[...] a partir das memrias daqueles que resistiram [ violnciado Estado durante a ditadura], foi possvel desvelar uma nova vocao para esteespao e prepar-lo para que as novas geraes encontrem, aqui, no s asinformaes sobre as atrocidades da represso, mas, sobretudo, as inspiraespara a valorizao da solidariedade, dos princpios democrticos e do respeito diferena. (ARAUJO; BRUNO, 2009, p. 75)
Para esmiuar essas fotografias, foram teis as pistas fornecidas por Hilmar (2016) na apreciao de imagens feitas no antigo campo de extermnio nazista de Auschwitz, na Polnia. Para ele, as fotos so recursos utilizados pelos visitantes para compreender o lugar e sua histria, como representaes em que o passado concebido no presente. Assim sendo, as imagens so apreendidas como tentativas de traduzir visualmente jeitos de experienciar, no agora, acontecimentos (ou o significado de acontecimentos) pretritos. Em sua investigao, Hilmar percebe ainda que, nesse anseio interpretativo, os indivduos se valem de certos padres visuais, conformados por conhecimentos e sentimentos prvios e/ou evocados na experimentao mesma do espao. Trata-se, assim, de configuraes da lembrana[4]. O modo como tais configuraes aparecem nas imagens do museu o fio condutor da anlise que se prope.
A primeira cela apresenta os trabalhos do processo de implantao do Memorial da Resistncia. A segunda cela presta homenagem aos milhares de presos, desaparecidos e mortos em decorrncia de aes do DEOPS/SP. Na terceira apresentada uma reconstituio, segundo lembranas de ex-presos polticos. Finalmente, a quarta cela oferece uma leitura da solidariedade entre os que estiveram encarcerados neste local, cujas aes de resistncia colaboraram para sua sobrevivncia diria. (ARAUJO; BRUNO, 2009, p. 81)
Ao observar com mais ateno essas imagens, algumas semelhanas comeam a se destacar. Uma constante facilmente percebida a explorao de uma maior profundidade de campo, j que todas as fotografias tm pouca ou nenhuma zona desfocada. Isso pode ser notado de forma mais marcada nas imagens que trazem planos mais abertos e que valorizam os espaos vazios, como naquelas publicadas nos perfis @m.monteiro_tg, @dedehyoo e @thalyatuany (figuras 1, 2 e 3). Essas estratgias so entendidas como uma forma de enfatizar os lugares como significantes em si mesmos, dado aquilo que se fotografa nesses casos: a reconstituio de uma cela e o antigo ptio para o banho de sol.
Os mesmos elementos que aparecem nas imagens at agora analisadas (o espao, objetos e inscries da cela reconstituda e do antigo ptio para o banho de sol; as portas, janelas e grades das celas; as mscaras e a flor da expografia ali montada) servem de ponto de apoio para a construo de outro padro encontrado entre as fotos feitas no Memorial da Resistncia e compartilhadas no Instagram: os retratos. Inserindo-se na composio, frequentemente por meio de uma encenao dramtica (figuras 9 a 13) e raras vezes nos moldes de um alegre selfie (figura 14), os visitantes pem seus corpos no espao em que outrora estavam os presos polticos. Essas imagens se enquadram na configurao que Hilmar (2016) chama de camadas de tempo (em que as fotografias entrelaam mais manifestadamente o presente ao passado). Se, por um lado, tais imagens parecem continuar tentando explorar vestgios do passado, por outro, elas corroboram seu carter de presente na medida em que do destaque presena de personagens que se sabe alheios aos fatos pretritos. Os indcios do passado se abrem, assim, a um jogo de cena.
A presena e o envolvimento dos sujeitos no territrio das celas tambm marcada pela criao de cenas que, sem remeter a acontecimentos passados, os conotam na seriedade (figura 11), na introspeco (figura 12) e na ateno (figura 13), como fazem as pessoas presentes nas fotografias postadas nos perfis @maelo70, @vinni.lobo e @fabianamaranhao. Assim como as duas imagens anteriores, essas fotos trazem um carter performativo mais acentuado, ou seja, so abalizadas por uma atuao que se dirige ao olhar de outrem.
Nesse ponto, fundamental reconhecer que o carter pblico dessas imagens ganha peso: alm de servir aos propsitos interpretativos, nos moldes defendidos por Hilmar (2016)[8], as fotografias so construdas para exercer a funo de interao entre sujeitos que perpassa o uso do Instagram, estando, portanto, ancorada em aspiraes de visibilidade e validao (SILVERMAN, 2015). Dito de outro modo, a produo da imagem no deve ser pensada apenas como guiada pela pretenso dos visitantes de compreender o lugar e sua histria, mas ainda por seu carter relacional, de uma fotografia que se assinala pela vontade de interlocuo, criada por um sujeito que busca exibir-se e possivelmente agradar a um pblico que se tem no horizonte.
Para alm da verbalidade, outro destaque entre as imagens tiradas fora do territrio das celas a recorrncia figura do arquivo presente no quarto eixo, Da carceragem ao centro de referncia. Em algumas fotos, ele aparece como elemento de ambientao de uma encenao, como acontece na publicao do perfil @moniquemerin (figura 17). Essa dramatizao, alm de evocar outros elementos j tematizados, pode ser encarada como uma explorao do arquivo como lugar do passado e do presente.
De acordo com pesquisa realizada pela empresa comScore, o Instagram a terceira rede social na qual os brasileiros gastam mais tempo, aparecendo atrs do Facebook e do Messenger. Ao analisar o engajamento por usurio e ao focar nos chamados millennials (pessoas entre 18 e 34 anos), o Instagram tambm ocupa a terceira posio, com Facebook e Snapchat antes dele. Entretanto, nessas outras redes, a fotografia divide espao com contedos de natureza diversa, como textos, gifs e vdeos. O Instagram, embora permita a postagem de pequenos vdeos e as imagens possam vir acompanhadas de textos-legendas, tem na fotografia sua maior fora. Informaes disponveis em: . Acesso em 20 abr. 2017.
No ar desde 18 de maio de 2016, o perfil @memorialdaresistenciasp, administrado pela assessoria do museu, publica fotos que em muitos aspectos se assemelham s imagens feitas pelos visitantes, alm de fazer reposts deles, isto , republicar fotografias de visitantes que originalmente apareciam em seus perfis. Outros tipos de publicao comuns no perfil oficial do Memorial so imagens de arquivos que documentam acontecimentos histricos ligados ditadura e de fotografias de aes educativas e culturais empreendidas pelo museu, em ambos os casos, com textos explicativos e/ou de chamada para iniciativas institucionais.
preciso sinalizar, em relao a esse aspecto, a diferena metodolgica entre este trabalho e o de Hilmar. Como explicado anteriormente, as imagens aqui analisadas foram coletadas no Instagram e, como a maior parte das fotografias que esto ali, foram feitas para serem compartilhadas na rede ou, ao menos, foram compartilhadas de modo deliberado pelos fotgrafos e/ou fotografados. Hilmar, distintamente, recolhe as imagens por ele examinadas em um estudo etnogrfico in loco no qual as pessoas eram convocadas a mostrar imagens que fizeram durante a visita a Auschwitz e que no necessariamente foram produzidas para serem publicizadas.
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