A verdadeira verdade sobre Antônio
Carlos Brasileiro de Almeida Jobim haverá de ser
exata quando, ao relatar o anseio original do
carioca da Tijuca-de-Ipanema, em vez de lembrar
que ele queria ser um arquiteto, afirmar que ele
foi o mais brilhante arquiteto das harmonias e
melodias brasileiras. Tom Jobim, que chegou a
cursar a Faculdade de Arquitetura propriamente
dita, edificou o que veio a ser chamado Música
Popular Brasileira, termo vago e generalizante
como todo rótulo, mais impreciso quando engloba
a obra de um gênio que se notabilizou por
descrever em sons o que nem as palavras alcançam
- a montanha, o Sol, o mar e outras maravilhas
da arquitetura divina.
Compositor, maestro, pianista, cantor,
arranjador e violonista com participação em mais
de 50 discos, ele nasceu em 25 de janeiro de
1927, na Cidade Maravilhosa que tanto descreveu,
e morreu em 8 de dezembro de 1994, na Nova York
que mordiscou a contragosto, para onde foi
porque sua música tinha horizontes tão
universais que se tornou indispensável
amplificá-la no centro do furacão
mundial.
Apesar de um dia ter afirmado que "fazer
sucesso no Brasil é ofensa pessoal", por conta
das críticas locais ao refinamento de sua obra,
igualmente taxada de americanizada, Tom nunca
deixou de pensar em feijoada e caipirinha
enquanto os donos do mundo lhe serviam champanhe
e caviar e dançavam um som que nem era para
dançar. Feito um "Garrincha de fraque", Tom
encarava o mais suntuoso teatro gringo como se
fosse um inferninho do Beco das Garrafas, onde
tocou pra ganhar uns trocados, no início dos
anos 50. Acabou concedendo um típico chiado da
Guanabara às idiossincrasias do
jazz.
Aluno de Hans-Joachim Koellreutter e
discípulo de Villa-Lobos e Debussy, arranjador
da gravadora Continental, por onde lançou o
primeiro sucesso, "Tereza da Praia"
(1954), compositor das músicas da peça Orfeu
da Conceição (em 1956, com letras de
Vinicius de Moraes), Tom concebeu a trilha
sonora da Pasárgada brasileira, o país futurista
idealizado por JK e traçado por Oscar Niemeyer,
o campeão mundial de futebol de 1958 que, movido
por craques que subvertiam a lógica cartesiana
dos joõesdas- canelas-brancas, se assemelhava ao
genial João de Juazeiro (Gilberto do Prado
Pereira de Oliveira), o craque que driblou a
batida do samba para construir a bossa
nova.
João Gilberto tocou violão no LP Canção
do Amor Demais (1958), de Elizeth Cardoso; Tom
Jobim forneceu as melodias e harmonias para este
que foi o marco da bossa. João gravou "Chega de
Saudade", em 1959; Tom fez os arranjos. E compôs
"Garota de Ipanema", "Samba do Avião", "Só Danço
Samba", "Ela É Carioca", "Insensatez", "Wave",
"Águas de Março", "Retrato em Branco e Preto",
"Eu Sei que Vou Te Amar" e outra dezena de
canções que carregam nos espaços silenciosos
entre as vogais e as consoantes o mais sublime
lirismo e o mais discreto suingue da música
popular brasileira.