A
RCA, sediada em São Paulo, contratou Caetano,
Bethânia, Gil, Maria da Graça e Tom Zé para
gravarem compactos lançados simultaneamente em
1965. Maria Bethânia foi a primeira a gravar um
LP, na época em que todos estrelavam o musical
“Arena canta Bahia”, dirigido por Augusto Boal
no TBC. O primeiro compacto de Caetano Veloso
trouxe as faixas “Cavaleiro” e “Samba em Paz” e,
em 1966, enquanto Bethânia gravava um novo álbum
em dupla com Edu Lobo, o produtor João Araújo
resolveu contratar Caetano para gravar um LP com
Maria da Graça – batizada artisticamente Gal
Costa pelo empresário Guilherme Araújo. Com
arranjos de Dori Caymmi, filho de Dorival, o
álbum “Domingo”, lançado no primeiro semestre de
1967, era um mergulho de Caetano e Gal na bossa
nova que tanto amavam. “Coração Vagabundo”, de
Caetano, foi o grande sucesso do disco e, com
sua pegada romântica, chegou a tangenciar a
popularidade da turma da Jovem Guarda no final
de sua era, às vésperas do boom da era dos
festivais da MPB e do Tropicalismo. Mas “Um
Dia”, também do repertório, já tinha feito
história: inscrita no II Festival de MPB, da TV
Record de São Paulo, conquistara prêmio de
melhor letra.
Para
o III Festival da MPB, realizado pela TV Record
no segundo semestre de 1967, Caetano Veloso
compôs e gravou em compacto “Alegria, Alegria”,
com acompanhamento da banda de iê iê iê
argentino The Beat Boys. Quando, em outubro,
Caetano ficou em quarto lugar com a música no
festival, e Gilberto Gil ficou em segundo com
“Domingo no Parque”, gravada com os Mutantes,
ambas canções apresentadas com o acompanhamento
de guitarras elétricas, reza a lenda que nasceu
o Tropicalismo. “Eu tinha gravado um LP com Gal,
mas já tinha feito um compacto na RCA. Foi no
mesmo ano, na contracapa do LP ‘Domingo’ eu já
dizia que queria fazer algo diferente... e esse
primeiro álbum já era o tal negócio diferente,
por causa da canção Tropicália. O título surgiu
porque o Luiz Carlos Barreto tinha visto uma
exposição e achou que minha música tinha a ver
com uma obra de Hélio Oiticica, insistiu muito,
então eu topei e o pessoal da produção gostou.
Eu acabei conhecendo o Oiticica, ele aprovou
tudo que a gente estava fazendo e aí ficou o
título, que virou apelido para tudo aquilo que
se chamou de movimento”, lembra Caetano. Naquele
final de 1967, Caetano teve então a oportunidade
de entrar em estúdio para preparar seu primeiro
LP solo. Verdadeira obra prima, considerado pela
revista “Rolling Stone” o 37º melhor LP
brasileiro, aquele primeiro trabalho individual
do cantor e compositor baiano, há pouco mais de
dois anos morando no Sudeste, traria arranjos
assinados por Julio Medaglia, Damiano Cozzella e
Sandino Hohagen, num ecletismo bem embasado pela
“antropofagia” tão característica da Tropicália
que chegava aos poucos e logo tomaria o país de
assalto. Rock, pop, bossa nova, psicodelia,
pitadas indianas inspiradas no “Sgt. Pepper” dos
Beatles, tudo estava ali, no repertório original
de Caetano. Há saudade da Bahia (No Dia Em Que
Vim-Me Embora”), e saudações ao Rio
(“Superbacana”, “Onde Andarás”).
REPERTÓRIO:
01. TROPICÁLIA
02. CLARICE
03. NO DIA QUE EU VIM-ME
EMBORA
04. ALEGRIA,
ALEGRIA
05. ONDE
ANDARÁS
06. ANUNCIAÇÃO
07.
SUPERBACANA
08. PAISAGEM ÚTIL
09. CLARA
CAETANO E GAL
10. SOY LOCO POR TI,
AMÉRICA
11. AVE-MARIA
12.
ELES
ONDE
ANDARÁS (Caetano Veloso / Ferreira
Gullar)
Onde
andarás nesta tarde vazia
Tão clara e sem
fim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em
que bar, em que cinema te esqueces de
mim?
Enquanto o mar bate azul em
Ipanema
Em que bar, em que cinema te
esqueces...
Eu sei, meu endereço apagaste do
teu coração
A cigarra do apartamento
O
chão de cimento existem em vão
Não serve pra
nada a escada, o elevador
Já não serve pra
nada a janela
A cortina amarela, perdi meu
amor
E é por isso que eu saio pra rua
Sem
saber pra quê
Na esperança talvez que o
acaso
Por mero descaso me leve a você
Na
esperança talvez que o acaso
Por mero
descaso
Me leve... eu
sei