A três meses
para o fim de seu mandato, o prefeito Marco Tebaldi (PSDB) parece que
não deixará boas lembranças aos joinvilenses. Ao longo dos seis anos
comandando a prefeitura da maior cidade do Estado, o prefeito deixará o
cargo com uma avaliação vexatória. Conforme a pesquisa Vox Populi,
Tebaldi tem apenas 39% de aprovação, um índice bem abaixo da média
nacional, que ficou em 48,2%. Isso pode ser um reflexo dos muitos
escândalos que marcaram sua gestão.
No período em que foi prefeito, Tebaldi ignorou preceitos
legais e morais em prol de seus interesses, e não foram poucas as vezes
que o Ministério Público Estadual teve que intervir em suas ações. Em
seus métodos nada recomendáveis de fazer prevalecer suas vontades,
Tebaldi puniu com ira seus desafetos. Mandou um bairro inteiro para o
fim da fila das prioridades de sua gestão, ergueu tucanos, símbolo de
seu partido em escolas públicas, em uma atitude antidesportiva, tentou
comprar uma vaga na série C do futebol nacional para o Joinville Esporte
Clube. Ele também entregou R$ 100 mil dos cofres públicos a um
estelionatário e recebeu do mesmo um cheque de R$ 35 mil.
Demonstrando que não há limites para suas vinganças, puniu
um padre tirando a comida de crianças. O ápice de seus desmandos foi
quando seu homem forte que ocupava a pasta de secretário da Saúde,
Norival Silva, foi preso, acusado de cobrar propinas de fornecedores de
medicamentos da Secretaria Municipal de Saúde. Para tentar reverter a
imagem negativa que o acompanha como uma sombra, destinou muito dinheiro
do contribuinte a campanhas publicitárias, que visavam única e
exclusivamente enaltecer seu próprio governo.
Propina paga em cheque
O prefeito Marco Tebaldi e outras dez pessoas foram
denunciadas pelo desvio de R$ 100 mil, que seriam destinados para a
promoção do 15º Congresso Nacional de Vereadores, evento realizado entre
10 e 15 de março de 2002.
O dinheiro saiu da prefeitura e caiu nas mãos de Jair
Pedro da Costa Louzada, homem bom de conversa e muitos amigos, que fez o
dinheiro público desaparecer entre depósitos em contas de parceiros,
cheques e transferências. A denúncia também citou o nome de Maria José
Duarte, que circulava pelos gabinetes das autoridades do município ao
lado de Louzada vendendo a idéia do congresso. Conforme a denúncia, “ela
ainda articulou o pagamento de “propina” a Tebaldi, de maneira que
influiu para aplicação irregular da verba, facilitou e concorreu para
que terceiros se enriquecessem ilicitamente”.
A propina, no caso, correspondia a quantia de R$ 35 mil,
em um cheque emitido pelo aposentado Luiz Carlos Pereira Silva, na época
companheiro de Maria José, que lhe emprestou o cheque que por duas
vezes foi depositado na conta particular do prefeito, mas voltou por
falta de fundos.
Conforme a denúncia, para cobrar o cheque, Tebaldi teria
entregado o documento para Odilon Alves, o popular Keno, chefe do
Departamento de Patrimônio da Prefeitura e seu homem de confiança. Por
sua vez, Keno pediu a colaboração de uma assessora jurídica da
municipalidade: “O Tebaldi quer que a senhora cubra esse cheque o mais
rápido possível”, explicando que “embora o emitente do cheque fosse Luiz
Carlos Pereira da Silva, quem efetivamente deu o cheque “em garantia” a
Tebaldi foi a tal Maria José”, diz o depoimento. Os detalhes estão
relatados nos três volumes de documentos que acompanham a denúncia do
promotor.
Jair Pedro da Costa Louzada, o homem que desfilou pelos
tapetes do poder em Joinville arregimentando parceiros e sócios tem um
passado típico de bandido, que não fica a dever a nenhum dos hóspedes de
nosso presídio ou penitenciária.
Sua extensa folha criminal começa em 1973 com nove furtos e
roubos; um caso de estupro em Capão da Canoa (RS) em 1996; além de
denúncias por estelionato em Carazinho (RS), São José (SC), Blumenau
(SC), São Francisco do Sul e Florianópolis.
Apropriação indébita e ameaças também estão entre os
crimes relacionados em sua ficha. A última vez que a Justiça teve
notícia de Louzada ele estava no Espírito Santo. Ele é considerado
foragido.
O homem forte do prefeito é preso
No ano passado, o Ministério Público Estadual (MPE),
passou a investigar as ações do secretário Norival Silva, considerado
homem forte da gestão Tebadi, e desvendou graves irregularidades.
Norival recebia um percentual cada vez que pagava uma remessa de
medicamentos. O valor era rateado com Ramon Silva, da Secretaria de
Estado da Saúde; com ajuda do servidor João Batista Soares.
O esquema contou com o envolvimento dos empresários Maria
Fernanda Menezes, proprietária do Laboratório DNA Análises, Marcos Della
Giustina (que também teria sido beneficiado em processos de licitação),
Elson Pucci, Roni Broglio e Flávio Hormann. A cada pagamento de R$ 60
mil, por exemplo, o secretário ficava com R$ 10 mil. O Ministério
Público ainda investiga quanto o secretário teria recebido indevidamente
ao longo de sua gestão na pasta.
As ordens de busca e apreensão e de prisão foram expedidas
pelo juiz João Marcos Buch, titular da 2ª Vara Criminal de Joinville,
através de procedimento ajuizado pelo promotor de Justiça Assis Marciel
Kretzer.
Entre os depoimentos tomados pela polícia, consta a do
empresário Marcos Della Giustina, proprietário da empresa Hospsul
Comércio de Produtos Médicos Hospitalares Ltda. e que também fazia parte
do esquema. Ele afirma que no ano passado o ex-secretário cobrou 10%
para agilizar pagamentos a sua empresa. A propina era referente ao valor
de móveis vendidos ao Hospital Municipal São José. Além disso, o
relatório cita também encontros às margens de rodovias para tratar de
acertos (tudo fotografado pelos investigadores).
O fim da fila para quem reclama
Considerada a pior administração que Joinville teve pelos
moradores do Boehmerwald, a gestão do prefeito Tebaldi causou revolta no
bairro. Das reivindicações feitas pela comunidade no decorrer dos
últimos seis anos, praticamente nenhuma foi atendida pelo prefeito.
Foram promessas que constavam inclusive no famigerado plano de governo
divulgado em sua campanha eleitoral, e que ironicamente tem em seu
rodapé de capa a seguinte frase: “Leia, guarde e cobre: O que aqui está
escrito, será realizado”.
Segundo o presidente da associação de moradores daquela
comunidade na época, foram destinados ao bairro apenas absurdos aumentos
do IPTU e na tarifa de água, fato que ele classificou como um roubo.
“Pagamos os impostos e não há retorno dele para o bairro, isso é um
roubo descarado”, lamenta o presidente. Mas, nem tudo ficou na promessa.
A comunidade viu uma ameaça do prefeito ser cumprida: a de mandar o
bairro para o fim da fila nas obras da municipalidade, resultado da ira
de Tebaldi após a população ir às ruas manifestar por melhorias no
bairro.
Problemas simples de serem resolvidos, como as quatro
pontes que precisam ser construídas com urgência sobre o rio Aimorés e
que foram prometidas na cartilha pré-eleitoral continuam sem solução e
penalizam quem ousou enfrentar a despótica administração. “A Secretaria
Regional do Boehmerwald, sem dúvida nenhuma, não passa de um cabide de
empregos para apadrinhados do prefeito”, desabafou o presidente.
Ele quis comprar vaga para o JEC
Todo o Brasil acabou sabendo do que o prefeito Marco
Tebaldi é capaz. O jornalista Diego Santos, da editoria de esportes do
tablóide A Notícia, revelou detalhes de uma reunião do Conselho
Deliberativo do clube, em que Tebaldi, que também era presidente do
conselho, propôs a compra de uma vaga na série C do Campeonato
Brasileiro.
Conforme o relato, o que aconteceu na Arena foi um
episódio inédito no futebol brasileiro e dos mais constrangedores da
história do Joinville Esporte Clube. “Vamos? R$ 50 mil, R$ 100 mil...
Depois a gente convoca a torcida para pagar isso”, disse Tebaldi, sem
qualquer constrangimento. Tão logo a matéria veio a publico com as
declarações do prefeito, os grandes sites nacionais que tratam de
esporte repercutiram a proposta que misturou incompetência com falta de
ética.
O site Futebol Interior anunciou em letras garrafais:
“Bomba! Time catarinense quer comprar vaga na Série C”; e seguiu na
mesma toada o noticioso Futebol Alagoano, a Tribuna de Criciúma, o Show
de Bola do Piauí e muitos outros pelo Brasil.
Foram muitas as manifestações
de indignação do público
Leitores da Gazeta perguntaram, em tom
jocoso, por que o prefeito já não comprava uma vaga na série B? Ou na A?
Ou ainda por que não comprava um título? Outro classificou como
vergonhosa a proposta do prefeito, ressaltando que a lógica Tebaldi é a
mesma de quem burla concurso público, aceita comprar um diploma
universitário ou comercializa o voto de eleitores.
Tucanos
no telhado
Entre as inaugurações ocorridas durante o último dia 9 de
março, aniversário dos 157 anos de Joinville, o constrangimento do
prefeito Marco Antonio Tebaldi (PSDB), não se fez presente. Construídas
com o dinheiro público, as quadras cobertas que foram entregues a
algumas escolas da cidade, vieram acompanhadas de um tucano estilizado,
uma infeliz iniciativa do atual prefeito, que não tolera ser contrariado
e se irrita com as reivindicações da comunidade. Fato sentido na pele
dos moradores do bairro Boehmerwald.
Justiça mandou retirar tucanos
Porém, o juiz Carlos Adilson
Silva, da 1ª Vara da Fazenda Pública de Joinville, concedeu liminar à
ação movida pelo PT do município que questionava as estruturas por
lembrarem tucanos — ave símbolo do partido do prefeito. Para o
magistrado, o prefeito “teve a clara, evidente, inescondível intenção de
vincular a ave símbolo do PSDB a sua administração, para sua exaltação
pessoal, às custas do erário público”. |