Diveersidade - Um artigo

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Ednilson - Yahoo!

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Jan 17, 2011, 12:46:24 PM1/17/11
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Contra - diversidade

O que têm em comum a índia guarani que percorre a fronteira de países do cone sul sem direito a uma pátria e a criança com paralisia cerebral rejeitada como aluna
na escola pública regular de sua comunidade?


Ambas são consideradas exemplos típicos de diversidade. A índia - ou indígena - foge claramente aos padrões sobre os quais se apóiam inúmeros projetos de gênero
ou de direitos humanos. A criança com paralisia cerebral ainda é percebida pela área social como uma coringa desengonçada que "atrapalha" grande parte dos projetos
de educação em desenvolvimento no Brasil. Uma coringa que pode entrar e sair do jogo, porque não tem, por direito, um lugar.


Como figuras marcadas e exóticas, tanto a mulher indígena quanto a criança com deficiência são até convidadas oficialmente para compor cenários nos quais a diversidade
é necessária e indica mérito e consciência cidadã para quem a propõe. Mas raramente são percebidas como sujeitas de todo e quaisquer direitos, entre eles, o de participar
de processos que lhes interessem direta ou indiretamente.


Refletir sobre diversidade é o início de algum processo que, se bem conduzido, nos permitirá participar da demolição do que está posto como ético no terceiro setor
do Brasil. Este é o desafio proposto pela Escola de Gente - Comunicação em Inclusão quando falamos de diversidade, estigma, discriminação. A diversidade não é uma
pauta, assunto, opção, mas um valor intrínseco a qualquer decisão tomada pelas organizações e pelos(as) empreendedores(as) sociais. Quanto mais comum, íntima e corriqueira
for a decisão, mais refinada deverá ser a percepção de diversidade do ator ou atriz que a assumirá. De onde vem o valor dos seres humanos? Das semelhanças finitas
ou das diferenças infinitas que nos caracterizam?


Pensar sobre diversidade liberta, mas para isso devemos abandonar algumas certezas; entre elas, aquelas oriundas de uma visão dicotômica de mundo. Nada mais aprisionador
do que imaginar que entre a pessoa mais gorda e a mais magra existem as "mais ou menos gordas"... Ao contrário, o que existe é uma infinidade de seres humanos com
pesos e formas diversas - únicos e inimitáveis. Todos com igual valor humano e social.


Talvez a maior dificuldade que os(as) empreendedores(as) sociais enfrentem para tratar de diversidade - direta ou transversalmente - ainda advenha do ímpeto de se
imaginarem "mantendo sob controle" a diversidade com a qual irão atuar. Diversidade é o não-controle. Jovens que vivem em uma população ribeirinha são, simultaneamente,
pessoas com orientação sexual, religião, posicionamento político e origens familiares distintas, mas costumam ser tratados(as) prioritariamente nos projetos como
um bloco homogêneo formado por pessoas que têm, em comum, características que os(as) transformam em públicos-alvos dos projetos.


A diversidade é o início de tudo e jamais será o fim de alguma reflexão, processo, idéia. Revoluciona, nunca reforma. A dificuldade de avançar nas reflexões sobre
diversidade pode residir no entendimento antigo do tema não como acelerador de processos, mas, equivocadamente, como algo decidido, acabado, fechado. Ao contrário,
pensar ou não em diversidade interfere diretamente nas práticas de controle social e nos processos democráticos de tomada de decisões.


Assim como a mídia e a dramaturgia, a área social brasileira está habituada a se pautar pelo estigma. Muitas das decisões diárias e até estratégicas do terceiro
setor para decidir planejamento e orçamento de projetos são tomadas a partir de movimentos de reação - rejeição ou sedução - a um determinado estigma. O estigma
nasce da dificuldade ou impossibilidade do senso comum em lidar com a diversidade.


Expressões como "direito à diferença", "respeito à diferença" ou "ser diferente é normal" perpetuam o estigma, porque de modo sutil insistem em garantir que algumas
pessoas têm diversidades tão mais nobres que a elas cabe o direito de julgar a diversidade ou diferença do(a) outro(a) e até aboná-la. As diversidades humanas, culturais,
religiosas, étnicas, regionais, quaisquer diversidades, não são direitos, mas sim condições intrínsecas para o exercício dos direitos humanos e fundamentais. Não
há eqüidade sem diversidade.


Sendo a diversidade um valor, precisa ser exercitada por meio da adoção de uma nova ética, a "ética da diversidade", que se contrapõe à "ética da homogeneidade".
"Ética da homogeneidade" é aquela que admite modelos de pessoas e de culturas, valorizando única e exclusivamente as semelhanças que existem entre elas. Neste sentido,
a "ética da homogeneidade", ao criar uma hierarquização de condições humanas e seus modos de vida, permite a categoria do "diferente". A "ética da diversidade",
ao contrário, por apoiar-se na certeza de que a humanidade encontra diferentes formas de se expressar, não admite comparações entre condições humanas, religiosas,
culturais, de etnia, região, gênero, entre outras.


A maioria dos projetos que nós produzimos hoje, no terceiro milênio, parecem contemporâneos e inovadores, ainda mais quando fundamentados. Tanto parecem inéditos
que se torna difícil denunciar a inadequabilidade desses projetos, ainda mais quando versam sobre grupos de algum modo vulnerabilizados, abordando temas como diversidade,
inclusão, eqüidade, princípio da não-discriminação e direitos humanos.


Mas que delicado e constrangedor. Tomar decisões a partir do estigma aprisiona as lideranças da área social e empobrece os sonhos. Pautar-se pelo estigma significa
optar pelo palatável, pelo senso comum, mesmo que seja para questioná-lo...E nada é mais estimulante do que ser capaz de transformar algo antigo em um projeto aparentemente
super novo. Apenas aparentemente novo, repito, porque o novo não é exatamente o oposto do velho. Não é desse modo que avaliamos um bom cirurgião plástico? Pela sua
capacidade de operar transformações importantes sem mudar a essência das faces, das expressões? Tomar decisões pelo estigma é manter o "novo" sob controle. A sensação
de estar no controle é ótima, dá segurança. E empobrece os sonhos...


Claudia Werneck

Jornalista e escritora

Fundadora e superintendente geral da Escola de Gente - Comunicação em Inclusão

Fonte: http://www.escoladegente.org.br/noticiaDestaque.php?id=361&titulo=Contra+-+diversidade

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