Paciência
José Luis Peixoto
Estas são três histórias quotidianas a que assisti, ou que me contaram
com todos os pormenores, mesmo aqueles que escolhi omitir.
1. Pastelaria
Ele era mais velho. Tinha 64 anos e trabalhava naquela firma há mais
de trinta. Quando lá chegou, a firma eram os dois sócios e um barracão
vazio em Alcântara. No primeiro dia em que foi trabalhar, com um fato
de macaco que lhe durou mais de dez anos, descarregou o primeiro
camião de estores com a ajuda do condutor e dos dois patrões.
Ela entrou para a firma num dia em que seria já impossível imaginar os
patrões a descarregarem um camião. Nesse dia, ela tinha 32 anos, tinha
estado presente na sua própria cerimónia de divórcio no registo civil
havia pouco mais de três meses e entrou para substituir a secretária
de óculos e camisolões de malha que estava de baixa havia dois meses.
Passaram cinco anos sobre esse dia.
Ela sorria-lhe sempre que ele entrava no escritório para tratar de
guias de remessa ou, no fim do mês, para receber o cheque. Ela era a
única pessoa a quem ele sorria sempre.
Ele foi trabalhar pela última vez numa sexta-feira. No fim da hora de
almoço, entraram na pastelaria
a convite dela. Ele pediu um mil-folhas. Ela pediu um pastel de nata e
um galão.
Ele queria, mas tinha uma filha com mais dois anos do que ela e
lembrava-se de quando a filha era pequena, e dizia as primeiras
palavras, tão esperta, e ia para a escola com uma bata amarela, e
arranjou um namorado, e casou-se, e teve uma filha que cresceu também.
Ela queria, mas não conseguia esquecer-se de que era divorciada e
tinha medo de que ele tivesse a mesma opinião, que todos os outros
homens que trabalhavam com ele tinham, das mulheres divorciadas, com
filhos, sozinhas aos domingos. Por isso, ele comeu o mil-folhas em
cinco dentadas. Por isso, ela bebeu o galão, embrulhou o pastel de
nata em guardanapos e sorriu. Duas semanas depois, quando ele voltou,
com uma camisa passada a ferro, dizendo que ia visitar os antigos
colegas, mas apenas com vontade de vê-la, ela já não trabalhava lá.
2. Hotel
Ele era de Elvas. Dava aulas de inglês na escola secundária e havia
uma mesa no café onde passava sempre o fim de tarde a ler o jornal.
Quando havia questões de política, os outros homens incluíam-no sempre
porque ele prestava atenção aos debates na televisão, lia os jornais e
era professor.
Ela era da Noruega. Dava aulas de inglês num dos colégios particulares
de uma cidade a pouco mais de duzentos quilómetros de Oslo. Ela
conhecia bem a neve e a noite. Era loira, obviamente.
Enquanto falavam com outras pessoas, olharam-se por cima de um copo de
sumo amarelo num dos intervalos do congresso. Porque ele fez tudo para
que isso acontecesse e porque a sorte o ajudou, ficaram sentados ao
lado um do outro durante o jantar. Começaram uma conversa sobre a
comunicação dela.
Estavam hospedados no mesmo hotel da Praça de Espanha e continuaram a
conversar aí. Ele era bom a falar, rapidamente, apanhou pontos da
conversa para falar de outras coisas. Ele dizia piadas e ela, quando
entendia, ria-se com gosto.
As duas da manhã, eram os únicos no bar do hotel. O empregado
fixava-os com olhos cansados e aborrecidos. Ela propôs que fossem ao
quarto dela para que lhe mostrasse no ecrã do computador portátil
outra comunicação que tinha feito noutro congresso. Entraram no
elevador com as pastas debaixo do braço e com os alfinetes dos nomes
presos na lapela.
O quarto dela era igual ao quarto dele. Ela tirou os sapatos. Ele não.
Ela mostrou-lhe o texto da comunicação, os esquemas de quadrados e de
setas, leu-lha em voz alta, explicou-lha. Discutiram-na longamente. Às
cinco e meia da manhã, as palavras saíam-lhes mais arrastadas.
Ele queria, mas não sabia encontrar o lugar certo para dizer as
palavras que nunca tinha dito, e tudo o que poderia ter dito lhe
parecia demasiado explícito ou demasiado subtil porque não conseguia
acreditar que ela quisesse. Ela queria, mas pensava que ele falava de
tudo menos daquilo que ela queria, porque ele não queria aquilo que
ela queria.
Às seis e meia consideraram que, uma vez que ainda não tinham dormido,
podiam descer para tomar o pequeno-almoço. Decidiram não o fazer e, em
vez disso, ele voltou para o quarto dele e dormiu duas horas. Chegou
atrasado à sessão final do congresso. Ela já lá estava
Depois de almoço, despediram-se. Ele pensou apenas nisso quando
regressou para Elvas, conduzindo e ouvindo notícias na rádio. Ela
pensou apenas nisso quando regressou para a Noruega, fingindo que
dormia no avião.
3. Sala de espera
Ele tinha tido um acidente de motorizada. Distribuía pizzas havia três
meses. Nos trocos, tentava sempre enganar os clientes em um euro. Em
algumas vezes, conseguia. Quando não conseguia, pedia muitas desculpas
e dizia: tem toda a razão. Foi na rotunda do Marquês de Pombal.
Atravessou-se à frente de um autocarro. A motorizada foi directamente
para a sucata. Nesse fim de tarde, a rotunda inteira do Marquês de
Pombal ficou parada por causa dele. Segundo os serviços de trânsito
das rádios, a fila para a auto-estrada de Cascais sofreu um atraso de
quinze minutos por causa dele.
Ela magoou-se num pulso ao jogar matraquilhos na sala da associação de
estudantes da faculdade. Andou com o braço ligado durante seis semanas
e, quando lhe tiraram as ligaduras, ainda lhe doíae havia movimentos
que não conseguia fazer.
Foi na segunda vez que se encontraram na sala de espera da
fisioterapia que começaram a falar. Primeiro, a propósito das
marcações, depois do tempo, depois dos acidentes que sofreram. Ela
deixou cair uma revista e ele, como se não estivesse de muletas, como
se não tivesse de manter o joelho sempre direito, foi muito mais
rápido do que ela e apanhou-a.
Na terceira vez que se encontraram, sabiam o nome um do outro e
sabiam que era a última consulta dela. Eram os únicos na sala de
espera e ficaram sentados lado a lado. Em ocasiões, tocavam-se por
acaso com os cotovelos e, nesses instantes, disfarçadamente,
deslocavam toda a atenção para esse toque breve.
Ele queria, mas acreditava que podia esperar um pouco mais até dizer
qualquer palavra, mesmo uma meia palavra, que a levasse a perceber que
ele queria. Ela queria, mas acreditava que ele iria dizer que queria
e, se assim não fosse, ela podia esperar um pouco mais até dizer
qualquer palavra, mesmo uma meia palavra, que o levasse a perceber que
ela queria.
Quando chamaram o nome dele, ela tentou ajudá-lo a levantar-se, mas
não foi necessário porque ele levantou-se sozinho e sorriu antes de
entrar pela porta branca. Ela sorriu-lhe também porque ambos
acreditaram que, como das vezes anteriores, se voltariam a ver quando
acabasse a consulta dele. Mas passaram poucos minutos e chamaram o
nome dela. A fisioterapeuta perguntou-lhe se continuava a ter dores.
Ela respondeu que não. Perguntou-lhe se já conseguia movimentar bem o
pulso. Ela respondeu que sim.
Quando ela saiu, a sala de espera estava vazia. Foi-se embora,
acreditando que ele não tinha querido esperar por ela. Quando ele
saiu, a sala de espera estava vazia. Foi-se embora, acreditando que
ela não tinha querido esperar por ele