Eliana Guimarães (Psicóloga)
unread,Nov 7, 2008, 7:24:59 AM11/7/08Sign in to reply to author
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to Midiateca: Eliana Guimarães (Psicóloga)
O MAL-ESTAR DA CIVILIZAÇÃO
APRESENTAÇÃO
O presente relatório de leitura apresenta o registro dos principais
temas abordados por Freud, no texto O Mal-Estar da
Civilização(1930[1929]).
INTRODUÇÃO
‘Das Unglück in der Kultur’ (‘A Infelicidade na Civilização’) foi o
título original escolhido por Freud para sua obra, e intitulado na
presente versão brasileira de ‘O Mal-Estar da Civilização’. Esta obra
tem como tema principal - o antagonismo irremediável entre as
exigências do instinto e as restrições da civilização – e que parece
ter sua origem remontada a alguns dos seus mais antigos trabalhos
psicológicos, bem como, a noção apresentada por Freud, de haver uma
repressão orgânica que prepara o caminho para a civilização. Uma
grande parte desta obra interessa-se pela exploração e clarificação
ulteriores da natureza do sentimento de culpa, que por sua vez torna-
se o mais importante problema no desenvolvimento da civilização. E
como segundo tema, Freud aborda o instinto de destruição. Na seção 4
do segundo ensaio (obra Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade
-1905d), ele reconhece a independência dos impulsos agressivos: “pode-
se presumir que os impulsos de crueldade surgem de fontes que são, na
realidade, independentes da sexualidade, mas podem unir-se a ela num
estágio prematuro.” Foi somente após a hipótese por ele formulada de
um instinto de morte, que um instinto agressivo verdadeiramente
independente apareceu em Beyond the Pleasure Principle (1920g). A
interiorização do instinto agressivo é correspondente da
exteriorização da libido quando ela se transfere do ego para os
objetos, ou seja, toda a libido era dirigida para o interior e toda a
agressividade para o exterior, alterando-se gradativamente no decorrer
da vida. Portanto, a civilização é construída sobre uma renuncia ao
instinto.
UNIDADE I
Freud enuncia que é impossível fugir à impressão de que as pessoas
comumente empregam falsos padrões de avaliação, subestimando tudo
aquilo que verdadeiramente tem valor na vida. Ao formular qualquer
juízo deste tipo, corremos o risco de esquecer que o mundo humano e
sua vida mental são tão variados, e que devido às discrepâncias
existentes entre os pensamentos das pessoas e suas ações, e também a
diversidade de seus impulsos plenos de desejo, as coisas não são tão
simples. Freud declara a seu amigo Romain Rolland, que para ele a
religião é uma ilusão, apesar de Romain declarar que a verdadeira
fonte de religiosidade consiste num sentimento peculiar (sensação de
‘eternidade’), um sentimento ilimitado – sem fronteiras – “oceânico”.
A partir destas considerações, Freud propõe uma tentativa de descobrir
uma explicação psicanalítica para o sentimento oceânico. Para ele, não
há nada de que possamos estar mais certos do que do sentimento de
nosso eu, do nosso próprio ego. No sentido do exterior, o ego parece
manter linhas de demarcação bem nítidas, mas esta fronteira entre ego
e objeto, ameaça desaparecer no auge do sentimento de amor. Assim,
estas fronteiras não são permanentes. Um indivíduo aprende
gradativamente a distinguir o ego do mundo externo, reagindo a
diversos estímulos. Desse modo, o ego é contrastado por um objeto, sob
a forma de que algo existe exteriormente e que só é forçado a surgir
através de uma ação especial. Por meio de uma direção deliberada das
próprias atividades sensórias e de uma ação muscular apropriada, se
pode diferenciar entre o que é interno (pertencente ao ego) e o que é
externo (emanante do mundo externo). Este é o primeiro passo no
sentido da introdução do princípio da realidade. Nosso presente
sentimento do ego é apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito
mais inclusivo que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e
o mundo que o cerca. O conteúdo ideacional a ele apropriado seria
exatamente o de ilimitabilidade e o de um vínculo com o universo –
sentimento oceânico. No domínio da mente o elemento primitivo se
mostra tão comumente preservado. Nada do que uma vez se formou pode
perecer – o de que tudo é, de alguma maneira preservado, e que, em
circunstâncias apropriadas, pode ser trazido à luz. Freud faz uma
analogia utilizando a história da cidade de Roma Quadrata e a
atividade característica da vida psíquica, para argumentar que as
fases anteriores do desenvolvimento na vida mental, não desaparecem e
continuam a existir, mas comparando o passado de uma cidade com o
passado da mente, a priori é inapropriado. Só na mente é possível a
preservação de todas as etapas anteriores, ou seja, o passado é
preservado na vida mental. Freud afirma que o sentimento oceânico
existe em muitas pessoas e sua origem pode ser remontada a uma fase
primitiva do sentimento do ego. As necessidades religiosas são
derivadas, a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai, ou
seja, da proteção de um pai. O papel do sentimento oceânico que seria
o de buscar a restauração do narcisismo ilimitado é deslocado de um
lugar em primeiro plano. O conteúdo ideacional deste sentimento é a
unidade com o universo e soa como primeira tentativa de consolação
religiosa, uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece
a ameaçá-lo a partir do mundo externo (o mundo externo ameaça o ego).
UNIDADE II
Para Freud, o fato de que o individuo através do sistema de doutrinas
religiosas, espere ser compensado de qualquer frustração
experimentada, é patentemente infantil e estranho à realidade, e mais
humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas que não
podem deixar de perceber que essa religião é insustentável. E ainda
continua referindo-se a vida, como árdua demais para nós e de muitos
sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. Portanto, a fim de
suportá-la, recorremos a medidas paliativas, como: derivativos
poderosos que nos fazem extrair luz de nossa desgraça (atividade
científica, por exemplo); satisfações substitutiva, que a diminuem
(arte, por exemplo); e substâncias tóxicas (que alteram a química
nosso corpo) que nos tornam insensíveis a ela. Os homens esforçam-se
para obter felicidade, serem felizes e assim permanecer, mas isto
implica em dois aspectos: uma meta positiva e negativa. Por um lado, a
ausência de sofrimento e de desprazer, e por outro, à experiência de
intensos sentimentos de prazer. O que decide o propósito da vida é
simplesmente o programa do princípio do prazer. Este princípio domina
o funcionamento do aparelho psíquico desde o início, e todas as normas
do universo são-lhe contrárias. O que chamamos de felicidade provém da
satisfação (de preferência, imediata) de necessidades represadas em
alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma
manifestação episódica. Nossas possibilidades de felicidade sempre são
restringidas por nossa própria constituição. O sofrimento nos ameaça a
partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à
decadência e à dissolução; do mundo externo, que pode voltar-se contra
nós com forças de destruição esmagadora e impiedosa; e de nossos
relacionamentos com os outros homens. E este último, talvez nos seja o
mais penoso. Diante da pressão de todas essas possibilidades de
sofrimento, os homens se acostumaram a moderar suas reivindicações de
felicidade, pensando serem felizes pelo simples fato de terem escapado
à infelicidade ou sobrevivido ao sofrimento, e que, em geral, a tarefa
de evitar o sofrimento coloque a de obter prazer em segundo plano.
Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos, a
defesa imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância de
outras pessoas. A felicidade adquirida através deste método é a da
quietude. Há outro caminho melhor, outro método: o de tornar-se membro
da comunidade humana e com o auxílio de uma técnica orientada pela
ciência, passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade
humana. Todo sofrimento nada mais é do que sensação. Só o sentimos
como conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo está
regulado. O mais grosseiro desses métodos de influência é o químico: a
intoxicação. É fato que existem substâncias estranhas as quais, quando
presentes no sangue ou nos tecidos, provocam em nós diretamente,
sensações prazerosas, alterando nossas condições de sensibilidade,
tornando-nos incapazes de receber impulsos desagradáveis. A satisfação
do instinto equivale para nós à felicidade, também um grave sofrimento
surge em nós, caso o mundo externo nos deixe definhar, caso se recuse
a satisfazer nossas necessidades. Outra técnica para afastar o
sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido que nosso
aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta
flexibilidade, ou seja, reorientar os objetivos instintivos de maneira
que eludam a frustração do mundo externo, e para isto, conta-se com a
assistência da sublimação dos instintos (a alegria do artista em
criar, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir
verdades). E mesmo assim, o método não proporciona uma proteção
completa contra o sofrimento, e falha, quando a fonte do sofrimento é
o próprio corpo da pessoa. Á frente das satisfações obtidas através da
fantasia ergue-se a fruição das obras de arte, fruição que, por
intermédio do artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não
são criadores. A suave narcose a que a arte nos induz, não faz mais do
que ocasionar um afastamento passageiro das pressões das necessidades
vitais, não sendo suficientemente forte para nos levar a esquecer a
aflição real. Outra modalidade de vida é a que faz do amor o centro de
tudo, que busca toda satisfação em amar e ser amado. Uma das formas
através da qual o amor se manifesta – o amor sexual – nos proporcionou
nossa mais intensa experiência de uma transbordante sensação de prazer
fornecendo-nos assim um modelo para nossa busca de felicidade. O lado
fraco desta técnica de viver é que nunca nos achamos tão indefesos
contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente
infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor. A
felicidade na vida é predominantemente buscada na fruição da beleza,
onde quer que esta se apresente a nossos sentidos e a nosso julgamento
- a beleza das formas e a dos gestos humanos, a dos objetos naturais e
das paisagens e a das criações artísticas e mesmo científicas. O amor
da beleza parece um exemplo perfeito de um impulso inibido em sua
finalidade. Beleza e atração são, originalmente atributos do objeto
sexual. A felicidade constitui um problema da economia da libido do
indivíduo. O homem predominantemente erótico dará preferência aos seus
relacionamentos emocionais com outras pessoas; o narcisista que tende
a ser auto-suficiente buscará suas satisfações principais em seus
processos mentais internos; o homem de ação nunca abandonará o mundo
externo, onde pode testar sua força. Uma pessoa nascida com uma
constituição instintiva especialmente desfavorável e que não tenha
experimentado corretamente a transformação e redisposição de seus
componentes libidinais indispensáveis às realizações posteriores,
achará difícil obter felicidade em sua situação externa, em especial
se vier a se defrontar com tarefas de certa dificuldade. A está
pessoa, é lhe oferecida a fuga para a enfermidade neurótica, fuga
efetuada quando ainda é jovem. Outro indivíduo, que vê sua busca de
felicidade resultar em nada, pode ainda encontrar consolo no prazer
oriundo da intoxicação crônica, ou então se empenhar na desesperada
tentativa de rebelião que se observa na psicose. Para Freud, a
religião restringe esse jogo de escolha e adaptação, desde que impõe
de igual modo a todos o seu caminho para aquisição da felicidade e da
proteção contra o sofrimento. E isto, consiste em depreciar o valor da
vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira
que pressupõe uma intimidação da inteligência, forçando as pessoas a
um estado de infantilismo psicológico e a um delírio de massa. A
religião consegue poupá-las de uma neurose individual.
UNIDADE III
As três fontes de onde provêm nossos sofrimentos são: o poder superior
da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação
das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres
humanos na família, no Estado e na sociedade. O que chamamos de nossa
civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e
seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às
condições primitivas. No entanto, todas as coisas que buscamos a fim
de nos protegermos contra as ameaças oriundas das fontes de
sofrimento, fazem parte dessa mesma civilização. Freud argumenta que o
fundamento da estranha hostilidade para com a civilização, assumida
por tantas pessoas, consistiu numa longa e duradoura insatisfação com
o estado da civilização então existente, ocasionada por certos
acontecimentos históricos específicos, como por exemplo, a vitória do
cristianismo sobre as religiões pagas (intimamente relacionado a baixa
estima dada à vida terrena pela doutrina cristã); e o fato de que as
pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das neuroses, que ameaçam
solapar a pequena parcela de felicidade desfrutada pelos homens
civilizados (uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a
frustração que a sociedade lhe impõe, a serviço de seus ideais
culturais). Ainda outro fator, é que a humanidade efetuou um progresso
extraordinário nas ciências naturais e em sua aplicação técnica,
estabelecendo seu controle sobre a natureza, contudo, o poder
recentemente adquirido sobre o espaço e tempo, a subjugação das forças
da natureza, não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa que
poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes. O poder sobre a
natureza não constitui a única precondição da felicidade humana, assim
como não é o único objetivo do esforço cultural. Sempre tendemos a
considerar objetivamente a aflição das pessoas, mas esse método de
examinar as coisas que parece objetivo por ignorar as variações na
sensibilidade subjetiva, é o mais subjetivo possível, de uma vez que
coloca nossos próprios estados mentais no lugar de quaisquer outros. A
felicidade é algo essencialmente subjetivo. Freud afirma que a palavra
civilização descreve a soma integral das realizações e regulamentos
que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que
servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a
natureza e do de ajustar os seus relacionamentos mútuos. Ele argumenta
que apesar de todas as atividades culturais e recursos úteis aos
homens, considerados proveitosos para protegerem os homens contra a
violência das forças da natureza, para ampliar seus limites de
funcionamento, constituindo-se em materializações do poder que estes
possuem, e mesmo através da ciência e tecnologia, estas coisas soam
como conto de fadas, e constituem-se também numa realização efetiva de
todos os desejos de contos de fadas, e ainda que os homens aumentem
sua semelhança como Deus, estes não se sentem felizes neste papel.
Freud afirma que esperamos que a civilização valorize a beleza, além
disso, esperamos ver sinais de asseio e de ordem. A sujeira de
qualquer espécie nos parece incompatível com a civilização. A beleza,
a limpeza e a ordem ocupam posição especial entre as exigências da
civilização. O que parece caracterizar melhor a civilização é a sua
estima e seu incentivo, em relação às mais elevadas atividades mentais
do homem – suas realizações intelectuais, científicas e artísticas – e
o papel fundamental que atribui às idéias na vida humana. Entre essas
idéias, os sistemas religiosos, as especulações da filosofia e os
ideais do homem. O elemento de civilização entra em cena com a
primeira tentativa de regular os relacionamentos sociais. A vida
humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais
forte do que qualquer individuo isolado e que permanece unida contra
todos os indivíduos isolados. A substituição do poder do individuo
pelo poder de uma comunidade constituí o passo decisivo da
civilização. A primeira exigência da civilização, portanto, é a da
justiça, ou seja, a garantia de que uma lei, uma vez criada, não seja
violada em favor de um indivíduo. A liberdade do individuo não
constitui um dom da civilização. O desenvolvimento da civilização
impõe restrições a ela, e a justiça exige que ninguém fuja a essas
restrições. O impulso de liberdade, portanto, é dirigido contra s
formas e exigências específicas da civilização ou contra a civilização
em geral. O homem sempre defenderá sua reivindicação à liberdade
individual contra a vontade do grupo. A sublimação do instinto
constitui um aspecto particularmente evidente do desenvolvimento
cultural, é ela que torna possível as atividades psíquicas superiores,
científicas, artísticas ou ideológicas, o desempenho de um papel tão
importante na vida civilizada. É impossível desprezar o ponto até o
qual a civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto, o
quanto ela pressupõe exatamente a não-satisfação de instintos
poderosos.
UNIDADE IV
Para Freud, a formação de famílias deveu-se a o fato de ter ocorrido
um momento em que a necessidade de satisfação genital tornou-se
permanente. O macho adquiriu um motivo para conservar a fêmea junto de
si (seus objetos sexuais) e a fêmea não querendo separar-se de seus
filhos indefesos, viu-se obrigada a permanecer com o macho mais forte.
A vida comunitária dos seres humanos teve um duplo fundamento: a
compulsão para o trabalho e o poder do amor. A descoberta feita pelo
homem de que o amor sexual (genital) lhe proporcionava o protótipo de
toda a felicidade, fez com que este buscasse a satisfação da
felicidade em sua vida através das relações sexuais e que tornasse o
erotismo o ponto central dessa mesma vida. Desta forma, ele tornou-se
dependente de seu objeto amoroso escolhido, expondo-se a um sofrimento
extremo, caso fosse rejeitado por esse objeto ou o perdesse através da
infidelidade ou da morte. Uma pequena minoria de pessoas acha-se
capacitada, por sua constituição, a encontrar a felicidade no caminho
do amor. Essas pessoas se tornam independentes da aquiescência de seu
objeto, deslocando o que mais valorizam do ser amado para o amar;
protegem-se contra a perda do objeto, voltando seu amor, para todos os
homens, evitando as incertezas e as decepções do amor genital,
desviando-se de seus objetivos sexuais e transformando o instinto num
impulso com uma finalidade inibida. Uma das técnicas para realizar o
princípio do prazer foi vinculado à religião, essa vinculação pode
residir nas remotas regiões em que a distinção entre o ego e os
objetos, ou entre os próprios objetos, é desprezado. Essa disposição
para o amor universal pela humanidade e pelo mundo representa o ponto
mais alto que o homem pode alcançar, mas há duas objeções: um amor que
não discrimina parece privado de uma parte de seu próprio valor, por
fazer injustiça a seu objeto, e nem todos os homens são dignos de
amor. O amor que fundou a família continua a operar na civilização, em
sua forma original (satisfação sexual direta) e em sua forma
modificada (afeição inibida em sua finalidade), reunindo considerável
número de pessoas, mais do que através do interesse do trabalho em
comum. Freud faz uma distinção entre o amor genital (sentimentos entre
um homem e uma mulher, que conduz a formação de famílias) e o amor
inibido em sua finalidade ou afeição (sentimentos positivos existentes
entre pais e filhos, que definem as amizades, estas que são
importantes culturalmente, por fugirem a algumas limitações do amor
genital). Ambos estendem-se exteriormente à família e criam novos
vínculos com pessoas anteriormente estranhas. A relação do amor com a
civilização perde sua falta de ambigüidade, pois o amor se coloca em
oposição aos interesses da civilização, e esta ameaça o amor com
restrições substanciais. Essa incompatibilidade se expressa a
principio como um conflito entre a família e a comunidade maior a que
o individuo pertence. Quanto mais estreitamente os membros de uma
família estejam ligados, mais freqüentemente tendem a se afastar dos
outros e mais difícil é o ingresso destes no círculo mais amplo da
cidade. Separar-se da família torna-se uma tarefa com que todo o jovem
se defronta e a sociedade o auxilia nesta solução através dos ritos de
puberdade e de iniciação. As mulheres representam os interesses da
família e da vida sexual. O trabalho de civilização tornou-se cada vez
mais um assunto masculino, confrontado os homens com tarefas difíceis
e compelindo-os a executarem sublimações instintivas. A civilização
traz consigo, a proibição de uma escolha incestuosa de objeto (talvez
a mutilação mais drástica que a vida erótica do homem já
experimentou), e a estrutura econômica da sociedade influencia a
quantidade de liberdade sexual remanescente. Assim, a civilização esta
obedecendo às leis da necessidade econômica, já que uma grande
quantidade da energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins
tem de ser retirada da sexualidade. Portanto, uma comunidade cultural
acha-se, do ponto de vista psicológico, perfeitamente justificada em
proscrever as manifestações da vida sexual das crianças, uma vez que
os fundamentos para isso já estão lançados na infância. Quanto ao
individuo, sexualmente maduro, a escolha de um objeto restringe-se ao
sexo oposto, estando proibidas as satisfações extragenitais. A
exigência de que haja um tipo único de vida sexual para todos, não
leva em consideração as dessemelhanças, inatas ou adquiridas, na
constituição sexual do seres humanos. O próprio amor heterossexual que
permaneceu isento de proscrição, é restringido sob a forma da
insistência na legitimidade e na monogamia (só é permitido
relacionamento sexuais na base de um vínculo único e indissolúvel
entre um só homem e uma só mulher). Para Freud, apenas os fracos se
submeteram a uma usurpação tão ampla de sua liberdade sexual, e as
naturezas mais fortes só o fizeram através de uma condição
compensatória. A vida sexual do homem civilizado encontra-se
severamente prejudicada, talvez esteja em um processo de involução
enquanto função.
UNIDADE V
A civilização exige outros sacrifícios, além do da satisfação sexual.
A civilização visa unir entre si os membros da comunidade de maneira
libidinal, empregando todos os meios; favorece todos os caminhos pelos
quais identificações fortes possam ser estabelecidas entre os membros
da comunidade e convoca a libido inibida em sua finalidade, para
fortalecer o vinculo comunal através das relações de amizade. Para
isso, faz-se uma inevitável restrição à vida sexual. Para entender o
antagonismo à sexualidade, Freud faz um exame considerando a exigência
ideal da sociedade civilizada: “Amarás a teu próximo com a ti mesmo”.
Ele diz que se essa pessoa for um estranho para mim e não conseguir
atrair-me por um de seus próprios valores, ou por qualquer
significação que já possa ter adquirido para minha vida emocional, me
será muito difícil amá-la. Portanto, esse estranho possui mais direito
a minha hostilidade, e até mesmo meu ódio, do que meu o amor. Assim,
Freud continua “É precisamente porque teu próximo não é digno de amor,
mas pelo contrario, é teu inimigo, que deves amá-lo como a ti mesmo”,
além disso, os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas,
e que no máximo, podem defender-se quando atacadas; mas, são criaturas
com poderosa quota de agressividade. Por isso, o seu próximo é, não
apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém
que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar
sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem
o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-
lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. A existência da inclinação para
agressão constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o
nosso próximo e força a civilização a tão elevado dispêndio de
energia. Para estabelecer limites aos instintos agressivos do homem e
manter suas manifestações sobre controle, a civilização utiliza-se de
esforços supremos, como o emprego de métodos destinados a incitar as
pessoas a identificações e relacionamentos amorosos inibidos em sua
finalidade; a restrição à vida sexual e o mandamento ideal de amar ao
próximo como a si mesmo. O fato dos comunistas acreditarem que todo
homem é bom e bem disposto para com seu próximo, mas é a instituição
da propriedade privada que corrompeu a natureza de seu próximo, é
visto por Freud como uma ilusão, já que a agressividade não foi criada
pela propriedade, e que uma vez eliminados os direitos pessoais sobre
a riqueza material, ainda permanecem, no campo dos relacionamentos
sexuais, prerrogativas fadadas a se tornarem a fonte de mais intensa
antipatia e da mais violenta hostilidade entre homens, que sob outros
aspectos encontra-se em pé de igualdade. Não é fácil aos homens
abandonar a satisfação dessa inclinação para agressão, além disso, é
sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor,
enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de
sua agressividade. Assim, podemos compreender melhor porque é tão
difícil ser feliz nessa civilização, que impõe sacrifícios tão
grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua
agressividade.
UNIDADE VI
De todas as partes lentamente desenvolvidas da teoria analítica, a
teoria dos instintos foi a que mais penosa e cautelosamente progrediu.
Segundo Freud, os instintos visam preservar o individuo e se esforçam
na busca de objetos, e sua principal função é a preservação da
espécie. Os instintos do ego e os instintos objetais se confrontam
mutuamente. Um desses instintos objetais, o instinto sádico, destacou-
se do restante, pelo fato de o seu objeto estar muito longe de ser o
amar. A descoberta de que o ego se acha catexizado pela libido, de que
o ego constitui o reduto original dela, consistiu na introdução do
conceito de narcisismo. Essa libido narcisista se volta para os
objetos, tornando-se libido objetal, e podendo transformar-se
novamente em libido narcisista. O conceito de narcisismo possibilitou
a obtenção de uma compreensão analítica das neuroses traumáticas, de
várias das afecções fronteiriças às psicoses. Freud concluiu que ao
lado do instinto para preservar a substancia viva e para reuni-la em
unidades cada vez maiores, deveria haver outro instinto, contrário
àquele para dissolver essas unidades e conduzi-las de volta a seu
estado primevo e inorgânico (instinto de morte). A afirmação de um
instinto de morte ou de destruição deparou-se com resistências,
inclusive em círculos analíticos. O instinto de destruição, moderado e
domado, e, por assim dizer, inibido em sua finalidade, deve, quando
dirigido para objetos, proporcionar ao ego a satisfação de suas
necessidades vitais e o controle sobre a natureza. A inclinação para a
agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e
auto-subsistente, e é o maior impedimento à civilização. A civilização
constitui um processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar
indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças,
povos e nações numa única grande unidade, a humanidade. O instinto
agressivo é o derivado e o principal representante do instinto de
morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o
domínio do mundo.
UNIDADE VII
A agressividade é introjetada, internalizada e enviada de volta para o
lugar de onde proveio, isto é, dirigida no sentido de seu próprio ego.
Uma parte do ego a assume, e aí se coloca contra o resto do ego, como
superego, e então, sob a forma de ‘consciencia’, está pronta para por
em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria
gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele estranhos. A
tensão entre o severo superego e o ego, que a ele se acha sujeito, é
por nós chamada de sentimento de culpa, expressa-se como necessidade
de punição. Uma pessoa sente-se culpada quando fez algo que sabe ser
‘mau’, mas não apenas isso, mesmo quando a pessoa não fez realmente
uma coisa má, mas apenas identificou em si uma intenção de fazê-la,
ela pode encarar-se como culpada. O que é mau não é de modo algum o
que é prejudicial ou perigoso ao ego, mas, pode ser algo desejável
pelo ego e prazeroso para ele. Assim, mau é tudo aquilo que, com perda
do amor, nos faz sentir ameaçados. O sentimento de culpa é claramente,
apenas um medo da perda de amor, uma ansiedade ‘social’. Existem duas
origens do sentimento de culpa: uma surge do medo de uma autoridade, e
outra, posterior, que surge do medo do superego. A primeira insiste
numa renuncia às satisfações instintivas; a segunda, ao mesmo tempo em
que faz isso exige punição, de uma vez que a continuação dos desejos
proibidos ao pode ser escondida do superego. Renúncia ao instinto
constituía o resultado do medo de uma autoridade externa (renúncia da
própria satisfação para não perder o amor da autoridade). Quanto ao
medo do superego, a renúncia instintiva não bata, pois o desejo
persiste e não pode ser escondido do superego, assim ocorre um
sentimento de culpa. Uma ameaça de infelicidade externa foi permutada
por uma permanente infelicidade interna, pela tensão do sentimento de
culpa. Toda a renúncia ao instinto torna-se agora uma fonte dinâmica
de consciência, e cada nova renúncia aumenta a severidade e a
intolerância desta última.
Postado por Miriam Lopes às 16:39 0 comentários
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