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Papa Francisco afirma que "o amor pelos pobres está no centro do Evangelho" Posted: 04 Nov 2014 02:02 AM PST Terra,
casa, trabalho: esses foram os três pontos fundamentais em torno dos quais
desenvolveu-se o longo e articulado discurso do Papa Francisco aos
participantes do
Encontro Mundial dos Movimentos Populares, recebidos esta terça-feira,
dia 28 de Outubro, na Sala Antiga do Sínodo, no Vaticano. O Pontífice
ressaltou que é preciso revitalizar as democracias, erradicar a fome e a
guerra, assegurar a dignidade a todos, sobretudo aos mais pobres e
marginalizados.
Tratou-se
de um veemente pronunciamento, ao mesmo tempo, de esperança e de denúncia.
Um discurso que, por amplidão e profundidade, tem o valor de uma pequena
encíclica de Doutrina Social. Ademais, era natural que os Movimentos
Populares solicitassem este encontro com o Papa Francisco.
Efetivamente,
na Argentina, como bispo e depois como cardeal, Bergoglio sempre se fez
próximo das comunidades populares como as de "catadores de papel" e
"camponeses". No fundo, nesta audiência retomou o fio de um compromisso
jamais interrompido.
O
Santo Padre evidenciou já de início, no discurso, que a solidariedade –
encarnada pelos Movimentos Populares – encontra-se "enfrentando os efeitos
deletérios do império do dinheiro".
O
Papa observou que não se vence "o escândalo da pobreza promovendo
estratégias de contenção que servem unicamente para transformar os pobres
em seres domésticos e inofensivos". Quem reduz os pobres à "passividade",
disse, Jesus "os chamaria de hipócritas". Em seguida, deteve-se sobre três
pontos chave:"Terra, teto, trabalho. É estranho – disse –, mas quando falo
sobre estas coisas, para alguns parece que o Papa é comunista. Não se
entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho." Portanto,
acrescentou, terra, casa e trabalho são "direitos sagrados", "é a Doutrina
social da Igreja".
Dirigindo-se
aos "camponeses", Francisco disse que a saída deles do campo por causa "de
guerras e desastres naturais" o preocupa. E acrescentou que é um crime que
milhões de pessoas padeçam a fome, enquanto a "especulação financeira
condiciona o preço dos alimentos, tratando esses alimentos como qualquer
outra mercadoria". Daí, a exortação do Papa Francisco a continuar "a luta
em prol da dignidade da família rural".
Em
seguida, o Santo Padre dirigiu seu pensamento aos que são obrigados a
viver sem uma casa, como experimentara também Jesus, obrigado a fugir com
sua família para o Egito. Hoje, observou, vivemos em "cidades imensas que
se mostram modernas, orgulhosas e vaidosas". Cidades que oferecem
"numerosos lugares" para uma minoria feliz e, porém, "negam a casa a
milhares de nossos vizinhos, incluindo as crianças".
Com
pesar, Francisco ressaltou que "no mundo globalizado das injustiças
proliferam-se os eufemismos para os quais uma pessoa que sofre a miséria
se define simplesmente 'sem morada fixa'".
O
Papa denunciou que muitas vezes "por trás de um eufemismo há um delito".
Vivemos em cidades que constroem centros comerciais e abandonam "uma parte
de si às margens, nas periferias".
Por
outro lado, elogiou aquelas cidades onde se "segue uma linha de integração
urbana", onde "se favorece o reconhecimento do outro". Em seguida, foi a
vez de tratar da questão do trabalho:"Não existe – ressaltou – uma pobreza
material pior do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade
do trabalho." Em particular, Francisco citou o caso dos jovens
desempregados e ressaltou que tal situação não é inevitável, mas é o
resultado "de uma opção social, de um sistema econômico que coloca os
benefícios antes do homem", de uma cultura que descarta o ser humano como
"um bem de consumo".
Falando
espontaneamente, ou seja, fora do texto, o Pontífice retomou a Exortação
apostólica "Evangelii Gaudium" para denunciar mais uma vez que as crianças
e os anciãos são descartados. E agora se descartam os jovens, com milhões
de desempregados, disse ainda. Trata-se de um desemprego juvenil que em
alguns países supera 50%, constatou. Todos, reiterou, têm direito a "uma
digna remuneração e à segurança social".
Aqui,
disse o Pontífice, encontram-se "catadores de papel", vendedores
ambulantes, mineiros, "camponeses" aos quais são negados os direitos do
trabalho, "aos quais se nega a possibilidade de sindicalizar-se". Hoje,
afirmou, "desejo unir a minha voz à de vocês e acompanhá-los em sua
luta".Em seguida, Francisco ofereceu sua reflexão sobre o binômio
ecologia-paz, afirmando que são questões que devem concernir a todos, "não
podem ser deixadas somente nas mãos dos políticos". O Santo Padre afirmou
mais uma vez que estamos vivendo a "III Guerra Mundial", em pedaços,
denunciando que "existem sistemas econômicos que têm que fazer a guerra
para sobreviver": "Quanto sofrimento, quanta destruição _ disse o Papa –,
quanta dor! Hoje, o grito da paz se eleva de todas as partes da terra, em
todos os povos, em todo coração e nos movimentos populares: Nunca mais a
guerra!"Um sistema econômico centralizado no dinheiro – acrescentou –
explora a natureza "para alimentar o ritmo frenético de consumo" e daí
derivam feitos destrutivos como a mudança climática e o desmatamento.
O
Papa recordou que está preparando uma Encíclica sobre a ecologia
assegurando que as preocupações dos Movimentos Populares estarão presentes
nela. O Pontífice perguntou-se por qual motivo assistimos a todas essas
situações:"Porque – respondeu – neste sistema o homem foi expulso do
centro e foi substituído por outra coisa. Porque se presta um culto
idolátrico ao dinheiro, globalizou-se a indiferença." Porque, disse ainda,
"o mundo esqueceu-se de Deus que é Pai e tornou-se órfão porque colocou
Deus de lado".
Em
seguida, o Papa exortou os Movimentos Populares a mudarem este sistema, a
"construírem estruturas sociais alternativas". Francisco advertiu que é
preciso fazê-lo com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade,
porém, sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência". Nós cristãos, disse,
temos um bonito programa: as Bem-aventuranças e o Cap. 25 do Evangelho
segundo Mateus. Francisco reiterou a importância da cultura do encontro
para derrotar toda discriminação e disse que é preciso uma maior
coordenação dos movimentos, sem, porém, criar "estruturas rígidas":"Os
Movimentos Populares – afirmou – expressam a necessidade urgente de
revitalizar nossas democracias, muitas vezes sequestradas por inúmeros
fatores." É "impossível", frisou, "imaginar um futuro para uma sociedade
sem a participação protagonista da grande maioria" das pessoas.É preciso
superar "o assistencialismo paternalista" para ter paz e justiça,
prosseguiu, criando "novas formas de participação que incluam os
movimentos populares" e "sua torrente de energia moral".
O
Pontífice concluiu seu discurso com um premente apelo:"Nenhuma família sem
casa. Nenhum camponês sem terra! Nenhum trabalhador sem direitos! Nenhuma
pessoa sem a dignidade que o trabalho dá" – disse.Entre os participantes,
no Vaticano, do encontro dos Movimentos Populares figura também o
presidente da Bolívia, Evo Morales.
O
diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, explicou
que, nesta ocasião, a visita do chefe de Estado boliviano não foi
"organizada mediante os habituais canais diplomáticos" e que o encontro
"privado e informal" no final da tarde desta terça-feira entre o Papa
Francisco e o presidente deve ser considerado "uma expressão de afeto e
proximidade ao povo e à Igreja boliviana e um apoio à melhoria das
relações entre as Autoridades e a Igreja no país".
Fonte:
Jornal
do Brasil
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