. Interessante a habilidade destes gajos para manejarem a
luz, pensou. Fechou atras de si a porta, e ficou ali uns minutos
a organizar as ideias e emocoes, enquanto habituava os olhos `a
escuridao, que afinal dava para ver bem os contornos e objectos.
Descalcou as sapatilhas, tirou o casaco, e dirigiu-se atraves do
hall para subir ao seu quarto, pois ja'eram dois dias seguidos
que nao parava nem dormia. Podia ter acabado a festa, mas valera
a pena. E deu um saltito de susto ao ver mexer-se um semblante
no meio do hall. Era GI que descera as escadas e vinha ao seu
encontro. Chatice, pensou. La'ia ter de aturar criancices de
bezerros mal desmamados.
GI "Oi, BB gostava de falar contigo, e nao e' para te
chatear. Pode ser ? "
BB "Oh pa! Claro, senta-te ai'nessa almofada, que eu
encosto-me aqui`a parede. Entao como teem passado por
aqui ? e tu, nunca mais apareceste... "
GI "Vai-te foder com essa do nunca mais apareceste. Sabes
bem que a gaja nao me pode ver. Que se lixe, ja'te dei
a entender que nao levo a mal o que sucedeu e que me
sinto agradecido pelo apoio que me deste no hospital.
Mas nao e' bem sobre isso que preciso de conversar.
Mas... diz la' tens-te divertido `a grande nao, meu
cabraozinho ?"
BB "Eh Eh, como queiras. Sim de facto, e como tambem
sabes, aquela gaja e'uma foda de primeira, alem de ter
uma presenca pessoal e de espirito invulgares e...
bem, sabes que fui operado, e me compuseram o caralho
que ficou melhor que novo. E'que ficou mesmo, consigo
aguentar muito mais do que antes de mo terem cortado.
Imagina que ao fim de um quarto de hora de fornicar os
espasmos que sinto percorrem-me o caralho aumentam
cada vez mais da base`a cabeca do caralho, so'que em
vez de me vir logo ai',continua-me a aumentar o prazer
e a ganharem intensidade ate'que entro numa especie de
extase, e so' la'ao fim de meia hora nisto, ja' nas
nuvens e'que num misto de alivio e consumacao venho ai'
por baixo, literalmente e figurativamente. As vezes
da-me a sensacao que eu sou ela e ela e' a minha
pessoa, numa troca de identidades.
GI "Gabarolas! Poupa-me esta'bem ?! olha, na volta estas
a ter espasmos femininos, e vais-te tornar uma bicha
ah ah ah ah, ( riu baixinho GI para nao acordar nin-
guem ). Mas oh BB, que se passou hoje contigo para
estares tao cedo ca'na cabana ? "
BB "Oh! aquela cabrona agora tem os cornos virados para um
tal capitao Eli. Acho que fazem amor por telepatia
quando estao longe em missao, so'que depois de ter
provado a coisa em bruto, esta'com curiosidade de a
experimentar tambem com o amigo. Deve ser isso. Teve a
lata de dizer que tinha de me levar a casa pois tinha
um encontro para hoje com o seu capitao preferido, e
depois riu-se, filha da mae... "
GI "Pois e'..."
BB "Mas diz la'o que queres do pai, meu filho ( disse em
tom de brincadeira gozona )"
BB "Estas a precisar de ir ao medico sim. Nao... a serio,
acho melhor falares isso tudo, ate'mesmo usando as
mesmas palavras, ao nosso supervisor, o Julio Batam.
Pode ser que ele te arranje o que pretendes, mas nao
te compreendo muito bem. Vives dentro dos computado-
res ? Andas com tonturas ? e'...amanha trato ja'de ti,
falamos com ele. Agora desculpa-me mas vou-me deitar
que estou cheio de sono. A Marbelle tem ando bem ? "
GI "Oh sim... anda maravilhada com os electrodomesticos da
casa, da limpeza automatica, mais com os arranjos na
nossa roupa original, mais umas adaptacoes nos trapos
que nos deram para vestir. E depois sabe dar-se bem
com o Vito, sabes... o namoro continua."
BB "hum, hum, bem... boa noite"
GI "... quem anda do avesso contigo e'o Vito, depois te
conto, boa noite. "
No dia seguinte levantaram-se os tres cedo chamados por Marbelle
para o pequeno almoco. Vito estava bem disposto da noite, e ate'
sorria, de modo que nao meteu conversa com BB, nem falou muito.
Tinha saudades de ir`a caca, da sensacao de ter uma arma na mao,
dos projecteis polidos, do cheiro a polvora. GI desculpou-se e
levantou-se ao fim de pouco tempo, "para ir tratar de uns assun-
tos com o supervisor", e BB levantou-se tambem, alegando que o
queria acompanhar, e que ia ver se era possivel arranjarem um
arma qualquer para Vito praticar o tiro. Vito levantou o
sobrolho e grunhiu um " agradecia ". E la'sairam.
Encontraram Julio Batam no seu escritorio, onde geria a chegada
das noticias, publicacoes, etc e supervisionava a sua cataloga-
cao automatica em funcao da base da dados personalizada dos
destinatarios. E via o que estava dentro dos seus campos de
estudo e investigacao: biologia, mineralogia, feixes miliares,
oceanos e sistemas perifericos da galaxia. Atendeu os visitantes
e ouviu os seus problemas. Explicou-lhes novamente que nao
podiam falar e andar abertamente no meio de Titan devido nao `a
sua condicao de extra sistemicos, mas para evitar choques cultu-
rais, que os poderiam marcar. Estava contudo a organizar uma
pequena excursao devidamente cuidada, e contava poder arranjar
um arco e flechas para Vito se ir treinando. Sim, havia disso na
biblioteca central, que possuia nao so'os livros, mas muito do
que neles era abordado, ou imagens/filmes sobre eles.
Achou GI realmente mal, e disse que ainda nessa tarde mesmo, ia
pedir a um dos especialistas em Terra e terrenos, que falasse
com GI. Depois se veria do computador. Deu a entender que esses
especialistas eram seres que apesar de tangorianos, eram de uma
estripe especial, e que logo veriam. Eram ao que parece demasi-
ado especializados e eficientes, e estavam a chegar cada vez
mais para estudar a Terra ao abrigo de um projecto de investiga-
cao de Tangor.
GI e BB deram um passeio curto, de poucas palavras, e conversa
de chacha, e dirigiram-se para casa para almocar. Vito ficou
encantado com a promessa do arco e flecha, e falaram todos dos
seus tempos na Terra, da xxxx-BBS, e do MV. Mal pronunciaram a
palavra (MV) calaram-se como que arrepiados de receio/respeito
e comeram o resto em silencio. Que teria MV pensado da sua
subita desaparicao da cena ?
Enfim, depois do almoco GI dirigiu-se ao jardim onde`as 26h30
TMT ficara de se encontrar com um desses super cientistas ou
filosofos que eram estudiosos e especialistas em Terra.
Ouviu um estalido e reparou num fulano que surgira a uns tres
metros dali, do nada, ou de tras de uma das arvores. Parecia uma
daquelas imagens de Jesus Cristo, alto, olhos de expressao
profunda, cor azul violaceo, labios finos mas determinados,
nariz muito bem enquadrado e discreto, tal como as orelhas, e de
cabelo castanho aloirado bem arranjado, mais para o comprido que
para o curto. Os tangorianos tinham um certo jeito de se
mexerem, uma historia de muitos seculos e tradicoes atras dos
gestos mais simples, um pensar caracteristico, mas este homem,
reconhecia-se intuitivamente, era algo mais que um Tangoriano,
pois havia diferencas que denotavam uma outra origem ou ramo
fosse ele cultural ou de origem etnica.
GI "Viva. Chamo-me Gi... calculo que seja o Shaki Somali ? "
Soma. "Como esta' ? podes tratar-me por Soma, para os amigos.
Parece que andas com problemas existenciais devido `a
falta de computadores ? "
GI "Ja' lhe contaram ? nesse caso esta'a par do meu anseio ?"
Soma. <silencio>
GI "ah... sempre adorei trabalhar com computadores, manusear
a logica misto de abstracto e de pratica consequente que
envolvem essas maquinas. Sinto esse ambiente como algo
familiar, em oposicao ao mundo que e'menos aliciante..."
Soma. "hum, sim, um loggie. Nos EUA na Terra ha' muitos casos
desses. Isso e' desequilibrio psicologico meu rapaz.
Precisas de viver mais as coisas objectivas, sair,
conviver. Principalmente isso, conviver. Mas pelo que ja'
conheco dos loggies, estes conselhos sao escusados. Vou
pedir para a vossa vivenda um terminal. Trazem-no da
Terra daqui a um ou dois dias. "
GI "Oh! - sorriu GI de orelha a orelha - fico imensamente
agradecido ao Soma.! creio que me compreende. De facto e'
um bom especialista dos terrenos!... mas se possivel qual
o interesse que o nosso planeta tem para pessoas como o
Soma ? parece-me alguem completamente acima de tudo o que
conheco."
Soma. "O GI deve pensar que sou parecido com aquelas suas
imagens religiosas de Jesus Cristo. Faco parte de um con-
junto de seres, pessoas de bem, que atingiram uma fase
mais avancada da evolucao da Vida, e apesar de sermos
Tangorianos, por nascimento, somos filhos das estrelas e
a nossa patria e' o universo. Pode denominar-me de
iniciado, iluminado, mestre, adepto, enfim, enquadra-se
um pouco dentro dessas nocoes terrenas. A Terra e' um
local, bom local, para estudo sociologico e geral, e e'
optimo tambem para aprendizagem pessoal. Mas um dia,
daqui a umas decadas, ja'compreenderas bem tudo isso.
Antes que perguntes, e para finalizar o nosso encontro,
digo-te que o facto de teres sido trazido para aqui da
Terra, mais os teus companheiros, deve-se a serem cria-
turas especiais, e boas no fundo. Irao daqui a uns tempos
para um planeta apropriado onde a civilizacao admite e e'
hospitaleira, aos extraterrestres. Tem um desenvolvi-
mento semelhante ao da Terra, mas sem guerras, nem
grandes perturbacoes sociais. Adeus, meu irmao do
universo, a paz esteja contigo."
E dito isto a imagem holografica ou o que era de Somar desapare-
ceu com um estalido ficando curiosamente o cheiro a rosas. GI
sentia-se melhor, mais equilibrado e curiosamente continuava com
o mesmo problema, mas desta vez com solucao `a vista. E mais
leve, puro e contente, ficou ainda um bocado ali a relaxar e
pensar no que lhe tinha sido dito, mas principalmente a
reflectir sobre o modo como as coisas tinham sido faladas.
---*---
Na Terra haviam ja'passado tres semanas desde o desaparecimento
de BB, Marbelle, Vito e GI. MV que era mais chegado a Vito e a
Marbelle comecou a estranhar a sua ausencia.
Depois de muito pachorrentamente esperar que dissessem alguma
coisa, comecou a impacientar-se. Gaita. Tinha de se levantar da
almofada. Estava ali em meditacao supra ha'meses, parando de
dois em dois dias para mexer o braco esquerdo e beber um litro
de agua. O alimento extraia-o do ar, e dos sais e minerais da
agua da fonte que se encontrava na parede da cave onde se
encontrava no escuro. Dali, atraves de tecnicas de projeccao e
outras habilidades parapsicologicas dominava uma boa parte das
comunicacoes e computadores dos seus sistemas e BBS. Infe-
lizmente nao dava para teclar `a distancia, pelo que a manuten-
cao estava entregue a terceiros.
Porra! tinha mesmo de se levantar da almofada. Onde e'que esses
gajos se teriam metido que nao atendiam o telefone, nao os loca-
lizava em parte alguma ?
Um pequeno programa ligado a luzes, ar condicionado e a tornei-
ras comecou a funcionar, pelo poder mental de MV. A FORCA estava
com ele, mas ainda em baixo grau. Dava para ver alem do sitio
onde estava, sentir a harmonia universal, e premir meia duzia de
botoes`a distancia. E tambem apertar uns quilhoes remotamente
facto que provocava um terror indescritivel a quem ouvia falar
dele, pois curiosamente conseguia fazer essa habilidade melhor
que as outras. Influencias dos filmes da Guerra das Estrelas,
provavelmente. Era ve-lo entrar num local, mal disposto por
alguma coisa estar a funcionar mal, e os seus colaboradores a
rebolar no chao com os quilhoes premidos como se por tenazes.
Passado duas horas, a sala estava fracamente iluminada, a
temperatura era amena e o banho estava pronto. E MV levantou-se!
Se as pessoas soubessem tremeriam de pavor pelas suas partes
intimas, mas nao sabiam. Tomou um banho. Cortou a barba, as
sobrancelhas, e as unhas, e foi `a terceira sala daquela cave,
(quarto com almofada e fonte, sala de banho/cozinha, outra sala)
que estava fechada, tendo um teclado com codigo na parede que MV
premiu e fez destrancar a porta. Um pequeno silvo de ar saiu
pela frincha que se abriu, devido`as diferencas de pressao. E MV
entrou no elevador que o iria levar ao piso superior, dez metros
acima, sobre este abrigo atomico e lugar de meditacao, onde MV
passava cada vez mais tempo, por periodos de meses a fio.
MV ia ver o que se passava. La'fora era noite. Quatro da manha.
[...]
A-rasquinha saiu pela porta do elevador mal este chegou a cima,
e correu para a casa de banho, pela segunda vez em vinte
minutos. Era o metabolismo a adaptar-se ao movimento, tempera-
tura, e a um conjunto de coisas que criavam o ambiente carac-
teristico da superficie, e da actividade, que iam desde os
cheiros ao som do vento a rodear a casa. La'em baixo, era o
sossego total, nao havia nada disto.
Mas MV, depois de mijar, voltou resoluto para a resolucao do seu
problema, que era localizar Vito e Marbelle, de que nao fazia
ideia do paradeiro. Foi ver a sala dos computadores. Aparente-
mente tudo bem; relatorios e estatisticas Ok. Dali era feita
automaticamente parte da manutencao da xxxx-BBS, mais dois pro-
jectos confidenciais e secretos ainda para o mundo, sementes de
investigacao. Verificou se havia mensagens para ele no computa-
dor da parte de Vito ou Marbelle, ou no atendedor de chamadas ou
na caixa de correio, mas nada de nada. Aquela vivenda ali perto
da floresta, ao pe'da serra de Sintra, era conhecida de muito
pouca gente. E o telefone so'o tinham os seus colaboradores
directos. No computador haviam 351 mensagens para ele mas em
nenhuma o nome de um dos procurados existia no texto.
Fechou a porta depois de sair. Desta vez dirigiu-se para um
escritorio amplo, no primeiro andar, com uma mesa grande em pau
preto, forrada a veludo cinzento. Puxou a cadeira, abriu uma das
gavetas e tirou um pendulo metalico, um atlas, caneta e papel. O
pendulo era uma das suas habilidades desconhecidas. Entrava num
estado de concentracao medio, formulava uma pergunta que tivesse
uma resposta binaria, tipo, sim-nao, Norte-Sul, Este-Oeste e o
pendulo oscilava rodando num sentido para o sim, e no outro para
um nao. Colocou no papel a primeira pergunta:
MV < Vito e Marbelle estao perto ? >
pendulo <nao>
MV < Estao a Norte desta casa ? >
pendulo <nao>
MV < Estao a Oeste desta casa ? >
pendulo <nao>
MV < Estao em Portugal continental ? >
pendulo <nao>
MV < Estao na Europa ? >
pendulo <nao>
MV < Estao fora da Europa ?! >
pendulo <nao> - esta comecou a baralhar MV
MV < Estao numa fronteira ? >
pendulo <nao>
MV < Estao uma zona internacional ? >
pendulo <nao> - MV estava a ficar com duvidas se o pendulo sabia
rodar noutro sentido, e a ficar sem mais pergun-
tas. Recapitulou.
MV < Estou sentado ? >
pendulo <sim> - ah!
MV < Vito e Marbelle estao a Sul e a Este desta casa ? >
pendulo <nao> - ah... Porra!
MV < Estao... vivos ?... >
pendulo <sim>
MV desistiu do pendulo. Arrumou-o dentro do estojo, depois de
ter durante cinco minutos terminado o estado de concentracao e
agradecido `as forcas da natureza que atraves do pendulo respon-
diam sempre infalivelmente`as questoes. Houvera ha'anos uma oca-
siao em que se esquecera de agradecer, e ficara sem pendulo du-
rante seis meses, ele nao rodava, ficava pendurado, como um
penis impotente. ah... pronto, la'estava a chegar a vontade de
foder. Era sempre assim quando vinha`a superficie. Uma ereccao
fenomenal acompanhou estes pensamentos de imediato. MV vestiu-se
com algo mais`a portuguesa, desceu`a garagem e entrou no carro,
um Porsche. E saiu. Ia a um lugarzinho onde havia umas chavali-
tas porreiras, perto de um outro onde havia umas putas catitas,
em caso de desencontro. Nesta fase de adaptacao`a vida quotidia-
na MV nao era nada menino de coro. Fodia, bebia, comia, e prega-
va uns sustos ao pessoal.
La', estava uma fulana nova, nem magra nem gorda, ar de biblio-
tecaria, nem bem, nem mal vestida, que era conhecida pela sua
paixao sobre OVNIS, e seus conhecimentos de medicina, mezinhas,
historia e quimica alquimica classica. Era tambem um contacto
que os tangorianos usavam com amizade, quando precisavam de
alguma coisa que nao podiam obter. Neste caso um computador, um
AT286 com modem 2400MNP interno, disco de 125Mb a 19ms, VGA e
uma Stream Tape. Numa caixinha, dez Tapes cheias de software, e
cinco tapes vazias. Cada tape ou cassette levava 40Mb. Nao era o
ultimo modelo, nem sequer um 386SX, mas o dinheiro que ela tinha
nao dava para mais, e obedecia`as especificacoes de "um computa-
dor com modem 2400, RS232 com UART 16450, Stream Tape, com ima-
gem a cores e um disco superior a 80 Mb rapido ". Havia sido uma
encomenda de um amigo chamado Soma que previra anteontem que uns
fulanos iam precisar num planeta deles, de uma maquina destas,
nao para museu pre-historico, mas para alguem trabalhar com ele.
A nave surgiu rodeada de um enorme halo azul claro, que logo se
apagou, ficando suspensa e quase invisivel flutuando por cima de
um pequeno vale. Depois de um quarto de hora ter passado, um
pequeno caixote saiu da nave, deslizando pelo ar ate' junto da
mulher. Ver aquele caixote semi-metalico flutuar era sempre algo
surpreendente, nunca se habituaria. Como das outras vezes,
momentos depois surgiu um tangoriano, ladeado a boa distancia
por duas escoltas robotizadas, esferas do tamanho de peras, que
em caso de perigo defenderiam o extraterrestre. Sem se tocarem
ele e ela falaram um pouco. Ela soube das ultimas novidades de
Tangor e da Terra, mandou cumprimentos a uma serie de pessoas, e
recebeu dinheiro pela compra do computador, em notas de cem US
dolares, num total de 3500. Colocou as caixas no caixote, que
ficavam leves mal se aproximava dele, fechou a tampa, acenou ao
fulano, e viu um e outro afastarem-se. O caixote pelo ar, e ele
desaparecer por terra, entre a vegetacao. Entrou no carro e foi-
-se deitar que amanha era dia de trabalho. Cinco da manha.
MV estava ja'na segunda foda da terceira gaja. Completamente em-
brenhado na carne, na cerveja e no pao com chourico quente, e a
tirar a fome ao caralho. Uma luz azulada cortou o ceu, como se
fosse uma estrela cadente. Mas nao era.
---*---
Em Titan, GI foi procurar o seu conselheiro, e supervisor, o
Julio Batam, para lhe contar como decorrera a entrevista com
Soma. Mas teve de esperar uma hora e tal `a porta do pavilhao
onde Julio trabalhava, pois ao tocar`a porta, fora avisado que o
dito nao estava. E so' depois de uma hora e tal e'que foi
informado que havia chegado. Curiosamente nao vira ninguem
entrar nem sair, mas nem sequer ligou para isso. Podia ser que
entrasse por alguma porta dos fundos, do outro lado do pavilhao,
que era grande. A porta abriu, e GI entrou.
Julio Batam estava ainda a trocar de roupa quando GI entrou.
Batam "Viva! Entre. Esteja`a vontade. Entao como correu essa
entrevista com o especialista Terreno ? "
GI "Bem, obrigado. Vai-me arranjar um computador trazido da
Terra. E'uma pessoa excepcional nao e'? "
Batam "Sao todos. Constituem a nossa esperanca de progresso a
nivel do individuo e da humanidade. Tem as suas parti-
cularidades, e vivem literalmente num universo e mundo
proprio que inclui todos os nossos. ah! olhe tem aqui o
arco e flechas que BB me pediu para Vito, e ja' agora,
leve-me se faz favor esta colher de pau`a Marbelle."
GI "Batam... "
Batam "Pergunte la'... " disse sorrindo
GI "E'verdade que voces nao se relacionam sexualmente ? "
Batam "Nao e'bem isso. Temos uma epoca em que dentro de certas
circunstancias homens e mulheres se fornicam, mas a par-
tir ai'dos 120 anos o relacionamento ja'decorre mais a...
nivel telepatico, que e'a expressao mais proxima do que
o GI compreende. Mas olhe que e'algo mais intenso e pra-
zenteiro que uma foda. E'tambem por isso que e'preferido.
Mas em qualquer altura pode haver relacionamento sexual
fisico, mas nao e'comum."
GI "... e por razao o computador vem da Terra, nao tem ca'um
que pudessem ceder ? "
Batam "O especialista tem razao, sabe ? O GI nao percebe a
escrita tangoriana nem nenhum dos seus outros dialectos,
a estrutura de funcionamento e'diferente, e depois tera'
assim uma experiencia a partir do que ja'conhece. So'para
ter uma ideia: os seus computadores funcionam com CPUs em
processamento serie, embora haja ja' em paralelo, e
baseiam-se em oito bits, indo dos CPU de 8 a 64 bits. Ora
um CPU dos nossos baseia-se em 98 bits, em tres eixos de
quinze bits cada, mais tres registos de quinze bits para
angulo no plano, e oito bits para flags. Mas note que
estes 98 bits constituem a unidade logica, isto e', o com-
putador nao tem apenas 0 e 1s, mas trabalha com 98 niveis
ou posicoes diferentes em simultaneo. Bem... resumindo, o
nosso sistema binario e'de numeracao de base 98, lidando
naturalmente com numeros simplexos, a nivel binario.
Percebe ? <GI abanou as maos como quem diz 'mais ou
menos'- mas Batam nao percebeu muito bem o significado do
gesto> Ora junte isso`as memorias (...)
GI "Sim, sim <interrompeu GI>. Diga-me so'... qual a frequen-
cia do processador ? "
Batam "Nao usamos frequencia, mas sim temporizacao, ja'que a ve-
locidade e'quase instantanea, e quando em funcionamento
o CPU existe a quatro dimensoes. Mas isso equivale a
cerca de 260 GHz, grosso modo."
GI "Pois,... esta' bom. Bem! vou levar esta encomenda la'para
casa. Obrigado pela sua atencao para connosco."
GI saiu da casa, e arrastou pelo ar consigo a encomenda, que era
sem duvida pesada, pois apesar de estar em levitacao a caixa de
transporte oferecia resistencia nas curvas, o que GI ja'relacio-
nara com peso. Parou ali mesmo e abriu a caixa. hum... eram
apenas dois arcos e milhares de flechas de dois tipos. Bah!
fechou-a e retomou o caminho pelo atalho do jardim. Era um
jardim semelhante ao que ja' conhecia, com arvores, relva de um
verde-azulado, mas de resto nao havia diferenca. Havia por ali
especies de plantas que nunca tinha visto, mas era natural isso
suceder, ja'que afinal estava num planeta fora da Terra, onde
para comecar as pessoas tinham a pele azulada.
Saiu do jardim num percurso sem historia, e meteu-se de novo no
passeio por entre a terra e rochas. Passou por uma ou duas
pessoas que cumprimentou e o fitaram com interesse e um sorriso
e chegou`a sua vivenda, onde entrou. Vito e BB estavam sentados
`a mesa da entrada, jogando poker. BB havia conseguido que lhes
arranjassem um baralho de cartas. GI cumprimentou-os.
Marbelle preparava o almoco segundo uma receita tangoriana
baseada em cogumelos, hortalicas e um tuberculo cheio de
proteinas com sabor melhor que a carne, quando assado. Vito
recebeu com alegria os arcos e as flechas e experimentou
imediatamente com uma tangente aos quilhoes de BB que estava a
subir as escadas para ir ao quarto. A seta passou-lhe entre as
pernas cocando-lhe ao de leve o quinhao esquerdo e cravando-se
com forca nas escadas. BB mandou-o pro caralho e prosseguiu, e
Vito riu com gosto. Era extraordinario o que este marmelo fazia
com as armas. Uma pontaria que era um dote de Deus. GI deixou
Vito a examinar o armamento e levou a colher de pau `a cozinha
onde Marbelle fazia uma massa de bolo, ao som de uma musica
moderna da Radio Comercial de Lisboa. Ta' visto que conseguira
que lhe arranjassem um mini-estereofonia. Radio e varios CDs.
GI "Ola', bom dia! "
Marbelle "Ola' querido, estas bom ? ah! a colher de pau. Obriga-
da. A Milas e'uma tangoriana catita. Ja'viste a apa-
relhagem que me arranjou tambem ? Acho que a prepara-
ram para receber a Terra, como se estivesse em Lisboa,
e disseram-me que posso regular a posicao do mundo
rodando uns botoes atras, mas nao quero mexer nisso
que ainda estrago alguma coisa. Olha... queres provar
? " - e deu a GI uma colher com doce acabadinho de
fazer.
GI "Esta' muito bom. Nao sabia que tinhas gosto pela cozi-
nha... "
GI "Deixa la'Marbelle. Isto e'uma vida nova, foi como se
renascessemos. E tu tambem nao devias escapar viva,
estou convencido que os gajos depois de nos alvejarem
abusavam de ti e depois matavam-te. E todos nos temos
amigos e pessoas chegadas que gostariamos de ver e de
falar, mas olha... nao pensamos nisso."
Marbelle deu um beijo na face de GI e recomendou-lhe que visse
se estavam todos presentes e prontos para o almoco dali a dez
minutos. GI foi encontrar Vito na entrada a ver cada uma das
setas, a classifica-las e a arruma-las. BB pelo sim pelo nao
estava ainda no piso de cima. GI avisou Vito do almoco, e foi
buscar BB.
O almoco foi um sucesso, Vito cheio de energia e vontade de
fazer exercicio com os seus arcos, Marbelle a contar as ultimas
dos noticiarios da radio, BB a apreciar a comida e satisfeito
por estarem de novo todos bem uns com os outros, e GI muito
conversador, ja'menos ansioso, pois o computador chegava naquela
noite. Escusado seria dizer que mais uma vez o almoco estava uma
delicia. So'por isso quase que valia a pena estarem ali, nunca
haviam comido tao bem. Depois do almoco ajudaram a levantar a
mesa a Marbelle e foram os quatro arranjarem-se, pois iam ter
uma visita guiada a Titan, prometida ha'ja'algum tempo, e orga-
nizada por Batam, com a ajuda de Milas.
Parece que nao gostavam de calcado de couro nem de borracha. O
pessoal protestou, gozou, etc mas como noutras coisas, foram
inflexiveis sem serem contudo prepotentes ou indelicados. So'
eles conseguiam ter uma atitude tao contraditoria em teoria, mas
neles era algo natural e que saia bem. O que lixou BB, Vito e em
parte Marbelle foi o corte do tabaco. Na' pa'de cigarros pra
ninguem. Enfim, agora ja'se habituaram. Talvez fosse do ar dali
mas o certo e'que o acto de respirar era prazenteiro, inebriante
ate', quando se concentravam nisso. Demasiado oxigenio talvez. O
facto e'que estavam ali os quatro`a espera do transporte e bem
fumavam um cigarrinho, nem que fosse a dividir pelos tres. Em
vez disso inspiravam suavemente, reparando no acto de respirar.
Isso remediava.
Vito "Ja'ca'deviam estar! porra! afinal tambem se atrasam."
Marbelle "Deve ter sucedido alguma coisa. Deviamos ter um tele-
ne. "
GI "Por acaso ate'era. E um modem."
Marbelle "ah... nao me fales nisso."
BB "Tenho a certeza que nos tinham ja'avisado se a coisa
nao se realizasse"
Vito "Ora! Se calhar estao de caganeira! ah ah ah ah"
<em coro>"Vito!"
Ouviu-se um silvo caracteristico junto`a entrada, do lado de
fora da casa. Sairam de rompante os quatro. Era de facto o
transporte. Mas em vez de aparecerem Julio e Milas, como
julgavam que seria, estavam ali para os guiar Villiam e o
capitao Eli. Estavam ainda com um ar algo contrariado . GI e BB
sentiram-se tambem ah... pouco `a vontade. E Eli estava nitida-
mente a ser diplomatico. Vito e Marbelle, de braco dado, encan-
tados, haviam ja'subido para o veiculo fechado, mas de chao,
lado e tecto cristalinamente transparentes, fora uns veios
ligados aos propulsores, e umas faixas de referencia.
Pelo que Eli deu a entender, haviam sido chamados ao Governador.
Este, sorridente, ordenara-os para guiarem os Terrenos. Julio
nao era para ir, de qualquer modo. Quem iria era Milas e um
outro colega, por sinal tambem piloto e colega de Villiam. Mas`a
ultima da hora o Governador fez-lhes a surpresa.
De facto o Governador estava a experimentar ali uma serie de
pessoas e situacoes. Bem ele sabia que GI, BB e Villiam iam ali
juntos, bem como que Villiam e Eli estavam muito chegados
ultimamente. Era a prova dos noves quanto`a estabilidade da
rejeicao de GI por Villiam, e uma provacao a Villiam por andar a
ser ah... tao promiscua,`a falta de termo mais correcto, ja' que
promiscuidade nao era o caso. Quem estava a gozar com isto era o
Governador, que juntava assim o util ao humor, e`a disciplina.
La'entraram para o veiculo. A abertura solidificou-se e o vidro
(ou la'o que era) tornou-se mais escuro, filtrando o sol como se
fosse um oculo escuro de praia. O pessoal ia de pe', agarrado a
um parapeito. No veiculo o equilibrio era condicionado, tinha
gravidade propria, como Villiam demonstrou, fazendo-o levitar a
meia duzia de metros do solo e fazendo uma serie de loops cujo
efeito era de parecerem parados como se fosse todo o mundo que
girasse. Nao notavam absolutamente qualquer movimento. Apenas o
viam. Villiam ligou entao o amortecimento, e apesar de ficaram
na mesma de pernas para o ar, ja'dava para notar um pouco as
deslocacoes. Satisfeita de ter quase feito enjoar os passageiros
Villiam suspirou resignada, mandou os casos para tras das costas
e comecou finalmente a portar-se como uma anfitria. Eli conti-
nuava diplomatico, mas estava melhor. Detestava servir de guia.
Enfim, subiram, ja'direitos em relacao ao solo, em direccao ao
sol interior de Titan. O solo ficou muito longe e via-se a
aldeia ou sector onde haviam passado estas semanas, salientan-
do-se`a vista uma parabola de agua`a roda do local. Ao longe
via-se uma cidade enorme, mas o vidro, ja'bastante escuro nao
dava ja' passagem a pormenores. La' no alto um nucleo imenso
brilhava com um frenesim electrico sereno. A proximidade do sol
afectava as ideias dos tripulantes, e o gelo no seu rela-
cionamento, desfez-se. Villiam pareceu esquecer o seu antago-
nismo por GI, e Eli estava porreiro.
Explicaram aos visitantes que Titan tinha uma enorme cavidade
natural no seu interior, e que os tecnicos que ha' milhares de
anos tinham feito a instalacao no satelite procuraram repro-
duzir o ambiente natural de Tangor, que era um planeta oco, com
um sol no interior, com aberturas polares. Assim havia uma serie
de geradores que concentravam a sua energia no centro da imensa
cavidade produzindo um sol artificial de caracteristicas mais
electricas, de luminosidade, que termicas, embora aquecesse
ligeiramente. Cada sector tinha um plano de gravidade artificial
calibrada para um valor ligeiramente acima do da Terra.
GI "Dai eu me ter sentido tao pesado nos primeiros dias..."
Eli "Exacto."
Vito "Por acaso ja'tinha reparado que era preciso dar um descon-
to para cima para o tiro com setas. Agora percebo a razao"
Nao se aproximaram mais do sol, que ficou a varias centenas de
quilometros, devido a questoes de seguranca do veiculo e seus
ocupantes. Rapidamente rodearam-no e foram ficar no lado oposto
ao que tinham descolado. E desceram a poucas centenas de metros
do solo, rapidamente. Passaram por zonas aridas, rochosas,
alguns lagos, alguns rios de agua brilhante como o sol, ate' que
chegaram a uma area enorme que em pouco tempo ocupou todo o
horizonte com arvoredo.
Eli "Reparem naquele casarao ali isolado na floresta... ja'
la'voltaremos."
A floresta densa deu lugar a clareiras, fiadas de arvores de
fruto, algum mato, mas sempre com arvores dispersas ou em fila
por perto. Aqui e ali viam-se robo^s com formas engracadas a
percorrem rente ao solo as culturas, saindo e entrando por
buracos avermelhados no solo. Eram acessos para os armazens,
oficinas, fabricas e outros complexos ligados `a alimentacao e
produtos derivados, existentes em enormes subterraneos.
Pararam a um metro de altura, junto a uma cultura que parecia
tomate esbranquicado, conjuntamente com flores vermelhas e
violaceas. Puderam ver que o chao era solo fertil, inclusive com
insectos rastejantes e alguns voadores. "Especies uteis e
controladas. A maioria veio da Terra, e algumas foram melho-
radas um pouco geneticamente. Alguns outros nao sao deste sis-
tema solar." Um robo^ com dois palmos de largo, com dois ou tres
dedos de espessura examinava com curiosidade o veiculo,
dando-lhe a volta e mirando-o com tres olhinhos ciberneticos
muito queridos, vermelhos. Brincava. E la' foi de novo`a sua
tarefa de vigilancia das culturas.
Subiram novamente e voltaram`a floresta por onde haviam ha'pouco
passado. Ate' ao casarao. Um poco, uma horta, algumas aves
parecidas com corvos. Fumo numa chamine', mas fumo colorido,
esvoacante, com movimento proprio como se tivesse vida. O lugar
tinha algo de encantado. Villiam e Eli nao disseram palavra e
mantiveram a nave sempre fora do recinto da quinta. Observavam
alguns pormenores devido ao efeito telescopico que o vidro fazia
para onde quer que se olhasse.
Afastaram-se respeitosamente daquele local. "Mora aqui um ser
muito antigo, que viu passar ja' mais de tres milenios. Veio
quando a instalacao tecnica deste mundo ficou concluida. Nessa
altura haviam todas as condicoes para a vida, mas estava tudo
algo frio e sem alegria. Esse ser ficou durante algumas deca-
das sozinho em Titan, por sua vontade, e acrescentou a vida, o
ambiente proprio do nosso mundo. Segundo os nosso trisavos nos
contaram, ele dialogou com a natureza, o tempo e o espaco, tendo
transmutado a materia fria em materia viva. Mantem, por dedica-
cao a quinta original, e e'uma especie de mago quimico. A sua
vida pessoal, a sua vontade, influi directa e objectivamente na
constituicao da materia. Os governadores veem e vao, com as
geracoes, mas ele e'quem esta'consciente da nossa fonte de vida
aqui. E'tangoriano de origem."
Passaram por montanhas, entraram dentro dum lago, onde ate'
haviam peixes de cores exuberantes, inclusive pousaram no fundo
do leito de um grande rio observando as particulas, peixinhos e
pequenos animais arrastados pela corrente, e viram uma cidade
enorme, mas de edificios terreos, ao de longe. Casas, laborato-
rios, mais ao longe, estradas, esplanadas, sempre cheias. Tinha
graca que havia pouco movimento, apesar de se encontrarem varios
agrupamentos de dezenas de pessoas ao ar livre, a falarem,
comeram ou apenas a lerem em pequenas placas que seguravam de
vez em quando. Nao havia quase ninguem a andar nas estradas.
Viram um de bicicleta! E passaram o que para os visitantes havia
sido uma tarde inteira. Pelo relogio de BB eram 21h.
O veiculo dirigiu-se por fim para uma area de jardins, onde eram
esperados por uma pequena comitiva de duas dezenas de jovens.
Era uma area escolar. Os garotos e as garotas geriam a sua ali-
mentacao, o seu estudo, as suas festas, os seus esquemas
sociais, sob a supervisao de um especialista que tratavam com a
maxima veneracao e que so'muito raramente aparecia, fora das
reunioes periodicas habituais. Nao estava junto aos garotos.
BB reparou agradado, que a maior parte dos escolares eram
mulheres, de uma linda tez azulada da pele, e vestidas com
deliciosos decotes. Marotas como ninguem, ja'se haviam acercado
dos homens visitantes, enquanto Marbelle era admirada e remirada
pelos jovens. Eli sorriu ao se lembrar da sua passagem pela
escola da segunda idade. E apresentou os visitantes, sentando-se
ali mesmo na relva para trocarem opinioes. As raparigas
entretanto concentraram-se conforme combinado e com perguntas e
historias, e um bloqueio telepatico extremamente subtil e bem
ensaiado, desviaram a atencao de GI, Vito, Eli, Marbelle e
Villiam, enquanto uma moca mais bem formada de corpo que as
outras pegava na mao de BB e o levava a passear pelo jardim, com
outra colega. Falaram do campo, das aulas e conduziram-no a um
quarto, de uma delas, onde mostraram a BB a decoracao, flores,
uns quadros, mexendo no homem com os dedos, passeando-se uma ou
outra `a frente dele mexendo o corpo mostrando todos os
contornos, fazendo aqui e ali uma festa no pescoco de BB,
pegando-lhe na cintura, etc de modo que por fim o rapaz estava a
ferver. No quarto a mais jeitosa sentou-se, e tirou a blusa,
mostrando os seios, bem definidos, jovens, com mamilos roxos
claros bem espetados, e comecou a tirar as sapatilhas mostrando
os dedos dos pes. A colega ria. BB estava com uma ereccao feno-
menal novamente, e enquanto a rapariga se acabava de vestir a
colega empurrou com graca BB para um beliche e fez-lo sentar,
tirando-lhe os sapatos, as meias, as calcas e desabotoando a
camisa. E beijaram-se. BB parecia que tinha pegado fogo, e
enquanto beijava a colega, mexendo-lhe nos seios e pernas por
cima da roupa, sentiu a primeira rapariga meter-lhe o caralho
dentro de uma vagina sabedora, bem musculada...
O grupo junto a Eli, Villiam e restante companhia, estava alegre
e extremamente interessado numa discussao sobre a filosofia da
vida, a relacao familiar, os objectivos da vida, etc e as rapa-
rigas estavam muito alegres, riam, sorriam, amparavam-se, e
transmitiam`a conversa e ao momento uma alegria marota e extre-
mamente jovial. Pudera. A sessao sexual de BB estava-lhes a ser
estendida - ou transmitida se se quiser usar este termo - pelas
duas colegas. Elas viviam a experiencia como se estivessem a
senti-la naquele quarto, nao fisicamente, mas atraves das cole-
gas.
Elas, saciadas a sua curiosidade, pelos boatos que ouviram na
escola sobre Villiam e BB, lavaram-se, lavaram e vestiram a rir
ou sorrir o pobre (?) homem, e reanimaram-no. Massajaram-no todo
de uma forma especial, para impedir fixacao emocional, para o
ajustarem ao seu proprio ritmo, e ajudaram-no a levantar-se
amparando-o para fora do quarto, ao ar livre onde BB se sentou
sorridente. Deram-lhe um beijo de amizade na cara, que foi sen-
tido - como o resto - pela alma colectiva das raparigas da
escola, e puseram-se de novo a caminho, como se nada tivesse
acontecido. Conforme combinado, comecara um baile ao som de
musica, e Vito dancava com uma moca, Marbelle com um bonito
rapaz, Villiam com Eli, GI com uma miudinha, quando BB chegou,
extremamente popular entre as raparigas todas, nao percebia ele
porque, quer dizer, porque tanto assim. E trocavam de pares de
vez em quando, mergulhados em festa e alegria.
Um grupo de estudantes tinha ido ao laboratorio e comecara a
escurecer o ceu, atraves da sobreposicao de um filtro electrico
que fez o sol parecer uma lua pouco brilhante e a noite
presente. Uma ligacao`a superficie de Titan, projectada sobre a
superficie inferior do filtro deu a sensacao perfeita de noite
conforme os visitantes haviam descrito. Luzes iluminaram a danca
e pelas tantas da manha (hora Terrena nos relogios dos
visitantes), deixaram os visitantes dormir debaixo de uns
cobertores, ao relento. E nessa noite dormiram lindamente.
O pessoal escolar, Villiam e Eli, foram entretanto para as salas
de aula, continuar a trabalhar nos seus projectos. Dormir nao
era com eles, so' o faziam de tantos a tantos dias. No dia
seguinte mostrariam algumas coisas da escola aos visitantes.
E assim permaneceu o ambiente e o local durante umas horazitas .
A brisa soprava agora com alguma forca e uma camada de estratos
tal qual farrapos de nevoeiro corriam com grande velocidade em
altitude. Do lado direito, em especial, surgiam relampagos. E
surgiu o primeiro trovao. GI e Marbelle acordaram. Soprava vento
que comecava a esfriar. GI pos-se de pe'e olhou o horizonte. As
nuvens eram negras, faiscando entre si e um plano acima, como se
procurassem... o escudo artificial ! GI acordou rapidamente BB e
Vito, que estrambelhados abriam os olhos. Um golpe de vento frio
fez o pessoal sentir um arrepio. De repente as estrelas desapa-
receram e o ar estalou com um som medonho. Um turbilhao cicloni-
co caiu nao se sabe de onde arrastando BB e GI numa direccao,
Marbelle noutra e debatendo-se com Vito que cravara no chao uma
ponta de seta com que ultimamente andava.
Nos edificios Villiam, Eli e alguns estudantes haviam saltado de
sobressalto ao ouvirem aquele estalo. Estavam tao absortos no
planeamento de uma experiencia que ate'ficaram de boca aberta.
Ao pe'deles surgiram varios baloes holograficos com mensagens de
aviso de varios sectores da Escola que haviam dado conta do que
se estava a passar la'fora. Dois estudantes correram para o
salao atmosferico, de onde era emitido o escudo que fizera o
efeito da noite estrelada. Tinha sido a primeira vez que o
haviam feito ali, e o ambiente de festa havia concorrido para
que algum erro desse tamanho efeito secundario. Talvez... sim, a
luz do sol nao chegava ao solo, o que provocara um desequilibrio
termico que originara este vento terrivel. Ja'ao pe'do equipa-
mento assustaram-se com o problema: uma terrivel deformacao ele-
ctrica e atmosferica circundava o local, pelo que se via na
vista panoramica. A maquina ja'havia sido desligada pelo Server
central, tipo de disjuntor logico para as experiencias dos estu-
dantes. Mas as consequencias permaneciam. Havia que contrariar
esse efeito, mas havia ali algo de mais grave: em altitude um
cogumelo com ventos de 500 a 600 quilometros por hora fazia tur-
bilhao em cone para o alto, aproximando-se do solo lentamente.
Villiam e Eli subiram ao ultimo andar da escola, onde estava um
observatorio, e localizaram os visitantes. Mas como socorre-los
era problema ainda sem solucao. GI e BB haviam-se agarrado um ao
outro e rebolavam pela relva ao sabor do vento que mudava de
direccao de vez em quando, fazendo-os bater contra as arvores.
Marbelle desaparecera da vista de Vito, que comecara a escorre-
gar pois a mao nao segurava ja'a seta cravada no chao. Marbelle,
cheia de nodoas negras voava pelo ar caindo e sendo de novo
aspirada para cima. Uma serie de raios cortou o ar, partindo do
solo. E esses raios aproximavam-se do local.
No edificio, um susto adicional juntou-se aos demais: a energia
ao equipamento deixou de fluir. Desligaram-se as maquinas todas.
Com a excepcao de algumas que haviam desaparecido. Os estudantes
encarregados pelo especialista da direccao da Escola na sua
ausencia foram com velas ao gabinete pessoal do mestre e com
duas chaves abriram um pequeno armario. La'introduziu cada um
codigo secreto. Varias unidades autonomas comecaram a trabalhar
do outro lado da realidade. E Vito viu pasmado todo o edificio
da Escola ficar translucido e desaparecer !
Villiam e Eli estavam enrascados. Era responsabilidade deles a
seguranca dos terrenos, agora em serio perigo de vida. Por se-
guranca geral da escola haviam passado o edificio para um mun-
do paralelo, algumas oitavas acima da realidade normal. Haviam
la' instalado um geradores-puxadores para caso de alguma emer-
gencia como esta. Ali o sol brilhava calmo, e nao havia vento.
Os estudantes estavam receosos da reaccao do especialista.
Conversavam sobre os visitantes. Tinham todos pena deles. Alguem
sugeriu que tentassem o controlo remoto da nave que os trouxera,
que ficara la'fora, para os recolher.
Umas oitavas a baixo dali, sobre o mesmo 'local', era o inferno.
O ceu ficara preto como breu. O vento parara gradualmente, mas o
horizonte parecia o fim do mundo, com chamas e raios num frene-
sim horrivel, que rodava no sentido dos ponteiros dos relogios.
Era a base do cone do furacao em altitude que tocava agora o
solo. Os terrenos estavam no centro, no olho calmo do furacao.
BB e GI levantaram-se moidos e assustados, Marbelle ficou caida
onde pousara, e Vito corria`a procura dela. O solo comecou a
tremer com o impacto da tempestade cada vez mais proxima. GI e
BB juntaram-se a Vito na procura de Marbelle que gemia atras de
uma pequena elevacao. Ao fim de dez minutos angustiantes la'
deram com ela. Vito pegou na rapariga ao colo e olhou aparvalha-
do para os seus companheiros, como quem diz, 'que fazemos' ?
Na Terra MV acordou sobressaltado. Olhou para o relogio. Quatro
da manha. Mas porque raio e'que tudo lhe acontecia`as quatro da
manha ? estava dormir tao bem... mas sonhara que os seus amigos
desaparecidos estavam a pedir socorro. Um sonho estupido. Esta-
vam a afogar-se num turbilhao de estrelas. Qual o significado
simbolico disso ? calhava bem que era Sabado. Logo `a tarde ia
ter com um grupo de pessoas que nao via ha'muito tempo, onde `as
vezes ia ter para conversar pois sabiam de muitas das coisas dos
sonhos, do paranormal e do oculto. Levantou-se, cocando o
caralho e o cu. Apalpou a barriga. Hum... tudo bem. Tinha sido
um abuso, comer e beber da maneira como fizera, antes e depois
daquelas tres garotas. eh eh eh a pequenina era fogo!
espreguicou-se e foi descalco`a casa de banho, onde fez uma mija
de setenta segundos, de bom caudal. Boa, a cerveja. Mas passada
que estava a saciacao dos seus desejos primarios, comecava agora
a sentir-se concentrado, forte, coeso. Era sempre assim nos pri-
meiros dias a seguir a sair do seu abrigo de meditacao.
Tomou um banho a seguir, acordando todo o pessoal da pensao, e
vestiu-se apos ter feito a barba a entoar uma musiqueta trans-
cendental ritmada a rock, pelo nariz. Eram cinco e meia quando
pagou a pensao e saiu para a rua. Deu um pontape'no cu dum cao
que lhe estava a mijar um pneu do carro, e entrou. Aqueceu por
momentos o motor e arrancou`a papo-seco, sem olhar para tras.
As seis horas estava na praia das Macas, dentro do carro quenti-
nho, a ver o mar. Bolas, tinha saudades disto. Lembrava-lhe o
tempo da sua juventude, quando passeava com os amigos. Depois,
vira a trilogia da Guerra das Estrelas, e para sua surpresa
descobriu que podia mexer objectos leves a curta distancia, sem
lhes pegar. Abusou desse poder, arrependeu-se e descobriu um
novo mundo, uma nova filosofia. Um dia por acaso saiu-lhe a
lotaria, comprou um carro, uma vivenda em Sintra que tinha um
poco dentro de casa. Adaptou-o, meteu-lhe um elevador, e fez um
abrigo anti-atomico, onde acabou por colocar o seu retiro.
Ficou assim a repensar o seu passado durante muito tempo. O Sol
estava ja'a um palmo do horizonte quando MV saiu do carro apa-
nhando o ar fresco do mar. Pulou de contente como uma crianca, e
pos-se a correr aos saltos, cheio de alegria de viver, acabando
por ir ter`a beira-mar da praia, onde algumas pessoas comecavam
a chegar, para o fim de semana de bom tempo.
Meteu conversa com algumas pessoas, irradiando simpatia e boa
disposicao. Foi tao apreciado que um casal de meia-idade o
convidou para tomar o pequeno almoco. Foram de carro a um cafe'
onde MV e o casal sentados`a mesa beberam um cafe'optimo, acom-
panhado de pao fresco com manteiga e um queijo nao so' apetitoso
como tambem de bom aspecto, e cheiro.
Ela "Entao o senhor e'de ca'de Lisboa, ou veio passar ferias...
? "
Ele "Oh querida, la'estas tu..."
MV "Ah Ah Ah, e'com todo o gosto que respondo ao que a sua
encantadora senhora quiser perguntar. Sou de ca', sim.
Tenho uns rendimentos e uns negocios pelos arredores,
ligados`a informatica."
Ela "Oh!, os computadores, sempre os computadores. Ja' o meu
marido comprou um o ano passado e perde imenso tempo com
ele. Quase que tenho de o obrigar a sair,`as vezes."
Ele "Mas estou muito melhor, querida. Sabe, senhor MV que
"estabelecemos um horario, e agora ocupo apenas as noites."
Ela "Oh! no principio era insuportavel."
E MV sentiu um pe'sem meia a rocar-lhe o tornozelo. Pe'delicado
de senhora. Embaracado ficou foi quando do seu lado esquerdo,
onde estava o homem, sentiu uma mao a afagar-lhe a perna. Merda.
O homem levantou-se, deu uma palmada no ombro de MV e um beijo
na face da esposa. Pagou a conta e saiu. Ela contou a MV como
adorava aquele homem, e como o desejava - ao MV - ja'que havia
quatro meses que nao tinha o gosto de sentir um bom penis
jorrar-lhe a fonte da vida dentro. E disse-o com humor, sorri-
dente, com a mao na de MV, perturbado no inicio, mas ja'quente e
teso. Ela contou-lhe que o marido era um bom avaliador de carac-
ter e devia ter gostado muito do MV para tomar aquela rara ati-
tude. Suplicou a MV que lhe fizesse o favor... tinha uma casa
alugada mesmo ali a dois minutos...
E la' foram. Estava MV em pleno acto, com a mulher deliciada,
suave e meiga a acolhe-lo com todo o gosto. A coisa durou bem
uns tres quartos de hora, com uma repeticao e aplausos da senho-
ra, que tinha um nivel cultural acima da media. Dentro do arma-
rio do quarto, estava o marido, a massajar os quilhoes enquanto
metia o dedo no cu, e se conseguia finalmente vir ao fim de
quatro meses, em silencio.
MV despediu-se da senhora, que o conduziu ate'`a porta, dizendo
que ia ter com ele ao cafe'dali a meia-hora, para se arranjar.
Mal MV saiu, o marido saiu do armario e foram de novo os dois
para a cama, lambendo ele o suor e a vulva cheia de esperma da
sua estimada senhora. Enfim,... opcoes...
MV deixou no cafe'um bilhete enderecado ao casal, e procurou um
taxi para a praia das macas. Chegou la'eram onze e meia. Pegou
no carro dele e saiu daquele lugar, cocando o caralho, limpo `a
pressa. Foi almocar a Lisboa. Precisava de guiar um bocado. Em
Lisboa almocou um arroz de marisco, com muito marisco, bebeu um
vinho branco muito bom, e tomou um cafe'. Ficou-lhe o repasto em
tres mil e duzentos escudos, mas ao menos comera bem. O tempo
continuava bom, e aquecera para a tarde. Meteu-se de novo no seu
Porsche e depois de encher o deposito, la'foi para Sintra.
--- * ---
Entretanto no interior do maior satelite do planeta Saturno, BB
GI, Vito e Marbelle haviam ha'umas horas sido recolhidos no meio
da tempestade por um velhinho simpatico que com uma enorme des-
contracao surgira a caminhar apoiado numa bengala e os conduzira
para uma cabana, onde junto a uma lareira lhes serviu um cha'
para aquecerem o corpo. GI era o unico que reconhecera a cabana.
Era a tal que haviam sobrevoado ao largo, pertencente ao tal
mago quimico, criador do ambiente do interior de Titan, com tres
mil anos de idade! Nao sabia ainda se era aquele velhinho, ou se
este era um seu servo, criado ou discipulo. Estavam naquela sala
ha'tres horas. Mas o tempo ali apesar de correr parecia ter algo
de diferente. Haviam conversado baixinho sobre as razoes da
tempestade, do porque de nao os terem socorrido Villiam e Eli, a
desaparicao da Escola, e como o velhinho encontrara um caminho
sem vento, e tinha a sua quinta calma. Havia ali algo estranho,
mas ao inves de inquietar, era repousante.
Na Escola tinham entrado em contacto com outros centros de Titan
que observavam o evoluir da tempestade. A previsao apontava para
a normalizacao das condicoes meteorologicas e geofisicas dali a
tres horas. Sem necessidade de intervencao dos especialistas,
alertados pela violencia do fenomeno. Eli e Villiam foram recon-
fortados pela noticia de um especialista terreno, Soma, que lhes
comunicara saber estarem os terrenos a sao e salvo longe dali.
Nao havia acrescentado mais nada. Nao haviam ousado perguntar
fosse o que fosse. Seria indelicado. Eram assim a logica e os
costumes tangorianos.
Passadas cinco horas, o sol iluminava de novo a zona atingida
pela tempestade. Num raio de muitos quilometros os raios, in-
cendios e ventos destruiram o arvoredo, a vegetacao, e ate'des-
locaram algumas rochas. Gradualmente surgiu na elevacao a Norte
a Escola, baixando a harmonica material duas oitavas. Villiam e
Eli ajudados por uma serie de estudantes, acharam e repararam a
nave. Os alunos daquela Escola tinham muito que fazer. Plantar
arvores, relva, ajustar o equilibrio ecologico, limpar os campos
etc *antes* que o especialista daquela escola voltasse. Que ele
estava a par dos acontecimentos, ja'sabiam. Agora que era mais
uma prova de solidariedade e desempenho, isso era. E o facto de
nao terem socorrido os visitantes servira-lhes de preciosa licao
sobre prioridades, e coragem. Haviam aprendido com o erro.
Na quinta o Sol mudou de tom, e o velhinho voltou a aparecer.
Delicado, de poucas palavras,mas com uma presenca reconfortante.
Sentiam-se todos como se fossem netos de um avo^ bondoso e
vigilante. "Olhem " - disse o velhinho - " tenho aqui umas
frases tiradas da nossa coleccao biblica para voces. Desejo que
as tomem de oferta. Leiam-nas no caminho de volta. A paz esteja
convosco" E dito isto conduziu-os para a saida da quinta, onde o
Sol brilhava de novo. Acenou-lhes e voltaram as costas. GI deu
um passo para a frente e olhou para tras. Ja'nao viu o velhinho.
Desaparecera de vista. Engracado como num mundo tao avancado e
tecnologico havia lugar para o encantamento. E mais ainda, era
extraordinario que o que na Terra era fantasia e ficcao ali
fosse possivel de ser encontrado pelo homem comum. E meditando
nas coisas da vida la'foi GI caminhando junto com os seus compa-
nheiros de aventura, cada qual com um tubinho de pergaminho, ou
papel grosso com uma frase oferecida. Andaram uma hora a pe'na
direccao da Escola, atravessando uma estrada milagrosamente
desimpedida apesar da desolacao de madeira queimada, arvores
arrancadas, fumo e po'. De cimo do morro viram a Escola. Tiveram
um desgosto ao ver a paisagem circundante completamente arrasada
imagem tao diferente da que tinham visto ao chegarem pela
primeira vez. Sentaram-se para descansar, agora que tinham a
certeza de ter dado com o caminho certo, e GI lembrou-se de ler
o seu pergaminho. Leu em voz alta:
| Sistematicamente os homens tomam por objectivo serem |
| o que nao sao. E'uma concepcao completamente errada: |
| todo o esforco evolutivo esta'em sermos aquilo que |
| somos. |
Marbelle sorriu, compreensiva. Vito torceu o nariz como quem nao
percebeu nada. BB estava pensativo. Assim como ficou GI. Entao
BB abriu o seu papel e leu, com nervosismo:
| Enquanto se contempla, com os olhos da personalidade, |
| uma conquista passada, a alma nao esta'livre para no- |
| vas conquistas. |
BB sorriu dizendo "palavras sabias, a todos os niveis". Marbelle
nao percebeu, e Vito idem. GI estava a meditar na sua frase
ainda e apesar de ouvir estava abstracto. Entao Marbelle, cheia
de curiosidade abriu a sua frase, lendo:
| O excesso de prudencia e'tambem imprudencia... e o |
| excesso de actividade e'semente forcosa de inactivi- |
| dade. |
Marbelle percebeu logo. GI, BB e Vito e'que ficaram parvos sem
conseguir saber qual o sentido da frase. Finalmente faltava
Vito. O pessoal pediu-lhe para ler a frase. Vito disse que nao
ligava minimamente a essas coisas. Insistiram com ele. Vito deu
o papel a Marbelle para ler. Marbelle olhou a frase e deu uma
gargalhada, passando-a a BB que tambem riu. GI aproximou-se por
de tras do ombro de BB e sorriu ao ver a frase atribuida a Vito.
Fecharam o papel e deram-no de novo a Vito, sem o lerem em voz
alta. Vito, desta vez interessado, abriu o papel e leu:
| Um homem tinha um cavalo. Um dia o cavalo fugiu. O |
| homem comprou outro cavalo mas imaginem como resolver |
| o problema se o homem tambem tivesse fugido! |
e ficou de boca aberta. Aquela merda tinha sentido para ele !
"foda-se " - pensou - " aquele velho tem que se lhe diga afinal
de contas. Gostei. ". Estava cada um a meditar na sua frase
quando deram um pulo de susto ao ouvirem:
"Ah! Gracas aos deuses que estao bem! "
Era Villiam e Eli na nave turistica, de 'vidro' transparente.
Entraram todos, contentes de se verem finalmente no seio da
civilizacao. Em poucas palavras explicaram que tinham sido
recolhidos por um velhinho que os havia levado a uma quinta. Eli
e Villiam empalideceram, ficando num tom misto de anil e azul
claro. E seguiram sem fazer mais perguntas ate'`a Escola,onde se
despediram rapidamente do pessoal estudantil atarefado no plane-
amento e arranjo das imediacoes. Talvez voltassem dai'a uns dias
quando eles estivessem menos ocupados. Beijos, abracos, sendo o
mais sentido o de duas raparigas a BB, que o acariciaram muito.
Villiam entreviu ali algo que se tivera passado, e de palida
passou a violeta purpura, de tao corada que ficou ao se
apercebeu o quanto tinha sido enrolada naquela pequena missao.
Embarcaram finalmente todos, e regressaram a casa, onde se des-
pediram de Villiam e Eli, que iam jantar fora... de volta`a rea-
lidade quotidiana, pensou GI ( e BB para o mesmo efeito ). Foram
dois dias de aventuras, que ocuparam totalmente as conversas dos
quatro desde que chegaram, ate'se deitarem, com especial desen-
volvimento ao jantar. Nessa noite, dormiram quase felizes, nao
fosse ocasionalmente se lembrarem da Terra e dos seus parentes e
amigos.
[ Na Terra MV tinha passado uma tarde e noite interessantes em ]
[ Sintra. Mas isso, fica para a semana. ]
Deslocou-se para Este rumo`a costa Portuguesa. Rodopiou`a volta
de um barco de passageiros, que a nao viram, excepto algumas
criancas pequeninas que disseram adeus com as maozinhas. "Oh mae
esta' ali um balao a voar" disse uma menina de tres anos -
"Onde?" perguntou a mae, e seguindo o dedo da menina nada viu.
"Nao esta' ali nada, tens muita imaginacao, tu! " e pos-se a
brincar com ela, fazendo-lhe cocegas. A bola vibrou como que em
aceite desalento, e continuou para Este, ate'que viu um farol, e
flutuou sobre uma lingua de praia e rocha, alguns quilometros
abaixo. Um pescador cozia as suas redes. A bola pos-se mesmo
atras dele, como que espreitando sobre o ombro o que homem fazia
e o homem, parou, lembrando a sua meninice e o tempo que
passeava na praia de mao dada com a sua falecida mae. E sorriu
de felicidade, do amor que lhe guardava. A bola rodopiou mais
uma vez e ganhou altitude. Reconheceu a linha do Tejo e picou
sobre Lisboa, que visitara ha' vinte e picos anos atras.
Procurava uma pessoa que marcara nessa altura. Alguem de que
gostara e em quem depositara no coracao parte da sua propria luz
e essencia, por gostar do menino. Tinha depois navegado para uma
estrela distante. Um ano passara na perspectiva da bola. Mas a
relatividade tinha-lhe pregado mais uma vez a partida: Lisboa
estava... diferente. Largas areas estavam cobertas de edificios
enormemente altos. A ponte sobre o Tejo ainda la' estava, sim.
Desagradada percorreu `a velocidade da luz as ruas de Lisboa
apalpando-a na totalidade em apenas meia hora, no seu tempo, o
que correspondeu a uma hora e um quarto dos relogios dos
cidadaos. Com desaprovacao verificou estarem as ruas mais sujas,
os espacos verdes mal cuidados e com lixo, e as pessoas pouco
definidas nas suas perspectivas, muita gente cansada. Gostou de
sentir o ceu mais livre, resultado de nao haver o medo e conten-
cao de anos atras. Muito mais viu e sentiu. Sorriu ao ver junto
aos Jeronimos uma nova construcao em pedra.
Procurou com mais pormenor os locais onde deixara o menino. Com
algum pesar verificou que as pessoas que conhecera estavam fei-
tas homens e mulheres. Suspirou pelo drama constante da sua pro-
pria natureza, em constante desalinho com o tempo dos mundos que
percorria, com pena de nao poder firmar amizades que pudesse
acompanhar. Ficou assim meditativa um quarto de hora. Voltou a
procurar pistas do menino, procurando uma faixa que seria visi-
vel apenas `a sua vista, sobre os olhos da pessoa. Recuou dois
meses no passado, como quem ve uma imagem deixada numa camara de
infravermelhos de corpos quentes que estavam ali ha' uma hora. E
viu finalmente o seu menino, agora crescido. Fugia num jipe, com
mais tres humanos. A bola olhou a viagem no jipe, viu chegarem`a
quinta de Vito. Observou a emboscada e saltou de surpresa ao ver
uma nave socorrer o seu amigo e companheiros in extremis, quando
a bola ja''temia' ter perdido a sua amizade unilateral, ja' que
no presente nao conseguia achar a sua marca em ninguem, nem
pistas. A imagem da nave desvaneceu-se quando saiu da Terra.
A bola nao conseguia focar ou ver qual o seu destino. Subiu
velozmente para o alto, ate'`a Terra ficar do tamanho de uma
laranja, mas em azul e branco. Olhou`a volta. O pior e'que nao
havia materia no Espaco sobre a qual pudesse ler o registo do
tempo pela sua visao. Precisava de ar, sol ou terra para se
orientar. Ali so' via linhas que ligavam os planetas, o Sol,
tracos de historias milenares que desconhecia, mas um rasto do
sentido da nave, nao. A nave devia ter viajado para alem da
velocidade da luz. Perdia-lhe o rasto.
Se fosse uma bola mais experiente poderia recorrer ao proprio
espaco, mas era jovem e nao dominava ainda esse nivel de
conhecimentos muito bem. Isso era para as suas congeneres de
outras especies mais avancadas. De modo que, triste, regressou`a
superficie, aninhando-se numa das torres da ponte sobre o Tejo,
de onde olhou demoradamente em volta. Relacionava toda a sua
experiencia e observacao recentes para conseguir achar um meio
de saber algo mais sobre a sua crianca adoptiva, agora homem.
--- * ---
A mesa de MV ja'tinha sido cobicada por varias pessoas que iam
entrando, mas como la' estava um casaco, nao se sentavam. Um
grupinho com falta de cadeiras aproveitou a ausencia para roubar
uma das tres cadeiras da mesa. E estava uma rapariga a roubar a
outra para se juntar`a sua amiga na mesa ao lado, quando MV se
aproximou.
Ela-1 "Oh! desculpe... precisa da cadeira ?"
MV "Bem, dava-me jeito onde esta', mas porque e'que em vez de
tirar a cadeira nao pede`a sua amiga para se sentar con-
sigo aqui ? tenho uma historia que me aconteceu aqui em
Sintra ontem [inventava] que nao vao acreditar. A serio!
uma senhora em panico que viu do quintal um disco voador
quando ia`a noite ter com o vizinho, sabem... um romance
de infancia... calculem que casaram com pessoas diferen-
tes depois de se terem conhecido em miudos, e anos mais
tarde acabaram por... mas [sorrindo ao ver a amiga
interessada] venha aqui por favor, infelizmente estou de
saida para o estrangeiro e gostava de comentar esta
historia, e'que essa senhora e'uma conhecida da minha mae
e..."
A amiga toda sorridente levantou-se e sentou-se`a mesa de MV
trazendo a cadeira consigo, e fazendo a amiga que primeiro ia
roubar a cadeira sentar-se. MV contou uma historia veridica
passada nas Bercas, mas adaptou-a convenientemente para Sintra e
para o dia de ontem. Depois comentaram a fidelidade e infi-
delidade, em funcao da idade, os discos voadores, falaram sobre
MV que pouco disse de si, embora falasse muito, e acabaram por
falar dos estrangeiros em Sintra e da Sida, ao que MV disse nao
ter esse tipo de problema pois era uma pessoa muito ajuizada.
Elas comeram animadissimas (mais Ela-2) os seus folhados, cafe'e
galao sem acucar, e a dado passo foram as duas`a casa de banho.
MV percebeu mais uma razao de porque as mulheres iam sempre aos
pares`a casa de banho, enigma que o intrigava desde sempre:
neste caso era para que a que ficasse nao se atirasse com
vantagem a MV, ou vice-versa. Assim indo as duas, nao havia
batota. Eram duas solteironas ajuizadas, mas que dado o ambiente
e a oportunidade, davam uma baldazinha a algum homem jeitoso,
espirituoso e de classe alta, como se apresentava MV. MV olhou
para o relogio e pensou "hum, ja'sao tres horas da tarde. Quero
estar na Sociedade antes das seis."
Elas chegaram, ja'MV havia pago a conta. Disse-lhes que gostava
antes de ir apanhar o aviao para a Suica, dar uma volta de carro
por Sintra. Se lhe quisessem sugerir um caminho... ao que uma
delas sugeriu uma zona de Sintra, onde alias a amiga tinha uma
casa, e para onde iam. Bastava seguir o carro delas. Dito e
feito la'foram. Ja'no meio do arvoredo, longe da cidade, o carro
delas parou com um problema no motor. MV acercou-se e viu com
elas o que se passava. Uma correia velha que partira. Curioso
que o resto do motor era relativamente novo. Mas nao fazia mal,
diziam, a casa era perto dali. Telefonavam depois ao reboque,
nao o queriam fazer perder tempo. Assim foram dentro do carro de
MV. A amiga que simpatizava mais com ele ficou atras e ao fim de
cinco minutos ja'estava com as maos`a volta do pescoco de MV,
dentro da camisa de MV e por fim -directa- a mordiscar a orelha
de MV enquanto a outra pousara por fim a mao sobre a perna dele.
Bom! resumindo: mal chegaram`a casita alugada, foi um ver se te
avias que esta's com pressa, tanto a uma como a outra. Algo
saboroso, mas simples. Ambas despidas, excepto os sapatos, e com
cuidado para nao lhes dar cabo do penteado. Passada uma pequena
hora de fornicacao, lavaram-se, trocaram lembrancas, dando MV o
seu cinto de que elas tinham feito muita nota, e despediram-se.
Eram cinco e meia da tarde quando acenando adeus, MV partiu com
o seu carro para a tal Sociedade. Ia de consciencia tranquila
pois aproveitara o bom ambiente de convivio sexual com as duas
mulheres para lhes confessar que nao ia para o aeroporto, e que
a historia que lhes contara se havia passado afinal nao em
Sintra mas no Norte, e nao ontem mas ha'dois anos, o que elas
aceitaram bem, ficando agradecidas pela sinceridade. Foi ainda
melhor...
MV saiu dali eram oito horas da noite, contente por ter la' ido.
Assim como a bola da ponte sobre o Tejo havia pressentido final-
mente que mais alguem procurava naquele momento por pessoas que
nao se localizava. Via Sintra la'ao fundo. Uma forca atraiu com
intensidade a bola, que chegou`a vivenda onde a Sociedade estava
e entrou no salao onde MV conversava com os demais. A bola
sentiu ali uma presenca de uma forca superior `a sua, e ficou
contente por ouvir os raciocinios e conclusoes, parte dos quais
havia induzido. Proveitosa a estadia ali. E ficara contentissima
ao reparar que duas pessoas conseguiam ve-la, sorrindo-lhe. Era
tao raro! Assim quando MV saiu, a bola acompanhou-o. MV chegou a
casa e subiu ao primeiro andar indo buscar de novo o pendulo. A
bola impaciente, esperava fora da casa de MV. Uma vez que era um
local pessoal e intimo, nao entrava. MV invocou as forcas do
pendulo, e a bola acabou por entrar na sala, fazendo parte
delas.
MV "Eles estao noutro planeta ?"
pendulo <SIM>
MV "Fora do sistema solar ?"
pendulo <NAO>
MV "Alem de Marte ?"
pendulo <SIM>
MV "Estao no planeta Jupiter ?"
pendulo <NAO>
MV "Estao no planeta Saturno ?"
pendulo <NAO>
MV "Estao no planeta Urano ?"
pendulo <NAO>
MV "Estao no planeta Neptuno ?"
pendulo <NAO>
MV "Estao no planeta Plutao ?"
pendulo <NAO>
MV "Numa nave ?"
pendulo <NAO>
MV "Em algo construido artificialmente ?"
pendulo <SIM>
MV "Perto de um planeta ?"
pendulo <SIM>
MV "Perto de Jupiter ?"
pendulo <NAO>
MV "Perto de Saturno ?"
pendulo <SIM>
A bola e MV ficaram contentissimos de saber essa informacao. MV
agradeceu ao pendulo e respectivas forcas e depois de tomar um
banho quente de imersao, foi-se deitar para dormir. A bola
explorava os arredores de Saturno, e fez-lo durante toda a
noite, sem sucesso, apesar de ter percorrido com pormenor todas
as superficies das luas, e cada sector do espaco circundante de
Saturno. Mas estavam por ali, sem duvida, havia no Espaco tracos
deles, e sentia a proximidade do seu miudo. Mas onde ?!
Entretanto na vivenda onde GI, BB, Vito e Marbelle estavam, os
paineis das janelas e as luzes da casa comecaram a mudar
simulando a aurora, e mais tarde o nascimento do dia, passando a
iluminar tudo, e as janelas de novo voltaram a ser
transparentes, deixando entrar a luz do dia permanente. Mais um
dia para Marbelle, longe da Terra, da sua vida anterior, da sua
irmazinha. Sentou-se na cama tapando com cuidado Vito ao seu
lado. Sentia-se como aquando de umas ferias em pequenina em que
achava tudo distante, diferente. Mas ali sabia nao poder tomar
um comboio ou autocarro e voltar. Sem barulho saiu do quarto e
foi`a casa de banho onde tomou um duche quase frio. Voltou nua
para o quarto e vestiu-se. Uma saia castanha e uma blusa rosa.
Sapatilhas branco-creme. Voltou`a casa de banho e deu um arranjo
ao cabelo, que quase secara. O ar ali era seco. Foi entao para a
cozinha preparar o pequeno almoco ao seu pessoal, `a sua nova
familia. Foi`a caixa dos alimentos junto`a parede e tirou de la'
o que havia encomendado ontem. Durante a "noite" daquela casa,
uns robos voadores haviam delicadamente transportado, e
delicadamente arrumado, varios tipos de ervas, tuberculos,
farinha, sumo engarrafado, tabeletes de bife de algo parecido
com soja, mas muito mais apetitoso, etc
Estava Marbelle a fazer a massa para o pao, e a ouvir uma radio
de Lisboa, quando a telefonia abaixou e recuperou o som, tendo
sido percorrida por uma onda electrica aguda, melodica. Marbelle
nao ligou, e continuou a fazer a refeicao, dando uns toques ja'
para o almoco, e planeando o jantar, anotando de vez em quando
no papel para a encomenda da "mercearia" para logo`a noite.
A bola observava com interesse a confeccao na cozinha. Eh eh eh,
pensou, esta'na hora de acordar aqueles marotos, e esvoacou para
perto de GI que acordou como caido das nuvens, extremamente
calmo, sereno e... "ai! uma caibra na perna" e sentou-se na
cama, ja'desperto, curiosamente Vito e BB acordaram de maneira
semelhante, ou seja, BB com uma picada num dos quilhoes, e Vito
num dos dentes. Felizmente a coisa passara-lhes tao depressa
quanto viera. Cada um foi`a sua casa de banho, arranjaram-se
minimamente e surpreenderam Marbelle que estranhou, principal-
mente em Vito, terem-se todos levantado tao cedo. Ate'parece que
tinham ontem combinado madrugar para ir`a praia ou acampar. Tem
graca -pensou Marbelle- estavam-lhe a ocorrer muitas lembrancas
de sua meninice.
Animados e cheios de apetite, comiam todos na mesa da cozinha,
pao quente, acabado de fazer, sumo, doce, uns frutos parecidos
com avela^s, mas do tamanho de cerejas, e bolachas grossas,
agridoces. Ao fundo ouvia-se o radio, com musica. De novo aquela
interferencia melodica. Marbelle, a meio duma conversa sobre
criancas e ferias, interrompeu fazendo notar a dita oscilacao no
radio. Parece uma onda, disse BB, e escutaram. De novo e como de
proposito, fez-se ouvir, mas desta vez manteve-se no radio. O
som oscilava melodicamente, e ao fim de um minuto, ja' com o
pessoal ao pe'do radio , a melodia ganhou um padrao musical,
depois irregular, com pausas. "RRRGGUUUU AAAUUUU IIIPPP
PLLLLLUUU". Olha isto deve estar a captar uma estacao
tangoriana. Parece uma voz, disse GI. Hum... pois era. E com um
pulo de susto, ouviram as oscilacoes tornarem-se mais rapidas e
vibrarem num tom perceptivel. Metia imensa impressao. Era a bola
que comunicava atraves do radio.
Bola "Ola! sou uma amiga. Chamo-me Gy-ai. Nao se assustem."
...
Bola "Entao nao dizem nada ?"
GI "Consegues ouvir-nos ? "
Bola "Claro... GI"
GI "Como sabes o meu nome ?"
Bola "Estou aqui na cozinha desde a 'manha'.
Vito "Ora senhora Chiaido, nao acha feio estar a escutar as
conversas ? " disse Vito um pouco com receio.
Bola "Ora! nada do que diziam era pessoal, e consideraram
sempre a cozinha como um local de encontro, quase
publico, e ademais, de certa forma, nao estou 'dentro'
da cozinha. Voces e'que estao no meu espaco. E riu-se."
BB "Estas aqui neste sitio ha'muito tempo ? Quem es? "
Bola "Hi Hi Hi, olha o borracho mais conhecido de Titan...
cheguei so' ontem aqui, mas posso ver o que disse. Se
olharem para tras de voces, estou a tres palmos acima do
centro da mesa."
Voltaram-se todos com curiosidade irresistivel. Em cima da mesa
nao se via nada. A Bola fez um esforco e surgiu ali uma oscila-
cao como se houvesse uma fonte de calor a agitar o ar. Depois
uma luz azulada muito tenue. Comecou a cheirar a perfume.
Delicado, penetrante. E uma especie de bola de cristal eterica
surgiu aos olhos dos quatro. Brilhou por momentos, iluminando e
inundando com a sua presenca irreal aquele local que parou por
instantes no tempo. E desapareceu de repente. O radio voltou a
tocar musica. BB e Vito ainda fixavam a mesa, incredulos. GI
comecara com uma dor de cabeca, e Marbelle dominava-se para nao
ter ali mesmo um ataque de histeria. Aquela coisa assustara-a,
nao por ser ameacadora, mas por ser algo totalmente novo. GI
sentou-se no chao. Os outros fizeram o mesmo. Olharam-se, e Vito
foi abracar Marbelle. A bola, invisivel, cansada, observada com
pena as reaccoes provocadas. E chorou, nao era aquele efeito que
pretendera. O melhor era tao cedo nao se manifestar. E como uma
mae (embora adoptiva) confortou o intimo de GI que gradualmente
se recompos, sentindo no seu interior uma sensacao fresca de
satisfacao. GI entendeu uma mensagem, subliminar <vou embora>
<volto em breve> <gosto de voces>. GI levantou-se sorridente e
comentou "o pequeno almoco esta' a arrefecer", sorrindo. Ao
verem-no assim tao bem disposto, animaram, levantaram-se e foram
acabar de comer, de novo com apetite. Comentaram o que teria
sido aquilo. Tinham de falar com Batam, o seu supervisor. GI,
contudo achava melhor deixar passar um ou dois dias antes de
abordar o assunto com mais alguem, so'para assentarem ideias.
BB e Vito sairam para dar um passeio, GI ajudou Marbelle a
arrumar a loica, e a mudar algumas coisas na casa, como
cadeiras, pequenos objectos, vasos, cristais. Uma manha sem
historia. Regressaram ao almoco, almocaram. Dormiram a sesta, e
voltaram desta vez a sair os quatro junto, ate'ao jardim. Quando
voltaram horas depois, havia uma encomenda para GI`a porta,
embalado em cartao embrulhado em papel. Era o prometido
computador. Aborrecidos que estavam, aproveitaram aquela oportu-
nidade para se distrairem, e 'ajudaram' GI a monta-lo dentro de
casa. Primeiro demoraram-se quase meia hora para saber onde iam
po-lo e em que mesa. Uns queriam-no na sala, para jogar uns
joguitos, GI queria-o no seu quarto pois era a *sua* encomenda,
e por fim arranjaram uma sala para o computador, no primeiro
piso, que ainda nao tinha sido utilizada. O facto e'que o
pessoal estava a ficar paranoico com aquela vida. Precisavam de
estimulo. E iriam ter sem duvida.
--- * ---
Villiam caminhava devagar, descalca, de um lado para outro da
sua sala. Havia conversado com Eli. Iam parar de se relacionar
sexualmente. Fora bom, salutar, mas nao eram afinal um para o
outro alem de bons amigos. Villiam tinha o desejo de viajar. O
chamamento do Espaco. Mas nao era isso que lhe ocupava os
pensamentos. Recebera ordens do Governador para acompanhar os
terrenos na sua transferencia para Ratemazam, um planeta de uma
estrela a vinte e seis anos luz dali. Uma Nave Maior chegava
dali a uns dias e devia embarcar com os terrenos assessorando a
sua viagem e estadia temporaria em Ratemazam.
reedição de uma história supostamente a ser contada por várias
pessoas, uma pegando na continuação da outra
esta história foi concluÃda em 1997
[57 em diante]
De la'apanhariam outro transporte. Uma especie de autocarros da
Carris com varias carreiras. Mas Naves enormes, que atingiam
deslocacoes fantasticas, comunicando entre mundos. Apesar de
Villiam ter sido promovida, tinha pena de nao ir comandar a sua
nave. Certo que iam entregar-lhe mais tarde uma maior,
actualizando o nucleo do seu computador pessoal para o novo
equipamento. Mas era uma mudanca de que nao tinha a certeza se
gostaria. Depois,... tinha de ir com GI. Pior: estava a
voltar-lhe a simpatia por aquele pequeno trambolho. O que lhe
reservaria nesta vida o destino ? Na anterior tinha sido mae,
tinha ganho o gosto pelas viagens, lutara para construir uma
estacao espacial, e morrera num acidente, quando voltava de uma
dificil missao cumprida em que se tinha salvo um planeta, com
bilioes de habitantes, que se arrependera tarde de mais duma
guerra biologica, cujos retro virus imparaveis ameacavam
inclusive os seus criadores, duma morte rapida. Criara a pedido
do planeta re-unido uma vacina que disseminou na atmosfera.
Tinha sido uma questao de tempo, e de genio, ja' que os
laboratorios do planeta so'produziriam a sua propria vacina dois
meses depois, o que teria sido tarde de mais. Mas a nave sofrera
um impacto serio de um meteoro, indetectado devido ao cansaco da
tripulacao e ocupacao total dos computadores, e acabara por cair
num planeta proximo, para consternacao geral do planeta que
haviam salvo. Lembrava-se do seu irmao -naquela vida- alguem que
adorava. E lembrava-se de GI. Que raio.
--- * ---
Em Ratemazam o barao von Mask recebera o fax comunicando a
chegada dentro de dias de cinco visitantes. Caminhou sobre o
chao de pedra ate'`a mesa de ferro. Escreveu com a pena no
pergaminho instrucoes para o alojamento dos cinco. Olhou atraves
da vigia aberta na pedra do Castelo. Soprava um vento frio e
forte de norte. Mais uma tempestade num ceu turbulento, sempre
rodopiante. Era normal em Ratemazam. Todas as nuvens rodavam
centradas a norte, em enormes lencois cinzentos. Tempestades
eram provocadas por outras nuvens mais negras a menor altitude.
La'fora nao se viam nunca estrelas. Montes, arvoredo, alguns
caminhos de cavalos, agora recolhidos. Relampagos esverdeados.
--- * ---
MV acordou, arranjou-se e foi tomar o pequeno almoco a Cascais .
Nesse dia ia distrair-se um pouco no Casino, visitar umas
pessoas amigas, e comprar uns livros, para actualizar a sua
biblioteca. Amanha procuraria saber mais coisas de Marbelle e
Vito.
--- * ---
A vida corria, como sempre.
O tempo estava fresco, soprava um ventinho agradavel vindo do
mar. Mas o ar ali em Sintra era agradavel de ser saboreado ao
respirar, o que MV fez durante um minuto, parado junto ao carro,
a olhar para o ceu coberto de nuvens finas, pouco espessas.
Entrou para o veiculo e meteu-se na estrada. Na radio ouviam-se
criticas`a politica de rendimentos do Governo, a concessao de
mais um canal privado na TV, a assinatura de um acordo da Uniao
Europeia, e uma previsao de chuva para a tarde, no litoral. MV
seguiu a uma velocidade tranquila, moderada, e ao fim de pouco
mais de meia-hora estava em Cascais, num cafe'grande onde
cumprimentou os empregados e seguiu ate'ao escritorio para falar
com um seu amigo, o dono. La'fora o carro de MV era rebocado por
mau estacionamento: uma placa nova que fora colocada num local
pouco visivel proibia o estacionamento. Um dos empregados do
cafe'apressou-se a chamar MV la'dentro, para ir la'fora.
MV dialogou nervosamente com o policia, e os dois homens do
rebocador, que estavam a ser malcriados, numa atitude de quem
quer rebocar o maior numero de carros possivel e esta'a ser em-
patado. Um deles ate' comecou a gozar, com bocas indirectas.
Esse... sentiu-se mal de repente e palido, sentou-se na berma do
passeio com uma caibra nos quilhoes. "OOooooh... que isto nunca
me havia acontecido" O colega ficou em cuidados e achou melhor
levar o seu camarada ao posto medico mais proximo, pois o fulano
estava com um aspecto de meter do'. O policia anotou a matricula
do carro de MV e fez companhia aos outros dois. Nao reparou foi
que a matricula que escrevera tinha sido a da camioneta de
reboque. MV sorriu ao ve-los irem-se embora, e mais ao ver a
camioneta a engasgar e parar vinte metros`a frente no meio do
transito, mesmo em cima de um sinal, recolhendo apitadelas de
uma serie de carros. Tinha sido mauzinho, mas estavam mesmo a
pedi-las. Aquele truque da confusao induzida estava cada vez
melhor, eh eh eh. O que vale e'que ele era uma pessoa boa...
Entrou de novo para o cafe', onde foi acolhido com elogios,e viu
com espanto que tinha tido uma assistencia de plateia aos acon-
tecimentos. "Voce teve imensa sorte" diziam, "bem feito, afinal
ainda ha'justica", "hoje ja'ganhei o dia", "a comida ate'me esta'
a cair melhor." . Pois. Melhor seria logo quando a policia
multasse a propria carrinha de reboque. MV acabou almocando com
o dono do cafe',e mais dois amigos deste ultimo, num restaurante
proximo. Falaram de negocios, pois MV tinha trinta por cento do
capital do cafe', de umas gajas porreiras que tinham uma casa
onde recebiam das 17h`a 1h da manha, e de qual o melhor modelo
de carro com cinco portas, para ir aos hipermercados. Depois de
MV insistir e pagar a conta, despediram-se e MV seguiu viagem,
entrando na marginal.
O mar estava calmo e havia algumas pessoas a correr na praia.
Ah! um sinal vermelho. MV travou. PUMM! ... um carro vermelho,
um Metro, tinha dado uma porrada no Porsche de MV. MV olhou pelo
retrovisor. Irritou-se, saiu, bateu com a porta, e olhou de
frente para o animal que ia a conduzir... por sinal uma bonita
mulher, ainda sentada a olhar estupefacta para o carro`a frente
e branca como a cal de tao palida que estava. Ele ao ver a
mulher tao aflita e ao reparar que o carro era novo, benzeu-se
imaginariamente e suspirando aproximou-se da mulher. Usava um
colete bege claro, camisa, nao se via saia, umas pernas
perfeitas e musculadas, embora femininas, e conduzia descalca,
sobre uns pedais forrados a tecido, tendo no assento ao lado uns
sapatos de salto alto, da cor do colete. Os carros desviavam-se
tanto pela direita como pela esquerda, olhando com curiosidade.
Que se fossem foder todos, pensava MV.
MV "Entao, minha senhora, esta'bem ? Ia a dormir ou que ?"
Ela "Ai! e'a primeira vez que me acontece isto, e o carro nem
sequer e'meu. A minha amiga vai-me matar quando souber."
e uma lagrima escorreu-lhe da vista direita. Estava em
panico.
MV, que nao podia ver uma mulher chorar, apiedou-se e sugeriu
que encostassem os carros alem`a frente para tratarem do seguro.
Mas a fulana disse que estava incapaz de guiar, que so'se lhe
rebocassem o carro. Tirou os sapatos do banco, calcou-os e
pegando nos papeis do carro e na carta saiu. Em pe'tinha um
aspecto fabuloso. A saia era quase inexistente, o equilibrio,
perfeito, e a graca do andar encantadora, apesar da sua aflicao.
Nao encontrava o papel de declaracao amigavel de acidente. "Nao
faz mal" disse MV," eu trago sempre meia duzia comigo." Ela
voltou-se a sentir mal e cambaleou num inicio de desmaio ao
pensar na sua amiga. MV sentiu um aperto no coracao e pegou nos
bracos da mulher, amparando-a ate'ao seu Porsche. Abriu a porta
do lado direito e ajudou-a a sentar-se. Tirou-lhe os sapatos e
desapertou-lhe a gola da camisa. Ela estava com suores. Meteu os
piscas do Porsche acessos e entrou no Metro da senhora. Ligou o
carro que pegou e fez marcha-atras, contornando o seu carro e
indo`a frente arrumar este. Fechou os vidros, travou o carro, e
fechou as portas. A frente estava um bocado amachucada, coisa ai'
para os cem, duzentos contos, caso so'tivesse seguro contra
terceiros. Felizmente o seu carro tinha ficado pouco danificado.
Os farois traseiros, e o para-choques torcido.
Entrou no seu carro, ainda parado junto aos semaforos. Arrancou.
Ela estava a comecar a reagir. MV parou junto a um cafe'com
vista para o mar, e convidou-a a tratarem dos papeis`a mesa. Ela
sorriu tenuamente pela primeira vez e calcando de novo os
sapatos saiu do carro apoiando-se no braco de MV.
Na mesa MV preencheu a papelada dela e dele. Ela leu, pediu
explicacoes, e assinou. Guardaram os papeis, nao sem antes MV
lhe ter dito o que havia de fazer com eles. Ninguem se declarou
culpado, porem nao havia duvidas. E depois de um cafe'forte ela
comecou a falar. O carro era da amante dela, uma mulher que ela
adorava, mas que era muito senhora das suas posses, e nao tinha
seguro para o veiculo, so' para terceiros e ocupantes. Vivia de
comissoes de vendas de produtos de cosmetica, cabeleireiros e
tambem, recentemente, de perfumaria. O negocio corria menos bem
desde o ultimo Verao e este acidente ia complicar-lhe imenso a
vida, pois tinha uma serie de letras para pagar. Mas isso, disse
ela, ainda conseguia safar com algum esforco e ajuda de amigas
suas. Agora o chegar logo`a noite a casa da sua companheira e
dizer-lhe que nao tinha o carro, era de morte. Estavam a
precisar dele para darem um volta ate'ao sul de Franca numa
semaninha de ferias, pois tinham estadia paga por duas amigas la'
do sitio. MV disse que tinha pena, mas nao se sentia culpado. No
entanto talvez a pudesse ajudar se ela pudesse encontrar-se com
ele logo `a noite. Ela sorriu, triste, como quem diz que nao
aprecia homens, e acrescentou a essa expressao corporal, a frase
"ela espera-me... ". Entao MV sugeriu um esquema para desculpa
de ela chegar atrasada. Uma historia de um furo num pneu quando
estava a regressar. Combinaram pormenores e podia ser que a
coisa pegasse, sim. Mas o que podia MV fazer por ela ? Iam ao
Casino. MV sentia-se com sorte nesse dia. Prometeu-lhe que se
fosse com ela e ganhasse mais de trezentos contos, lhe oferecia
a metade do que conseguisse. Combinado, respondeu ela, sorriden-
te mas ainda triste. O que ela queria era protelar ao maximo dar
a noticia`a sua patroa. Nao tinha esperancas no jogo, mas estava
tao desalentada que ate' a companhia de um homem a animava.
Depois... este parecia nao ser um desses machistas aproveitado-
res, pensou olhando-o com olhos de interesse pela primeira vez.
MV disse`a Klautia ( familia de Leste ) que estava de ferias, e
tendo o dia livre podia bem dispensar-lhe uma ajuda para a levar
a algum lado que precisasse. Conversados, acabaram por ir ao
Metro Vermelho , buscar uma serie de produtos do negocio da
Klautia e MV passou a tarde de uma forma diferente. A visitar
lugares cheios de mulheres, ora a arranjar o cabelo, as unhas,
as pernas. Em alguns lugares Klautia pedia-lhe para nao entrar
mas noutros nao havia problema, e MV era comido pelos olhos de
algumas clientes, que tambem tinham... a tarde livre...
--- * ---
Longe, para alem do ceu, para alem da Lua, para alem do mundo,
orbitando Saturno, o seu maior satelite, Titan, comportava numa
imensa cavidade interior um pequeno mundo ocupado artificialmen-
te pelos Tangorianos, iluminado por um sol artificialmente cria-
do e sustido, no centro da cavidade com algumas centenas de qui-
lometros de diametro. BB, Marbelle, GI e Vito - os quatro terre-
nos recolhidos`a hora da morte por Villiam numa nave espacial,
estavam na vivenda que lhes fora atribuida, num quarto`a volta
de um computador trazido da Terra por especial favor, a pedido
de GI. BB e Vito haviam passado as ultimas horas a pesquisarem
numa cassette de 40 Mb e em disquetes quais os jogos que tinham
vindo e jogavam alguns. Quem estava positivamente contrariado
era GI que havia pedido o computador e era quem ao fim ao cabo o
nao utilizava. Ate'Marbelle se distraira um pouco a ver uns GIFs
so'que GI o que queria era programar, ler e testar novidades de
shareware e analisar programas de exemplo, nao estava com ambi-
ente para o estudo. Amuou e saiu de casa. Caminhou devagar ate'
ao jardim ali perto. Entrou e sentou-se no chao, sem forcas,
desanimado. Nao tinha com quem competir, ou a quem mostrar os
seus dotes de programacao, ou contar vantagem. No fundo,
reflectia, era um bocado isso que lhe interessava nos
computadores, a par de um curiosidade pela novidade. Estava
mesmo a sentir-se em baixo. Olhou em frente e reparou num vulto
deitado a uns quinze metros de si. Mas estava sem qualquer tipo
de motivacao. Pos-se a olhar de perto as folhas, os insectos
pequeninos, e maravilhou-se com o seu pequeno mundo,
interrogando-se de qual seria a nocao de tempo naquele meio. Mas
nem esse pensamento concluiu. Deitou-se de costas a olhar para o
Sol central, semi-velado pelas copas das arvores. Sentiu
curiosidade em olhar de novo para o vulto deitado ali ao longe,
e cruzaram os olhos, pois igual atitude existia na outra pessoa.
Repararam um no outro e sem acenarem, nem mostrarem sinais de
alegria, GI e Villiam aproximaram-se devagar. Olharam-se mais
uma vez de frente, perto um do outro e em silencio abracaram-se,
num momento de excepcao, num momento em que nao e'preciso
compreensao, ou explicacao. Nao sentiam zanga nem embaraco,
apenas um desejo original, genuino de se juntarem ali e agora um
pouco. Que se lixasse a coerencia e os antecedentes. E ficaram
ali minutos, Villiam e GI lacrimejando sem saberem por que, nem
com interesse em o esclarecer.
Alguns passaros pousaram em silencio nos troncos ali perto e
observavam curiosos o fenomeno. Uma aureola clara comecou a
rodear o par deitado deslumbrando os animais assistentes e para
quem tivesse um ouvido fino, uma melodia natural fazia-se ouvir
muito baixinho. Um passaro piou, levantou voo e sobrevoando
excitado os dois seres humanos, picou sobre eles e preocupado
andou sobre eles dum lado para o outro com as suas patinhas.
Bicou a orelha a Villiam. Os restantes passaros acudiram de
seguida e tentavam acordar os dois seres que se estavam quase a
passar para o outro lado, numa morte de felicidade, mas, numa
morte prematura, que a passarada pressentira instintivamente. GI
deu um pulo de sobressalto quando foi picado com forca acima de
uma orelha. Assustou-se com a chilreada dos passaros e ainda nas
nuvens, sorrindo, pos-se de joelhos. Olhou para Villiam e teve o
mesmo sobressalto que os passaros, abanando-a ate' que a
conseguiu acordar por fim. Sorriram novamente um para o outro,
mas desta vez ja' nao como almas, mas como homem e mulher.
Beijaram-se com tempo, e levantando-se caminharam abracados
falando pouco,ate'ao veiculo de Villiam que os levou ate'`a casa
dela, onde GI de novo fez amor com ela, coisa modesta e sem me-
todo, de dez minutos, mas cheia de significado.
Villiam, enquanto GI dormia sobre um tapete junto`a cama, ainda
nu, enviou um aviso pelo correio para a casa de BB de modo ao
pessoal nao se preocupar. Dizia o bilhete : "
+-----------------------------------+
| GI esta'a repousar em minha casa. |
| Vou ter convosco amanha de manha. |
| Tenham as vossas coisas prontas , |
| pois vamos viajar para muito lon- |
| ge. Nao voltamos a Titan. |
| |
| Villiam |
+-----------------------------------+
Depois, tapou GI com um lencol num tecido reluzente e deitou-se
junto, passando pelas brasas.
O bilhete chegou ao destinatario, materializando-se no ar sobre
a mesa do computador, onde BB e Vito jogavam ainda ao desafio um
jogo de accao e tiro neles. BB pasmado apanhou o papel de cima
do teclado e leu a nota. Passou-a a Vito, e foram os dois falar
com Marbelle, que fazia o jantar. Sentiam-se de novo isolados,
sos, e de novo com a expectativa do resultado da mudanca. Depois
de jantar, tristes, pois iam afastar-se ainda mais da Terra e do
Sol, juntaram com pena os seus trapinhos, nao sem tambem acondi-
cionarem as coisas de GI. Iam sentir todos um pouco saudades de
Titan. Tanta coisa que ainda havia para ver, tanta coisa que
lhes havia acontecido, desde a coma e ressurreicao de GI, a
operacao ao penis de BB ( que ficou melhor que nunca ), as cenas
de engate com Villiam, a visita por Titan, o velhinho simpatico
da cabana que os salvara. Oh! como a vida era tao preciosa, e
como corria atraves deles sem nunca se fixar, como a agua e o
vento. Melancolicos e sos deitaram-se os tres na mesma cama, em
pijama, com Marbelle no meio. Vito e BB ali sentiam-se mais como
miudos pequenos, e nao passou pela cabeca de ninguem qualquer
cena de ciumes por causa de Marbelle.
--- * ---
Entretanto o tempo passara e o dia havia corrido bem a Klautia e
a MV. Klautia tinha conseguido vender em quase todos os lugares
em que MV entrara. MV ficara a conhecer uma serie de mulheres
novas e interessantes. A uniao havia sido proveitosa. Ja'no
carro Klautia abracou MV de contente. Palavra! havia gostado da
companhia do raio do homem. Que giro! nunca pensara tal
possivel. MV atreveu-se a dar-lhe um beijo de leve nos labios.
Ela retraiu-se ficando seria e fazendo um trejeito automatico de
rejeicao, nojo. Mas poisando a mao no ombro de MV pediu desculpa
e deu-lhe por sua vez um beijo, ela mesmo, tambem ao de leve. MV
calmo e sereno ate'aquele momento, sentiu os quilhoes entesarem-
-se e o penis a engrossar e crescer imparavelmente. Contudo con-
teve-se de o dar a entender. Teria sido ma'ideia. Disse-lhe que
antes de escurecer ia passar por uma garagem para mudar as luzes
da retaguarda do carro e iam entao depois jantar fora e logo a
seguir ao casino. Ela disse que sim baixinho, pensando de novo
no acidente do carro e do seu regresso a casa, para junto da sua
amante. Sentia um pequeno sentimento de culpa por estar junto a
MV, ainda por cima um homem, e apercebeu-se que estava a comecar
a aprecia-lo, sentindo os mamilos a ficarem rijos de excitacao.
Nao, aquilo nao lhe podia estar a acontecer, pensava ela enquan-
to MV guiava rumo a uma garagem conhecida dele, ali perto.
MV deixou o carro na garagem, para o ir buscar depois do jantar,
e Klautia telefonou assustada e contida`a sua companheira dizen-
do-lhe onde estava e que tinha sido o seu carro que tivera um
acidente, e ia tratar que dali a umas horas ja' o entregassem...
Ficou branca ao ouvir uma descompostura da gaja que lhe
desligou o telefone na cara, nao sem lhe exigir que estivesse
em casa antes das onze da noite.
MV confortou a encantadora Klautia e chamando um taxi, condu-
ziu-a a um hotel proximo, onde conversaram um pouco antes da ho-
ra de jantar. Klautia havia tido uma iniciacao sexual com um
amigo depois de uma festa em que beberam um pouco mais. A coisa
na altura nao a afectou, mas no dia seguinte nao se suportava.
Enfim, influencias familiares, e de uma amiga com que passara as
ferias nesse Verao. A amiga era conhecedora dos prazeres femini-
nos, e adorara a experiencia de se relacionar com uma mulher.
Circulara num meio onde os homens eram evitados e mal vistos e
acabara com era hoje, a viver com uma outra companheira que
conhecera numa venda.
MV mostrou curiosidade em saber se ela era capaz de encarar um
homem nu. Como esperava,ela confessou que nunca mais havia visto
um excepto revistas da PlayGirl que raramente comprava. MV entao
murmurou-lhe ao ouvido se o nao queria ver a ele. Prometia que
nao a ia puxar a fazer fosse o que fosse, ia apenas servir de
"estatua humana viva". Era corou pela primeira vez. Confiava no
homem, a ideia era excitante, pelo medo que lhe provocava, mas
hoje tudo lhe estava a acontecer demasiado depressa e tinha medo
de perder de vez o controlo da situacao. Mas ali estava ele, sem
ser insistente, com um sorriso tao querido de desafio... "Seja!"
disse numa gargalhada.
MV deixou-a no cafe'e passou pela recepcao. Pagou um quarto de
casal para passar a noite desse dia. Assinou o livro e foi
buscar Klautia. "Tens a certeza?" perguntou-lhe. "Nao sei, mas
quero ir." respondeu ela nervosa com o coracao acelerado.
MV entrou primeiro no quarto, abrindo-o. Ela seguiu-o atras.
Entao e lentamente MV comecou a tirar peca a peca de roupa. Numa
sessao particular de strip-tease. Klautia arfava de excitacao e
medo, mas tambem de conquista desse medo pelo desenrolar da rea-
lidade. Quando MV ficou nu, ela abriu muito a boca e desatou a
rir quebrando por fim, o resto dos seus receios. E'que MV nao
resistira`a situacao e estava com uma tesao fenomenal, saindo
pelo orificio da glande do penis uma enorme gota de liquido de
lubrificacao.
Klautia ria que lhe doia o estomago. Depois parou e comecou a
andar `a roda de MV, que sorria. Aproximou-se, cheirou-o,
apalpou-lhe os bracos, as pernas, e deu uma festa no penis
colocando-o entre o seu dedo polegar e indicador abertos. Molhou
a ponta dos dedos no liquido de MV e provou. Gostou. E vai disto
lambeu-o e chupou-o devagar, em descoberta. Quem estava a come-
car a perder o controlo da situacao, agora, era MV. Por um lado
tinha de se aguentar, pois seria fatal para o processo de apren-
dizagem dela que ele ejaculasse, depois a gaja sem saber estava
a fazer um trabalho quase profissional, de modo que MV estava
entre a espada e a parede, e comecou a suar e,... sim! a arfar,
o que curiosamente deu confianca a Klautia. Fez MV deitar-se no
chao e descalcou-se, tirou os collans, as cuecuinhas e sem ser
penetrada por MV rocou-se contra ele, com o penis entre as
pernas apertadas. MV resistiu o que pode, mas acabou mesmo por
jorrar com toda a forca para o ar, o que a surpreendeu. "Ah e'
assim?" disse misto de espantada com a boca aberta tapada pela
mao. Da ultima vez nao repara. Viu a saia, ajeitou-a, e foi
buscar um bocado de papel higienico para limpar o chao em
alcatifa. Nao sem antes ter tambem provado. "Nao era mau",
disse. Mas preferia ainda assim o das mulheres. Comentario que
deixou MV aparvalhado.
Ela insistiu em ser ela a lavar MV. Depois vestiram-se de novo.
Desceram para o jantar e MV apercebeu-se que gostava da mulher.
Nao como gostava das outras, que conhecia e depois so'via de vez
em quando, passados meses. Sentia por esta uma estima diferente.
Tinha que ter cuidado ou um dia destes ainda acabava por se
apaixonar e *isso* ele nao queria. Apanharam taxi para a garagem
que fizera o especial favor a MV de reparar o seu Porsche ainda
naquela noite. MV passou dois cheques, um de gorjeta, outro de
despesa, e seguiram para o Casino.
Percorreram com calma as varias salas, apercebendo-se do ambien-
te, e acabaram por ficar na roleta. MV que ja'tinha trocado di-
nheiro por fichas, apostou dez contos no 12. Saiu o 21. Depois
apostou mais dez contos no 20, saindo o 2. Ficou a ver os dois
lances seguintes, e apostou, com autorizacao do homem, cinquen-
ta contos no 22. E SAIU!! Deixou passar mais quatro apostas e de
novo cinquenta contos num numero. E saiu outra vez! Pediu jogo
sem limite. Ficou a ver jogar mais tres lances, ate' que lhe
deram a informacao de que o limite maximo era de trezentos mil
escudos por aposta. Varias pessoas se acercaram da mesa atraidas
pelas exclamacoes e aplausos anteriores. Klautia estava varada,
com o queixo caido. Era como se de repente um sonho seu se
tornasse realidade, e ali mesmo se apaixonou por aquele esta-
fermo, so'era pena nao ser mulher... e MV apostou trezentos con-
tos no 16. Desta vez saiu o 6... exclamacoes de pena dos assis-
tentes. MV apostou de novo trezentos contos, no... 1! de novo
suspense enquanto a bola se definia, e um coro de gritos quando
a bola caiu no 1!! MV sorriu finalmente. Agradeceu aos presentes
e ajuizadamente recolheu as fichas ganhas. Conforme o prometido
deu metade do total a Klautia que nao queria acreditar que ele
afinal mantivesse a promessa. Ora, cheio de dinheiro ainda esta-
va ele da primeira lotaria que havia ganho, ha'uns anos atras.
Nessa noite dancaram numa boite de Cascais e dormiram juntos num
hotel da beira mar, mandando Klautia a sua patroa `as urtigas.
Tinha o suficiente para arranjar o carro e dar entrada para um
so'seu, ou comprar um em segunda mao. Contudo nao pensem que
houve sexo, nao. Brincaram muito, mas ela pediu por favor que
nao. MV tambem nao forcou. Estava feliz.
--- * ---
[ O dia seguinte iria ser diferente para todos. Os quatro ]
[ amigos terrenos e Villiam iam embarcar para Ratemazam, e MV ]
[ comecaria pela primeira vez o dia seguinte com companhia. ]
[ Sera'que sim ? ]
Villiam "Querido, prepare-se rapido que vamos reunirmo-nos com o
restante pessoal. Ja'tem as coisas arrumadas em casa.
Vai haver uma viagem de descoberta para todos nos. "
GI "Mas... que e'que vao fazer de nos ? e, Villiam, porque
afinal nos salvastes ? "
Villiam "Foram ordens e foi o destino, meu amigo. A Terra esta'a
produzir uma serie de ideologias e tipos de pessoas.
Temos permissao para em casos muito especiais recolher
algumas. A finalidade nao e'do vosso nivel de entendi-
mento. Tem a haver com a humanidade na sua concepcao
interestelar, que e' uma consciencia que ainda nao
alcancaram,devido`a vossa epoca de evolucao. Mas perce-
be-se bem para quem anda nestas viagens entre as estre-
las. Agora, veja la'se se veste! tenho pressa. "
Picado pelo ultimo tom de voz, GI procurou a sua roupa e comecou
a vestir-se, sendo observado pela mulher. Nao o embaracava. Ela
parecia envolta em pensamentos distantes. Ja'vestido dirigiu-se
`a casa de banho - ou equivalente - e ajeitou a cara e o cabelo.
Apresentou-se a Villiam que de imediato o conduziu ao veiculo.
Ja' dentro do veiculo e no ar, GI falou, enquanto ainda medi-
tativa Villiam conduzia.
GI "Parece haver algo que a preocupa ? para onde vamos ?"
Villiam "GI... obedece sempre`as minhas ordens, sim ?" disse no
resultado de um resultado de um qualquer raciocinio .
Fez uma pausa antes de responder.
"Vamos buscar BB, Vito e Marbelle. Vai chegar daqui a
umas horas uma nave interestelar Maior e tenho de vos
preparar para a vossa entrada. Tenho ordens para ir
convosco. O nosso destino e'um planeta com uma tradicao
milenar unica. Ratemazan, chama-se. Significa o planeta
do bom demonio."
GI "Estranhas as vossas tradicoes. Isso e'bom ou mau ? que-
ro dizer, o irmos para la'? "
Villiam "Sinto que o meu destino cruza-se com esta viagem. E'um
planeta pouco propicio a uma longa estadia dadas as
suas condicoes, como hao-de sentir. Como havemos todos
de sentir, ja'que nunca fui la'. Perturba as pessoas, a
sua vivencia. Quem la' vao sao filosofos, cultivadores
da disciplina, religiosos - poucos - e casos especiais.
Sabemos que e'um dos estagios de algumas escolas de
formacao de especialista do ramo I e ramo VII."
Entretanto o veiculo poisou perto da vivenda que serviu de alo-
jamento aos terrenos. BB durante a "noite" havia-se levantado e
sentado aos pes da cama a ver Marbelle e Vito dormirem agarrados
e por fim viera triste para baixo, vestir-se, preparar-se. Tinha
ja'juntado a tralha toda`a porta quando Vito e Marbelle desceram.
Marbelle pediu ajuda para deixar a casa mais ou menos arrumada
como quando tinham entrado nela. Decidiram deixar o radio na co-
zinha e o computador no quarto. Estavam sem apetite, de modo que
nao fizeram pequeno almoco. Aguardavam mais ou menos em silencio
na entrada quando ouviram o veiculo de Villiam a chegar.
Sairam, todos cumprimentaram GI com sorrisos, embora toldados
por um sentimento comum de perda e tristeza, mesclado com receio
por novas aventuras. Villiam impos a sua suave autoridade a cada
um dos presentes. Cada um levava apenas um pequeno saco, nada
mais. Roupas, sapatos e o restante ficariam ali mesmo. Villiam
esperou que cada um fizesse uma seleccao mais apurada do que
queria levar. GI subiu sozinho ao quarto onde estava o
computador e num gesto indescritivel abracou por momentos o com-
putador, levando uma disquete do MS-DOS 5.0 como recordacao.
E juntou-se aos demais com um aperto no coracao.
Villiam conduziu-os em silencio durante quinze minutos a uma boa
velocidade. Chegaram a uma montanha pouco alta, ai'de uns seis-
centos metros, e entraram numa enorme abertura na base, pousando
dentro num patio de lages brilhantes e polidas, cor violeta
esbranquicada. Iam todos vestidos em tons de castanho claro ,
excepto Villiam uniformizada a laranja. O fim do patio perdia-se
no horizonte, ja'que a luz era tenue. Nao havia ecos. Os sons
perdiam-se gradualmente. Villiam levitou quatro dedos acima das
lages, e virando-se para os quatro estupefactos acompanhantes
fez-lhes o gesto de se levitarem tambem. Para surpresa geral,
foi isso mesmo que aconteceu. O ambiente era de sonho. O ar
tinha uma temperatura ideal, morno agradavel quando parados e
fresco optimo quando em movimento. Seguiam as instrucoes de
Villiam e patinavam no ar atras dela, fazendo paragens e curvas,
conforme ela as fazia. Juntou-os todos e disse-lhes:
Villiam "Este local tem um fim ludico. Permite`as pessoas des-
contrairem-se, encontrarem-se com os seus proprios
problemas, libertarem-se. Essa operacao e' necessaria
para que possam entrar na nave. Temos todos de estar
livres das coisas e pessoas de Titan, da Terra,de todos
e tudo. Quero que cada um patine sozinho para sentidos
opostos. Daqui a uns minutos acenderei um laser verme-
lho para vos orientar no regresso."
Marbelle"Queres dizer que uma pessoa que estivesse por exemplo
apaixonada por um homem aqui em Titan nao poderia
entrar na nave ? teria de perder a paixao primeiro ? "
Villiam "E' isso mais ou menos. Poderia de facto entrar na nave,
embora as normas o impossibilitassem. Nao poderia era
viajar nela devido ao metodo de deslocacao que e' uti-
lizado. Corria perigo de loucura ou pior, alem de pre-
judicar em parte os outros passageiros. No caso do
romance que imaginaste, o homem daqui teria de te
libertar, desistindo de ti, antes que pudesses seguir
viagem. Sao conhecidos casos de tripulantes que depois
de se afeicoarem com naturais de planetas, tem de
ficar la'. E'um dos dramas das viagens espaciais a este
nivel."
Vito "Mas eu gosto aqui da Marbelle..."
Villiam "E'diferente, vao viajar e ser preparados os dois juntos
e eu referia-me a casos entre tripulantes e naturais
sem preparacao interestelar, fixados ao mundo onde
habitam."
BB "Isso e'complicado. Nao percebo o que tem a ver a deslo-
cacao de uma nave com as ligacoes emocionais das pes-
soas"
Villiam "... e' que nao acompanham a velocidade da nave nem
resistem`as suas trajectorias, finalizou Villiam com um
sorriso misterioso... "
E la' foi cada um patinar para o seu lado. A luz era tenue e o
chao esbranquicado. A'medida que se afastavam do ponto inicial
perdiam-se de vista. GI sentia-se como se flutuasse num oceano
de lages. Aumentou a velocidade. Tomara nao houvesse mesmo
nenhuma parede. Villiam assegurara que podiam andam por horas,
mas que tal nao chegaria sequer a ser preciso. O horizonte
tornava-se cada vez mais sombrio e GI arregalando os olhos viu
num efeito de miragem ou algo do genero, a sua imagem reflectida
de frente. O ar estava morno, e GI deslizava agora muito devagar
observando sem referencias visuais o seu proprio reflexo ao lon-
ge.Gradualmente esse reflexo parecia por vezes ganhar movimentos
proprios, ou formas diferentes das suas, o que por qualquer
motivo o inspirava de um medo profundo. A dada altura o reflexo
estava mais proximo e ficou negro, so'vendo os contornos. GI
arregalou os olhos fixos naquela figura misto de horror e atra-
cao e todo o horizonte ficou negro, numa penumbra irreal, sobre-
natural. Sentiu frio nos pes e pernas e depois por todo o corpo.
Luzes e formas rodeavam-no agora e atraves delas GI ia despindo-
-se de todos os seus apegos, preconceitos, revoltas, medos e
recalcamentos. Ao fim de um tempo que nao conseguiu definir, mas
que devia ser de cerca de meia hora, despertou gradualmente
deslizando ainda sobre as lajes, mas sentia-se *livre*, sentia-
-se a si mesmo sem todo o lixo que durante tanto tempo transpor-
tara. Um foco de luz vermelha brilhou muito pequeno, muito ao
longe, mas intenso. GI orientou-se nessa direccao e para la' se
dirigiu. Ao fim de meia hora estavam todos juntos de novo, cada
qual com uma experiencia libertadora semelhante. Marbelle trata-
va Vito com desprendimento, e Vito fazia o mesmo. BB deixara de
se sentir responsavel pelo grupo, embora se dispusesse a mante-
-lo unido, GI nao pensava nos computadores como referencia para
tudo, embora continuasse a saber usa-los se necessario. Villiam
via com aprovacao os melhoramentos alcancados.
Villiam "Meus senhores, o estado de espirito aqui alcancado e'a
norma de vivencia dentro da nave. Vamos esperar o mo-
mento de embarque aqui."
BB e Vito encostaram-se ao veiculo, Marbelle sentou-se no chao
fazendo festas na laje e GI deitou-se ao comprido olhando para
o alto sem fundo, de cor azul escura. Villiam sentou-se tambem
no chao e comecou a assobiar uma melodia. O ambiente era de
serenidade. A expectativa tinha passado.
MV acordou sobressaltado. Por instantes a surpresa de ter uma
mulher nua a seu lado distraiu-o, mas de novo voltou`a lembranca
que o havia feito acordar tao de repente. Um sonho, uma imagem
em que Marbelle, Vito, um tal BB e um tal GI, que conhecera num
jantar de loggies, estavam todos a dizer-lhe adeus, suspensos
nas estrelas. Aquele sonho era premonitorio, MV sentia-o. E com
o coracao com uma suave dor pensou que nao veria os seus dois
amigos nunca mais. Klautia despertou e abracou o pescoco de MV ,
sentado na cama. "Algum problema, querido?" "Um pesadelo apenas"
e voltaram-se a aconchegar. MV estava confuso. Sentou-se de novo
pois o desejo de se reunir com os seus amigos era grande. Satur-
no havia dito o pendulo. Mas que raio. Nao se conformava. Peque-
nos objectos rodaram em cima da comoda e chao. Era MV e a sua
FORCA em accao,mas va~. Isto deixava-o impotente. E, consternado
aceitou ver pela primeira vez como teria de ser a sua vida sem
os seus grandes amigos. Klautia levantou-se, chegou ao pe'de MV
e sugeriu que se arranjassem para um passeio pela beira mar.
Assim fizeram. Lavaram-se, vestiram-se e nao eram ainda cinco da
manha quando MV e Klautia passaram pela recepcao para deixar as
chaves e sairem para andarem descalcos`a beira-mar, era ainda
noite, embora ja'se notasse de que lado iria nascer o Sol. Ela
reflectia na sua vida sexual, no que era, no que queria ser e na
experiencia que teve com MV. O que era certo e'que continuava a
preferir as mulheres e ja'havia crescido e sido feita assim. Ah,
para *este* homem, ela abriria sempre uma excepcao, ate', quem
sabe se um dia, uma excepcao completa. Agora achava ainda um
pouco de nojo no receber semen dentro de si. Nao era nenhum ovo,
ou galinha. E depois, o penis era uma coisa tao grande... e
comecava a ter pena da sua patroa. Era uma fera, mas no fundo
muito meiga e afinal de contas so'ma'da boca para fora. Devia
estar muito preocupada e triste por nao ter aparecido. Pesou e
reflectiu. E disse-o por fim a MV, no momento em que os
primeiros raios de Sol surgiam no horizonte. MV achou bem que
seguisse o caminho que estava mais de acordo com ela. Tinha gos-
tado muito do encontro, da experiencia, da amizade.
Ainda andaram um bocado mais. Voltaram para o hotel. Subiram ao
quarto e arranjaram as suas coisas. Ela despediu-se de MV apal-
pando-lhe os quilhoes ao mesmo tempo que o beijava no queixo, e
saiu pela porta. Deixou um cartao com o endereco e telefone. MV
sentou-se na cama por uns minutos, pensativo. Depois, pegou nas
suas coisas, voltou a por a chave na recepcao. Pagou o que ainda
havia a pagar e saiu, entrando adiante no seu Porsche. Arrancou
estrada fora para o Sul. Eram sete da manha.
--- * ---
No espaco cheio de negro mas tambem de estrelas, um fio materia-
lizou-se, qual raio laser surgido do nada, e desse fio desdo-
-brou-se numa visao indescritivel os arquetipos e a forma de uma
nave enorme, a enorme velocidade. Saturno estava a dez minutos-
-luz. Chegariam la'dali a quinze minutos.
Era a Excel uma nave de cor azul-violaceo metalizado, em forma
de um "D" alongado, com uma estrutura traseira, semelhantes a
antenas parabolicas cortadas. A aproximacao a Saturno fez-se sem
problemas. Rodeou o planeta, deslizando, e dirigiu-se a Titan.
Houve durante meia-hora uma troca de transportes e passageiros
entre a nave e o satelite, incluindo duas naves para Titan e um
grupinho de cinco pessoas de Titan para a nave. Uma nave media
havia passado por onde estava Villiam e companhia e transporta-
ra-os para fora de Titan, para dentro da nave, regressando
depois.
De facto acharam todos aquele veiculo algo excepcional. Um can-
tico`a natureza superior da humanidade. Ali sentia-se intrinseco
um outro objectivo que nem GI, nem BB, nem nenhum terreno haviam
alguma vez se apercebido. Aquela nave nao viajava apenas pelo
universo. Mesmo parada era um ponto de ligacao entre as estrelas
longinquas. Apercebia-se que ali dentro a realidade era outra.
E isto nao a titulo subjectivo apenas. Objectivamente tambem. As
pessoas tinham outra maneira de andarem, outra cadencia de
se deslocarem, os seus olhos mostravam uma atitude tangoriana
sim, mas sem horizontes.
O hangar de entrada por onde entraram era gigantesco. Cabia la'
uma montanha. Os objectos e materiais eram deslocados aparente-
mente sem esforco por feixes invisiveis de forcas, havendo
sinais holograficos a orientar as deslocacoes. A azafama era
muita mas ordeira, embora nao totalmente prevista. Havia ali
algum improviso, apenas organizado por alto. Villiam conduziu os
seus quatro hospedes para um aposento comum que iriam ocupar na
viagem. Comecaram por caminhar, mas por fim deslizaram atras de
um pequeno robo^ em forma de caixa azul-ferro que surgira
pedindo-lhes ( lendo-a ) a identificacao e conduzindo-os por
varios corredores ao local.
Cintas de luz vermelha acenderam por todo o perimetro da sala.
Villiam desligou o painel e pediu que se sentassem todos. Ia
partir a nave. Pediu que dessem as maos e nao receassem. A luz
vermelha passou a amarela, indicando arranque da nave, e Villiam
explicou que o surgimento da azul seria indicativo de estarem
prestes a passarem a velocidade da luz. Nao era uma velocidade,
ja' que o tempo e'que variava, mas - dizia Villiam - era so'para
perceberem. A luz passou a azul. Novo arranque da nave. E BB
mais os restantes perceberam finalmente a razao do treino a que
haviam sido submetidos. Ao passarem o limiar da luz as emocoes
deixaram de ter presenca, e quem porventura tivesse alguma, ver-
-se-ia brutalmente apartado delas, pois o sistema de deslocacao
da nave mexia com o subjectivismo pessoal, e dava uma perspecti-
va alterada da realidade, mais limpa, mais simples, onde a com-
plexidade era abrangida sem esforco. Marbelle definiu a opiniao
do grupo mais ou menos bem quando disse que ali o coracao era o
intelecto, o que fez Villiam sorrir.
A viagem apesar de ser para um ponto a vinte e seis anos-luz, ia
demorar cerca de duas horas e meia apenas. Villiam achou melhor
conservarem-se dentro da sala, ja'que lhes queria falar um pouco
sobre Ratemazam, e poderiam perder-se no meio da intensa movi-
mentacao que reinava la'fora, para organizarem as varias cargas
e descargas em proximos planetas. A nave seguia a velocidade de
cruzeiro, estavel. Villiam ligou a tela e mostrou Ratemazan: um
planeta um pouco maior que a Terra, rodando no sentido horario,
coberto de nuvens esbranquicadas, que estavam dispostas em
faixas centradas nos polos onde parecia haver um furacao
permanente. Na tela surgiu a estrutura geologica do planeta, da
sua superficie ate'alguns quilometros de profundidade. [...]
O nome de "Planeta do Bom Demonio" vinha de uma ancestral tradi-
cao Tangoriana, dos primeiros pioneiros, que por sua vez a
haviam retirado de inscricoes mais antigas de uma civilizacao
desaparecida. Rezava a historia que em Ratemazan uma epoca de
muita guerra e maldade imperava. Poucos eram os que tinham des-
cernimento para fazerem seus abrigos e procurarem novas paragens
noutros mundos, mas as defesas estrategicas impediam quem quer
que fosse de sair ou entrar. Praticas infernais eram coisa do
quotidiano. Surgiram profetas, defensores do bem, do regresso`as
raizes da raca e da paz, mas os homens comecaram por os trucida-
rem acusando-os pertencentes a uma terceira forca. Um dia algo
que nunca fora previsto pelos profetas, ou escrito em livro
algum comecara a suceder. Quase sem motivo os homens pararam os
conflitos, reuniram-se dialogando sobre a desmotivacao das hos-
tilidades, tentaram explicar porque se sentiam tao diferentes...
e a explicacao procurada terminou com a civilizacao, tal como a
tinham definido ate'ali: um ser excelso, conhecido nas raizes
culturais daquele povo por "Ratemazan", demonio, diabo, etc
havia tomado por sua propria, livre e excelsa iniciativa desis-
tir da sua forca de mal e sujeitar-se por sua propria, livre e
excelsa vontade ao universo. Tal atitude surpreendera todos os
ceus e todos os deuses. Ratemazan atingiu uma posicao singular
no universo, e o mundo onde a decisao teve origem tornou-se
desde entao lugar de culto e de estranhas singularidades.
Villiam acabara de dar estas e outras explicacoes, quando a luz
a todo o perimetro da sala oscilou para vermelho. Estavam em
orbita afastada de Ratemazan. Um pequeno robo cubico assinalou a
sua presenca do lado de fora da porta. Deram-lhe permissao para
entrar e seguiram-no com os seus poucos haveres para a gare de
saida. Ali esperava-os um capitao de ar imponente, cerca de dois
metros de altura, barba. Cumprimentou cada um dos terrenos e
Villiam. Atribuiu a cada um uma mochila com viveres e utensilios
e deu-lhes um fato atermico, com uma mascara de prender`a boca e
nariz. Deu instrucoes do seu manuseamento e ordenou a Villiam
para prosseguir o desembarque, apos o que se ausentou, nao sem
se ter despedido e desejado boa sorte.
Aguardaram que o seu robo os chamasse`a sua vez e entraram num
pequeno veiculo que saiu pelo espaco fora rumo ao topo da atmos-
fera turbulenta e giratoria do planeta. Ficaram ali uns minutos
e uma nave grande surgiu de baixo das nuvens, com um aspecto
escuro e pesado. Abriu duas portas e o veiculo com as cinco
pessoas desceu para dentro dele. As portas fecharam. Houve
pressurizacao da cabine, sairam para o compartimento ao lado, e
o veiculo regressou`a nave Excel, que poucos segundos depois
sumiu dali. Entretanto a nave grande descia no meio de grande
turbulencia, vibrando por todo o lado, e oscilando ora para a
esquerda ora para a frente, ate'que pousou na vertical numa
clareira rodeada de arvores de folhas esverdeadas.
Recolocaram as mascaras e aguardaram que a porta se abrisse,seja
a do piloto ( se existia ) seja a para o exterior.
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069
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-> Colocaram as mascaras e aguardaram que a porta se abrisse,
-> seja a do piloto ( se existia ) seja para o exterior.
E continuaram a aguardar. Marbelle sentou-se nos assentos late-
rais do compartimento. Era azul escuro, metalizado. Um aspecto
algo cru. Villiam permanecia atenta sem perceber bem o que se
passaria. Dum lado a porta para a cabine de pilotagem. Metalica,
com aspecto pesado. Do outro a entrada para a gare de desembar-
que por onde a pequena nave os depositara. Essa porta tinha
vidros espessos avermelhados. Ali em frente a terceira saida,
para o exterior, tambem de aspecto pesado, mas em cor de
ferrugem, azul amarelada.
Passaram dez minutos sem que um som ou um movimento viesse alte-
rar a situacao. Olhavam uns para os outros, mas ninguem falava.
Comecaram a perder gradualmente aquela paz de espirito que
tinham usufruido na nave Excel. Algo inquietante substituia
devagar os seus pensamentos e as primeiras emocoes faziam-se
sentir, ainda algo indefinidas. Comecaram a ter frio. A luz
apagou-se e foi como se a nave tivesse ficado para ali esque-
cida. Atraves de uma janela de um palmo de largo e metro e meio
de alto, de vidro tambem avermelhado e grosso, viam o exterior.
Soprava uma ventania forte, e pequenos chicotes de agua, ou o
que era, batiam contra o casco, partindo-se (gelo) em bocados.
Raio de chuva. Eram tiras de gelo com dois, tres metros de
comprido, ai'da grossura de dois, tres dedos. O pior foi quando
comecaram a cair mais fortes e frequentes. A nave estremecia. O
frio era muito. Villiam deu instrucoes para fecharem os fatos
atermicos.
Havia um certo receio instintivo que de tanta pancada o teto ou
paredes se partissem. O ruido era ensurdecedor. Mas o casco
parecia estar preparado para aquilo e muito mais.
La'fora as arvores cediam sem partir aos projecteis, oscilando
violentamente em varias direccoes e vibrando como arcos, em
alguns casos. O pessoal revezava-se para ver o que se passava.
Sentiam-se desanimados, mas curiosos. Havia ja'um monte de gelo
no chao, saltando no ar com o impacto dos que ainda caiam, agora
menos frequentes. Ja'estavam equipados. Um fato azul escuro de
materia leve e esponjosa, mas aparentemente muito resistente e
uma mascara transparente que apanhava a boca e o nariz, e uma
especie de veu ou lenco, avermelhado, para a cabeca toda com um
laco para prender `a volta da gola. Olhando atraves dele via-se
tudo com muita claridade, ofuscante ate'. Por isso estavam sem
ele. O fato era agradavel, quentinho, auto-regulavel pela natu-
reza do tecido.
BB e GI estavam satisfeitos num aspecto apenas: finalmente
tinham nos pes algo diferente de sapatilhas! calcaram uma
especie de pantufa ate' ao meio da perna, que ao fechar ficou
rija nas partes convenientes. Tipo botas. So'que estavam ja'far-
tos de estar para ali`a espera. Nao era isso que estavam`a espe-
ra de lhes acontecer ao chegar ali. A tempestade ou mau tempo
amainou, mantendo-se apenas o vento que embora menor, parecia
forte.
BB "PORRA! estou a perder a paciencia! " disse zangado.
Vito "E entao eu..."
Marbelle "Isto e'uma estupidez! "
GI "Estou a sentir-me nervoso, ate' parece que esta' la'
fora o papao que come os meninos`a noite na cama..."
- tentou GI gracejar, mas ninguem riu. E'que de facto
estavam a ficar com medo nao sabiam de que.
Villiam "A gaita e'que nao vejo qualquer tipo de comandos que
nos permitam fazer seja o que for.Estamos enjaulados."
Um calafrio percorreu cada um dos presentes ao ouvirem Villiam
terminar a frase. Villiam fez notar que a janela era um filtro
infravermelho, pois la'fora devia estar escuro como noite para
os olhos humanos. Dai'talvez a necessidade do veu que vinha nas
mochilas. Marbelle estava com dor de cabeca, e Vito, por falar
nisso tambem. BB sentia-se contrariado, como em miudo, e GI dis-
farcava as palpitacoes que sentia no coracao desde ha'uns minu-
tos a esta parte. Villiam olhava para ele, apercebendo-se.
Estava consciente do estado de cada um. Afinal a telepatia era
um sentido adquirido nela. E esperaram sentados, amuados, que
alguma coisa acontecesse. O vento continuava a soprar la'fora,
mas nao se ouvia dentro da nave. O gelo do chao comecava a
derreter, e em parte ate'a sublimar-se. E a luz do teto voltou a
acender. Isso alegrou instantaneamente toda a gente. Os vidros
passaram`a cor azul claro, e la'fora surgiram alguns raios de
Sol, de cor perola-azulado, muito brilhante.
E a porta da cabine de pilotagem abriu-se. Tao inesperadamente
que saltaram todos de susto. E' que fez um barulhao. Era mesmo
pesada, a avaliar da pancada que deu ao travar os lados contra
as paredes. Oh! mas a cabine estava vazia. Duas cadeiras vazias.
Algumas luzes que acendiam, e uma proteccao que subia,
descobrindo o 'vidro' amplo da frente. Um crepitar fez-se ouvir
e barulhos de ruido de radio em sintonizacao prenderam a atencao
a todos.
Mais animados, voltaram-se para Villiam,`a espera de orientacao.
Villiam "Acho melhor ficarmos ca'dentro ate'ele chegar. Estao
a sentir-se todos bem agora ? "
O pessoal la'foi dizendo que sim, mais ou menos. A Vito tinha
comecado a doer-lhe um dente, mas agora estava-lhe a passar. GI
acenou com a cabeca, e Marbelle queixou-se de se sentir muito
cansada, como se tivesse andado a pular e correr todo o dia. Por
acaso estavam todos tambem um pouco assim. Algum efeito do frio
ou mau tempo, ou talvez ainda do peso que ali era um bocado
maior, e cansava. De qualquer modo estavam a sentir-se, no
fundo, mais aconchegados. E sem terem feito de proposito haviam-
-se sentado juntos. E aguardaram.
--- * ---
Na estrada para o Sul MV seguia a cento e trinta`a hora, com
dois guardas da GNR a acelerar atras dele, na tentativa de o
multarem. Um pequeno dispositivo electrico accionado por MV
tapara as matriculas ao passar pela portagem da ponte sobre o
Tejo, e desde entao que entre os cento e vinte, cento e noventa
andava a puxar pelos fulanos, coitados, no cumprir da sua nobre
profissao. Mas ao fim ao cabo estavam todos a gostar da perse-
guicao. MV divertia-se, os policias gozavam a velocidade e terem
saido da merda do posto saboreando com antecipacao a altura em
que iriam apanhar o cabrao do cidadao que ia ali`a frente, ja'
iam com ordem de prisao, apreensao da carta e carro, e nao iam
aos tiros como nos filmes porque ainda nao era o caso.
Para MV era o risco. Nao que o Porsche nao desse mais velocidade
que a GNR, so'que podia sempre aparecer um engarrafamento, um
obstaculo que o fizesse abrandar ou parar. Os dois GNR tambem
eram dos bons, e estavam a dar-lhe corda para se enforcar. A
dada altura acharam que a brincadeira ja'ia longe (literalmente)
e aceleraram aquelas maquinazitas ao maximo, deitando-se sobre
os assentos das motos. Eram dois chavalos novos. Uma das motos
ate'fez o inicio de cavalinho. O pessoal que estava na sua mao
na estrada acelerava por sua vez ( alguns ) para continuarem a
ver a perseguicao, e MV ao ver os GNR aproximarem-se abriu uma
tampa junto ao travao de mao e rodou um botao largo. A mistura
de gasolina do Porsche enriqueceu com um produto proprio e foi
ver o velocimetro chegar aos duzentos e vinte! mas os filhos da
mae dos policias nao o largavam! dois motoqueiros aceleraram as
suas Harley-Davidson ao ver passar a perseguicao. Puseram-se ao
lado do carro de MV, acenaram com as maos e deslocando-se ligei-
ramente para a frente, fazendo-lhe como que escolta, e ligando
uma sirena. Um espectaculo.
Entretanto dois carros patrulha, quilometros`a frente, avisados,
bloqueavam a estrada, fazendo o transito circular devagar. Dois
deles tinham ja'as metralhadoras preparadas. A brincadeira ia
acabar ali de uma maneira ou de outra. Esses, nao estavam com
vontade nenhuma de brincar.
--- * ---
Ah! de novo Saturno. A Bola escorregou pela gravidade do planeta
e voou veloz para Titan, entrando pela crosta a dentro como um
raio. Ia feliz. Tinha achado, ou compreendido, uma solucao para
o seu relacionamento com o grupinho onde GI estava incluido.
Entrou devagar e com palpitacoes de ansiedade intelectual na
vivenda onde eles deviam estar. Ninguem. Mas ninguem para a Bola
era mais que nao estarem la'presentes.Nao detectava as linhas ou
sintonias de cada um. Outra vez sem pista !?? mas agora estavam
sempre a desaparecer-lhe o rasto !? Irritada ficou com o dobro
do tamanho, vermelha, purpura irradiante, e ate'algumas faiscas
queimaram a carpete da sala. Se alguem estivesse la'dentro veria
uma sombra luminescente vermelha a faiscar. Ha'seculos que se
nao irritava. Alias, reparou, era a primeira vez. Curiosa da sua
propria reaccao, observou-se como num espelho do passado a sua
furia, e desatou a rir. Estava bem disposta outra vez !
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071
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Humm... mas tinha de encontrar os marotos. Percorreu a sua
trajectoria ate'`a montanha e entrou no recinto das lajes. Achou
graca ao que tinha sucedido ali, e por momentos esquecida da
busca original, fez de conta que tambem patinava. Viu ao fundo
um reflexo seu, e correu a tentar alcanca-lo, curiosa. De subito
o seu reflexo tornou-se algo horrivel, medonho, como um pequeno
sol, voraz e mau. A Bola, pasmada olhou para ele e rindo disse-
-lhe "Tao feio!" apontando com um dedo imaginario. O reflexo
rodou sobre si mesmo, mudou de cor, tornou-se brilhante e como
um Sol dancante rodopiou. "Ohhh!" disse a Bola, "Tao bonito!". E
mandou-se em todas em direccoes para o seu reflexo, coisa
impossivel a qualquer ser ah... normal. Assim simultaneamente `a
frente, dentro, e atras do seu reflexo, observava-o. "Inte-
ressante", "parece o nosso Maiurava" ( parentesco ascendente das
Bolas ). E contente, la'se foi embora veloz ate'ao ponto onde a
nave Excel havia largado com os passageiros procurados.
Contrariada, verificou, mais uma vez que lhe perdia o rasto ao
fim de algumas centenas de milhar de quilometros. Ah! mas havia
de aprender a ver para alem da luz!, enfim... um dia que desco-
brisse como. Os homens eram extraordinarios... passavam as suas
vidas tao limitados, e apesar disso conseguiam ir alem do que
ela propria conseguia. Bah! e orientando-se no meio das estrelas
localizou de novo o Sol e disparou rumo `a Terra,`a procura de
MV, unico elo agora, para a sua busca.
--- * ---
Ouvia-se arfar, e um bater ritmado, e expressoes de gosto. Um
carro parado numa estrada secundaria, na berma, junto ao arvore-
do. Uns quinze metros adiante, sobre uma manta grossa, um
quarentao com as calcas para baixo, saltava em cima de uma puta
da estrada, jovem, com as pernas encavalitadas nas nadegas do
fulano, que gozava a valer. Ao fim de uns cinco minutos de maior
velocidade, gemeu e prostou-se de lado. A mulher, sorriu com
algum desdem, e limpou-se com um toalhete humido e perfumado.
Passou um toalhete de papel ao homem, e disse-lhe:
Juseva "Tas a ficar velho oh Rogerio! ah dois anos atras
aguentavas muito mais! entao ?! a tua mulher esta' a
amolecer-te com os cozinhados la'da terra dela ?"
Rogerio "Oh querida, que'que queres pa'?! e'da maneira que que
te chegam as milenas com menos esforco."
Juseva "Olha, o teu filho esteve ca'ontem..."
Rogerio "O QUE ?!"
Juseva "Tal pai, tal filho... fiz-lhe um preco especial, mais
ao amigo."
Rogerio "O cabrao do Manuel e do pai dele vai-me ouvir!"
Juseva "Rogerio... olha a tua vida. O rapaz nao sabe que tu
andas aqui... e'a vida. Ele e'bom rapaz, nao fuma, nao
se droga, bebe so'`as refeicoes... "
Rogerio "Eu sei la! depois disto, so'sei que nao e'maricas ao
menos nisso haja Deus! " e sentou-se no chao co'uma
lagrima a q'rer sair pelo canto do olho.
Juseva mais conciliatoria fez uma festa ao homem. Conheciam-se
ha'dois anos. Amigo e cliente. Como muitos outros alias. Uma
diferenca de vinte anos... podia ser pai dela. Puxou-o para cima
e ajudou-o a levantar-se. A gaja era fininha mas enganava na
forca, pois era tudo musculo. Rija, a mulher. Era uma especie de
conselheira dos homens e rapazes. Detestada pelas mulheres,
claro. As vezes pensava que o paroco da vila e ela ate'se deviam
dar bem... fez notar ao Rogerio que se tinha de despachar para
nao darem pelo atraso dele, e seguiu com ele para junto da
estrada, ajeitando a mini-saia.
--- * ---
Novamente o ceu da Terra, azulinho, nebulado. Uma pesquisa de
meia hora deu com MV na sua perseguicao, e penetrou, invisivel
no carro dele, espantada com aquele movimento todo.
MV estava agora a ficar`a rasca. Os dois motoqueiros que lhe
fazia de escolta acenaram-lhe adeus, e deixaram-se ficar para
tras. Brincar era uma coisa, mas nao lhes convinha irem ate'`as
ultimas consequencias. Os GNRs la' prosseguiam com a carro de MV
ora `a vista, ora desaparecendo nas curvas. MV acelerou ao
maximo, concentrou-se profundamente e apontou o carro para uma
saida lateral. Tinha de entrar por ali sem que fosse visto, e
uma curva a duzentos e sessenta... devem estar mas e'a renar.
Perto da dita, reduziu para terceira, segunda, guinou por cima
da berma, ficou sobre duas rodas durante segundos, e iniciou uma
derrapagem a cem quilometros por hora. Acelerou de novo e
conseguiu endireitar um pouco o veiculo, mas uma roda apanhou a
vala direita fazendo o carro entrar pela floresta a dentro, em
travagem. De repente apareceu um casal `a frente e MV com uma
imprecacao e uma dor no coracao desviou o carro contra uma
arvore, enfaixando-se.
Rogerio e Juseva ficaram paralisados ao ouvirem um barulho de
derrapagem, e ao ver os arbustos baixos serem esmagados por um
automovel a toda a velocidade, que bateu com forca numa arvore
grossa, que ainda estava a vibrar quando a correr se chegaram ao
pe'do carro para ver do condutor.
MV estava dorido, por dentro e por fora. Pobre motor, pensou.
Gaita! nao fossem aqueles marmelos, tinha tudo acabado em bem. A
GNR ficara despistada. Estavam naquele momento a fazer inversao
de marcha, sim que eles nao eram camelos, so'podia mesmo ter ido
pelo desvio da direita. Ora estava MV a sair do carro ajudado
pelos dois, pois a porta encravara, quando se ouviram as sirenes
das motos da policia, a imobilizarem-se junto`as marcas feitas
pela entrada do carro de MV na mata. Comunicaram pelo radio a
situacao, e varios carros patrulha da localidade mais chegada
puseram-se em movimento. Inclusive iam trazer os caes. Para o
gajo ter evitado de tal modo a patrulha devia ser algum
traficante ou assassino. Os dois patrulhas, desceram de arma em
punho. Entretanto Juseva mandara Rogerio desaparecer dali para o
carro. MV tirou do carro todos os elementos que permitissem
identifica-lo, como matricula, placa com nome e documentacao ( a
numeracao do motor e das partes ja'havia sido ha' muito apagada
numa oficina do 'underground' ). Juseva e MV olharam-se. Ela,
corajosa, estendeu-lhe a mao em gesto de conducao e fez sinal
para que corresse atras dela. Ela saltou com agilidade ate'ao
local onde tinha a mala e o dinheiro, deixou o resto e correram
os dois com ela`a frente. A patrulha da GNR com os caes acabara
de chegar. Perguntara a Rogerio, ja' no carro, se havia visto
alguma coisa. Ele disse que um carro se havia enfaixado dentro
da mata mas que so'agora ia sair do carro para ver o que se
tinha passado. Mandaram-no ir embora, nao sem apontarem a matri-
cula. E levaram os caes ao carro, fumegante. Os bichos apanharam
a pista e comecou a caca. O comandante da regiao estava ha' uns
meses a precisar de exercicio, de modo que mobilizou alguns
postos das redondezas para lhe darem uma ajuda. Inclusive um
helicoptero havia conseguido, para dali a dez minutos.
A correr em corta mato Juseva parecia uma gazela. MV fazia um
esforco para aguentar. Ouviam-se os caes a ladrar, esses,
corriam soltos mais depressa ainda. Juseva chegou ofegante mas
determinada, com tempera e olhos brilhantes, a um pequeno monte
de silvas, ervas e arbustos.
Juseva "Salte para o mesmo sitio que eu. Nao tenha medo."
MV "Nao tenho, siga! "
Juseva tomou balanco e para espanto de MV deu um salto de quase
um metro e oitenta por cima das silvas caindo em cima de algo
que abafou o ruido da queda. MV tomou balanco e fez o mesmo, mas
nao ganhou altura suficiente, e tropecou nas silvas, batendo de
ventas ao pe'dos pes de Juseva, em cima de uns plasticos cheios
de folhas de arvore.
MV "Mas os caes apanham-nos pelo cheiro..."
Juseva sorriu e apontou para um buraco pouco visivel no chao.
Escorregou la'para dentro e MV seguiu-a. Ela pegou numa tampa e
escorou-a contra o buraco de entrada com estacas. Ficou escuro
como breu. MV acendeu o isqueiro. Estranha aquela mulher.
Parecia estar`a vontade como tivesse treinado aquilo. Ela olhou
para MV e pegou num pau envolto em estopa humida, que acendeu ao
contacto com a chama do isqueiro.
Juseva "Esta'decidido a vir comigo ?"
MV "... porque me ajudas ? e que lugar e'este ? "
Juseva "Este e'o meu esconderijo. Sou decidida o suficiente para
quando encontro o homem da minha vida o querer ajudar,
nao me interessa contra quem..."
MV "Vamos entao, querida... " disse MV pouco convencido.
Juseva puxou com forca uma trave e desabou atras dela um montao
de pedras e terra que lhes cortou a saida, e para todos os
efeitos, a entrada de alguem, e seguiram por uma galeria baixa`a
luz do archote. A Bola seguia interessada os acontecimentos. La'
fora os caes rodeavam o monte por onde MV havia entrado e os
policias cocavam a cabeca por nao perceber como a pista termi-
nava ali. Olhavam para o alto, nas arvores mais proximas,
faziam avisos de saida ou iam disparar, e por fim comecaram a
desbastar o local. Encontraram um saco enorme de folhas, e mais
nada. Os caes ladravam sem sairem do local, mas a confusao era
grande.
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073
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-> Encontraram um saco enorme de folhas, e mais nada. Os caes
-> ladravam sem sairem do local, mas a confusao era grande.
No fim da galeria, que descia ainda uns dez metros, estava uma
salinha decorada com gosto feminino, com um sofa', uma cama, e
ate'um televisor. No chao uma carpete de pelo alto. Juseva pre-
miu um interruptor e acenderam-se as luzes e a televisao, a
preto e branco. Explicou sumariamente que tinha ali uma gale-
ria ao pe'com baterias, mas havia ali qualquer coisa que nao
batia certo. A sala estava morna, o ambiente arejado, e MV ate'
reparou num frigorifico pequeno, so'de geleira. Aquilo estava
bonito. A rocha nao se via a nao ser no teto, de onde`a volta
por toda a parede cortinados dourados e azuis pendiam, dando um
aspecto estranho, de facto, mas acolhedor. A abertura por onde
haviam entrado Juseva fechou-a com uma tranca e MV sentiu um
arrepio involuntario. Havia ali bruxedo.
--- * ---
Ratemazan. GI, BB, Marbelle e Villiam sobressaltaram-se de novo
quando a porta de saida da nave abriu com estrondo. Era o barao
von Mask que a abrira por fora. Veio um bafo de ar tao frio que
a pele da cara do pessoal ate'doeu. No entanto o barao tinha uma
malha apenas sobre o corpo e mangas curtas. Alto, cerca de dois
metros e dez, forte, inspirando confianca. Saltaram para o chao
e Marbelle estatelou-se ao comprido. Bolas, que estavam pesados.
O barao deu uma gargalhada trovejante. E ajudou rapido a
Marbelle a levantar-se. Comentaria ela mais tarde que na altura
lhe parecera ser icada por um guindaste, e aquecera toda por
dentro ao toque do barao. Vito ficara a olhar a cena.
O sol com raios azulados ainda se via entre duas espirais de
nuvens negras como o preto, preto mesmo. Todo o ceu estava
assim, parecia que estavam dentro de uma laranja descascada em
espiral e que viam apenas a claridade de fora. A imagem tinha
sido de Marbelle. Depois dos cumprimentos e apresentacoes cor-
diais, abandonaram a nave, como se fosse ferro-velho, pelo menos
parecia a atitude do barao: nem sequer fechou a porta, entrando
la'para dentro com o vento folhas e po'. Atras de um grupo de
arvores estava o veiculo: uma carroca puxada a dois ah...
animais parecidos com cavalos, mas com o dobro da altura, e no
conjunto mais esguios. A cabeca de cada animal devia ficar pelos
tres metros de altura. Sentiram-se observados pelos animais. Nao
apenas olhados. Observados mesmo. Isso arrepiou o pessoal. Ja'
estavam a ser arrepios a mais para um dia so'. Subiram para a
carroca, indo o barao na conducao. A carroca tinha uma coberta
de um material esponjoso mas que se tornava rijo como pedra se
pressionado com forca, abanando contudo com o vento. E partiram
a trote por uma estrada de pedra. A trote... bem, aqui deviam
ser uns setenta quilometros por hora, com os cascos dos animais
a baterem no chao perfeitamente sincronizados como se fosse so'
um cavalo.Uma disciplina admiravel. Ao lado da carroca comecaram
a aparecer uma especie de pirilampos surgindo do nada que
esvoacavam em volta. Von Mask acelerou a marcha. "Porra! parece
um motor" comentou Vito espontaneamente ao som dos animais, no
maximo da sua forca. Entraram numa zona de nevoeiro
luminescente, azulado, quente, percorrendo a via paralela a um
precipicio, subindo a estrada para o alto com um declive de 15%
ou mais, mas os animais nao abrandavam. Um ruido ensurdecedor
atravessou a atmosfera, e uma sombra passou por cima do local.
"E'o Excelcior", "o ? " perguntaram, "Sim, um dragao, nao sabiam
? ha' ca' algumas especies. " Olharam estupidos uns para os
outros, e depois para Villiam que encolheu os ombros como quem
diz "e eu sabia la'que isto ia ser assim...". O castelo surgiu
finalmente ao longe, no alto, e entraram passado pouco tempo no
patio. Sairam da carroca, e seguiram von Mask.
GI "Mas... oh! os cavalos... " apontou GI ao pessoal.
Olharam. Os bichos desatrelavam-se sozinhos, abriram a porta,
arrumaram a carroca, fecharam a porta, e riram-se para os
visitantes, que ficaram agarrados ao chao quando os bichos se
levantaram nas patas traseiras, e andaram com elas para fora do
castelo, tal qual gigantes. Mas andaram erectos... e riam, riam.
von Mask "Oh! deixem la'. Sao uns exibicionistas. Estao a fazer
tudo so'para vos impressionarem. E'raro caminharem nas
duas patas. Mas sao inteligentes, sim. Tanto como os
homens, so' que nao se interessam pelos nossos
objectivos nem seguem a mesma logica e principios que
nos. Espero que vos tenham dito que este mundo e'exce-
pcional... e que se espera dos visitantes segredo do
que virem. Reparem... nao e'por nossa causa, mas para
nao perturbar a paz de espirito de muita gente la'fora
que se passava dos miolos soubessem elas coisas que
aqui se passam.
Meio dormentes - de facto - os cinco la'seguiram o barao. Era
impressionante sim senhor. Pareciam suspensos na incredulidade.
No entanto era tudo perfeitamente explicavel`a luz da razao e da
ciencia. Dentro do castelo parecia tudo enorme, desde as portas
ate'aos degraus. E os archotes eram as unicas fontes de luz.
von Mask "Olhem, ha'pouco, quando estavam presos na nave, tive-
ram a experiencia do que acontece aos artigos electri-
cos e de alta tecnologia neste mundo, sempre que ha'
uma tempestade, e acreditem-me que nao sao so'elas o
unico fenomeno que tem esse efeito. Nao podemos contar
com equipamento moderno. *Nada* funciona a maior parte
do tempo. E cuidado com os vossos animos... ha'
periodos em que toda a gente, animais e tudo, passa
por um desalento total. Hei-de dar-vos instrucao para
lidarem com essa situacao. Ah! aqui estao os vossos
aposentos. Achei melhor ser um quarto para toda a
gente. Ha' so' uma cama, mas cabem la' meia-duzia de
pessoas do vosso tamanho. Bem, Adeus! "
E voltou as costas perante o grupo admirado. Uma cama para toda
a gente ?! e entraram no quarto. Humm...
--- * ---
Juseva sentou-se observando MV. Os olhos cruzaram-se e fixaram-
-se mutuamente. Havia nela algo de loucura, ou de genio. Por fim
sorriram. Eram feitos do mesmo tipo de fibra. So'que MV tivera a
sorte de ganhar uma lotaria, e ela perdera o emprego, andara uns
meses alucinada e por fim veio parar ali`a estrada como unico
meio de subsistencia, que lhe desse ao mesmo tempo a liberdade
que necessitava. Fora ha'tres anos. Depois de ler uns livros de
ocultismo, e visto uns filmes de ficcao cientifica, comecou a
reparar que ganhara algumas caracteristicas anormais. Via luzes
`a volta das pessoas, e `as vezes ouvia vozes. Pensou ter enlou-
quecido, ficou perturbada. Perdeu o lugar no bar onde trabalhava
`a comissao pelas bebidas. Perdeu a paciencia para a civilizacao
e vagueou um pouco pelas praias, comeu algumas vezes do lixo,
ate'que achou umas roupitas junto a um contentor. Vestiu algumas
e lavada pela agua do mar, procurou trabalho. Nao encontrou, mas
linda como era em troca de sexo deram-lhe mil escudos. Repetiu o
esquema umas poucas vezes e acabou ali na estrada. Fazia dois
anos. Vira translucida atraves do chao uma galeria natural ali
perto e pouco a pouco, conforme as boleias dos camionistas e
clientes permitiam, fora alguns taxis, foi construindo aquele
abrigo dentro da terra. MV por sua vez contou-lhe que sentira
identica necessidade, e contou-lhe por sua vez a sua historia de
comecar a poder mexer objectos. Mas o que mais a chocara a ela
era lembrar-se vagamente de ter sido outra pessoa ha' uns bons
anos atras, nao conseguia precisar a epoca, e tinha por vezes as
suas duvidas, mas ia jurar que sabia de um local onde havia
deixado alguns objectos pessoais, e... hesitou... um artefacto
nao terrestre. Mas a memoria continuava velada e nao tinha a
certeza se se tratava de realidade ou sonho. Pediu a MV que a
possuisse. Tinha falta de sexo por amor, e gostava dele. MV
simpatizava tambem, de modo que chegou ao pe'dela e metendo-lhe
a mao por dentro da saia, com os dedos, masturbou-a devagar,
enquanto a afagava nos cabelos, nos seios. Depois de muitos
orgasmos, que a fizeram sorrir, arfar, contorcer-se, durante
tres quartos de hora, puxou-lhe rapidamente a cueca, tirou as
calcas para baixo e meteu, vindo-se ao fim de poucos segundos,
tal a excitacao. Ela por fim despiu-se para estar mais`a vontade
e nua fez-lhe um cha'quente, enquanto preparou a cama e o sofa'
para dormirem. Amanha tinham de abrir caminho ate'`a superficie.
A Bola, enternecida, juntou-se aos pes da rapariga, que subita-
mente lhe notou os contornos. Fez-lhe como que uma festa e
deitou-se. MV ja'dormia.
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075
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-> Ela por fim despiu-se para estar mais`a vontade e nua fez-lhe
-> um cha' quente, enquanto preparou a cama e o sofa'para
-> dormirem. Amanha tinham de abrir caminho ate'`a superficie.
La'fora, cerca de dez metros acima, era noite de luar, quarto
crescente, quase lua cheia. Algumas nuvens baixas e velozes e um
nevoeiro a formar-se acima das arvores. Quatro da manha. Pouco
movimento nas estradas. O carro de MV tinha sido rebocado e
depois de muito procurarem o pessoal da GNR desistiu de achar
os fugitivos. 'Os' porque as marcas eram de duas pessoas a
correr. Conheciam bem a Juseva e alguns amigos, e clientes,
entre a GNR haviam ficado consternados de ela estar metida ao
barulho. Tinham raciocinado que deviam ter conseguido iludir o
faro dos caes com algum produto, ja'que Juseva tinha tambem a
fama de ter um pouco de anjo mas tambem um pouco de bruxa.
Haviam-na visto de relance em dias de lua cheia a correr de
olhos vendados entre as arvores, e havia com os seus chas de
ervas conseguido melhorar alguns amigos que se lhe haviam
apresentado adoentados. Tinha ficado famoso o gajo que indo `a
procura dela, com o penis comichoso de uma doenca de pele
qualquer havia levado uma bofetada e sido obrigado a levar um
tratamento de uma pomada de terra e ervas, que a Juseva lhe
aplicou ali mesmo no local. Criou assim fama da sua forca e das
suas mezinhas.
O nevoeiro tapava ja' a copa das arvores e chegou por fim ao
solo, movendo-se muito lentamente. Agua escorria nas folhas e
plantas, humedecendo tudo. Ao longe a luz da cidade, e por vezes
a dos farois de algum veiculo. Um aviao passou ao largo, rumo a
Lisboa. Nesse aviao, um 747, quase todos os passageiros dormiam.
O comandante olhava de lado pelo vidro, enfadado. A paisagem era
bonita. Uma camada de nevoeiro cobria parte de Lisboa, Almada,
ate'mais ao Sul, entrando, ou vindo, do mar. Arregalou os olhos
e chamou o co-piloto que dormitava, irregularmente. Olharam. Do
lado de Sesimbra, uma mancha luminosa amarela por debaixo do
nevoeiro descrevia circulos com rapidez. 'Estranho' comentou.
'Nao costumam brincar', disse o comandante ja'habituado a ver
discos voadores ali pela zona. O co-piloto, mais jovem, estava
fascinado: duas luzes intensas agora amarelo-laranja surgiram de
baixo do nevoeiro como se fosse baloes, lentamente. Pararam e
dispararam horizonte acima, deixando na retina dos observadores
um raio luminoso. Comentaram o caso. O co-piloto estava
incredulo, procurava uma explicacao 'cientifica'. O comandante,
novamente enfadado, sorria sem lhe dar troco. Ja' tinha visto
muitos. Se calhar fizera mal em ter chamado o co-piloto. Nunca
mais aprendia a guardar as coisas para si. E o aviao la' seguiu
ate'ao Aeroporto da Portela.
Cinco da manha. Juseva despertou, la'em baixo.`A luz de uma vela
observou MV a dormir no sofa'. Boas cores. Um bocado de vermelho
a mais perto das ancas e sexo. Mas era um vermelho controlavel.
Curioso aquela ponta de verde junto ao amarelo da cabeca. Hum...
seria tao bom que ele fosse mesmo o seu companheiro. Sentou-se,
ainda nua, mas coberta pelo lencol branco, a contemplar MV e a
rever a sua vida. Como perdera o emprego. E a seguir gastara o
dinheiro naquelas duas viagens de turismo, uma aos EUA e outra
pela Europa, inclusive de Leste. Foram quatro meses de uma vida
muito boa, mas o descanso e divertimento nao remediavam o
problema dela. Cada vez via com maior pormenor as tais luzes que
a enlouqueciam, e entrava quase em panico quando comecava a
ouvir o que as pessoas pensavam. Mas isso felizmente passara. As
visoes e'que nao. Acabou de novo em Portugal, gastando o pouco
dinheiro restante em medicos. Acabou por dormir no carro, ja'que
nao podia suportar mais tempo a renda de oitenta contos da casa
alugada. Desfez-se da mobilia, mas isso nao lhe deu para mais
que dois meses de uma vida gastadora, com noitadas, bebedeiras,
e pensoes ou hoteis. Depois, um dia, arrumara o carro, fechara a
porta e saira sem dinheiro nenhum pela praia fora. Nao se
lembrava bem, delirara. Sentiu-se so', abandonada. De que lhe
valiam os amigos... quais amigos ? chulos do caralho, isso sim.
Teve fome, fome mesmo, daquela que descobriu nao desaparecer,
simplesmente por nao ter comer para a boca. Foram dois dias de
desespero, perda de orgulhos, manias, convencimentos. O mar era
a unica companhia. Na sua alucinacao via formas cheias de vida
sairem das ondas e rodearem-na, animarem-na. Sentia um grande
carinho pelo mar. Dava valor naquela altura a um pedaco de
bolacha no chao, ao cheiro do pao, a uma moeda de dez escudos.
Vagueou`a noite pela Costa da Caparica, com o cabelo apanhado
por um pedaco de guita, uma camisola de la suja, calcas. Era
tida por quem a via por um rapaz. Fugia das pessoas.
Queria ter alegria, vida. E algo se passara. Ganhou iniciativa,
forca. Levantou-se e... pulou. Sim, lembrava-se. Correu cheia de
alegria pela praia. Deviam ser ai' umas cinco ou seis da manha
que o Sol surgira pouco depois. Achou uma roupa velha na vila,
junto a um contentor. Nao era afinal tao velha. Ah! sorriu... a
lembrar-se. Nunca havia tido fato tao bonito, pelo menos aos
olhos dela naquele momento. Fora de novo`a praia e despiu-se,
lavando-se com areia e agua salgada. Correu, saltou, e secou-se.
Ja'nao chovia. Vestiu, sem roupa interior, a roupa e comecou o
dia a procurar um trabalho. Precisava de dinheiro. Queria voltar
a ser uma pessoa. Tentou em alguns lados, mas apesar de boniti-
nha, nao estava 'como deve ser'. Um motorista de uma camioneta
meteu-se com ela com o cabelo solto e ja'aspecto de mulher, bem
torneada. Sorriu-lhe sedutora. "Da-me mil paus...", atreveu-se,
despreocupada "so'se baixasses as cuequinhas, oh filha", gozou o
homem, "era nisso que estava a pensar, queres ?" disse,
mostrando os seios. Ai'ele deixara de rir. Abriu a porta e disse
"Entra, va'la". E levou-a a uma estrada, a caminho do Seixal.
Parou na berma e atirou-se a ela. Correspondera. E todo o tempo
do acto, soubera-lhe bem. Era diferente do antigamente. Nao era
como com os amigos de antes, ou alguns cliente da boite que nao
ficavam pelas bebidas. Gostara daquela gente. "Volta amanha, se
quiseres mais." dissera como despedida. Ah! pobre Rogerio, como
crescera desde entao. Interiormente. Claro, gabou-se, e puseram-
-lhe os cornos mal descobriram onde ela estava. Depois mudara-se
para perto de uma via principal. E conheceu cada vez mais gente.
Ah como era bom quando um deles passava pelo local apenas para
lhe deixar um pao fresco, ainda quente, ou a levavam a passear,
a almocar, 'desviando-a' do 'trabalho'. Era uma puta catita. Mas
'puta' naquelas bocas, quando se referiam a ela, tinha um
amor, um sentido, que nao a ofendiam, orgulhavam-na. Orgulho...
ja'o perdera, assim como`a esperanca. Aquilo que sentia, nao era
orgulho, antes um reflexo, uma forma do que deveria ser orgulho,
faltava o conteudo egoista. Orgulhava-se por eles, por ter
amigos assim, nao por ela, propriamente. Hum... e Juseva, ainda
sentada e olhando de vez a vez para MV, lacrimejou, e comecou a
chorar num choro calmo. Como quando soubera que o Henrique,
aquele rapaz delicioso pela sua graca e ideias, e corpo, havia
morrido num acidente. Gostava dele. Nao se prendera. Mas gostava
sim.
E Juseva continuou a rever aqueles ultimos anos que agora
terminavam. Sentia que com MV outra vida ia comecar para ela.
Sem se sentir presa ao passado, chorava-o, libertando a dor de
se rever segundo a nova perspectiva de abandono daquela vida,
que fora a unica que a aceitara.
Seis da manha. MV acordou. Reparou em Juseva, sentada, virada
para o lado dele. Ainda tinha na cara dois fiozinhos de lagrimas
que tinham deixado de escorrer ha'pouco. Olharam-se. Ela limpou
a face e sorrindo com genuina alegria lancou para tras a contem-
placao e descobrindo-se, levantou-se. Fez uma festa na cabeca de
MV e ligou o fogao pequeno onde comecou a fazer um pequeno
almoco.
MV "Sniff, sniff... o que e'? "
Juseva "Olha, querido, nao costumo ter aqui as coisas que estas
concerteza habituado a comer de manha... mas estou a
aquecer estas bolachas de aveia com sultanas, um cha'com
mel, e duas torradas... ou preveres cafe'? "
MV "(espreguicando-se) Oooohaaa!... hum... deixa, esta'
optimo como esta'. Dormiste bem ? estiveste a chorar..."
Juseva "Recordacoes, pa'... mas esta'tudo fino e olho em frente"
MV "(Ja' com uma torrada na mao) hum! esta'boa. Que e' que
poes na manteiga para dar este gosto ? "
Juseva "Ah... come, que depois te digo.... bem, pronto podes
comer ah ah ah, e'... uma massa feita de ervas e leva
bolas de escaravelho preparadas com um licor que faco
de..."
MV "Ta'bem, ta'bem. Eu gosto, nao e'venenoso, eu como..."
Juseva "Estive a lembrar-me que tenho ainda o meu antigo carro
na Costa da Caparica. Mas deve ja'ter sido roubado. Esta'
la'vai para dois anos. Tem graca. So'agora pensei nisso,
mas nao temos transporte pois nao ? "
MV "Tenho dinheiro comigo. Mesmo que por qualquer razao des-
cubram o dono do carro, tenho duas contas em nome de
terceiros com bastante dinheiro. E'so' chegar a Lisboa
que prometo te recompenso."
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077
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MV arrependeu-se do tom com que disse 'te recompenso'. Juseva
olhou para ele dum modo que fez cair MV em si. Ela nao pretendia
dele recompensa. Queria-o a ele. E estava a observa-lo. MV
sentia de facto uma certa amizade, como a conhecesse desde ha'
muito tempo, mas de facto dai'a se comprometer... quer dizer...
em termos de amizade,... gaita e a gaja que nao me larga os
olhos... ah... bem... "Como amigos ? " falou por fim. Juseva
sorriu pelo canto da boca e semicerrando os olhos e apertando os
labios, fixou-o ainda mais intensamente. MV sentiu-se embaracado
pela sua estupidez. Mas pouco a pouco la'reconheceu de si para
si que sim, nao devia ser mau ter uma companheira, quer dizer...
uma amiga mais tempo junto de si... bem,... pelo menos esta era
especial. E boa como o milho. Suspirou. Estava a sentir-se
parvo. Na. Hesitou. Decidiu-se. Levantou-se e chegando-se a
Juseva, abracou-a. Ela quebrou, cravou-lhe as unhas num abraco
forte e chorou-se, desta vez de contentamento. Era como se
tivessem ah... bem, casado, nao se diria, mas assumido alguma
especie de acasalamento.
--- * ---
Ratemazan
-> E voltou as costas perante o grupo admirado. Uma cama para
-> toda a gente ?! e entraram no quarto. Humm...
Pararam. Duas lareiras, uma de cada lado da sala comprida,
ardiam um fogo brando. O ar estava morno. Salientava-se o chao
em xadrez, lajes creme e negras alternadas. A parede era de
pedra polida. Notavam-se as separacoes entre cada bloco de
pedra, mas estavam bem polidas, sim. Reflectiam na sua super-
ficie grena' escura, o lume azulado das lareiras. A parede ao
fundo era estranha, inspirava desequilibrio. Devia ser um quadro
admiravelmente bem pintado. Parecia um tunel sem fim, mas visto
como que de cima e apanhava toda a largura da sala. Felizmente a
luz era suficiente para ver que era um quadro, ou teriam recuado
com medo de cair. E la' estava a cama, sim. Era grande. Enorme.
Deitados de lado cabiam todos. Ela tinha quatro metros e picos
de comprido por dois de largo. Aproximaram-se. Algumas cadeiras,
uma mesa, um armario na parede junto a'porta, e outro junto da
lareira direita. Mas a cama era desproporcional face ao restante
mobiliario. Marbelle sentou-se, descalcou-se e fez notar que o
chao estava morno. Vito pensava em varios esquemas de usar a
cama. GI observava fascinado ainda o quadro ao fundo. Villiam
lia uma inscricao por cima da porta, do lado de dentro. Fechou a
porta, semi-oval, pesada. Na inscricao dizia:
A chave do teu destino esta'na mao dos outros. A dos outros
esta'na tua mao. A desta sala segue o mesmo criterio.
Enigmatico. O facto e' que a porta nao tinha chave. Dava-se`a
volta num trinco e a porta ficava trancada. Mas para a abrir de
novo bastava empurra-la e puxa-la novamente. 'Espera la', pensou
Villiam, isto e'uma dica sobre uma passagem secreta. E rela-
ciona-se concerteza com aquele quadro ao fundo. Mas foi desviada
do raciocinio pela argumentacao animada do pessoal que discutia
a distribuicao das pessoas na cama, e haviam encontrado comida.
Quando a viram aperceberam-se que estavam de facto com *muita*
fome e atiraram-se, enquanto falavam sobre a cama,`as bolachas
grossas, sumos de frutas, pao, uma especie de graos de milho,
mas do tamanho de alpista, moles, deliciosos.
A exploracao da sala continuou depois de chegarem`a conclusao de
que logo`a noite, ou enfim, quando se deitassem ja'que ainda nao
se tinham apercebido de noites ali, entao decidiam como se
deitavam. Duas hipoteses: ou os cinco de lado, com Marbelle ao
pe'de Vito, seguida de Villiam mais GI e BB, ou dormiam pes com
pes tres dum lado e dois do outro, no sentido do comprimento, ou
ate'no chao, que ate'era quente, se encontrassem almofadas ou
cobertores. Deram assim uma revisao aos armarios, divididos em
dois grupos expedicionarios. GI e Vito foram ver o junto`a
porta, BB, Villiam e Marbelle o perto da lareira.
Perto da lareira havia mais bolachas, mais sumo em garrafoes,
uns boioes com pasta, concerteza comestivel... , e paneloes
daquele milho miudinho, em calda. Era um armario fundo, com
cerca de metro e meio. Estavam a afastar os artigos da frente
para ver melhor o que estava atras. Vito e GI encontraram roupa,
cobertores, lencois. GI abriu a porta do lado esquerdo do
armario ate'ela bater na parede. Ouviu um 'click!'. Gaita, se
calhar ja'dera cabo de qualquer coisa, e puxou a porta. Ao puxar
a porta, para seu espanto, e dos presentes, perderam o
equilibrio como se toda a sala tivesse rodado sobre si rapido.
Ficou um enorme amontoado de cobertores e roupa no chao.
Fecharam o armario. Desta feita nada aconteceu. Melhor. Marbelle
e Villiam queriam lavar-se. Ao fundo, um estrado de madeira
cobria uma corrente de agua quente, que fluia devagar por
debaixo do chao. 'Nao olhem', disse a sorrir Marbelle e
comecaram-se a despir, mergulhando ate'ao pescoco. 'Hum... Esta'
boa! ' desta vez o pessoal marimbou-se para as convencoes e foi
mesmo la' ver. Marbelle colocou-se de costas. Villiam nao.
Agarrou no pe'de Vito e comecou a puxa-lo. GI e BB agarraram-no
e Marbelle aliou-se a Villiam. Estavam para ali a brincar a ver
quem ficava com a metade maior de Vito, quando todo o castelo
estremeceu. Um som profundo, que alargava`a medida que se apro-
ximava, pressentiu-se. De algum modo as vibracoes chegavam
primeiro que o som seguinte, que fez vibrar pessoas e objectos,
borbulhando a agua, ja'sem ninguem.
Villiam explicou que isto eram ultrasons muito potentes precedi-
dos por ondas radioelectricas que faziam ressonancia nos objec-
tos metalicos presentes na sala. Na opiniao dela era um tremor
de terra, e dos fortes, que vinha por ai'acima. Correram todos
para a cama, Marbelle embrulhada numa toalha. Curiosamente a
agua que as molhava desapareceu de subito, fervilhando a frio.
Um uivo de terra e rocha mexidas entrou nos ouvidos de cada um.
Meteram-se dentro da cama, a monte. Nao sabiam bem porque. Fora
instintivo. E a sala comecou a tremer, era de facto um tremor de
terra dos valentes. Mas parecia que havia uma especie de
amortecedor na base do castelo que apesar de vibrar, parecia
rodar ou mover-se ligeiramente ao sabor do sismo, como uma nau
no cais ao sabor de ondulacao fraca. O facto e'que os objectos
tremiam, mas nao caiam dos seus lugares. A coisa durou cerca de
dez minutos. GI e Marbelle estavam a ficar enjoados.
A coisa parou. Sairam as cabecas de fora dos cobertores. Alguns
'pirilampos' azuis turquesa desvaneciam-se do ar, que ficara
electrizado, agradavel, como estivessem numa montanha. Levanta-
ram-se, arrumaram coisas, escolheram roupas, conversaram sobre o
barao, observaram as pedras que ardiam na lareira, e por fim
cansados, deitaram-se, todos na cama, ao lado uns dos outros,
sem problema algum. Vito ficara no extremo esquerdo, seguido de
Marbelle, Villiam, BB e GI. Villiam repousava apenas, ja'que o
seu ciclo de sono era muito mais alargado que o dos terrestres.
Olhou para BB, e sorriu a recordar. Aproximou-se devagarinho
dele e meteu a mao dentro dos calcoes do rapaz. Este acordou. Um
dedo na boca de BB para sinalizar silencio... entao, muito
devagar, muito cuidadosamente, clandestinamente quase,
colaram-se um ao outro. Villiam pegou no penis erecto de BB e
massajou-o contra a sua barriga, fez-lhe festas, manipulou-o e
por fim, sempre sem ruido e cuidadosamente meteu-o vagina a
dentro. Sem se mexerem, ela com os seus musculos apertava e
largava o penis bem entalado. Tinha forca, ela. Ficaram assim em
carinho por muito tempo, talvez uma hora e meia. BB ja'suava mas
ela deixava-o sempre no limiar. As massagens que fazia com as
maos compensavam a excitacao que provocava no penis, e a coisa
estava a ficar algo insuportavel, de agradavel. Villiam teve
pena do rapaz e apertou a vagina, deixando-a desta feita
apertada, e massajando desta vez os quilhoes, a parte interior
das pernas, ao mesmo tempo que pela primeira vez fazia o penis
deslocar-se para baixo e para cima na vertical. Umas flexoes
mais rapidas ( colocou a mao na boca de BB para nao arfar ) e
permitiu finalmente ao pequeno a sua consumacao.
Da mesma maneira que se haviam aproximado, assim se afastaram.
Muito devagar, sem ruido. O que valia era que o colchao parecia
nao oscilar. Adaptava-se devagar ao corpo da pessoa, dentro de
certa medida. Levaram bem uns dez minutos para, sempre na maior
descricao voltarem a por os pijamas, ou calcoes, e BB voltou a
adormecer, juntando-se ao resto do pessoal.
E aquela frase por cima da porta... mais o armario de GI, como
ficou baptizado. Como e'que podiam sentir a sala a rodar se ela
de facto nao se mexia ? Villiam raciocinou num misto de logica e
intuicao ( que na escola tangoriana nao era algo vago nem
deixado ao acaso ) e fez-se-lhe luz. O quadro da parede era a
chave. Uma ilusao que se tornava realidade. Parafraseou:
A chave do teu destino esta'na mao dos outros. A dos outros
esta'na tua mao. A desta sala segue o mesmo criterio.
A chave desta porta esta'nas outras portas. A das outras
portas esta'nesta.
... nao, nao era ainda bem isso... a porta nao tinha chave...(?)
era isso sim! e parafraseou novamente:
Para abrir esta porta abre as outras. As das outras abrem-se
abrindo esta porta. Ou seja, primeiro abrir uma porta, de
seguida abrir as outras; por que ordem ? a do armario junto da
lareira, ou a junto a'porta ? pensou de novo. O som no idioma em
que a frase estava escrita, ao se ler 'no teu des-' significava
'no meio', e 'na tua mao' assemelhava-se a 'tres', terceiro.
Assim abrir primeiro a porta do meio, a de GI, sim. Com a da rua
fechada e empurrada. Uma pessoa que tivesse ali a empurra-la nao
tinha hipotese de chegar`a porta do meio, a de GI. Por sua vez
nao surtiria efeito abrir apenas a porta do meio sem que alguem
estivesse a empurrar a principal. Eram precisas duas pessoas
para abrir. Dai'dizer que a chave estava nas maos dos outros, e
a dos outros na sua mao... e o que se abria era a terceira
porta. Isso so' perceberiam depois de o fazer.
Levantou-se. Acordou um a um. Reacendeu os archotes. Pediu que
se arranjassem. Estava com aquele ar de comando caracteristico
de modo que ninguem contra-argumentou. Lavaram-se, vestiram-se
com roupas leves enquanto as do dia anterior mergulhavam na
piscina cuja agua tirava a sujidade. Tomaram um pequeno almoco
substancial. Villiam permaneceu enigmatica, dando instrucoes
para abastecerem de comida e agua as mochilas. E mal secasse a
roupa a lavar, que vestissem por cima os factos atermicos, com
mascaras e tudo, incluindo o veu que permitia ver no escuro.
Passada uma hora de curiosidade, ja' toda a gente estava
equipada. Veus metidos na cabeca, archotes apagados. Viam
perfeitamente, como estivesse ali um dia cheio de sol. O veu era
tambem atermico.
Villiam "Quando entrei reparei nesta placa por cima da porta.
Para vos sao simbolos sem sentido, mas esta'escrito:
A chave do teu destino esta'na mao dos outros. A dos outros
esta'na tua mao. A desta sala segue o mesmo criterio.
Isso intrigou-me como e'bom de ver. Creio ter agora
percebido o seu significado. Tem a ver com a porta de
GI e o que sucedeu ao abrir-se o armario. GI, por favor
abra a porta esquerda, enquanto eu empurro esta."
Assim fizeram. De novo o 'click!'. Desta vez o fenomeno, talvez
devido a usarem os veus, foi suave. Sentiram nao a sala rodar,
mas algo rodar na sala, um campo magnetico muito forte. O veu
devia estar a filtrar o excesso de magnetismo. Uma serie de
estalinhos, e cada um dos presentes abriu a boca... com o
coracao aos pulos... a sala estava a descer, a cair!! sentiam-se
cada vez mais leves, e ouviam a trepidacao moderada de uma sala
em queda por um tunel de quilometros de fundo. ah! era esse
entao o significado do quadro de parede. Villiam e GI olhavam-se
e ela lentamente, com receio, deixou de empurrar a porta.
Continuou em queda livre. Vito deu um pulo e demorou uns
segundos a poisar. Um silvo de ar, vento e outra coisa viscosa,
passavam pelas paredes exteriores.
O susto foi desaparecendo`a medida que a queda se prolongava e a
coisa parecia de algum modo controlada. Como fizera notar
Villiam, se estivessem em queda livre ja'deviam ter aumentado de
velocidade, e essa, mantinha-se. Estavam era extremamente leves.
--- * ---
MV e Juseva
-> forte e chorou-se, desta vez de contentamento. Era como se
-> tivessem ah... bem, casado, nao se diria, mas assumido alguma
-> especie de acasalamento.
Era de facto dificil a Juseva, estar habituada a nao ter
esperanca, a viver um destino com um horizonte curto e, sem
esperar, ter ali ao pe' algo que antes a faria feliz. Agora o
maximo que conseguia era o contentamento. E para mais MV
estivera de olhos fechados ate'quase ao fim. Se nao fosse ela a
espevita-lo, se calhar o filho da mae so'se lembraria dela dai'a
uma semana, ou nao ? pensou Juseva. Havia que o testar. Ate'
agora a iniciativa partira dela, ja' agora ia pela passiva,
sempre queria ver que fazia o 'seu' homem. Limpou as lagrimas.
Num gesto de que MV se apercebeu como simbolico, solene, ela
dirigiu-se a um pequeno bau e abriu-o. La' dentro, uma roupa
linda, bons sapatos, roupa interior da melhor, tudo seco e
lavado. Uma bolsa com dinheiro. Colocou a roupa dentro de um
saco de plastico grosso. Vestiu um fato macaco, prendeu o cabelo
e meteu-o dentro de um gorro de la. Noutro saco deitou o que
estava no frigorifico, alguns vegetais, e outras coisas que se
pudessem estragar na sua ausencia. Meteu-se por entre duas
cortinas e fez sinal a MV para a acompanhar. Andaram mais ou
menos na horizontal uma duzia de passos. No chao passavam dois
cabos. A passagem estava iluminada por luzes pequenas no teto,
tipo lanterna ou farol de automovel. No fim uma galeria com um
poco de onde vinha uma pequena corrente de ar de baixo, de
temperatura amena. Nos bordos do poco um gerador a gasolina, e
quatro grupos de pequenas baterias sem manutencao. E outro bau'.
De la'tirou uma corda, dois escopros, e um martelo. Deu-os a MV
dentro de outro saco. Explicou deverem descer pelo poco para
alcancarem uma saida que teriam de alargar para passar. Ja' fixa
havia no poco uma escada de corda. Juseva acendeu uma lanterna
que prendeu a si voltada para baixo. Pediu a MV para descer
atras dela. E la'foram. Andaram por varios caminhos e deram a
uma fenda que alargaram passando ao fim de hora e meia de
trabalho. Enterraram o martelo e restante material, bem assim
como o saco com alimentos degradaveis. A manha era solarenta
embora fresca. O chao e plantas e arvoredo estavam ainda
humidos. Juseva orientou-se e apontou o caminho ate'`a estrada
mais proxima. MV estava com a barba por fazer, com a roupa
amarrotada e um aspecto geral sujo. Mas Juseva nao tinha roupa
para homem. Andaram quase uma hora, subindo e descendo uns
montes e chegaram por fim a uma estrada. Juseva mudou de roupa,
limpando-se. Ajeitou o melhor que pode MV e seguiram pela berma
da estrada, rumo a uma vila proxima, esperando contudo que
surgisse uma boleia.
Acabaram por apanhar um autocarro da rodoviaria para a Praca de
Espanha e dai' foram de metro ate'aos Restauradores de onde
apanharam comboio para Sintra, onde chegaram pelas quinze e
trinta. MV estava pouco apresentavel, dai'que para nao chamar as
atencoes tivessem sempre viajado um pouco separados. Era um con-
traste demasiado grande. Comeram cada um duas sandes, galoes ou
cafe'junto`a estacao e combinaram ir de taxi ate'perto da casa
de MV. O motorista largou-os junto a uma mansao. Falso. Nao era
a deles, andaram ainda seis quilometros a corta mato, e ao fim
da tarde avistaram a casa de MV. Ninguem por perto. Havia sempre
o receio que tivessem identificado o carro de MV e lhe fizessem
uma espera. Mas nao. Extenuados, mais MV que Juseva, entraram em
casa. Foram`a cozinha e beberam litros de agua. Depois MV impro-
visou uma refeicao rapida, com ovos, presunto, dois bifes de
peru, sopa de pacote, daquela de adicionar agua quente e ja'esta'
pronta, cafe', pao descongelado. Tomaram banho, e ja'noite foram-
-se deitar. Por uma questao de habito, cada um no seu sitio. Ela
numa cama do res-do-chao, e MV noutra do primeiro andar. Dormiam
eram ainda vinte e duas horas.
Chegaram`a vivenda de MV era uma e cinco minutos. Aproximaram-se
com as luzes apagadas e devagar. Deixaram os carros e fizeram os
restantes quarenta metros a pe', com precaucao. Nada de caes.
Nada de luzes na casa. Nenhum carro parado por perto. Jusefino e
Mario, seu braco direito, chegaram junto`a porta e com uma chave
mestra escolhida e dois arames abriram a porta que no entanto so'
se deslocou dois dedos para dentro, ouvindo-se um som brusco e
metalico atras da porta. Jusefino e Mario deitaram-se ao chao
cobrindo a cabeca com as maos e gritando "CHAO!". Mas a granada,
arma ou o que imaginavam que causara aquele ruido nao se
manifestou. O inspector foi ate' ao carro e pediu reforcos.
Contrariado um oficial de dia da Policia de Intervencao deu
ordem para acordar os seus homens.
Entretanto MV acordara com um alarme sonoro e luminoso a piscar,
baixo, discreto, mas incomodativo. Sem fazer barulho, descalco e
algo assustado, dirigiu-se`a sala de computadores. De la'ligou
dois monitores de televisao e duas camaras de video percorreram
os arredores da casa. Projectores de infravermelhos acenderam e
MV pode ver com espanto a sua casa cercada pela policia. Isto ja'
foi longe de mais, pensou. Foi pe'ante pe'ate'Juseva e acordou-a
pondo-a a par da situacao em poucas palavras. Pediu que o
ajudasse a tirar todos os vestigios da presenca dos dois dentro
da casa. E nos vinte minutos que se seguiram MV e Juseva arruma-
ram e limparam vestigios seus: recolheram lixo, arrumaram loicas
e roupas, compuseram as camas, etc
Entretanto chegara o corpo de intervencao. 'Cuidado, a porta
esta'armadilhada', 'esta'gente em casa - o microfone na parede
detectou movimentos', ouvia-se la' fora. Merda, pensou MV.
Apanhados. Coisa a que nao se podia dar o luxo era ir passar uns
tempos na prisao. Ia-lhe estragar uma serie de coisas, e lixar a
vida a Juseva... bolas! que fazer ?
--- * ---
Ratemazan
-> O susto foi desaparecendo`a medida que a queda se prolongava
-> e a coisa parecia de algum modo controlada. Como fizera notar
Pode nao parecer muito tempo, falar em oito minutos, mas quando
se esta'a cair, parece muito mais. Villiam havia tentado abrir a
porta de saida no intuito de parar a queda, mas nao abria. Mexer
nas portas dos armarios, nada fazia. Estavam a comecar a portar-
-se irracionalmente. Villiam notava a influencia nefasta de algo
insinuoso sobre o seu cerebro, e observava as reaccoes descoor-
denadas dos seus companheiros. Estava a ver perder-se o controlo
minimo da situacao quando sentiram todos uma abrandamento e
foram literalmente comprimidos contra o chao, como se cada um
tivesse uns trinta quilos a mais nos ombros. Villiam ordenou que
se arrastassem para a cama e para la'gatinharam todos.A travagem
aumentou, com uma ruido espesso e de novo a sensacao de algo a
rodar na sala. As portas do armario junto`a saida, abriram sozi-
nhas, fastasmagoricamente, mas ninguem reparou pois estavam
deitados na cama, cujo colchao distribuia muito bem o peso.
"Tudo bem ?" perguntou Villiam, que assumia automaticamente e
por consenso o comando em situacoes de dificuldade. Todos bem,
sim, felizmente. Nao perderam tempo. Trouxeram a mesa pequena de
pedra para junto da porta de saida e abriram-na. Do lado de fora
um patio grande, com algumas arvores. Tiraram os veus pois havia
ali luz que chegasse. Na porta ficou a mesa, para que esta nao
fechasse por acaso. La'fora um gato, ou parecido com um, miou,
olhando-os. Por falar nisso, a passarada toda estava empoleirada
nas arvores a fitarem em silencio o grupo recem-chegado. Pouco
depois ja' chilreavam todos. Alguns levantando voo. Concerteza
que o poco por onde haviam descido, deixava ouvir a chegada de
visitantes com alguma antecedencia. Um cao pequeno correu para
Marbelle a saltar e a abanar a cauda, todo contente. O patio era
aberto ao fundo, deixando ver um pedaco de ceu amarelo.
Caminharam ate'la' e viram uma floresta, um monte e um pequeno
palacio ao longe, cor de rosa claro. O horizonte perdia-se mas
havia nele algo estranho. Era como se estivessem, para onde quer
que olhassem, numa depressao. Como se a linha do horizonte fosse
uma montanha circular cujos cumes se deixavam de ver pela
luminosidade do ar. As lages do patio saiam da gruta onde este
comecava e seguiam floresta a dentro, abrangendo todo o chao
visivel, excepto circulos de terra junto`as arvores.
Caminharam, acompanhados por uma escolta de passaros, pelo cao e
pelo gato, seguindo a via de lages. Passaram por alguns outros
patios e jardins com fontes. Vito notou que se pesava menos
ali. "Certo" respondeu o gato. O gato !? pararam todos. Entao o
animal pos-se em pe'nas patas de tras e falou, para arrepio de
todos.
Gato "Bem vindos ao mundo de Duale. Hi Hi Hi, nao se impressio-
nem com a minha voz... e' vulgar por aqui, embora raro,
nos os gatos, e alguns outros, falarmos. Como e'possivel
ser na vossa lingua, perguntarao... bem, nao e' dificil,
estivemos a pratica-la quando soubemos que o nosso amigo
barao von Mask ia receber alguns terrestres do sistema
Helius. Um planeta que a nos, gatos, nos diz bastante,
pois vive ai'toda uma populacao de gatos, primitivos, o
que, como e'bom de ver, nos interessa."
Aquela voz nao era humana. Era a de um gato. Mais fina, menor
caixa de ar, outras cordas vocais. Arrepiava um pouco. Os
passaros poisavam nos ombros dos visitantes, olhavam-nos de
perto, tocavam com o bico, como que a certificarem-se da sua
existencia e levantavam voo. O cao metia-se por vezes com o gato
que caminhava agora`a frente do grupo. Gostavam de lhe fazer uma
serie de perguntas, mas nao se atreviam, nao que tivessem medo,
mas ah... impressionava ter de o ouvir.
Chegaram ao palacio que viram antes ao longe. Ainda andaram uma
boa meia hora. O gato desapareceu, e a passarada afastou-se. So'
o cao ficou. "Porra! agora so'faltava o cao falar..." pensaram
quase todos, e olhavam de lado para o bicho. Ele por sua vez
brincava agora com GI mordendo-lhe a canela e pulando de um lado
para o outro. Nao parecia estar ali senao para brincar. Estavam
perto da entrada principal do palacio, uma porta em rocha polida
rosa-grena'translucida. GI subiu o primeiro degrau. O ceu por
cima do palacio comecou a ficar negro, numa nuvem que girava.
Nao era bem uma nuvem, antes um vortice de ausencia de cor.
Repararam que se deixou de ouvir os sons naturais da floresta,
ainda perto. Gradualmente o vortice penetrou pelo telhado do
palacio. Uma cor avermelhada, como um fogo, surgia agora na
pedra da parede exterior do edificio. O ambiente mudara. Algo
fantasmagorico, magico e/ou maligno estava a acontecer. Sentiam
um profundo respeito/terror. So'o facto de o cao estar sentado a
mexer a cauda e com a lingua de fora a olhar com expectativa
para a porta e'que os tranquilizava.
Ouviram passos do lado de dentro. Passos que os afligiram ainda
mais. Pareciam muito pesados. Como fossem pancadas de macos de
madeira no chao. Ecoavam. A porta entreabriu-se e... Marbelle
desmaiou, GI sentou-se no chao porque lhe faltaram de repente as
forcas nas pernas, Vito tinha a queixo caido, e BB preparava-se
para correr como se tivesse visto o diabo em pessoa. Villiam
usando a sua superioridade emocional e cultural, mantinha-se em
pe'e no lugar, embora inevitavelmente nervosa. E'que um ser com
cornos, focinho, patas e maos de tres dedos largos assumira`a
porta, tal qual um demonio. De pe'fitava com um sorriso os visi-
tantes. Tinha quase quatro metros de altura. Enorme. Um olhar
vermelho, diabolico.
BB ainda comecou a correr, mas de subito todos os caminhos que
tomava acabavam por voltar ao ponto de partida como se as
arvores formassem um labirinto. A sua atitude estava a ser tao
comica que o Diabo deu uma gargalhada que encheu os ares,
trovejante. BB sentiu-se mal e desmaiou.
Diabo "(sorridente) Estava `a espera que o barao vos acompa-
lhasse nesta visita. Estou a ver que nao chegou a falar
convosco. Hum... "
E dito isto olhou para o espaco brilhando os olhos e vendo o
passado. Viu ate' ao momento em que Villiam recolhera o pessoal
na Terra. Viu a Bola que junto a MV procurava GI... Hum... e
olhou de novo para eles.
Diabo "O vosso amigo MV anda`a vossa procura. Villiam... e' um
nome significativo. Sim, tem um destino comum... mas o
presente e' aqui, por agora. Voces os dois, despertem e
sigam-me todos. "
Marbelle e BB, desmaiados, ouviram em sonho o Diabo a falar e
quando lhe disse para acordar, acordaram mesmo. E juntaram-se ao
grupo que subia a escadaria. O cao tambem.
--- * ---
-> Apanhados. Coisa a que nao se podia dar o luxo era ir passar
-> uns dias na prisao. Ia-lhe estragar uma serie de coisas, e
-> lixar a vida a Juseva... bolas! que fazer ?
Naquele momento, ainda na gruta de Juseva, a Bola despertou de
um sonho. "Olha, sairam..." reparou. Sonhara, indo viver para um
mundo de pensamentos paralelo ao nosso, e a meio o sonho
fizera-se realidade, para ela, e alguem forte e muito poderoso
lhe enviara uma mensagem. Sabia onde estava GI. E... oh! conse-
guia ver para alem da luz! pena nao ser uma propriedade sua. Era
so'emprestado, mas com sorte talvez conseguisse apreender como o
fazer. Disparou rumo a Saturno e dai'olhou o rumo da nave Excel
que levara GI. Sim... conseguia ver como que atraves de um
filtro para onde seguira, mas nao conseguia deslocar-se. Essa
era boa, ja' que para ela, ver era estar presente, dada a sua
natureza. Era a primeira vez que via algo que nao podia de
imediato alcancar. Oh...! la'tinha ido o filtro embora. Ficou
ali a recordar a sua primeira visao. Amadureceu, tornando-se uma
bola adulta em alguns segundos. Cresceu em tamanho. Mudou um
pouco a cor. Descobrira um novo tipo de consciencia: ver-sem-
-estar. De novo voltou`a sua habitual alegria, mas desta feita
mais poderosa, mais racional. Ganhara saudades da sua estrela
natal, uma estrela enorme, invisivel aos olhos dos homens, de
uma realidade paralela`a do universo presente. Como uma pequena
variacao a nivel de umas tantas particulas sub-atomicas fazia
tanta diferenca, pensou.
Mas saiu do seu extase, que iria recordar de vez em quando ao
longo dos seculos, e voltou`a sua dimensao e cor habituais. Era
ainda uma Bola nova para amadurecer. E voltou`a Terra. Acompa-
nhou o trajecto de MV e Juseva ate' Sintra e quando chegou viu
com espanto a casa de MV cercada. Estavam atraves de um alti-
falante a ordenar a MV que saissem com as maos em cima da
cabeca. Nessa altura MV e Juseva sairam devagar pela porta, tal
como lhes fora ordenado. Varios policias entraram dentro da casa
enquanto algemavam MV e Juseva, que foram metidos em carros
diferentes. O inspector Jusefino dirigiu-se primeiro a MV,
mostrando-lhe o mandato de busca.
MV "Mas nao fiz nada de especial que justifique estarem a
rebuscar-me a casa, foi apenas uma transgressao de
velocidade..."
Jusefino "...e desobediencia a agentes da autoridade, e pos em
risco a seguranca dos outros utentes da estrada, tan-
to que acabou por se despistar, e ainda tirou a
matricula, mais a numeracao do motor... acha isso
pouco grave ? o juiz vai ter muito que lhe achar alem
de que nao acredito muito nessa historia de velo-
cidade. Hei-de descobrir o que voce esta'a esconder,
mais a sua cumplice."
MV "Ah nao! nao a metam`a mistura. Ela apenas simpatizou
comigo, um caso de paixao`a primeira vista. Exijo
poder telefonar aos meus advogados!
Jusefino "O telefone do carro esta' avariado, e dentro de casa
nao o deixo entrar" e virou-lhe as costas.
Seguiu para junto de Juseva. Olhou para ela. Parecia boa
rapariga apesar da vida que levava. Sim, talvez fosse como
aquele cabrao falara.
Jusefino "Entao querida ? agora andamos a fugir com bandidos ?"
Juseva "Qual bandido ? concerteza que o senhor nao esta' a
falar de MV... "
Jusefino "Ja' ouvi falar de ti. Interessante. Mais tarde quero
esmiucar esta historia melhor."
De dentro de casa de MV mexeram em tudo. Trouxeram livros,
apontamentos, disquetes, desligaram computadores, mas felizmente
nao deram com o elevador para o poco onde MV tinha o seu santua-
rio de paz e sossego. MV antes de se entregar havia feito
deslizar um bocado de parede, construida para o efeito, que
ocultava a entrada para o elevador. So'com sondas de radar e'que
iriam la'. Ora isso seria ja' ficcao cientifica para a forca
policial, de modo que nesse aspecto, estava descansado.
Chegaram a Lisboa eram quatro da manha. Foram metidos em celas e
viram nascer o dia atraves de quadradinhos. MV telefonou de
manha ao seu advogado, que comecou a mexer a papelada e corde-
linhos para que atraves de fianca e invocacoes de leis, pudesse
meter aqueles dois em liberdade condicional, enquanto aguardavam
o julgamento. Nada haviam descoberto na casa de MV que fosse
incriminador, de modo que a acusacao ficou-se pela desobediencia
civil agravada, mais apreensao de carta e carro, ate'julgamento,
e uma serie de pequenas merdices.
No fim do dia Juseva estava fora da cela, sob fianca, e contavam
poder fazer o mesmo a MV, se tudo corresse bem, no dia seguinte,
pela manha. Juseva foi dormir numa pensao perto da prisao, e de
manha acompanhou o advogado. MV dormira bem. Nenhuma historia a
assinalar. E ao meio-dia Juseva e MV sairam de braco dado pelo
portao da Justica. Almocaram com o advogado, que tinha sido
incansavel. Tambem em fianca, custos, processos e etc a brinca-
deira custara novecentos e trinta e oito mil escudos a MV...
--- * ---
-> Marbelle e BB, desmaiados, ouviram em sonho o Diabo a falar e
-> quando lhe disse para acordar, acordaram mesmo. E juntaram-se
-> ao grupo que subia a escadaria. O cao tambem.
A decoracao no interior era... diferente de tudo quanto haviam
alguma vez visto. O cristal translucido, pedra e baixos relevos,
dominavam. Algumas plantas. A tematica era-lhes desconhecida.
Sois, planetas, esculturas abstractas, vidrais, aquarios
embutidos na parede, colunas de pedra negra rodeadas de uma
nevoa azulada que parecia viva, e intimidava como se fosse uma
serpente, rodeando sem se afastar daquelas colunas, pocos
pequenos sem fundo no chao, encostados`a parede. Tudo limpo, bem
equilibrado nas cores, mas de um gosto... sem referencias nas
culturas dos visitantes.
A presenca do caozinho, e a sua falta de medo, era extremamente
tranquilizador perante tudo aquilo. Chegaram por fim a uma sala
rodeada de vidrais voltados para um jardim em patio interior,
onde um poco grande sorvia a agua largada pelas fontes. Por cima
do poco e vagueando um pouco pelo jardim, varias nuvens pouco
definidas, quase fantasmagoricas, assustadoras instintivamente.
Mas dentro da sala, o ambiente *tornou-se* agradavel, social.
O Diabo fazia as vezes de anfitriao,e seguia uma certa etiqueta.
Todos pressentiam que ele se divertia com isso. O cao apesar de
descontraido, nao se aproximava nunca dele.
Uma mesa com bebidas quentes, bolachas, um bolo, aguardava no
meio da sala, rodeada por cinco cadeiras. Mais afastado um
cadeirao enorme onde o Diabo se sentou. Ninguem se atrevia a
falar e apressaram-se a provar as bebidas, as bolachas e o bolo,
como que com receio que se o nao fizessem ofendessem o dono da
casa...
Diabo "Ora, ora, estejam`a vontade. Apesar de ser o papao nao
vos vou meter no saco! " e deu uma gargalhada.
Apercebia-se da tradicao dos terrenos e achava-a
girissima. Villiam nao se atrevia a fita-lo.
Marbelle "Esta' muito bom este bolo... disse ha'pouco que MV nos
procurava. Sera'que nos voltaremos a encontrar?"
Diabo "Querer saber o futuro e'coisa pouco aconselhavel."
GI "E'entao verdade a tradicao, ou lenda, sobre si,nao e'?
A do bom Diabo ? "
Diabo "Nao nesses termos que interpretas. Nao sou bom nem
mau. As vossas referencias sao insuficientes para
abrangerem tudo o que compreende essa lenda. Mas de
facto o essencial esta'exacto. Ha'muito tempo atras
tomei a decisao de libertar da minha influencia este
mundo, ou melhor dizendo, de modelar a minha presenca
nele no mesmo sentido da evolucao ascendente da vida.
Isso surpreendeu as forcas divinas, angelicais e com-
panhia, mas detentor que sou de uma vontade absoluta,
nada nem ninguem pode contrariar este designio. Provo-
quei um desequilibrio localizado no universo, criando
uma singularidade."
GI "Mas, qual a vantagem para si de uma tal atitude ? o
que a provocou ? "
Diabo "E' engracado que faca precisamente essas perguntas...
Nada a provocou. A minha vontade existe para alem do
principio de causa e efeito. A vantagem e'poder man-
ter a minha natureza intacta a par do desenrolar do
universo, termo que prefiro`a nocao de tempo, e de
ganhar ainda por cima direitos unicos devido a tao
inesperada atitude."
BB "Nao se ofende se lhe perguntar porque entao continua
a Terra no estado em que esta', com tantos problemas ?"
Diabo "Esta' a confundir. Cada mundo, cada sistema solar, tem
a sua propria historia, e seres. A minha existencia
esta' confinada a este sistema solar, a este planeta.
No vosso, e em especial na Terra, a historia e' outra
e nao sei se o irmao que tenho la' podera' alguma vez
tomar semelhante iniciativa `a minha. E' coisa que se
nao espera. Acontece ou nao acontece. "
Marbelle "Nao se sente sozinho ?"
Diabo "Eh Eh Eh oh querida, nao podes conceber a que nivel de
consciencia estou. Como estrela, embora negra, nao
tenho ninguem. Nao ha'amigos, nao ha'nada senao o ser.
E como estrela, interpenetro toda a galaxia, com todas
as outras estrelas, com todo o universo. Nao ha' o
objecto da solidao. Pensa, se nao existir o Ego, entao
como pode o que sobra sentir solidao ?"
Vito "Isso e'areia demais para a minha camioneta... "
BB "Idem, nunca fui dessas coisas filosoficas... "
Villiam "Nao me parece que ele fale de Filosofia. E'uma reali-
de para ele, como as cadeiras onde estamos sentados.
Nao percebo e' a razao de estarmos aqui, quer dizer,
isto era suposto ser uma escala para deixar estes meus
amigos num planeta semelhante`a Terra. "
Diabo "Ah Ah Ah... vais ter de esperar pelo desenrolar dos
acontecimentos. Repito que querer saber o futuro nao
e' aconselhavel.
E ainda falaram de mais coisas. Mas nao se lembravam bem de que.
Acabaram por adormecer todos`a mesa. Quando acordaram tudo pare-
cia um sonho. Mas os restos de comida ainda la'estavam em cima
da mesa. Assim como o cao. Uma corrente de ar vinha de fora,
pois a porta da rua estava aberta. De la'ouvia-se chamar por
eles. Era o barao von Mask que sem se atrever a entrar no
palacio, chamava por Villiam, GI, BB e companhia. Levantaram-se
encabrunhados, e com cuidado para nao tocar em nada, em especial
nas colunas negras, apesar de nao terem a tal nevoa electrica.
Sairam pela porta, e rodearam o barao. A porta do palacio fechou
sozinha. Repararam entao que os passaros voltaram a cantar, e de
novo a poisar nos ombros das pessoas.
von Mask "Foram mais astutos do que pensei. Fui avisado que
haviam entrado neste mundo. Era para vos trazer aqui
para vos mostrar este palacio. Faz parte da lenda do
planeta. Nunca tinha visto a porta aberta, e muito
menos esperava encontrar-vos la'dentro... e ver-vos
sair de la'com vida... guardem para vos o que viram."
Villiam "Estamos na superficie interna do planeta, nao e'? o
meu planeta de origem, Tangor, tambem e'assim. Reparem
que o Sol esta'sempre na mesma posicao."
von Mask "Sim, sim, e' evidente. Mas apressemo-nos que esta' uma
nave Tangoriana `a vossa espera. Foi ca' deixada em
orbita. A Villiam e'o piloto. Daqui a vinte minutos
temos tempestade `a superficie, algo que se esta' a
formar nos polos desde ha'dois dias. A proposito,
sabem que estao aqui ha'quatro dias ? "
Quatro dias ? mas tinham acabado de chegar... e von Mask voltou
as costas e pos-se a andar depressa. Seguiram-no depressa,
atravessaram a floresta, com a passarada toda atras, de varias
cores, tamanhos e racas. Perguntaram-lhe como era possivel estar
ali ha' tanto tempo quando tinham a nocao clara de que haviam
acabado de chegar. "Desfasamento de tempo dentro do palacio" foi
a resposta taciturna. Chegaram ao patio por onde tinham entrado.
O caozinho despediu-se com pena dos visitantes, que o afagaram
com muito carinho e agradecimento. Um gato atras deles fez
"miau!" e tiveram a nitida sensacao que estava a brincar com
eles. Disseram-lhe adeus tambem, ao que ele acenou com uma pata.
Entraram na sala, tiraram a mesa, fecharam a porta. Deitaram-se
na cama, para espanto de von Mask, e Villiam ajudou o barao na
manobra das portas. Perderam o equilibrio, e sentiram-se muito
pesados. von Mask percebeu ao ver Villiam a dobrar as pernas a
razao dos outros terem logo fugido para a cama. Ajudou Villiam a
chegar la'. Ele era muito forte.
Chegados de novo ao castelo, correram para o patio deste, e
saltaram, cansados, para a carroca ja' com os tais cavalos
prontos. O pessoal nao quis olhar para a frente. Havia menos
nevoa. Viam-se os bordos do precipicio, e a inclinacao era
grande, bem como a velocidade dos cavalos. So'Villiam ia com os
olhos abertos. Aquilo parecia um voo...
Chegaram ao pe'da nave que os havia trazido. No ceu raios cir-
culavam muito ao alto, como estrelas cadentes. Como tempestade
era algo imenso o que se aproximava. O barao, mostrando pela
primeira fez afeicao, despediu-se com os olhos humidos de cada
um dos presentes, beijando a mao de Villiam e Marbelle. Estava
feliz por ter tido uma visita. Passariam decerto muitas dezenas
de anos ate' alguem reunir as autorizacoes necessarias para
aportar em Ratemazan. Nem sequer tivera tempo de tomar uma
refeicao com eles. E ele que se esmerara tanto a armazenar
frutos e a fazer massas para lhes preparar um banquete, mais uma
serie de colonos em uma representacao da humanidade que vivia no
planeta. Isso doia-lhe. Mas houvera alteracao de planos. Fora
depois que o palacio de Ratemazan abrira as suas portas.
Chegaram ordens. E foi depositada uma nave em orbita. Pela
etiqueta, nem sequer uma lembranca lhes podia dar.
Despediram-se acenando. Entraram na nave. Ja'programada ela
rugiu levantando-se do solo. Levou-os ate' acima das nuvens e
acostou a uma moderna nave tangoriana, verde metalica em forma
de pequeno charuto. Villiam ate'quase que saltava de contente.
Aquilo representava para ela duas coisas: de novo o comando de
uma nave, a transferencia para Tangor, e de novo a vida nas
estrelas. Entraram, e uma mensagem holografica recomendou que os
terrenos se deitassem nos beliches da sala IV. Villiam
acompanhou-os. Deitaram-se. Villiam sentia-se de novo em si.
Ligou cada uma das capsulas de hibernacao onde os terrenos
estavam e caminhou com calma ate'ao posto de pilotagem. La', no
ecran, tinha`a sua espera uma mensagem. Tocou uns botoes e ficou
em contacto com Tangor, enquanto a nave rumava rumo ao planeta
onde devia largar os passageiros. Rumo automatizado. A nave
estava pre-programada. Falou com algumas autoridades de Tangor.
Estavam satisfeitos.
--- * ---
Na Terra
Depois de almocarem com o advogado, Juseva e MV foram a Sintra
arranjarem a casa que ficara desarrumada. E estiveram la'ate'
noite em arrumacoes e a fazer planos de decoracao. MV comecara a
simpatizar com Juseva. Longe de cada um estava a ideia de irem
formar um casal, pois MV sentia necessidade de continuar com o
seu estilo de vida, e Juseva, bem, sempre fora uma marota e nada
dizia que nao fosse continuar, mas estavam determinados a viver
juntos.
A Bola andava de um lado para outro. Pressentia alguma coisa.
Nos ceus de Portugal, uma pequena nave verde desceu sobre
Sintra, invisivel. Materializou-se junto ao solo, e Villiam
levou em macas antigravitacionais cada um dos terrenos para o
chao. Tirou-lhes os fatos atermicos, as mascaras e restantes
coisas que viessem de fora da Terra. Chorava. Durante a viagem
recebera as noticias. Obedecera. Era o melhor para ela, para
eles tambem. Antes de entrar para a nave voltou para GI e
olhou-o com ternura. Adormecidos, os cinco, deitados no chao,
iam recordar-se mal de tudo quanto lhes acontecera, como num
sonho. Ordens. Beijou GI na testa e voltando as costas entrou na
nave, que subiu num rasgo luminoso pelos ceus.
O frio despertou cada um dos presentes. Para mais estavam
descalcos. BB viu um saco perto e tirou de la'os seus sapatos.
Que raio... sonhara... ? nao,... que faziam ali os outros entao?
Olhavam-se incredulos que pudesse estar a acontecer-lhes aquilo.
Viram as luzes acesas de uma casa proxima e a tiritar de frio
dirigiram-se para la'. A Bola ja'localizara GI e depois de rever
as marcas deixadas anos antes quando ele era ainda crianca,
fez-lhe companhia. MV atendeu`a porta e surpreso, mas sorridente
de alegria viu os seus amigos! um pouco aparvalhados, mas eram
eles. Juseva preparou uma serie de chas quentes, foi buscar
cobertores, enquanto MV acendia a lareira.
Reconfortados, e enquanto Juseva fazia um jantar de emergencia e
MV trazia bebidas, contaram-lhes o que havia sucedido.
Lembravam-se de uma emboscada, e depois algo estranho sucedera,
como num sonho de que cada um tinha agora impressoes subjectivas
ja'que a memoria falhava. E aquele grupo de sete pessoas, ali
reunidos, sentiu nascer uma amizade duradoura entre todos.
Pior e'que no dia e semana seguintes, um estava no desemprego,
outro esforcava-se para apanhar o tempo perdido nos estudos, e
Marbelle e Vito recomecavam o seu trabalho na firma de computa-
dores, depois de justificarem como puderam a sua ausencia.
Reuniam-se aos fins de semana na casa de MV, com Juseva, onde
abordavam uma serie de assuntos do paranormal, do misterioso,
pois estavam apanhados por uma serie de experiencias que de
outro modo nao podiam explicar.
E o tempo foi-se passando. BB com os seus engates, namoros,
estudos e negocios. GI a fazer biscatos, no desemprego, e Vito
na mesma enamorado como sempre de Marbelle que estava a pensar
abrir uma loja de roupas. MV continuou nos computadores, mas nao
desceu mais no seu poco. Juseva estudava para modelo, numa boa
escola.
A Bola depois de acompanhar GI durante muito tempo seguiu rumo
ao espaco, para procurar e visitar noutro planeta do sistema
outro individuo que conhecera aquando da sua primeira visita ha'
mais de vinte anos. Oxala'nao fosse tao dificil de achar como
fora com GI.
E assim se passou o resto do Outono. Memorias, uma historia
comum a um pequeno grupo de pessoas. Amizades.
E chegou o Inverno. Para quem esta'desempregado o Inverno e'pior
que o Verao. Sente-se mais frio, o tempo nao ajuda`a boa dispo-
sicao, e nem sequer se veem mulheres decotadas na rua, isto no
caso de se ser homem, como GI. Ja'passara por tres empregos, um
como estofador, de onde saira um mes depois, pois a oficina
achara um rapaz mais novo que parecia mais dotado de jeito que
GI que se cortava nas maos, as sujava de cola, perdia as
agulhas, etc depois teve um biscato de fazer entrevistas, coisa
que durou pouco tempo. Por fim tentara, mais uma vez trabalhar a
servir mesas, mas era mais dificil do que parecia, e acabaram
por se desembaracar dele. Como so' tinha a escolaridade
obrigatoria e nenhum curso do FSE, nao encontrava melhor
emprego... Ja'tentara os seguros, os bancos, mas outras pessoas
passavam-lhe sempre`a frente. No quarto a senhora que o alugava
decidira aumentar em mais dois contos de reis a renda, e era se
quisesse. Ja'nao bastava estar sempre a chatea-lo com as luzes,
com os banhos, ate' com o puxar o autoclismo depois de mijar.
Arranjar agora vinte e oito contos por mes fora a alimentacao,
comecava a tornar-se cada vez mais dificil. O animo abandonava-
-o, e entrava no ciclo vicioso de quem nao tem emprego - perde
vontade - nao consegue encontrar emprego. Enfim, mais uma vez
passara pelo edificio do Diario de Noticias para ver dos empre-
gos nos anúncios e mais uma vez ia tentar, um que era por entre-
vista na proxima segunda-feira. E hoje, mas ja' passara da hora.
E'que hoje nao arranjara forcas morais para se levantar da cama.
Tinha fome, estava magro, e a roupa a ficar rocada. So' tinha
dinheiro para mais um mes de renda. Depois... era o fim. La'em
Sintra comia em casa de Miri e Juseva aos Sabados e Domingos,
almoco e jantar, tirando a barriga de miserias, mas apesar
de serem todos amigos, tinham os seus negocios`a parte e cada
um tinha de se safar por si.
Vito e Marbelle estavam bem, numa firma com implementacao
nacional, tendo aberto uma sucursal em Faro e outra no Porto.
Alem de que Marbe, como era agora denominada por todos, tinha
uma loja de pronto a vestir num local razoavelmente situado, em
termos comerciais, e estava a ter um lucro que dali a dois meses
ia cobrir o investimento. Miri trabalhava por contrato, como
consultor e perito em informatica. Juseva la'prosseguia com
exito assegurado por uma serie de contratos, o seu curso de
modelo, que nem sequer precisara de concluir, para ganhar
dinheiro. Fez alguns investimentos acertados na bolsa, ganhara
algum dinheiro na compra e venda de automoveis e andares, e
planeava comprar um para si, quando pudesse. BB, ultimamente
apaixonado por uma moca morena, inglesa, estava a ter excelentes
notas nos estudos e conseguira dois trabalhos que lhe cobriam
todas as despesas dos estudos e ate'davam para passar uns fins
de semana em moteis. Pensava ate' em comprar um carro que nao
fosse tao velho como o que agora usava. E'assim neste contexto
que num Domingo,`a mesa, do jantar, vamos encontrar em Sintra,
casa de Miri, os seis: todos de lua cheia ou crescente, e GI a
sentir-se miseravel, marginalizado pela sociedade.
Juseva dominava pela sua presenca, bem vestir e trato, o que
causava um pouco de ciume ou despeito`a agora segunda mulher do
grupo. Mas Marbe continuava com a sua desinibicao natural, a sua
coragem e iniciativa. O televisor estava aceso na sala de estar
ao lado da de jantar, com o som baixo, que se ouvia quando todos
se calavam. Bento Biscaia (BB) estava a ter uma conversa animada
com Juseva. Ja'haviam feito amor duas vezes, sem conhecimento do
resto do grupo. Cada um tinha a sua vida propria, nao havia
intromissoes, e como ninguem lhes perguntara, tambem nao iam
falar do assunto.
Bento "... e nao passavam sem homens, repito, pois voces por
natureza so' se satisfazem com o sexo masculino, as
maos, as pernas, os pelos de um homem..."
Miri "ah! nao e'bem assim. Conheci uma mulher que se sentia
realizada apenas com relacoes lesbicas, por ter sido
educada sempre no meio..."
Juseva "... acho o termo 'lesbica' depreciativo. Tenho uma
colega com que ja' me relacionei que e' um amor de
pessoa, carinhosa, inteligente e nada tem de depravada
ate' porque foi uma opcao dela de deixar os homens
depois de se ter divorciado..."
Bento "... mas la'esta! e'um caso patologico, ela.. ficou..
traumatizada.. pelos homens. Nao e' uma atitude
natural... (sorriu mais uma vez para Juseva)
Juseva "... entao e eu quando me relacionei com ela, estava a
ter um comportamento anormal ? "
Marbe "... tu es um caso`a parte, querida. Vou e' ter de
comecar a ter cuidado contigo... " (disse num tom de
malicia amigavel)
Vito "... alto ai! que atras dessa coisa de elas se deitarem
umas com as outras acaba por atrair macho! "
Juseva "... mas oh Vito, tens de compreender que a Marbe nao e'
tua... por que nao ha-de ter uma relacao mais intima
com outra pessoa, va'... mulher... ou homem... " ( tom
provocativo )
Marbe "oh GI... para la'de mastigar homem!... que e'que dizes
de eu poder ter uma amante, ou um amante..." ( olhou
para Vito, ja'meio fodido com o curso da conversa )
GI "(suspiro) olha... nao e'o teu genero, a coisa posta
assim, nestes termos... mas acho que voces os dois se
completam sem necessidade de meter terceiros `a
mistura." ( disse num tom triste e sofrido )
Juseva "GI... que se passa contigo ? estas assim triste por
ainda nao teres arranjado emprego ? ou e' falta de
amores, hummmmm... ? ( olhinhos... )
GI "(suspiro) preferia nao conversar sobre isso`a mesa...
vejo-vos tao bem dispostos..."
Miri "Oh pa! isso nao!... nao estamos aqui para uma reuniao
de veteranos, eu quero que se mantenha este grupo,
tenho estima por todos, tu tambem. Acaba-se a conversa
de chacha. O que se passa contigo ?"
Um elemento do grupo em desespero. Isso reuniu os sentimentos de
Bento, Marb e Vito por GI. Por qualquer razao sentiam-se todos
com dever de cuidarem de GI. Miri e Juseva tinham uma atitude de
amizade, mas diferente. La'conseguiram conversar com GI. Mas por
muito que simpatizasse com o rapaz Miri nao queria mais ninguem
em casa. Juseva va'la'que sim, compreendiam-se e eram bons
amigos, `as vezes dormiam juntos, e de vez em quando la' faziam
amor, mas era mais a excepcao que a regra. Cada um tinha a sua
vida propria nesse campo. Marb e Vito tambem nao lhes calhava la'
muito bem ter alguem a atrapalhar o casal, e Bento nem pensar,
pois isso ia destruir-lhe varios esquemas. Parecia mal dar
dinheiro a GI, mas era aparentemente a melhor solucao.
Passara ja' muito tempo desde aquele dia em que por estranha
fenomenologia tinham aparecido todos numa noite, em casa de
Miri. Haviam consultado alguns medicos, feito alguns despistes
psicanaliticos, e por fim a explicacao para a falta de memoria e
recordacoes comuns era a de trauma colectivo decorrente de terem
sido vitimas de uma emboscada, pois de facto as marcas das balas
ainda estavam la' na quinta de Vito, no Sul. Deviam ter fugido
vitimas de uma amnesia devido ao receio de estarem a ser perse-
guidos, levando-os a rejeitar a sua identidade. Um fenomeno raro
mas cientificamente possivel, dissera o especialista.
GI sentia profundamente a falta de alguem. Sentimento que Bento
tambem tinha, mas so'reparara depois de GI - um fim de semana -
ter conversado sobre isso. Para ele, Vito e Marb, havia ali uma
pessoa em falta, mas quem ? concerteza alguem que os auxiliara
na fuga e ao mudarem de novo para as sua memorias haviam
esquecido. Ja' haviam falado muito sobre isso e tinham a
impressao de ter sido uma mulher.
E agora com GI ali a sofrer, o grupo sentia a falta de alguem de
novo. Miri conversara com calma com os demais e com GI e fizera-
-o aceitar um cheque de cinquenta contos, tendo ficado combinado
que procurariam ver em que medida seria possivel resolver o caso
de GI no futuro. Juseva mudara um pouco. Antes teria levado GI a
dar uma volta de carro e fornicado o pobre do homem so' para o
animar, mas agora estava mais selecta, seguindo um curso proprio
que tinha mais a ver consigo, e com o seu tipo de homem, que com
accoes civicas.
O facto e'que ficaram todos ora convencidos de terem resolvido o
problema de GI, ora cientes de terem feito o que estava ao seu
alcance, o que nao satisfez Marb. E no fim GI sentiu-se um tanto
ou quanto abandonado. Depois de estarem a ver um programa de
televisao sobre a camada de ozono, onde se via uma imagem em
computador da Terra justaposta`as areas afectadas, GI pediu que
nao levassem a mal, mas precisava de dar uma volta ao ar fresco.
"De certeza que nao queres companhia?" perguntou Marb, mas GI
agradeceu sem aceitar. Ainda por cima a depressao fechava-o
sobre si mesmo, ficando um bocadinho bicho de mato, e sem jeito.
So'que`as vezes, a GI, a coisa fazia sentido. Mas nao no aspecto
de rapto... nao, nao podia ser. E pos de novo a ideia para tras.
Caminhara sem rumo afastando-se um pouco da casa. Estava por
acaso ou coincidencia no mesmo local onde meses antes haviam
despertado e avistado a casa de Miri. GI sentou-se, apesar do
frio, e olhou demoradamente o local.
O coracao batia mais depressa quando a memoria parecia quase
chegar a algo e, como sempre, acabava por nao conseguir. "Diabo
para isto!" praguejou, enjoado - sempre a mesma merda. E um
flash, um relampejo atravessou-lhe a memoria, sem esforco,
inesperadamente. Teve dois arrepios, que nao percebeu se do frio
se da imagem que lhe atravessou o espirito: um touro gigante
sentado num cadeirao a falar. Coisa estupida, pensou. O melhor
era ir para dentro de casa, e fazer pela vida, em vez de se
deixar invadir pelo delirio de alguma fraqueza emocional. E foi
para casa.
La'em casa, Juseva havia tido mais um dos seus tipicos lapsos de
memoria. Deram com ela a fazer de novo o jantar. Abriu a boca,
ficou corada, e perante o sorriso de todos, ficou subitamente
seria... outra lembranca atravessava-lhe o espirito. So'que esta
deixara-a petrificada, ou melhor, chocara-a. Vira-se a si mesma,
com outra face, mais alta, vestida com um fato estranho, olhando
para um espelho. Sentou-se perturbada. Ja'havia tido instantes
de alucinacoes de memoria, mas esta durara uns dois segundos,
dois longos segundos, surgira de subito e fora completa, vivida,
real. Mas, como de outras vezes, sorriu, disse-lhes "ja'
passou...", e foi entao fazer um cafe'para todos.
GI tocara`a porta, entrando para o quentinho. Nessa noite, nem
GI nem Juseva voltaram a pensar nas suas recordacoes. Mas de ma-
drugada, no seu quarto, com algum frio na garganta, GI despertou
pelas de cinco da manha. Acordou em sobressalto. Sonhara com a
imagem do touro, que falava com ele sentado num cadeirao. Pensou
um bocado no sonho, e decidiu voltar a ir ao medico se aquela
coisa continuasse. Chatice. E foi ao voltar-se para o outro lado
da cama que gelou de... medo/surpresa: parecera-lhe ver contra o
fundo escuro da parede uma face. De mulher. Estava todo arre-
piado. Como uma crianca, meteu devagarinho a cabeca debaixo dos
cobertores e de la' nao se atreveu a sair ate' que voltou a
adormecer.
Amanheceu. A luz do Sol surgiu por entre a persiana suja e ava-
riada do quarto de GI, ainda com a cabeca por debaixo do cober-
tor e lencois. O tempo passou ainda mais um bocado. Alguem bateu
uma porta, e os canos dos esgotos do predio velho fizeram-se
ouvir gorgolhando alto. GI acordou. Meteu a cabeca de fora,
olhou para o teto, com humidade. Seis e trinta da manha.
Barulhos de uma mulher a gritar com os filhos. Passos. GI
levantou-se. Sacudiu uma barata do chinelo, e apressou-se a ir`a
casa de banho. O seu horario era entre as seis e meia e as sete.
Depois disso os dois outros hospedes tinham a vez. A menos que a
senhoria ja'la'estivesse, caso em que era um pandemonio. La'se
lavou numa tina com agua fria, fez as suas necessidades, e
despejou o autoclismo - a senhoria que se lixasse - e voltou ao
quarto. Pegou na roupa da cama e embrulhou-a para a levar`a
lavandaria. Deu uma limpeza ao po'e cuidadosamente viu o cheque
de cinquenta contos que lhe haviam dado, juntando-lhe o bilhete
de identidade. Vestiu-se.
O cabo-verdiano ja'estava na casa de banho quando saiu. Era um
gajo porreiro, mas nunca quando se levantava de manha, pelo que
saiu sem lhe dizer nada. As escadas de madeira, aqui e ali
rachadas, rangeram. Desceu ate'`a rua.
Respirou fundo. O dia estava claro, fresco. Tinha fome, e como
estava mais endinheirado,ja'podia permitir-se ir a um cafe'. Mas
era ainda cedo. No Tejo passava um barco estrangeiro. Seguiu a
pe' ate' ao Cais do Sodre', onde chegou passada meia-hora. Os
barcos traziam imensa gente a correr para os seus empregos.
Havia ali no cais um cafe'aberto, onde tomava`as vezes um almoco
de sandes e leite. Os vendedores da zona ja'tinham as mercadori-
as expostas. Ouviu dois senhores, bem vestidos, protestar por
terem todos os dias de aturar a porcaria do emprego. Hum... e
ele que procurava um... mundo doido. Entrou no cafe',esperou que
vagasse uma mesa, e sentou-se. Pediu uma sandes mista, uma bola
de Berlim um galao e um cafe'. E ficou`a espera enquanto via o
movimento de passageiros, para ca'e para la', das margens do rio
Tejo, nos barcos. Ouvira Juseva comentar que tambem estivera
desempregada e que passara os piores momentos na zona da praia,
para os lados da Costa da Caparica, de onde decidira refazer a
sua vida. GI pensou de novo na mulher. Aquela Juseva dava-lhe a
volta aos miolos. So'a apetecia trincar, mexer, coiso-coiso. Nao
a conseguia compreender, contudo. Miri Vibrante e ela davam-se
bem, entendiam-se, e depois GI sentia-se complexado em se meter
com a melhor amiga de um amigo seu. Ficava-se pela imaginacao.
Depois de comer e pagar, saiu e ficou a olhar a agua do rio. A
hora de ponta estava ali, e o movimento duplicara. Faltava-lhe
ir agora ao jornal ver de emprego, e de novo voltar a tentar as
entrevistas e escrever uma ou duas cartas de resposta. Mas nao
lhe estava nada a apetecer. Olhou mais uma vez para os barcos
que traziam gente da outra margem, e dirigiu-se`a bilheteira.
Comprou uma passagem. Caminhou com algumas pessoas para o
proximo barco que ia partir, muito mais vazio do que aqueles no
sentido para Lisboa.
Aportou na margem Sul dez minutos depois. O movimento era
grande. Comprou bilhete para a Costa da Caparica e foi para a
fila, esperar. Tinha esperanca que `a imagem da historia de
Juseva, que admirava, tambem ele encontrasse ali alguma coisa
que refizesse a sua vida, que se embrulhara para a desgraca nao
sabia bem a partir de quando. O autocarro chegou, entraram
ordeiramente, e ficou sentado ao lado de um homem de cabelo
grisalho, de ar meio abatido, que durante a viagem se encostou
ao vidro e dormitou. Havia bicha da Costa para a Ponte, mas para
la'o transito fluia bem.
Quando chegou `a Costa da Caparica, foi ao banco levantar o
cheque. Embora dezoito contos fossem para guardar, tinha vindo
na viagem a pensar que podia ficar por ali uns dias se comprasse
um saco-cama em conta, artigo que um dia que ficasse na rua, lhe
poderia ser precioso. A manha passou-a `a procura de um lugar
onde vendessem sacos-cama. O unico que encontrou nao tinha a cor
que gostava e era cheio de florzinhas estampadas, mas comprou-o.
Almocou mais umas sandes e passou a tarde a passear junto`a
praia, e por fim metendo-se no areal a dentro, para as praias
mais para Sul, longe da vila. Pela tardinha desembrulhou o
jantar, mais sandes, e dois pacotes de sumo, e sentou-se a comer
enquanto olhava para o mar,`a espera de inspiracao ou perspecti-
vas romanticas.
O Sol estava ja'baixo. Junto`a linha de agua um grupo de jovens
caminhava, passando pela frente da praia onde GI estava sentado.
Contava dormir ali ate'de manha. Nao sentia nada de especial la'
por estar junto `a praia, o que o desanimava um pouco, face `a
descricao de Juseva. Entretanto o grupo de jovens corria na sua
direccao. Hum... ? nao tinham la' muito bom aspecto... ah? GI
levantou-se, comecou a correr mas tarde de mais, o gang
apanhou-o logo a seguir. Gamaram-lhe o saco cama, deram-lhe meia
duzia de murros na cara e mais pelo corpo todo e no fim ficou
sozinho na areia, sem dinheiro, sem cinto, sem BI, sem nada.
Inclusive vontade de viver. Para mais sangrava do nariz. Sem
forcas para se mexer, dorido, ficou de barriga para o ar com
olhar parado para o ceu onde as primeiras estrelas surgiam.
Alguns mosquitos faziam-se ouvir e sentiu umas picadas. Ate' o
podiam comer todo, que estava mesmo a precisar era de morrer.
Mas por fim as dores e o frio causaram uma reaccao no corpo de
GI que o fizeram levantar-se. Ai'andou um bocado, e prostou-se
de novo, desta vez para chorar, desesperado.
"ah!... Villiam, Villiam... se estivesse ao menos aqui " pensou
alto em sofrimento. ... 'Espera la'... 'Villiam ?' 'mas onde e'
que eu fui buscar este nome?' algo atravessava a sua memoria
assim como a penumbra do sol ja'posto atravessava a proximidade
da noite. GI comecou a correr devagar junto`a linha de agua, na
direccao da vila. E enquanto o fazia procurava agarrar aquela
lembranca fugidia, corria por momentos de olhos fechados, e de
vez em quando uma imagem quase que lhe vinha`a memoria. Ja'
sentia menos frio. E continuava a correr, olhando para o ceu
estrelado, cadenciado, sem ver o chao, apenas sentindo a areia.
Abria agora os olhos e olhava para o chao em frente, escuro,
invisivel, onde corria. Entao imagens de memorias vagas como que
ali se reflectiam, e ganhou a sensacao que corria sobre um
buraco negro ja'que nao via mesmo nada da areia. De subito, a
imagem clara de Villiam, a mexer numa cabine de pilotagem de um
qualquer veiculo. E com Marb ao pe'... e... uma dor intensa
cortou o fio de pensamentos e a corrida de GI que bateu contra
uma rocha, ja'que a mare'subira. A dor misturou o transe de GI e
antes de desmaiar, viu de novo aquele touro sentado num cadeirao
a falar para ele, enquanto os seus amigos adormeciam um a um: "
... pertenca da Terra, e so' de la'poderao regressar. Um mundo
que nao e'o vosso... vosso... vosso... " e GI perdeu a conscien-
cia, sendo embalado pela agua da mare'enchente. Instintivamente
o corpo rodou para ficar com a boca para cima, e de seguida
tentou ter pe', rastejando pela agua acima, ate' encontrar areia
seca, e continuou a rastejar, inconsciente.
A manha chegou. Um barco de pesca que passava viu um rapaz
prostado na areia. Os olhos experientes do pescador notaram que
nao era mais um turista doido a dormir ao relento, pela posicao
do braco e face`a linha de mar, o gajo estava afogado ou havia
sido arrastado para ali. Chegou o barco `a praia, puxou-o,
prendeu-o com uma corda a uma pequena ancora na areia, e correu
a ver o rapaz. Estava em muito mau estado. A cara cheia de
inchacos, roupa rasgada, manchada de sangue. Mas respirava.
Pegou nele e levou-o ate' ao barco. Que se lixasse a pesca,
pensou, que Deus recompensa os bons, e mesmo que nao, nao ia
deixar ali o homem!
Ja'na Costa da Caparica, deixou o naufrago no barco e foi a um
cafe'telefonar ao 115. Dai'a meia hora ja' GI ia a caminho do
Hospital, em Lisboa. Onde entrou no banco de urgencia. Foram-lhe
ao fim de meia-hora feitos uma serie de exames, e tratado a uma
hemorragia interna e composto numa costela que perfurara quase o
pulmao.
Acordou por volta do meio-dia, num dos quartos do hospital de
Sao Jasmim. Tinha a perna esquerda engessada. Doia-lhe o corpo
todo. Uma vez que nao tinha identificacao, parecia pobre e sem
recursos, nao lhe haviam ministrado analgesicos, para poupar.
Uma enfermeira ao ve-lo despertar, chamou o medico que lhe
perguntou como se sentia, qual o nome, se tinha alguem a quem
contactar, e que precisavam da cama o mais depressa possivel
como quem diz que ali nao e' asilo de pobres. GI suspirou.
Sentou-se na cama. Alguem lhe pusera uma fralda no lugar das
cuecas. A roupa dele devia estar a esta hora no lixo. A enfer-
meira estava chateada de ter que ir ainda`a procura de uns
trapos para aquele pobre diabo. "Vao pro'caralho!" disse GI ao
medico, extensivo`a enfermeira. Nao era justo, afinal, haviam-no
tratado como deve ser, mas estava sem paciencia. A enfermeira
por vontade dela quase corria aquele fedelho dali ao pontape',
mas o medico apercebeu-se da situacao, e compadeceu-se do jovem.
"Va', homem, deite-se la'na cama, que e'da maneira que ainda lhe
servem hoje almoco. Saia depois disso... " e piscou-lhe um
olho. E sairam os dois. Medico e enfermeira.
"Boa!" disse um homem ao canto do quarto. "Aquela cabrona estava
mesmo a precisar quem lhe dissesse isso, filha duma puta", ao
que um coro de aprovacao se juntou. Passados quinze minutos GI
era uma figura popular no quarto, onde por sinal so' estavam
homens, de meia-idade ou idosos.
O almoco foi servido`a hora, e junto vieram roupas velhas, mas
limpas, para GI. Ajudaram-no duas enfermeiras novas a vestir-se
tendo uma delas ainda brincado com GI ao lhe vestir umas cuecas
enormes que lhe nao serviam " e'para quando isto crescer nao
apanhar frio, e fez-lhe uma festa nos quilhoes ". Mais tarde GI
saia pela porta das traseiras do Hospital, com uma muleta velha
que segurava mal o braco.
Podia ter telefonado a Miri Vibrante, ou a Vito, ou mesmo a
Bento Biscaia, mas preferiu aguentar-se sozinho. Estava a
desafiar a sua capacidade de resistencia. E nao tinha cara,
literalmente, para lhes dizer que nem o cheque tinha. Pensava ir
como pudesse ate'`a pensao, melhorar ate' ao proximo fim de
semana, e entao falar-lhes. Recordava-se de Villiam, de algumas
momentos agradaveis passados com ela, de um jardim onde haviam
se reencontrado, de uma tempestade, de um velhinho simpatico,
mas estava a precisar de organizar os seus pensamentos.
O problema imediato e'que nao tinha sequer dinheiro para auto-
carro. E a distancia era grande. Estar a pedir esmola era coisa
que so'ia fazer um dia que estivesse mesmo mal, mas nesse dia,
nao lhe parecia que tivesse forcas para o fazer. Assim ao fim
desse dia, andando e parando, e voltando a andar e descansando,
la'chegou`a pensao. Ouviu um sermao por gastar demasiada agua,
da senhoria, que no fim tambem quis saber onde partira a perna.
Nao lho disse. Estava a ficar farto da falta de dinheiro, da
antipatia da mulher. Penosamente desamarrou lencois e cobertor
que afinal nao foram para a lavandaria como pensara ontem de
manha fazer, e deitou-se extenuado, adormecendo quase imediata-
mente.
--- * ---
A semana comecara bem para Marbe. Logo`as onze horas daquele dia
conseguira a confirmacao em Italia de um fornecedor, sobre as
condicoes de um negocio. Ia poder abrir uma seccao de retalho de
tecidos. O movimento na casa era grande e estava a ver que tinha
de meter uma terceira empregada para dar conta das solicitacoes.
Valia bem a pena.
Vito estava na maior. A firma funcionava sobre rodas. Aquele
software de Miri Vibrante era mesmo bom. E havia conseguido
financiamento da CEE para um projecto de informatizacao das
escolas secundarias, sob a tematica das comunicacoes.
Miri estava feliz. Conseguira finalmente apanhar um Bug miste-
rioso num mini-sistema operativo que ia revolucionar as comuni-
cacoes em Portugal e nao so'.
Juseva encontrara um andar em Lisboa e estava a pensar compra-
-lo, mediante pedido de emprestimo. No fim do ano pagava o resto
do andar. Andava agora a ser namoriscada por um vendedor de
automoveis muito querido, e delicioso na cama. Tinha tambem um
projecto de aplicacao de dinheiro no negocio do turismo.
--- * ---
De novo o fim de semana. A cara de GI estava ainda maltratada,
com marcas e duas cicatrizes de pontos, mas estava melhor de
aspecto. Como era habitual foi juntar-se na casa de Miri com o
pessoal, que quis saber o que se havia passado, como chegara ele
ao ponto de ter a cara tao ma' e andar de gesso e muleta. Mas GI
mostrando uma determinacao pouco vulgar, disse sempre que depois
do almoco, e apenas depois, falaria sobre o que havia sucedido.
Ja'na salinha junto`a casa de jantar, depois de terem ajudado a
levantar e lavar a loica, o pessoal reunia-se na expectativa da
historia que GI teria para lhes contar. O ambiente era de expe-
ctativa, curiosidade. Juseva comentava brincalhona que fora al-
gum marido ciumento, embora no fundo visse que era algo serio.
GI "Bento, lembras-te daquela conversa sobre uma pessoa que
nos sentiamos como que devendo estar presente no periodo
em que perdemos a memoria ? "
Bento "Bom... isso foi ha'algum tempo, mas nao sei se nao sera'
meramente fruto da imaginacao, de um conceito de segu-
ranca..."
GI "Tretas! o nome e'VILLIAM "
A palavra caiu como uma bomba de neutroes. Por segundos foi como
tivessem desaparecido tres pessoas da sala. Bento Biscaia,
Marbe, e Vito ficaram imobilizados, ar compenetrado. Lembra-
vam-se agora. GI ao ter dito o nome ficou tambem perturbado ja'
que o facto de os outros se estarem a lembrar contribuia agora
para ele proprio ver a sua memoria clarificar-se. Passaram-se
cinco minutos sem ninguem falar. Miri e Juseva entreolhavam-se
mantendo respeito pela situacao.
Vito "A cabrona velou-nos a memoria quando nos mandou deitar
naqueles beliches nas capsulas de hibernacao!... oh! GI
da'ca'um abraco! " e levantou-se abracando GI que o
avisou que tinha uma costela a sarar.
Bento "Pois foi... filha da puta... " dizia ainda incredulo.
Marbe "Lembram-se de como tudo correu rapido depois da nossa
entrada no palacio cor-de-rosa do Diabo de Ratemazan ?
Sera'que sabemos alguma coisa que nao devemos ? "
GI "Talvez. Temos de conversar sobre isso, mas eu pedia que
antes cada um, sem falar com mais ninguem, escrevesse
tudo quanto se lembra, para nao nos influenciarmos uns
aos outros e ate' para servir ali de prova ao Miri que
esta'com cara de incredulo."
Miri "Ainda me lembro bem da busca que vos fiz e das pistas
que obtive. Mas ja' agora espero que acabem de escrever
essas notas, tambem nao vos quero influenciar. Embora
sempre acreditasse nessa coisa dos discos, quando a
coisa parece acontecer connosco, ou com amigos nossos,
e'sempre diferente."
Juseva"Quem me dera a mim recordar-me tambem do que me vem
moendo o juizo ca'dentro."
Ali mesmo cada um passou a tarde a escrever notas, em bloco A6
que Miri foi buscar. Juseva fez um cha', com bolos, na hora do
lanche. Nem ai'conversaram. Olhavam-se, sorriam, mas nao fala-
vam. Miri Vibrante foi para a sala de computadores, de onde so'
saiu pela hora de jantar. Felizmente que antes do jantar ja'
haviam terminado todas as notas. Senao seria uma refeicao de
monos. Ao contrario foi extremamente animada e excitante para
Miri e Juseva, pois relataram todas as aventuras que se conse-
guiam lembrar desde que uma nave espacial(!) os havia salvo de
uma emboscada.
Miri e Juseva, nessa noite, ficaram encarregados, por vontade
propria, de compilarem as notas de todos num unico texto,
assinalando as partes que lhes levantassem duvidas, ou que
precisassem de esclarecimento.
Juseva e Miri terminaram o resumo, e enquanto Miri deixava o
texto a ser impresso na Laser, Juseva ajeitou as camas, e ainda
dormiram depois disso tres horas e tal, ate'`as sete da manha,
altura em que Marb se levantou para preparar o pequeno almoco
para todos, fazendo algum barulho na cozinha, e depois na casa
de banho, e por fim de novo na cozinha e sala de estar. La'se
foram levantando aos poucos, andando para aqui e para la' de
pijama uns, de calcoes e tronco nu outros, e a saltitar tipo pe'
coxinho, GI. Depois da hora de ponta das casas de banho,
reuniram-se ja'compostos na sala de estar, onde Marb e Juseva
serviram cafe', leite, pao aquecido,pao torrado, ovos e presunto
quentes, uma especie de croissant cuja massa Marb havia
inclusive feito. Animadissimo o pequeno almoco. Juseva contou a
sorrir o episodio de Bento com as duas estudantes de Saturno.
Bento foi alvejado por uma data de bocados de pao, e algumas
colheres de cafe', pelos seus colegas de aventura. Depois foi o
esclarecimento de pormenores, o avivar de situacoes, o comparar
de sentimentos. Era a primeira vez que reflectiam sobre tudo o
que lhes havia sucedido. Nao chegaram a conclusoes sobre a
entrevista com o Diabo de Ratemazan ( do mesmo nome ), nem sobre
a Bola. Meteram-se uma hora depois nos carros e foram dar um
passeio pelos arredores de Sintra.
--- * ---
Ratemazan
A Assembleia havia deliberado. Feitas as combinacoes, seguiriam
os preparativos. Tal como haviam entrado, assim sairam do imenso
atrio varias dezenas de pessoas, furtivamente, com descricao. E'
dificil de descrever o que e'estar quarenta anos sem visitas e
quando finalmente aparece um grupo simpatico, nao ficar o tempo
suficiente sequer para lhes oferecer uma recepcao informal,
amigavel. Para mais quando ao fim de tanto tempo se faz um
esforco para limpar, reparar, embelezar os locais e objectos de
recepcao, como um palacio e as mesas, as cadeiras, etc bem como
rever as receitas de culinaria, combinar os sumos, escolher o
melhor programa da festa, e quando quase tudo esta'pronto para a
surpresa, paf! os visitantes saiem a correr.
Pois ninguem se conformava em Ratemazan, muito menos o barao von
Mask. Reuniram-se com cuidado suficiente para nao chamar a
atencao dos satelites da Federacao, que podiam perscrutar mesmo
atraves de rocha, quando nao havia tempestades, as tais que
inibiam toda a actividade nao primitiva, eliminando as leis da
electricidade. Ao longo das semanas elaboraram um plano. Os
quatro terrenos que estiveram com eles eram tidos por todos com
carinho e alguma reverencia, ja'que haviam entrado *dentro* do
misterioso Palacio Rosa do proprio Ratemazan, o 'bom-Diabo'. Iam
desenterrar uma nave do tempo em que usavam a tecnologia
moderna, e com ela chegar`a Terra onde veriam se deveriam trazer
de volta os visitantes, mais que nao fosse para um ou dois dias
de festas. Estavam a ir contra determinacoes da Federacao, que
temia um pouco o que se passava em Ratemazan, planeta-singulari-
dade, onde anomalias em leis eram fruto de apurada investigacao.
Consultaram arquivos de milhares de anos, numa altura em que o
tempo ainda era linear sobre o planeta, e localizaram a posicao
de uma nave denominada Sombraam, que estaria no interior de um
monte. Obtiveram informacoes precisas sobre o local onde estaria
o planeta Terra, e la', os quatro procurados.
--- * ---
-> a Bola. Meteram-se uma hora depois nos carros e foram dar um
-> passeio pelos arredores de Sintra.
Um passeio agradavel, a dada altura com uma pequena corrida
entre o Mercedes novo de Miri e o Talbot de Bento, mas sem
teimosias de maior, ja'que estava presente em todos a chatice
que ha'pouco tempo sucedera a Miri por causa de uma brincadeira
dessas de corridas na estrada. O processo ainda andava nos tri-
bunais,`a velocidade habitual da Justica. No Mercedes azul iam
alem de Miri a conduzir, Vito e Marbe, e no Talbot branco Juseva
e GI, com Bento a conduzir. O Mercedes passou novamente`a frente
e acelerando a fundo deixou Bento para tras, que perdeu de vista
o outro carro. 'Optimo' pensou Bento, que estava ha'um quarto de
hora a procurar que aquilo acontecesse. Meteu numa rua`a direita
e seguiu por uma estrada que subia. Juseva sorriu discretamente.
GI, no banco de tras continuava a olhar pelo vidro a paisagem, a
vista, as arvores, dando de quando em quando um comentario sobre
a conversa dos bancos da frente. Pararam numa curva de onde se
via uma area grande verde, com Sintra ao fundo. Sairam do carro
os tres, e Bento meteu o braco na cintura de Juseva, ao mesmo
tempo que falavam todos sobre a historia passada no satelite de
Saturno. Juseva, que nao era `as vezes nada contemplativa,
agarrou de um modo feminino o queixo de Bento e beijaram-se, a
meio da conversa de GI, que ficou a meio com um "aah....". Os
dois namorados riram, com os olhos brilhantes, e brincaram com
GI, pedindo-lhe a ele que procurasse trevos de quatro folhas, e
afastaram-se um pouco, deitando-se logo uns quatro metros`a
frente. GI afastou-se aborrecido, e ainda chegou a ouvir alguns
sons caracteristicos de quem... enfim. La'que quisessem fornicar
ainda va' la', escusavam era terem gozado com ele com essa dos
trevos. Gaita, quem lhe mandava a ele simpatizar com aquela
gaja? o coracao de GI sabia escolher mal, ou entao era ele que
nao conseguia obter para si o que desejava. Das duas uma. E
envolto em pensamentos algo subjectivos, GI foi andando para o
carro, olhando ja' agora para o chao`a procura de trevos de
quatro folhas, como gesto de transmutada resignacao.
Passaram dez minutos, vinte, meia-hora, e os dois amantes nao
havia maneira de aparecer. Pudera, pensou GI, o tempo deve-lhes
estar a correr depressa. E a ele devagar. Saiu do carro e olhou
de pe'para a paisagem. Um dia descoberto, sem nuvens, excepto ao
fundo, para Oeste, junto ao horizonte. Apesar de estar a tentar
ser racional sentia-se constrangido, com o coracao um palmo para
baixo do seu lugar habitual, como se isso fosse possivel. Nem
sequer carta de conducao tinha, e naquelas ocasioes ser pobre
era ainda mais chato. Se ao menos tivesse um aspecto melhor.
Sim... de facto andar por ali de muleta com a cara com o aspecto
que tinha, nao o tornavam propriamente um homem atraente como o
Bento. Humpff... e olhou para o ceu, na secreta expectativa que
de la'viesse algo de novo. Mas passaram ainda mais vinte minutos
sem que nada sucedesse. Ate'que por fim apareceram os dois,
Bento Biscaia e Juseva, com ar cumplice, desarrumados nas roupas
e ainda vermelhos nas caras, em especial Bento que vinha coberto
de suor.
Juseva "Ola', GI."
Bento "Tudo bem ?"
GI "Hum..? sim. Que sera'feito dos outros ?"
Bento "Devem estar no restaurante Pato Preto. Foi ai' que se
combinou o almoco para as 13H." e olhou para o relogio.
Juseva "E tu GI, estas melhor da perna ?"
GI "Juseva..." acusou GI farto daquela conversa de treta.
Juseva "Oh Bento, espera ai'so'um minuto, que quero dar uma
palavrinha aqui ao nosso amigo." e puxou por ele uns
quatro passos, falando depois em voz clara, mas baixa.
"Olha, nao julgues que nao sei que simpatizas comigo. Nao
quero que julgues seja o que for da minha maneira de
proceder. Nao o faco em relacao a ti, seja contra ou a
favor, percebes ? e'uma questao pessoal. Sabes que
nestas coisas, ha'ou nao ha'interesse por uma pessoa.
Nao quer dizer que nao seja tua amiga, mas tens de ser
tu a resolver as tuas proprias necessidades. Esta'bom ?"
GI "Que queres que te diga ? tens razao, eu e'que tambem nao
sou um santo para ficar insensivel`as situacoes, espero
que me concedas isso ao menos."
Juseva "Oh filho, claro. Estamos entao entendidos. Va', anda dai'
que ja' esta'quase na hora de almocar. Estava a pensar
mandar vir uma cabeca de peixe para nos os tres, e jun-
tarmo-nos a Miri e companhia so'para o cafe'. Alinhas ?"
GI "Pois entao sera'assim... "
E la' foram para o carro. Bento olhou-os e, tranquilizado,
arrancou devagar, comentando a Natureza, combinando com Juseva o
almoco, e acabando por aceitar a proposta dela. GI sentia-se
cada vez mais, a mais ali. Mas que podia fazer ?
Acabaram por almocar, falando amistosamente todos de varios
assuntos, debatendo em particular a politica de saude do
Governo, a proposito da passagem de GI pelo hospital. Mais tarde
acabaram por ir ter ao tal restaurante, onde ja' haviam tambem
almocado. Para GI foi um alivio ver Marbe. Aquela ao menos era
certinha, e sabia-se o que esperar (-nada-), pelo que se sentia
de facto mais descansado ao pe' dela que de Juseva que podia
dar-lhe para tudo.
E a tarde passou-se igualmente assim, como pequenas ocorrencias
de um quotidiano, fazendo passar as horas de varias maneiras mas
sem produzir nada, feitas as contas ao fim do dia. Ja'em casa
estavam no mesmo ponto onde haviam largado a seguir ao pequeno-
-almoco. As mesmas duvidas, as mesmas conclusoes, e nenhum plano
do que fazer a seguir. No Domingo Juseva tinha um compromisso de
passagem de modelos e Miri Vibrante queria trabalhar no seu
projecto, de modo que depois do jantar, despediram-se e Bento
seguiu para sua casa, dando Vito e Marb boleia a GI para Lisboa.
Juseva havia prometido na Segunda-feira falar com um empresario
conhecido, dono de muitas lojas, em varios ramos, para ver se
encontrava emprego para GI, logo que estivesse bom da perna. GI
levava na carteira sete contos e quinhentos, para as despesas da
semana, duma colecta apos o jantar. Na semana seguinte iam
dar-lhe outro cheque com o valor da renda do mes seguinte.
Durante a viagem, tambem so'se conversaram banalidades. A perna,
a muleta, as modas, a saia da coleccao de Juseva, o novo
contrato da firma de ambos ( Vito e Marbe ) , a encomenda de um
carro novo para o fim do mes seguinte, para aumentar a
assistencia da firma aos seus clientes, os melhores filmes, o
caso do caozinho atropelado`a frente da loja de Marbe, etc
O certo e'que apesar de todas aquelas lembrancas da viagem a
Titan, Ratemazan, do convivio com Villiam, etc eles todos nada
podiam fazer. Nao era num aviao que podiam ir a Saturno, nao
podiam mandar uma carta, ou saber noticias de Saturno na tele-
visao. Estavam afastados das pessoas, e das realidades que
haviam conhecido, como naufragos deixados longe da civilizacao
em ilha primitiva distante de tudo. Compreendia que cada um
acabasse por evitar falar muito no assunto, que cada um se dedi-
casse mais `a sua propria vida, aos seus proprios desejos e
amores, ja'que lhes corria tudo tao bem. De facto, raciocinava
GI - eram ja'duas da manha - so'ele tinha razoes para pensar no
passado. Era o unico que nao estava a realizar-se. Ia provavel-
mente acabar a vender jornais num quiosque, ou como empregado de
uma papelaria, ou loja de pronto a vestir. Enfim... desde que
nao fosse andar de casa em casa a vender livros... podia ser
pior. Mas... nao se conformava. Nao agora que cada vez mais a
lembranca de Villiam, da sua maneira de ser, do jeito do seu
corpo, da amizade profunda que haviam sentido, enfim... nao se
conformava, e pronto. E voltou-se para o lado para procurar
adormecer. Nao conseguiu mais uma vez. O seu coracao repassava
os momentos mais profundos no jardim de Titan, em que se sentira
um com aquela maldita mulher, a sua mulher de pele azul.
Villiam...
E esse nome, pronunciado profunda, suave e sinceramente por GI
ganhou forma, ouviu-se no espaco`a volta da Terra, voou pelo
universo a fora, transmutou-se em algo mais que um pensamento,
ganhou asas de anjos e faiscou rumo a um ponto longinquo da
Galaxia.
Villiam estava a repousar de um dia extenuante no comando de uma
nave onde tinha a seu cargo vinte e tres pessoas, numa missao de
recolha de dados e amostras junto a um buraco negro, que
sorviria no seu interior, nas proximas horas, uma estrela de
grandes dimensoes. No seu gabinete privado, de comandante,
observava por um painel panoramico o buraco negro, um enorme
globo acinzentado, com uma espiral luminosa onde uma das pontas
se perdia para alem da fronteira das sub-particulas que rodeavam
por reaccao o buraco negro,e outra das pontas engrossando ate'`a
estrela de onde provinha, que passava por uma catastrofe,
estando a ficar alongada, segundo os instrumentos. E ouviu como
um sopro de outro mundo o seu nome. Vinha do coracao, vinha do
espaco, nao o do universo objectivo, de grau 5, mas do
subjectivo de grau S-2... viu Villiam no seu computador. Aquela
nave tinha a instrumentacao mais sofisticada que havia na civi-
lizacao Tangoriana. Para cada missao que fazia recebia chaves de
permissao proprias, mas tinha a possibilidade de acompanhar os
proprios pensamentos, de navegar por mundos paralelos, e visua-
lizar os recem descobertos mundos subjectivos, uma especie de
materia, e/ou espaco que ainda estava em investigacao.
Uns segundos mais... a ligacao estava a funcionar (nem sempre as
coisas funcionavam no espaco subjectivo) e Villiam analisou
aquilo que o coracao teimava em como que querer duvidar. Tinha
vindo de um braco exterior da Galaxia, de um sistema que era ja'
do conhecimento de Villiam... Helius-Vesta, planeta Terra. Oh...
GI... e de novo aquele calor, aquele fogo de espirito, aquele
reconhecimento de um irmao de sangue, do sangue da existencia,
nao do liquido azulado que lhe corria nas arterias e veias. Um
sentimento de reciprocidade emanou do comandante, de Villiam.
E GI, la'longe, ou melhor, aqui na Terra, na sua cama, sentiu
nitidamente que a sua voz encontrara um eco, uma resposta. Ai'
sim, sossegou, e adormeceu.
--- * ---
Tinha sido conhecimento de Juseva. Ela, Vito, Marbe e Bento
Biscaia continuavam de vento em popa, mais ricos, com ainda mais
sucesso, e perspectivas de maiores realizacoes no futuro. Juseva
havia encontrado uma boa equipe medica que lhe resolvera a
questao das falhas de memoria. Era de facto o inicio de um pro-
blema patologico e nao algo fora do normal. Algo que atraves de
medicamentacao muito especializada, fora resolvido gradualmente.
Continuava ali e aqui com os seus engates, seus negocios, e re-
comecara a estudar`a noite, e de dia, tendo em vista um exame
AdHoc, pois planeava tirar um curso de Sociologia e talvez de
Psicologia, nao tinha ainda a certeza. Ah! acabara por mudar
para a sua nova casa.
Vito, Marbe e Miri davam-se agora mais e haviam unido as duas
empresas numa unica, tendo varias encomendas de clientes nos
EUA, India e uma da China, que a resultar, seria algo grandioso.
Bento Biscaia, esse, por incrivel que pareca, acabara por casar.
E'verdade. E ainda por cima com uma saloia la'do Norte. Verdade
se diga que a mulher, virgem antes de o conhecer, era muito
bonita, com muita presenca, esperta, dez anos mais nova que ele.
Estavam agora em Lua de Mel por Espanha.
Os encontros de fim de semana, faziam-se agora de tres em tres
semanas, faltando GI ja'ha'algum tempo, bem como Juseva. A vida
de sucesso, ou a falta de vontade, havia conduzido a essa situa-
cao. GI continuava enamorado da sua Villiam, a qual dedicava por
vezes`a noite o seu sexo solitario, as suas festas. Mas estava a
ficar com pancada. Nada daquilo era a sua expectativa de vida.
Vamos encontrar GI a gozar a sua semana e meia de ferias, nao
pagas, a passear `a noite em Sesimbra, so'. Sentado na borda de
uma falesia junto a um vale. Com o seu saco-cama e a sua mochila
ao lado. Gostava de estar ali. Bastaria dar um salto e acabaria
tudo. Mas se aprendera alguma coisa durante todas estas aventu-
ras, e'que elas so'acontecem aos vivos, e o seu amor pela mulher
de pele azul tambem o prendiam`a vida.
Durante estes meses, Villiam abandonara o comando da nave. Havia
sido contactada discretamente pelo barao von Mask depois disso.
Estavam algo desgostosos de o grupo que os visitara ter no fim
acabado por de certa maneira se separar, mas do mal o menos.
Se a oportunidade passara de os festejar havia ainda algo ao seu
alcance.
Haviam pensado maduramente no caso e proposto a Villiam que
fosse viver para Ratemazan, com GI. Prometiam que fariam GI
viver muito mais do que lhe estaria destinado, e melhorar as
suas capacidades.
Nao seria uma vida de flores apenas, e teriam muito trabalho nos
varios projectos em curso, mas em termos pessoais em Ratemazan
evoluiriam muito. Eram de facto almas gemeas, e juntar duas era
coisa da sua especialidade. Ratemazan tinha as condicoes ideais,
para as excepcoes, em especial no seu interior.
Nos anos iniciais teriam previlegios.
Depois so' dependeria dos dois.
Villiam conseguiu entrar no planeta, e conjuntamente com o grupo
de von Mask, saiu de Ratemazan na nave recuperada. Uma nave
antiga mas muito avancada. O pior era ser enorme. Mas nao tinham
mais pequeno: uma meia lua de quinhentos metros de largo, por
cinquenta de alto e 350 de fundo. La'dentro cabiam quarenta mil
pessoas. Iam a caminho da Terra, invisiveis, com apenas onze
tripulantes. Em Ratemazan preparavam, sem Villiam saber, uma
festa de recepcao / "casamento" / boas-vindas para ela e GI. Iam
*finalmente* dar a tao desejada festa, no ainda possivel.
Das varias cidades e territorios subterraneos de Ratemazan,
assim como dos seus niveis supra-materiais, uma ou duas oitavas
acima varias dezenas de pessoas, algumas que conheceram Villiam
em outras vidas, bem como a GI, preparavam-se para acolher os
novos irmaos.
Chegaram a Ratemazan no meio de uma grande recepcao, uma semana
de viagem depois. GI e Villiam choraram de comocao, e Villiam
tinha um dominio grande sobre os seus sentimentos...
So'passado mes e meio deram por falta de GI. Tentaram loca-
liza-lo mas desta vez nem o pendulo ajudou. Ninguem conseguira
formular a questao certa, o que e'tao dificil como obter a res-
posta. Deram GI como desaparecido. Souberam por meio dos dois
unicos amigos de GI que ele tinha ido para a zona de Sesimbra.
Ainda se fizeram buscas na area, na esperanca de encontrar o
corpo mas nada. Ao fim de mais tres meses ja'GI era uma recorda-
cao, agradavel sem duvida, mas uma recordacao. Os seus antigos
companheiros de aventura viviam envolvidos pela vida, pelo
sucesso, e eram felizes assim como viviam.
GI e Villiam, no mundo paralelo R-1 de Ratemazan, a oito quilo-
metros abaixo da superficie gelada, viviam num territorio cheio
de jardins, amigos e alegria.
Fim.