No ano que vem, o mercado mundial de mainframes deve atingir um pico histórico de 110 bilhões de dólares. Não é um bom número para um produto que já morreu? Em 1996, foi de 95 bilhões. Os números mostram, além da boa saúde financeira da indústria, que a anunciada morte do mainframe foi um grande equívoco cometido em nome da evolução tecnológica. Um erro de futurologia que contou com uma unanimidade assustadora. Agora se sabe que esses grandes computadores que centralizam as informações e se orgulham de sua capacidade de segurança vão se manter ao redor do mundo corporativo por muito tempo. Eles continuam desajeitados, para muitas empresas nem são assim tão necessários e só funcionam bem quando operados por técnicos especializados. Mas o fato é que os mainframes continuam imbatíveis no processamento de grandes quantidades de dados. Escaparam da morte porque conseguiram se modernizar, custam hoje 35% menos do que na década de 80 e precisam de um décimo do espaço que ocupavam dentro das empresas. É como se uma geladeira tríplex se transformasse num frigobar e, mesmo assim, produzisse a mesma quantidade de gelo.
De cara nova, os mainframes ganham também vida nova, agora como servidores corporativos. Eles já falam a língua da Internet e se preparam para aprender a novíssima linguagem Java. Competentes, continuam fazendo o trabalho pesado dentro de bancos, companhias aéreas, seguradoras e administradoras de cartões de crédito. E conquistam empresas de outras áreas, além de funções mais modernas, como o gerenciamento de redes internas com PCs inteligentes nas pontas. "O mainframe continua um dinossauro, só que agora esse dinossauro está pegando a onda do mercado", afirma Marcelo Braunstein, gerente técnico da IBM para a América Latina na área de sistemas paralelos.
Mas, afinal, por que foi decretada a morte do mainframe? Há duas classes de argumentos. A primeira aponta para uma grande campanha de marketing orquestrada pelos fabricantes de PCs e workstations. Eles exaltavam, no início da década de 90, as vantagens dessa nova geração de computadores, prometendo redução de custos e democratização da informação, com enormes efeitos sobre a produtividade. O mote da campanha: tenha grande poder de processamento e segurança a um preço infinitamente menor. Como as empresas estavam acostumadas a arcar com a conta de dezenas de milhões de dólares dos mainframes, o apelo caiu bem. "Houve uma pressão enorme da alta administração para tirar o mainframe da tomada", diz o consultor Ciro Cabral, presidente da DRC, empresa especializada em análise tecnológica.
A segunda linha de explicação aponta para os tempos de economia de escala e redução dos lucros. Quando se apertou o cerco pela busca de eficiência, as grandes companhias, instigadas pelos consultores de tecnologia, pararam para refletir e chegaram à conclusão de que tinham muito poder no mainframe. Um poder que, em muitos casos, de nada adiantava para os negócios, pois, como a informação estava centralizada e acessível a uns poucos, não poderia ser usada com a rapidez necessária à tomada de decisões. Assim, a chegada de micros mais robustos, com sistemas operacionais confiáveis, e a necessidade de descentralização das informações geraram um novo conceito, batizado de cliente/servidor. O lugar dos terminais burros gerenciados pelo mainframe foi tomado aos poucos por PCs fáceis de operar e que permitiam ao leigo em informática usar a tecnologia da informação como ferramenta de gestão.
De fato, as vantagens das redes internas gerenciadas por um servidor desencadearam um movimento que quase levou o mainframe à lona. Os gurus da informática, incluam-se aí os consultores de tecnologia e as publicações especializadas, arriscavam até uma data para que o último mainframe fosse desplugado -- março de 1996. A polêmica foi parar na capa do Wall Street Journal. Em 1991, uma série de reportagens do jornal americano afirmava que as empresas que não corressem na direção das redes de PCs poderiam se considerar fora do mercado. No lado oposto, os fabricantes de mainframes, liderados pela IBM, assistiam ao massacre sem conseguir esboçar reação. "É impressionante como todo o mercado aceitou tão rapidamente a idéia de abrir mão de sua vaca leiteira", afirma Sergio Lozinsky, sócio-diretor da Price Waterhouse. Nos últimos três anos, em toda empresa que visitava, Lozinsky era instado a falar sobre cliente/servidor. Quando a palavra mainframe era pronunciada, vinha sempre acompanhada de adjetivos depreciativos.
PÁ OU ESCAVADEIRA?
Apesar da artilharia pesada, as vendas mundiais de mainframes não chegaram a despencar. Mas estacionaram na casa dos 40 bilhões de dólares ao ano, entre 1989 e 1993, fazendo com que IBM, Hitachi, Fujitsu, Unisys e Bull, os donos desse mercado, perdessem dinheiro. Mesmo com a receita estacionada, eles precisavam investir em novas tecnologias para virar o jogo. As empresas que dependiam de mainframes bem que tentaram, mas não conseguiram condenar os grandalhões ao cemitério. Estacionados há anos no CPD, os mainframes guardavam a história da corporação, uma base de dados difícil de ser repassada para os PCs, tecnologicamente bastante diferentes. Além disso, essas empresas perceberam que ao desligar os mainframes seus investimentos multimilionários desceriam ralo abaixo. Elas estariam, também, jogando pela janela um sistema que ainda se mostrava eficiente no processamento de grande quantidade de informação. Se você fosse abrir um enorme buraco, que ferramenta escolheria? Uma escavadeira ou cinqüenta homens empunhando pás? O raciocínio aplicava-se ao mainframe. As empresas resolveram, então, caminhar com o freio de mão puxado.
Os mais entusiasmados com o novo conceito de rede local já tinham colocado na mesa de cada funcionário PCs com muitos cavalos de força gerenciados por um servidor. Um investimento baixo e, portanto, assimilado de forma tranqüila. Mas a operação dessa nova arquitetura de informática revelou, aos poucos, custos até então escondidos e maiores que os do mainframe. Um levantamento do Gartner Group, a mais respeitada empresa americana de consultoria tecnológica, descobriu que uma empresa gasta 13 000 dólares ao ano para ter um micro ligado a uma rede local. Desse total, 21% representam o custo amortizado de hardware e software e 43%, a chamada operação usuário final. Ela computa o tempo gasto por um funcionário tentando descobrir como usar o micro, organizar o disco rígido, instalar software, esperar a impressora funcionar e surfar improdutivamente na Internet. Os 27% restantes são gastos com suporte técnico. Os analistas do Gartner descobriram, ainda, que, quando estão na frente de seus poderosos PCs, os funcionários das empresas americanas gastam 26 milhões de horas por ano jogando -- isso equivale a uma montanha de 750 milhões de dólares. Ponto para o mainframe.
Enquanto as empresas americanas estudavam seus novos custos, no Brasil, desligar o mainframe era a palavra de ordem do downsizing -- o processo de modernização da informática que ocupou boa parte do tempo dos presidentes das empresas até dois anos atrás. Aqui a situação conta com um dado peculiar. A reserva de mercado imposta à informática até 1992 empurrou os mainframes para empresas que não precisavam de tanto poder de fogo. Mas só havia duas opções: ou elas investiam muito dinheiro nos grandalhões da IBM ou compravam os supermicros produzidos pela indústria nacional. "A IBM não teve em parte nenhuma do mundo o market share que conquistou no Brasil'', afirma Maurício Machado de Minas, vice-presidente da CPM, empresa que representa no país os mainframes Hitachi. "As empresas sabiam que uma Kombi bastava para o que elas queriam, mas eram obrigadas a comprar um caminhão'', diz o consultor Valdir Cinquini. O caminhão, no caso, eram os mainframes IBM, normalmente identificados por um número, como 4341 ou 4381. Para recebê-los, era montada uma verdadeira operação de guerra no CPD. Piso falso para os cabos, centrais exclusivas de energia elétrica e ar-condicionado, grandes reservatórios de água para refrigeração e muita gente para manter a estrutura. Hoje, a operação de um mainframe requer uma ou duas pessoas. "Os modernos mainframes param somente 5 minutos a cada ano para manutenção planejada ou devido à quebra. Nem para atualizar software é preciso desligá-los'', diz Braunstein, da IBM.
Mais barata e compacta, a nova tecnologia dos mainframes, chamada CMOS (Complementary Metal-Oxide Semiconductor), gerou uma economia de 90% no gasto com energia, já que se vale do ar para a refrigeração e não mais da água. A modernização gerou uma queda de 35% no preço das máquinas. Hoje, os mainframes IBM começam em 300 000 reais. Eles também encolheram. O IBM S/390, por exemplo, tem 80% menos componentes e ocupa 90% menos espaço que seus antecessores. Com a nova roupa de servidor corporativo, o mainframe conseguiu, ainda, se integrar ao ambiente de rede. Livrou-se, assim, quase que totalmente da fama de sistema fechado e inflexível.
AR E ÁGUA
Seu caminho evolutivo passa pelas novas tecnologias, como a da Internet e das redes intranets. Tanto que os principais fabricantes já começam a vender seus mainframes empacotados como potentes servidores Web. E não faltam exemplos dessa utilização nas grandes empresas. É o caso da American Airlines e da rede de hotéis Holiday Inn. As duas gigantes americanas utilizam os mainframes IBM S/390 para atender aos seus clientes pela Web. A segurança dos dados é o ponto forte dos mainframes quando se transformam em servidores de Internet. A IBM percebeu que aí tinha um mercado potencial e agiu rápido. Montou um pacote de ferramentas, batizado de Internet BonusPak OS/ 390, que proporciona a integração do sistema operacional do mainframe com a rede mundial de computadores. A Unisys segue na mesma direção com sua linha de servidores ClearPath, também direcionada à Web.
As tecnologias emergentes, como o NC (Network Computer) e a linguagem Java, também beneficiam os mainframes. Ambas partem da premissa de que deve haver um equipamento seguro, potente e confiável no centro para que as pontas possam usufruir desse processamento rápido. E por que então não ter no centro um mainframe? A linguagem Java, desenvolvida pela Sun, tem como principal característica o fato de ser compatível com qualquer plataforma. E daí de novo a pergunta. Por que não o mainframe? Os céticos vão argumentar que os programas em Java não necessitam de tanto poder de processamento. Não é o que acham IBM, Hitachi e Fujitsu. A IBM trabalha para que o Java seja suportado já neste ano pelo OS/390, o sistema operacional de seus mainframes. Como as máquinas japonesas Hitachi e Fujitsu utilizam o mesmo sistema operacional, vão também abrigar a nova linguagem da Sun.
Em 1991, o Gartner Group perguntou às empresas americanas se pretendiam abandonar o mainframe. Ouviu de 80% delas que no início de 1996 já teriam um novo ambiente de informática, sem os grandes mainframes. No meio do ano passado, os pesquisadores do Gartner voltaram a essas empresas e constataram que apenas 5% haviam cumprido a previsão. No Banco Bamerindus, aconteceu mais ou menos a mesma coisa. A intenção era modernizar o CPD e ganhar agilidade substituindo os mainframes. Um estudo detalhava a nova configuração da informática do banco. Para o levantamento, foram alocados 400 técnicos e consultores reunidos numa espécie de comitê executivo. O banco gastou cerca de 300 milhões de reais em equipamentos e adaptações. Os mainframes foram substituídos? Não. "Hoje vemos que abandonar definitivamente o mainframe era modismo de uma determinada época", afirma Roberto Tadeu Duarte de Almeida, diretor de tecnologia e sistemas do Bamerindus. Afinal, concluiu-se mais tarde, só os mainframes garantiam um nível de segurança adequado para processar os 65 milhões de transações ao mês do banco, incluídas a compensação de cheques e a administração de contas correntes e de poupança. No lugar de desligar os mainframes, o Bamerindus comprou mais duas máquinas IBM no final do ano passado. Hoje, o CPD do banco, localizado em Curitiba, abriga três mainframes cuja capacidade de processamento soma 1 000 mips (milhões de instruções por segundo). Eles convivem com uma rede de micros que interliga as 1 206 agências do banco espalhadas por todo o país e com servidores Unix, responsáveis pelas aplicações departamentais. A informática do Bamerindus consome por ano em manutenção algo em torno de 190 milhões de reais. Outros 33 milhões são reservados a atualizações e novos projetos. Por falar em novos projetos, o executivo do banco que comandou o processo de desligamento dos mainframes não pertence mais ao quadro do Bamerindus.
Já há alguns meses o mercado mundial de TI vem demonstrando alguma surpresa com os sólidos números apresentados pelas vendas de mainframes nos últimos trimestres. Maior exemplo disso foram os últimos relatórios trimestrais de desempenho dos fabricantes apresentados pelo Gartner e pela IDC (International Data Corporation). As duas organizações de pesquisa, com pequena variação de percentual, apontaram o mercado mundial de servidores em crescimento e a IBM na liderança do segmento.
Até aí, nenhuma surpresa. O surpreendente nestes tempos de
idolatração da plataforma baixa, foi a constatação – tanto do Gartner
como da IDC – de que uma boa parcela do desempenho da IBM deve-se à
venda de mainframes. Sim, os bons e velhos mainframes. Segundo a IDC,
as vendas de equipamentos da linha System z cresceram, no primeiro
trimestre deste ano, 4% em relação ao mesmo período do ano passado.
Há um número ainda mais sintomático: terminado o primeiro trimestre de
2007, o mercado percebe que os mainframes representaram 9,5% de todas
as vendas de servidores da IBM. Os números são recentes, mas a
tendência já havia sido indicada em uma outra pesquisa, esta realizada
pela Software Strategies, que indicava justamente a boa saúde dos
mainframes em 2007. Como fator para o “renascimento”, o estudo apontava
a capacidade de processamento, segurança e a flexibilidade de
utilização tanto para novas aplicações como para as tradicionais como
principais motivos.
Outro fator apontado pela Software Strategies é a crescente utilização de SOA como arquitetura universal para novos aplicativos de negócios. A dobradinha SOA/mainframe, ao que parece, vem se mostrando das mais eficientes e seguras tanto para aplicações como para bancos de dados. Todos estes números e pesquisas tem sido utilizados por fornecedores e analistas para apontar o “renascimento” do mainframe, o que demonstra, na verdade, uma visão distorcida deste mercado.
O mainframe não está renascendo porque, de fato, nunca morreu. Um olhar um pouco mais profundo sobre a trajetória do mercado mostra que houve, sim, um período em que uma determinada parcela do mercado estava desatendida por equipamentos de menor valor e se viu obrigada a recorrer a aquisição de mainframes. A questão era simples: determinadas aplicações ainda não eram suportadas a contento pelos servidores de plataforma baixa.
Para estas aplicações, apesar de superdimensionados, os mainframes eram a alternativa mais segura e eficiente. Com o tempo, as tecnologias aplicadas à plataforma baixa se desenvolveram e começaram a dar a estas empresas outras opções, mais baratas e tão eficientes quanto o mainframe. Houve então uma migração natural para estes equipamentos, agora dimensionados de acordo com a real necessidade de seus usuários. Este movimento fez com que muitos decretassem a morte do mainframe.
Na realidade, e o próprio mercado demonstra isso hoje, o mainframe não morreu, apenas retornou ao seu lugar de direito: um equipamento confiável e seguro para cargas de trabalho críticas. Está claro que a maioria das empresas usuárias de mainframe o vêem hoje como crucial para aplicações críticas e não abrem mão de sua disponibilidade e segurança.
O mainframe não está renascendo, mas ganhando o reconhecimento por aquilo para o que foi criado. Não há mágica nisso, é apenas o mercado ajustando-se às suas necessidades e encontrando a melhor solução para cada uma delas.
Maurício da Costa e Silva, CEO da Eccox S.A.