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A EXPROPRIAÇÃO DA SAÚDE – NÊMESIS DA MEDICINA
Até que ponto as instituições contemporâneas, que deveriam ser geradoras
de saúde, são o principal obstáculo a ela ? Como nossa saúde, autonomia
e vida deixaram de nos pertencer, tornando-se reféns da “empresa
médica”? Essa “contra-produtividade paradoxal”, associada à perda de
direitos individuais, foi caracterizada de forma inovadora, em 1975 por
Ivan Illich em
“A Expropriação da Saúde - Nêmesis da Medicina”.
Uma denúncia fundamentada por aproximadamente 300 citações científicas
nos rodapés do livro, das consequências da hipertrofia da medicina, que
resulta em três níveis de iatrogênese (doença causada pelo médico):
clínica, social, estrutural.
Questionador,
Illich põe em dúvida os méritos dos
avanços da medicina ao afirmar que a morbidade não foi alterada mais
pelos médicos atuais, do que pelos sacerdotes e exorcistas. Independente
da ação profissional e dos cuidados médicos, 88 epidemias continuam
indo e vindo, diarréia e infecções de vias aéreas superiores ainda são
as principais causas de mortalidade nos países pobres. Os indicadores
favoráveis de morbi-mortalidade devem-se a fatores não médicos, como
melhorias na qualidade de vida, alimentação, habitação, saneamento,
trabalho, coesão social, cultura, etc.
Iatrogênese clínica, o primeiro dos três níveis, é representada pelos
danos nocivos aos pacientes submetidos a tratamentos que são inefetivos,
tóxicos e muitas vezes incorretos. Uma pesquisa do Departamento de
Saúde Pública Americano demonstrou que 7% dos pacientes internados
sofrem injúrias. Os hospitais universitários são os mais patogênicos:
20% dos hospitalizados contraem doença iatrogênica, desses, um em cada
30 evolui para êxito letal. Além disso, as infecções mais temidas por
gemes multirresistentes, são adquiridas dentro do hospital.
Iatrogênese social é fruto da dominação destrutiva sobre a sociedade e
medicalização da vida. São diversos os processos relacionados a este
tipo de iatrogênese, dentre eles:
dependência,
“etiquetagem”,
eliminação do “status” de saúde. A
dependência
do indivíduo é representada pela incapacidade de adaptar-se ao meio
social e perda do poder e vontade de ser autossuficiente, outorgando
esse direito aos profissionais de saúde. A
“etiquetagem”
iatrogênica decorre da medicação das faixas etárias e categorias
sociais, de forma que o leigo encara como natural que as pessoas
necessitem de cuidados médicos simplesmente porque são recém-nascidas,
crianças, adolescentes, adultas ou velhas. Como se não bastasse, além da
medicalização por idade, também é possível enquadrar as fases do
desenvolvimento humano. As mulheres são um bom exemplo, pois ao se
afirmarem socialmente no século XIX, adquiriram um corpo médico
exclusivo (os ginecologistas), submetendo-se a intervenções
profissionais pelo simples motivo de estarem na adolescência, período
fértil, grávidas, aleitando ou climatério. Uma outra forma de
iatrogênese social é a
eliminação do “status” de saúde, onde
qualquer desvio dos padrões de normalidade é definido como doença e
necessita de terapêutica. A saúde deixou de ser uma propriedade natural
de cada homem, para tornar-se um sonho inacessível. Mas há limites! Até
mesmo aqueles que não estão doentes, mas “exibem” probabilidade que uma
tal morbidade apareça, devem se submeter a intervenção médica para o bem
de sua saúde futura, ou seja, não é preciso estar doente para ser
paciente. A pior face desse absurdo é que as pessoas julgam-se
socialmente privilegiadas pelo “direito” de ser rotuladas como doentes,
submeter-se a exames, internações e intervenções
diagnóstico-terapêuticas.
Porém, dentre todos os tipos de iatrogênese destaca-se como a mais
deletéria a Iatrogênese Estrutural, que transforma experiências
essenciais da vida de cada ser humano (como a dor, as doenças e a
morte), em obstáculos ao bem-estar e obrigam cada um a consumir a
instituição médica, a qual vende a idéia de que estar bem significa
eliminar a dor, corrigir todas as anomalias, “curar” doenças e lutar
contra a morte. A redução do sofrimento á acompanhada pelo aumento da
dependência, o que subtrai do homem a capacidade em assumir a
responsabilidade por sua transformação; É preferível fugir à dor a
qualquer preço, do que lutar contra ela, mesmo que signifique abdicar da
liberdade e consciência.
Enfim, de forma polêmica e invectiva,
Illich retrata o
fracasso do nosso sistema de saúde, representado pela falência
administrativo-burocrática das instituições e exacerbada pelo
progressivo grau de dependência das pessoas, que cada vez mais
necessitam ser cuidadas. Mesmo após trinta anos da publicação de Nêmesis
da Medicina os problemas por ele explicitados persistem mais atuais do
que nunca, pois nesse período multiplicaram-se de forma geométrica o
número de doenças, diagnósticos, consensos e tratamentos...ou seja, a
etiquetagem
dos indivíduos. Além disso, a “extinção” do médico da família, que
conhecia intimamente cada um de seus pacientes, colaborou para o
afastamento dos profissionais de saúde de seus agora denominados
“clientes”, que são tratados segundo diretrizes e não mais segundo
necessidades individuais. No mundo moderno em que a onda de globalização
suscita a desumanização, esta é uma leitura obrigatória a todos os
profissionais de saúde, uma vez que amplia seus horizontes e permite
discernir que o ser humano não morre quando o eletrocardiograma está sem
sinal, mas quando o coração para de pulsar.
Rafael Borsoi – Médico.
http://www.flip3d.com.br/web/pub/crmpr/index4/index.jsp?ipg=1522
Revista Iátrico, n.16, jan-mar. 2006, Pág. 16- CRM-PR, Curitiba-Pr