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Uma curiosa entrevista de Alfredo Farinha....

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Pinto da Costa

unread,
Mar 23, 2008, 1:38:07 PM3/23/08
to
"Este Benfica não existe"

P | Mas escreveu em tempos: "Embora um homem marcado para toda a vida,
nunca fui um revoltado nem pessoal nem politicamente". E a verdade é
que, apesar desse retrato que fez do seu pai, e de se ter dado conta -
vou citá-lo - "do fosso intransponível que separa as duas condições -
a dos meninos ricos e a dos meninos pobres", bem pode dizer-se que é
um homem irremediavelmente de direita, ou acha que não?
R | Como sabe, recebi muito mais da vida do que aquilo que esperava
receber, porque casei com a mulher de quem gostei, tenho os filhos que
gostava de ter, tenho os netos que gostava de ter, vivo razoavelmente,
não tenho remorsos na minha consciência, nunca fiz mal a ninguém,
nunca traí nada nem ninguém, porque uma coisa com que não posso é com
traidores, por mais que haja com certeza muita gente que não gosta de
mim. Mas isso… Aliás, quero dizer-lhe que esses partidos que se dizem
da esquerda não me ensinaram nada. Tudo o que sei sobre o amor, sobre
o amor ao próximo, sobre o dever de lealdade, sobre o dever de
protecção aos fracos, sobre a justiça, sobre a liberdade, já o sabia
antes deles. Sabe qual foi a primeira coisa que Deus disse aos homens?
Crescei e multiplicai-vos, e se quereis ser felizes, sede livres! E
vêm depois o senhor Mário Soares e o senhor Álvaro Cunhal afirmar que
eles é que inventaram a liberdade?!!!


P | Com alguma ironia, disse uma vez: "Não consigo perceber por que é
que no dia 2, 3 de Maio de 1974 tanta gente n' "A Bola" se descobriu
comunista e socialista".
R | E ainda hoje não percebo! Sobretudo os comunistas. O Vítor Santos
comunista?!!! Minha Nossa Senhora! Só houve um que não me surpreendeu:
o Carlos Pinhão.


P | Tomemos agora o Portugal de hoje em comparação com o do seu tempo
de menino…
R | Atenção, que eu nunca fui menino! Mas é como comparar uma
esterqueira com um solar, um grande solar, embora com as casinhas dos
serventuários à volta, é claro… Actualmente as pessoas vivem bem, têm
a sua dose de pão, de carne, de peixe, de chouriço, de queijo, de
vinho. Digamos que somos um país remediado. Só que era o que faltava
que, 30 e tal anos após o 25 de Abril, um período em se gastaram
milhões e milhões, para não dizer biliões de contos, nós
continuássemos na mesma! Mas olhe, a Grécia estava atrás de nós e hoje
está à nossa frente. A Grécia, a Irlanda, a própria Espanha, etc.,
etc., etc. Pelo que me pergunto onde é que está o "milagre" português…
Dizem que o Salazar foi um ditador. E foi-o, sim senhor! Mas recebeu
essa ditadura das mãos dos militantes. E esses militantes tiveram ao
menos a honestidade de concluir que não sabiam governar. Ao passo que
os do 25 de Abril, quando se apanharam no poder, distribuíram-no entre
eles, eram todos ministros, sabiam de tudo, só não souberam foi
defender aquilo que tinham de defender.


P| As colónia! Bom, pode dizer-se que o Alfredo Farinha foi um
irremediavelmente salazarista…
R | Fui, não: sou! Todos os homens têm o bom e o mau na sua vida. E o
Salazar foi capaz de ter sido 50 por cento mau, mas foi 50 por cento
bom. E nesses 50 por cento está a honestidade. Para além de que foi um
estadista absolutamente inigualável.


P | Entretanto, apesar de todo esse percurso que descreveu, e de ter
sido perceptor, professor e, mais tarde, ter entrado para o Ministério
do Trabalho onde foi inspector, foi o futebol - que por vezes tanto
fustiga - que o tornou um homem irremediavelmente incomum, uma vez que
é considerado um dos melhores jornalistas desportivos que este país
produziu? Concorda?
R | Eu não tenho nada contra o futebol! Pelo contrário: faço uma
defesa intransigente do futebol. O que eu não quero é que esses
tarados pelo poder, tarados pelo dinheiro, tarados pela política que
se meteram no mundo da bola, desde os que estão no Apito Dourado a
outros que, se calhar ainda com mais culpas no cartório, estão de fora
do Apito, o que eu não quero - dizia - é que essa gente mande no
futebol. Como não quero que ela mande no país. O futebol, e o país,
têm de ser governados por gente séria, gente à maneira do Salazar no
domínio da honestidade.


P | E quanto ao seu Benfica?
R | Bom, quer que eu diga que sou benfiquista, e eu digo: sou
benfiquista, sou sim senhor! Por causa do ciclismo, do Nicolau, que
uma vez ganhou por meia roda ao Trindade. Se tivesse ganho o Trindade,
era do Sporting. Foi uma espécie de aposta.


P | E desde então, ei-lo irremediavelmente do clube da águia…
R | Mas, como analista da bola que é, qual a sua explicação para a
hegemonia do FC Porto nas últimas décadas?


P | Eu dava-lhe uma resposta muito dura, mas não dou. Não posso.
Porque depois as pessoas do Porto levavam a mal, e tinham razão.
O Benfica e o Sporting não têm culpas nenhumas no caso?
R | Ah, têm, e muitas! Este Benfica, por exemplo, não existe, desde
logo a partir dos altos cargos. Só que, se estes que lá estão são
maus, a gente pergunta-se: e quem é que há para substituí-los? É como
na política: eu não gosto do Sócrates, embora pense que ele, com as
setazinhas para cima, talvez pudesse ser um homem extraordinário…


P | Quer dizer: é melhor do que o Durão e o Santana Lopes?
R | Não tenha dúvida nenhuma! Se bem que, com o Santana, ele pudesse
fazer uma boa dupla.


P | Continua a ler "A Bola"?
R | Compro-a todos os dias. Mesmo sendo sócio. Mas como deixaram de
mandar-ma….


P | Mas há vinte anos dizia que "A Bola" já não era nada do que fora….
R | Pois não era.


P | E agora? Melhorou?
R | (ri) Não. Vou dizer-lhe uma coisa: uns escrevem bem mas não
percebem de bola, outros percebem de bola mas não escrevem bem. Para
não dizer outra coisa. E então agora puseram-se a inventar coisas como
losangos, diagonais, triângulos invertidos, transições, etc., etc.,
como se essas coisas, ditas com outros nomes, não existissem desde há
muito no futebol. Porque não é preciso inventar nada, muito menos
reinventar nada, nesta matéria. E o que se passa com "A Bola" passa-se
com os outros desportivos. Abundam todos nas mesmas águas: um faz uma
entrevista com um fulano, outro com outro fulano, e o terceiro com
outro ainda. E depois rodam, perguntando e dizendo banalidades,
banalidades, banalidades: Então está satisfeito porque ganhou? E
aquele golo, soube-lhe bem? Por amor de Deus!


P | E a Bíblia, lê?
R | Leio, leio


P | Em latim?
R | Não, não tenho nenhuma necessidade, tenho-a em português.


P | Mas é fluente em latim…
R | Ninguém é fluente em latim. E a verdade é que hoje os padres sabem
menos latim do que eu.


P | Missa em latim, portanto…
R | Sim. Por mais que reconheça que se calhar é melhor que não seja,
porque as pessoas não conhecem a língua. "Introibo ad altare Dei, qui
laetificat animam meam": quem entende frases como esta? Ninguém.


P | Que significam…
R | Subirei ao altar do Senhor, que alegra a minha alma.


P | Quando morrer, vai para o céu?
R | (pausa) Eu já lhe disse que era um homem de dúvidas, mas essa é
uma daquelas do tamanho do Universo. Não sou capaz de dizer para onde
vou. Mas de certeza que não vou para o inferno.


P | Preferia não morrer?
R | Morrer é a coisa pior que existe! É por isso que acredito na
eternidade.


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Pinto da Costa Dixe, e Dixe Mesmo!

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