Assine o Blog do Filósofo. Vá até: http://ghiraldelli.pro.br
Slutwalk – pelo direito de ser sexy!
15/05/2011É difícil eliminar as palavras “puta” e “vadia” de nosso vocabulário. Aliás, nem creio que seria útil tentar algo assim. Penso que o caminho para lidar com os problemas que tais palavras acarretam é exatamente este posto na pauta do dia pelas moças do Slutwalk.
Tanto quanto no passado, ainda hoje as palavras “puta” e “vadia” (e suas possíveis correspondentes em outras línguas) abrem espaço para a violência. Uma vez com esse nome, a mulher recebe também um passaporte para o inferno. Em qualquer lugar que ela esteja, sua segurança está ameaçada. Uma vez casada, a ameaça é ampliada – pois aí o homem que vai violentá-la nem precisa pular a janela ou arrombar a porta, ele já está dentro de casa. As moças do Slutwalker estão se multiplicando. Formam as passeatas daquelas que sofreram violência relacionada ao sexo e que rapidamente passaram de vítimas a culpadas exatamente à medida que efetivamente ganharam o adjetivo de “puta” ou “vadia”. Mas não só! Uma boa parte dessas moças foi estuprada e não chegou a receber tais adjetivos de outros; elas mesmas, ao pensarem duas vezes ou ao ouvirem amigas, resolveram ficar silenciosas, exatamente porque acreditaram – com boa razão para tal – que iriam ganhar tais adjetivos e, então, seriam legalmente derrotadas em qualquer tribunal.
Um belo decote ou um gostoso copo de cerveja são os elementos que podem fazer a mulher, uma vez estuprada, ser associada aos nomes “puta” e “vadia”; e eis que estes se apresentam, então, como elementos chaves para se achar o culpado num episódio de estupro: a vítima. Sabemos bem que nossa sociedade considera o estupro como “crime hediondo”, mas que mesmo quando em luta contra os Talibans e Bin Ladens da vida do outro lado do mundo, uma vez “de volta à civilização”, não deixa de fazer da vítima uma espécie de culpada – direta ou indiretamente.
Como penso que não é uma atitude interessante tentarmos eliminar palavras de uso milenar, o melhor modo de lidar com isso é redescrever as situações nas quais elas são usadas, mostrando o que é desejável fazer quando as escutamos ou falamos.
O que o Slutwalk está fazendo, com mulheres que assumem tais palavras para si e saem às ruas para dizer que esses nomes não são sinônimos de “estupre-me”, é o equivalente de algo que algumas mães sempre falaram aos seus filhos quando pequenos.
Minha mãe ensinou-me algo bem útil e heideggeriano: “o que é da visão não é da mão”. Eu saía para passear com a minha mãe. Chegando a um bazar ou a uma feira ou à casa de estranhos eu rapidamente punha as mãos entrelaçadas nas costas. Não esperava minha mãe mandar. Mas, assim mesmo, ela repetia: “um bom menino vê com os olhos, não com as mãos”. Era um aviso. E que aviso! Minha mãe soube me educar como um tarado que deveria usar sua tara segundo as regras do “voyeurismo”, não da manipulação. A beleza, nós que temos olhos que funcionam, é para ser curtida com os olhos e só com os olhos. Nenhum nome autoriza as mãos irem adiante do corpo. Só quando minha mãe dizia “agora sim, nesse caso pode colocar a mão”, é que eu me movia. Ficou na minha mente (e uma só vez, por meio de um bom tapa na minha mão) que algo é para pegar somente quando uma mulher diz “agora pode pegar”. Só então é que eu tentava fazer alguma coisa que não exclusivamente olhar. E mesmo assim, com certa dificuldade. Ia bem devagarinho. Fui educado de modo contrário à natureza do monstro do filme “O labirinto do fauno” (Del Toro, 2006), aquela criatura apavorante que tinha os olhos nas palmas da mão.
Talvez essa educação da minha mãe tenha a ver com o fato de ter me tornado filósofo. A filosofia sempre teve um pé na contemplação. E até mesmo as correntes pragmatistas, tão intervencionistas, chegaram a namorar a “saída pela arte”, ou seja, a ideia de que a melhor intervenção é a estética, aquela na qual o tato se obriga a obedecer aos outros quatro sentidos. Foi assim que aprendi a relacionar-me com as mulheres. “Puta” e “vadia”, palavras que caíram no meu vocabulário como de todos os outros meninos, sempre estiveram associadas a vários mundos, menos o da autorização da violência. Afinal, como tudo que é bom está no mundo, mulher é antes para os olhos que para qualquer outra coisa. As mulheres só são para as mãos dos homens se elas próprias, principalmente as que ganham o nome de “puta” e “vadia”, autorizam as mãos.
Os que não tiveram uma mãe no passado, agora precisam ouvir um batalhão de mães. Quem? As moças do Slutwalk. Elas assumem o adjetivo “puta” e “vadia” e, ao mesmo tempo, lembram que tais nomes estão estampados aqui e ali com várias conotações permitidas, mas nenhuma das conotações permitidas é sinônima de “arrebentem-me” ou “estuprem-me” ou “ponham a mão em mim”.
Essa educação da minha mãe não me tornou impotente sexualmente. Não fui nem um pouco castrado por isso. Nem mesmo fez com que eu, na cama, ficasse impedido de chamar minha mulher de “puta” ou “vadia”, se ela se excita com essa fantasia. Ou de dar-lhe uns tapas, se também é isso que ela requisita por ela mesma, e não pela minha capacidade de ver dentro da mente dos outros. Sou completamente livre na cama. Mas sou livre porque o pacto de liberdade é antes de tudo um pacto. Não um pacto tácito, mas muito bem claro, explícito, real, firmado e reafirmado antes da cama. Não vou abrir mão dos nomes “puta” e “vadia”. Aliás, agora que o movimento Slutwalk chegou, aí que não vou mesmo abrir mão disso. Pois sonho com o dia que tais palavras tenham a conotação dada por aquilo que cada mulher quer ouvir, e não como um imperativo universal utilizado por padres, pastores, policiais, maridos, prefeitos, juízes e autoridades diversas para fazer de cada mulher culpada por ter sido violentada.
No limite, esse feminismo novo pede algo fantástico, diferente de muitos outros movimentos de inspiração feminina. Trata-se do direito de ser sexy, bonita, ousada. O direito de vestir-se para mostrar-se. Nenhuma mulher deve sentir-se ameaçada por enfeitar a superfície do Planeta.
© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ.
Mais notícias internacionais do movimento Slutwalker que começou no Canadá.