Isso me faz lembrar de um conto que li há algum tempo atrás, que falava sobre um homem que estava a caminho do paraíso e, durante o trajeto, ele encontrou um sanyasin que estava fazendo o seu sadhana. O sanyasin vendo que o homem estava indo ao paraíso, pediu para ele fazer uma pergunta a Deus: “Quanto tempo mais eu preciso para me realizar?” Na sequência do caminho, havia um jovem dançando embaixo de uma árvore. Ele irradiava tanta beleza e presença, que encantou o homem que estava a caminho do paraíso. Mesmo que o jovem não tivesse lhe pedindo absolutamente nada, o homem pensou: “Eu também vou perguntar a Deus, quanto tempo ele precisa para se realizar”. O homem chegou ao paraíso e fez o que tinha que fazer e voltou. Ele encontrou o sanyasin fazendo seu sadhana e disse a ele: Deus disse que você vai precisar de mais três vidas para se realizar. O sanyasin ficou completamente revoltado. Jogou fora o mala. Chutou as coisas que estavam perto dele, dizendo que não queria mais saber de Deus, sadhana, caminho espiritual... “Eu estou aqui a minha vida toda, completamente dedicado e ainda vou precisar de mais três vidas para me realizar? Isso é muito injusto!” O homem caminhou em direção ao jovem que continuava dançando e pensou se falava ou não para ele, pois, depois da reação do sanyasin, ele estava preocupado, mas resolveu falar assim mesmo: “Você não me perguntou, mas eu quis perguntar por você. Eu fui a Deus e perguntei quanto tempo mais você precisa para se liberar. Ele falou que você vai precisar renascer tantas vidas, quanto as folhas dessa arvore sob a qual você está dançando”. Nesse momento, o jovem dançou com mais intensidade, presença e entrega. E então, ele se liberou naquele exato momento.
Essa história me tocou porque expressa com muita objetividade as consequências da avidez. A pessoa ávida quer assaltar o céu, com a intenção de anestesiar as dores que carrega. Essa dor é que desvia a entidade humana em evolução do caminho do coração. Não importa qual seja a área ou o foco: realização espiritual, acumular riquezas, ou, ter um relacionamento saudável.
Não há nada errado com essas metas. A questão é quem em você se move em direção a elas. Por que e para quê?
Se você age a partir da sua carência e do medo da escassez, você vai querer pegar as coisas e ser o dono delas. Não haverá tranquilidade de simplesmente receber aquilo que a existência tem para lhe dar naquele momento. E, nesse ponto, muitas vezes, ocorre uma confusão: Você acredita que tem que cruzar os braços e esperar que as coisas venham até você.
Então, eu dou uma dica realmente valiosa, para você que está nesse processo de cura: vá atrás das vergonhas que você carrega. A vergonha está indicando que existe condicionamento. Ela indica que existe identificação com algum aspecto que ainda não foi aceito. Ainda há dor e você precisa reagir para se proteger. Você ainda precisa usar uma máscara para se proteger. Você precisa fingir que é algo para se proteger. Se você se protege acumulando riquezas ou acreditando que é um professor espiritual, não faz muita diferença.
Se você está realmente querendo começar uma vida nova; se está querendo ingressar nessa nova era, ou seja, se você está querendo de fato trilhar o caminho do coração, permita-se tomar consciência das suas negações. Permita-se tomar consciência das vergonhas que ainda carrega, para assim, identificar os pontos que ainda precisa negar, e que fizeram com que você construísse uma vida artificial.
É por isso, que eu faço a relação dessa nova fase, com o ciclo da verdade. É uma disposição para ser um canal da verdade. Inclusive as verdades pouco lisonjeiras a seu respeito. Por exemplo, a pessoa tem vergonha do corpo dela e se acha feia. Mas, ela ainda não teve condições de olhar para isso. Ela nega as humilhações que passou por conta disso. Ela nega a dor que passou, e começa a acreditar que é bonita; começa a criar uma artificialidade para provar para o mundo que ela é bonita.
Quando uma pessoa assim vem até mim, a primeira coisa que eu faço é pegar um espelho. Você não tem espelho na sua casa? Olhe para a sua feiúra. Você é feio e daí? Quando a pessoa começa a aceitar a feiúra, naturalmente uma beleza começa a surgir. Uma beleza natural, que não tem nada a ver com as convenções. De acordo com as convenções ela pode ser um horror, mas ela irradia uma beleza que encanta a qualquer um.
Então, eu sinto que estamos nessa trilha da verdade.
A gente começa esse alinhamento com a verdade, tendo a disposição de encarar e aceitar as nossas imperfeições; tendo a humildade de aceitar que há imperfeições, sem querer estar acima delas. E, naturalmente, essa aceitação vai abrindo espaço para a verdade do Eu superior; do Eu divino se manifestar. Por isso, alguns já disseram que o primeiro vislumbre de Deus é uma grande escuridão. Esse movimento em direção à verdade passa por essa fase de encarar as imperfeições. Isso não é fácil e gera alguns desconfortos. Quanto mais você se nega a aceitar, maior o desconforto. Quanto mais você vai tendo a humildade de aceitar, mais você vai se abrindo para a verdade do Eu divino, em toda a sua glória, beleza e resplendor.
O autoconhecimento é a base. “Conheça a ti mesmo e assim conhecerás o universo”; “Aquilo que não está aqui, não está em lugar algum”; “Somos um microcosmo, tudo está dento de você... Todos os universos”; “Assim como é em cima, é embaixo”. São máximas que foram ditas por homens sábios, ao encontrarem com a verdade, há muito tempo atrás. Essas frases me perseguiram durante toda a minha vida. Seu corpo é o laboratório alquímico, onde você realiza os experimentos para encontrar a verdade. Seu corpo é como a Terra. Essa é a base do Jñana Yoga.
Você reconhece o que não é você e abre mão até que a verdadeira realidade se manifesta. Essa é a essência do meu trabalho. Mas, eu faço de um jeito um pouco diferente daquilo que está escrito nos livros, porque eu sigo o coração; a espontaneidade. Chega um momento, em que você tem que largar os livros, e ler o livro da vida, aprender com o rio correndo; com o vento balançando as folhas das árvores. A vida é a expressão mais perfeita do Guru.