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"Capitalismo de cassino" levará ao fim

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jneves

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Nov 19, 2000, 10:34:30 PM11/19/00
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Robert Kurz

"Capitalismo de cassino" levará ao fim

O fim do capitalismo está definido pela chamada terceira revolução
industrial - a revolução tecnológica, eletrônica.

O sociólogo e ensaísta alemão Robert Kurz, autor de Colapso da Modernização
e Livro Negro do Capitalismo, expõe algumas das teses da Teoria Crítica
Radical e chama de ilusório o crescimento sustentado pelo capital
especulativo. Para ele, trata-se de uma bolha cujo estouro levará à
derrocada final do capitalismo.

As previsões esperadas em torno do crescimento do capitalismo na última
década revelaram-se ilusórias. Foi um crescimento sustentado unicamente pela
contínua especulação. Uma bolha que, somente através da admissão de que esta
bolha é de fato uma bolha, já é um fator suficiente para que ela possa
estourar. E o estouro está próximo, abalando a sociedade capitalista até o
seu fundamento. A lógica desse colapso é narrada pelo sociólogo e ensaísta
alemão Robert Kurz. Há quase dez anos, Kurz publicou Colapso da
Modernização, no qual fez alguns prognósticos sobre o estado de coisas que
levará o capitalismo ao seu fim. Para ele, grande parte dos prognósticos ou
ocorreram (como a esperança ilusória no crescimento dos países do Sudeste
asiático) ou estão em curso (como o processo de declínio do sistema que,
segundo ele, começou com a bolha financeira do ``capitalismo de cassino'').
Em entrevista exclusiva ao O POVO, Robert Kurz fala desse processo, da
repercussão da Teoria Crítica Radical e de suas fragilidades. (Rodrigo de
Almeida)


O POVO - A Teoria Crítica Radical dirige sua crítica tanto ao capitalismo
quanto ao que o Grupo Krisis chama de marxismo tradicional. A tirar pela
reação em Fortaleza de suas palestras, os marxistas tradicionais estão tendo
uma reação mais violenta à teoria do que os próprios capitalistas. Qual a
sua avaliação sobre isso?
Robert Kurz - (ri) Isso não se passa somente em Fortaleza, mas em toda parte
onde a Teoria Crítica Radical está sendo discutida. Porque as instituições
capitalistas não se sentem ameaçadas por uma teoria. Os marxismos
tradicionais, quando dizemos que cometeram equívocos, que seu momento
histórico foi diferente, sentem-se agredidos, ameaçados em sua identidade.

OP - Em Colapso da Modernização o senhor traça algumas prognósticos para o
capitalismo. Alguns desses prognósticos, segundo o livro, seriam
concretizados num prazo de dez anos. Pela data do livro, 1991, algumas das
teses já deveriam estar acontecendo. O senhor revê hoje alguma posição
apresentada no livro? Mais: depois de anunciado por diversas vezes
anteriormente, a idéia do fim do capitalismo é defendida amplamente pelo
Grupo Krisis. O que o leva a crer que, desta vez, o capitalismo será de fato
enterrado?
Kurz - Eu não vejo razão porque rever alguns prognósticos. Muitos deles
estão em curso. Na verdade, todos. Após a queda do Muro de Berlim, não foi
possível integrar positivamente ao mercado os países do Leste da Europa.
Muitos liberais pensavam que, nos anos 90, iria se abrir um mercado muito
grande no Leste europeu. E isso não aconteceu. Em segundo lugar, os países
que serviriam como uma esperança ao capitalismo - os tigres asiáticos -
viveram grandes crises econômicas, o que demonstrou que as esperanças que se
tinha em torno do crescimento dos países do Sudeste - a ``Era do
Pacífico'' - eram muito exageradas. Os liberais imaginavam anos pacíficos na
região, o que não ocorreu. Isso prova que os conteúdos materiais esperados e
fantasiados para um novo boom centenário da economia real não puderam ser
demonstrados a contento.

OP - Mas os países centrais do capitalismo até agora não passaram por
grandes crises financeiras.
Kurz - Não, mas cresceu bastante a especulação financeira, sobretudo nos
últimos anos, formando um novo mercado. Surgiu o Nasdaq, ao lado do velho
conhecido Dow Jones, índice da Bolsa de Nova Iorque, reunindo companhias de
tecnologia e Internet. Num piscar de olhos, o Nasdaq desbancou seu irmão bem
mais velho. Muitas vezes são empresas com um punhado de funcionários que
capitalizam uma riqueza fabulosa em operações dúbias. Isso fez com que, em
muitos países e regiões do mundo, o sistema produtor de mercadorias entrasse
em colapso, com a capitalização através das bolsas do ``capitalismo de
cassino''. Trata-se de um crescimento ilusório, sustentado unicamente pela
contínua ascensão do curso das ações tanto no centro especulativo dos
Estados Unidos quanto no Sudeste asiático, na Europa e na América Latina.
Mas a admissão de que essa bolha é de fato uma bolha seria um fator
suficiente para que ela estourasse.

OP - Será o estouro dessa bomba que significará a derrocada final do
capitalismo?
Kurz - Essa bolha não poderá durar, e quando estourar abalará a sociedade
capitalista até o seu fundamento. Mas é um episódio dentro de um processo de
crises que vai durar por muito mais tempo. O fim do capitalismo está
definido pela chamada terceira revolução industrial - a revolução
tecnológica, eletrônica. Uma grande quantidade de força de trabalho é
expulsada da produção industrial, que não consegue reabsorver. Não há um
processo de compensação, mas um processo de expulsão contínua. A acumulação
de capital não é outra coisa que a transformação do trabalho em valor, do
trabalho em dinheiro. Por isso, a expulsão da força de trabalho nessa
quantidade, nessas dimensões, não encontra limites. Eis a causa de, hoje em
dia, as condições da economia real serem cada vez menores às condições do
capital fictício, da especulação.

OP - A concentração de riquezas continuará aumentando?
Kurz - Esse é um outro lado da crise. Quanto mais se acumula capital, maior
é o processo de concentração em função da existência de companhias cada vez
maiores. Na periferia do capitalismo, em países como o Brasil, há um
processo um pouco diferente. Os países periféricos não têm a capacidade, não
têm o capital necessário para investir em novas tecnologias de modo amplo.
Isso significa que eles caem em qualquer concorrência mundial.

OP - O senhor e outros representantes da Teoria Crítica Radical desenvolvem
uma crítica ao trabalho, assim como a outra categorias do capitalismo, como
dinheiro, democracia e Estado. As pessoas têm reagido mal a essa crítica.
Como pensar, por exemplo, uma sociedade sem democracia, sem dinheiro? O que
significa, de fato, essa superação?
Kurz - Significa a perspectiva de criar uma nova forma de sociabilidade, uma
nova forma de organização social que pode lidar racionalmente com o
potencial de riquezas que o capitalismo criou historicamente. É encontrar
uma sociabilidade que evite que esse potencial se converta em força
destrutiva, em vez de forças produtivas.

OP - Mas como seria essa nova sociabilidade?
Kurz - Uma sociabilidade em que as pessoas discutam, se comuniquem
diretamente sobre suas relações sociais, econômicas, de produção, todas sem
serem dominadas por um princípio abstrato. Estamos vivendo em uma sociedade
que passa por uma mediação cega. O problema com a democracia vem daí. A
sociedade pode discutir, pode participar, mas a base já está sempre
definida. A base fundamental é um processo cego. As discussões são travadas,
mas são alternativas postas sobre essa base já estabelecida. Antes de
qualquer decisão, como sujeitos capitalistas que somos, já nos situamos na
forma do capitalismo de concorrência. Essa sociabilidade viria para superar
esse processo destrutivo, catastrófico que estamos vivendo.

OP - Para tanto, é preciso uma mudança cultural de bastante intensidade.
Como é possível alcançar essa mudança, quando se tem por exemplo mídias de
massa completamente favoráveis às categorias do capitalismo?
Kurz - Tentou-se, no passado, criar-se uma contracultura. Seria necessário
repensá-la novamente, para analisar esse sistema criticamente. Também seria
a questão de criar uma mídia alternativa. Há um processo de assimilação
cultural muito profundo. Precisamos reaprender a discutir livremente esses
assuntos. Para isso, creio que seria necessário criar meios de comunicação
para tanto.

OP - Mas qualquer meio se fundamenta necessariamente no capital. Portanto,
se fundamenta na defesa de categorias capitalistas.
Kurz - Não é necessário superdimensionar esses meios. Por exemplo, a
Internet pode ser uma forma de comunicação alternativa para fazermos
discussões contrárias, em oposição ao capitalismo. Inclusive para organizar
formas de luta. Não são precisos meios grandes. Há outras possibilidades.

OP - Não há no pensamento do grupo Krisis uma ênfase excessiva à economia?
Os aspectos culturais não estão sendo esquecidos, assim como a saída prática
para esse enfrentarmos esse colapso?
Kurz - Esta é, talvez, uma debilidade, uma fraqueza da Teoria Crítica
Radical. Agora, teremos cada vez mais uma cultura economizada. A economia
está cada vez mais dominando todos os setores da sociedade, incluindo a
cultura. Por isso é importante analisar a forma com que a economia domina
esses setores. Não estamos, assim, reproduzindo categorias econômicas, mas
criticando esse processo real por que passa a sociedade. Quanto à prática, a
teoria não pode esboçar um programa concreto para oferecer aos movimentos
sociais.

OP - Embora satanizado, Karl Marx tem sempre ``renascido''. Por que tanta
fixação? Além disso, porque Marx desperta tanta paixão cega, formando, para
alguns, não uma teoria marxista mas uma ``teologia marxista''? Não há uma
mistificação excessiva ao pensamento de Marx, comprovada até mesmo pela
crítica que vocês receberam em Fortaleza por pensar uma renovação do
marxismo?
Kurz - Os movimentos de esquerda tomaram somente uma parte da teoria de
Marx. Um aspecto da teoria, que analisa o processo de modernização
capitalista. Enquanto isso, a crítica às categorias fundamentais do
capitalismo foram deixadas de lado. Há quase uma mistificação, como um
pensamento religioso, deixando de lado aspectos fundamentais de uma teoria.
Caso não se possa esboçar uma crítica radical das categorias capitalistas
será inevitável acabar se engajando na auto-administração da miséria. Sem
isso, a crítica social vira uma espécie de Buda, com o qual não é necessário
ver a contradição.

OP - Em entrevista recente à revista Carta Capital, o senhor disse que para
listar os crimes do capitalismo ocidental, nem cem volumes seriam
suficientes. Quais foram os crimes do capitalismo mais importantes, mais
severos com a sociedade capitalista?
Kurz - A palavra crime foi usada de uma forma metafórica (ri). O mais
preciso seria dizer que o capitalismo é uma sociedade que se desenvolveu em
um processo histórico por meio de catástrofes. Nunca houve, por exemplo,
tantas guerras concentradas num só período como na história da modernização
deste século. E nunca se viu o fato de tantas pessoas terem que viver na
miséria. Sem catástrofes naturais. Somente como resultado das organizações
sociais nas quais está fundado este sistema.
" O Povo" Fortaleza, 19 de Novembro 2000

http://planeta.clix.pt/obeco/

Faluja

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Mar 14, 2023, 5:29:51 AM3/14/23
to
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