A proposta do Coletivo Por que Cantamos? é denunciar em âmbito internacional a violência institucionalizada contra manifestantes no Brasil e debater a criminalização de movimentos sociais, solidarizando-se com suas lutas. O grupo nasceu da inquietação de pesquisadores e estudantes vivendo na França, diante da violência policial contra a população manifestante. A primeira ação do grupo, fruto de reuniões e atividades, foi a produção coletiva do manifesto: “A Fragilidade da Democracia no Brasil”, conforme abaixo. Agradecemos pela ampla divulgação.
L’idée du collectif Pourquoi chanter? est de dénoncer sur la
scène internationale la violence institutionnalisée contre des
manifestants au Brésil, discuter la criminalisation des mouvements
sociaux, tout en se solidarisant avec leurs luttes. Le groupe est né de
l’inquiétude de chercheurs et étudiants, résidant en France, face à la
violence policière contre la population manifestante. La première action
du groupe, résultat de plusieurs réunions, a été la production
collective de ce manifeste.
http://www.autresbresils.net/communiques/article/la-fragilite-de-la-democratie-au
Fragilidade da democracia no Brasil
Manifesto contra a violência e a repressão policial
A violência policial contra os protestos que vêm ocorrendo no Brasil, desde junho de 2013, deixa claro os limites da democracia no país e expõe as restrições à liberdade de reivindicação por direitos. Sob a recorrente justificativa de manutenção da ordem pública, a lógica de guerra da repressão confunde todo manifestante com um inimigo e criminaliza os movimentos sociais. Vinculados a interesses econômicos privados, os governos dos Estados, que comandam a polícia, criam choques de interesses e geram crise de legitimidade, resolvida pela imposição da força.
Apesar de o país figurar entre as principais potências econômicas em escala mundial, ocupando a expressiva sexta posição, as manifestações revelam outra faceta da sociedade brasileira. A pluralidade de vozes nas ruas impõe o desejo de reconhecimento de uma realidade para além do “país da Copa do Mundo e das Olimpíadas”.
A onda de violência que tomou conta do país desde o início dos protestos contrasta com as interpretações reducionistas veiculadas pelos grandes meios de comunicação. Durante muito tempo, a invasão de policiais às casas de moradores de favelas, com prisão e morte, tem ficado na invisibilidade, justificada pela narrativa de repressão ao tráfico de drogas. Negar essa cultura da violência institucionalizada - após a repressão policial às manifestações, que rotineiramente tem ferido trabalhadores, estudantes e, mais recentemente, professores - tornou-se insustentável.
A sociedade não pode aceitar os abusos de autoridade promovidos pelas forças policiais no país e nem compactuar com um Estado repressivo, considerando as tristes lembranças de um tempo de retrocesso.
Manifestamos total apoio à efervescência transformadora vivida nas ruas de cidades de todas as regiões do Brasil. Apoiamos os professores e sua causa, não apenas por representarem uma categoria de trabalhadores no exercício de seus direitos, mas também por simbolizarem o contexto maior de um país que busca construir uma democracia de fato e uma sociedade mais igualitária e digna.
Queremos chamar a atenção das organizações internacionais de direitos humanos e da comunidade internacional para a luta contra a violência e as desigualdades no Brasil, sombreadas pela imagem do “país do futebol”. Denunciamos, assim, para além das fronteiras de nosso país, a histórica violência dos aparatos de segurança contra as populações pobres e minoritárias no Brasil, com práticas de extermínio no campo e nas cidades.
Por essas razões, repudiamos a forma como os diferentes níveis de governo no Brasil têm endossado as ações policiais de repressão à população manifestante. Defendemos com vigor que seja colocada em debate a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 51[1] que prevê a desmilitarização das forças de polícia no Brasil (ressaltando o grande atraso do país nesse aspecto, como já destacou a Organização das Nações Unidas)[2]. Assumimos o compromisso de levar adiante as ações de apoio a esse debate, colocando-o em pauta nos ambientes (acadêmicos e não-acadêmicos) de estudo, trabalho e pesquisa na França.
Assinam:
Coletivo Por que Cantamos?
Pesquisadores(as) e estudantes reunidos(as) na França – Paris 2013
Apoiam o manifesto:
APEB.fr - Associação dos Pesquisadores e Estudantes Brasileiros na França
Argus Romero Abreu de Morais – Linguística – UFMG (doutorado)
Thiago Fortes Ribas – Filosofia UFPR (doutorado)
Indayara Bertoldi Martins – Pós-doutoranda Engenharia Elétrica
Caroline Mendonça A. Paixão – Física Programa Docência E. Superior
Wanderley Vitorino da Silva Filho – Doutorando UFBA / PPGEFHC
Eduardo Hoefel – Pós-doutorando matemática UFPR
Mariana Cabral Tomzhinsky Scarpa – Filosofia UFPR (doutorado)
Sheyla Castro Diniz – Unicamp/ USQV (doutorado)
Douglas Ochiai Padilha – Sociologia UFPR (doutorado)
Daniel Pereira Andrade – FGV-SP / Paris Ouest Nanterre
Gracielle Ferreira Andrade – Ciências Farmacêuticas (UFMG)
Patrícia Feitosa Souza – professora
Nicolas Tamasauskas – jornalista
Fábio José Santos de Oliveira – Teoria Literária USP / Paris 8
Fernando Henrique Martins da Silva
Sabira de Alencar Czernak – Doutorado psicologia clínica PUC/Rio de Janeiro / Paris V
Rodrigo Alvarenga – UFSC/Panthéon Sorbonne
Zilda Martins – Doutorado Comunicação UFRJ
Gisélia Castro Silva – Pós-doutorando UFBA
[1] Portal Atividade Legislativa – Senado Federal: http://www.senado.gov.br/atividade/materia / detalhes.asp?p_cod_mate=114516
[2] “Gestão da Segurança pública do Distrito Federal e Entorno”: Estudo do Escritório das Nações Unidas sobre crimes e drogas – UNODC. https://www.unodc.org/documents/lpo-brazil//noticias/2011/09-setembro/Diagnostico_Gestao_e_Governanca.pdf