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Dinossauro da TI, mainframe chega à era da virtualização
Valor Econômico, 08/04/2009 André Borges, de São Paulo
Em dezembro de 2007, um grupo de funcionários da Universidade de
Manitoba, no Canadá, se reuniu para participar do funeral de um antigo
colaborador da instituição. Depois de mais de quatro décadas de
trabalho ininterrupto, era hora de se despedir do velho amigo
Betelgeuse (apelido que fazia referência a uma enorme estrela
vermelha). Não faltaram lágrimas durante o enterro. Mas em vez de
tristeza, a despedida foi marcada por um misto de gratidão e
saudosismo. Betelgeuse, que entre os menos íntimos era chamado de IBM
650, havia sido um mainframe impecável desde o seu primeiro dia de
trabalho. As homenagens dos amigos incluíram cortejo, música e um
discurso acalorado, que depois foi postado na internet.
Tem sido assim a história do mainframe, os computadores de grande
porte criados pela IBM, que nesta semana completam 45 anos de vida. De
1964 para cá, o mainframe morreu e renasceu algumas vezes. Nos seus
primeiros 20 anos de vida, esses supercomputadores conheceram o ápice
da fama. Cobiçados pela rapidez com que conseguiam processar bancos de
dados, os equipamentos viraram sinônimo de informatização para
qualquer empresa que tivesse de gerenciar grandes volumes de
informação. Bancos, redes de varejo, operadoras de telefonia e órgãos
públicos aderiram em massa à tecnologia.
Nos anos 90, porém, a popularização da computação pessoal e a explosão
da internet fizeram com que os mainframes se vissem ameaçados pela
computação em rede. Os chamados servidores - máquinas com potência
muito inferior à do mainframe, mas capazes de operar de maneira
distribuída - trataram de dividir todos os serviços que o mainframe
estava acostumado a fazer sozinho. Recursos distintos como gestão de
correio eletrônico, impressão de documentos e acesso à internet
deixaram de ser resolvidos por um só equipamento para ser gerenciados
por famílias de servidores. De ícone de inovação, os mainframes
passaram a ser tratados como símbolo de atraso, de falta de
flexibilidade e de alto custo. Eram os dinossauros da informática em
franco processo de extinção. O que se vê, porém, é que em tecnologia
uma década pode ser tempo suficiente para a gestação de uma nova
espécie.
"Já ouvimos de tudo. Nossos concorrentes dizem que os mainframes são
os responsáveis por abduções alienígenas, que estão por trás das
misteriosas figuras geométricas que surgiram em lavouras nos Estados
Unidos", ironiza Karl Freund, vice-presidente mundial de estratégia
para mainframe da IBM. "Mas a verdade é que há muita coisa que a
concorrência não quer que nosso cliente saiba."
As vendas de mainframe, diz Freund, têm crescido de forma consistente.
Em 2008, a receita da IBM com mainframe saltou 11% na área de
equipamentos. Boa parte desse resultado foi puxado pelo Brasil. O país
é hoje o terceiro maior comprador dessa tecnologia em todo o mundo,
atrás dos Estados Unidos e da Alemanha, diz Paulo Perini, chefe da
divisão de mainframe da IBM no país.
O curioso é que, por ser um equipamento desenhado especificamente para
empresas que buscam grande capacidade de processamento, o mercado de
mainframe é extremamente concentrado. Os contratos fechados anualmente
são contados na casa das dezenas. Nos últimos dois anos, por exemplo,
a IBM conquistou 70 novos clientes de mainframe em todo o mundo, sete
deles no Brasil. Atualmente, a carteira da companhia tem
aproximadamente 8,7 mil clientes dos equipamentos System Z, a geração
mais recente de seus mainframes. No Brasil, 140 companhias usam a
tecnologia. Uma empresa com perfil para adotar um mainframe precisa
ter um parque de computação com volume superior a 40 servidores. O
preço do equipamento parte da casa dos R$ 800 mil até dezenas de
milhões, dependendo da complexidade de cada projeto.
Algumas inovações explicam porque o mainframe não saiu de moda. As
máquinas, que na década de 60 ocupavam o espaço de uma sala, hoje se
limitam a algo semelhante a uma geladeira. Em tempos de
miniaturização, isso pode até parecer um trambolho. Mas essa imagem
desaparece no instante em que se verifica a capacidade do equipamento.
Recursos da virtualização - tecnologia que também foi criada pela IBM
- permitem que uma série de máquinas "virtuais" sejam alocadas no
mesmo equipamento, executando operações diferentes.
Hoje, em uma máquina do tamanho de uma geladeira duplex, é possível
fazer o trabalho de nada menos que 1,2 mil servidores. O reflexo
imediato disso é a redução do espaço físico necessário, a facilidade
para gerenciar os recursos, a gestão centralizada de segurança dos
dados e uma drástica redução de consumo de energia - que hoje
concentra a maior parte dos custos de qualquer centro de dados.
"É verdade que no passado o mainframe foi um equipamento fechado e
inflexível, mas isso mudou radicalmente", diz Paulo Perini. "Hoje é
uma máquina robusta e projetada para não ficar fora do ar; que permite
a troca de um processador, por exemplo, sem a necessidade de desligar
o equipamento."
Pelos movimentos da indústria de tecnologia, há sinais de que os
mainframes estão, de fato, bem longe do fim. Em 2001, os gastos com
atualização e manutenção desses equipamentos consumiram US$ 130
bilhões, segundo a consultoria IDC. Até o ano que vem, a expectativa é
que a demanda por esses serviços atinja US$ 250 bilhões. Para não
perder o bonde, a IBM reserva anualmente US$ 1 bilhão para injetar na
evolução das máquinas. O objetivo é combater a agressividade da
Hewlett-Packard, que tem usado o seu Superdome para brigar pelo
mercado dos supercomputadores. Em determinados nichos, uma competição
ferrenha também é travada com companhias como Fujitsu e Sun
Microsystems. O resultado é que, depois de 45 anos, os dinossauros
estão aí, mais modernos do que nunca.