Machado De Assis Para Principiantes Download Em Pdf

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Hester Finizio

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Jul 18, 2024, 8:57:47 PM7/18/24
to pesourhaupo

Escrever sobre a produo de Machado de Assis no parece, num primeiro momento, uma tarefa divertida para as frias. O instante depois da deciso de pensar sobre a engenhosidade desse autor pode ser uma gota de suor frio a escorrer pelas tmporas, ou a confortvel certeza de que h outros, mais experientes, capazes de levar adiante tal intento e poupar o leitor dos eventuais deslizes dos principiantes.

Seria simples, ento, desistir do propsito ou, com o passar dos dias, adiar o certame e, ao final, engrossar o coro dos lugares comuns. Seria simples, no fosse a astcia de Machado e a potncia de sua obra, fluxo contnuo para experimentar novas possibilidades de pensamento, de vida.

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Afinal o que fazer aps a queda da gota no asfalto quente da hoje Rua do Riachuelo, a clebre Mata-cavalos? O que fazer com pensamentos que se estendem, se acumulam, neste janeiro de 2008, provocados pela leitura de um conto escrito nos idos de 1861?

A segunda vida mais um convite de Machado para que desfrutemos os prazeres de um voo ao desconhecido. Se aceito, alm de nos livrarmos do peso cannico que paira sobre o texto machadiano, garantimos a diverso de pensar sobre esse algo que nos prende histria de Jos Maria, mais um dos personagens defuntos de Machado, que se desdobra a cada nova leitura.

Amedrontado com a loucura de Jos Maria, monsenhor Caldas interrompe a narrao para pedir que o preto-velho, Joo, chame a polcia. A interrupo to abrupta quanto o incio do conto. O que vemos a narrativa dentro da narrativa, construda pelo dilogo entre Caldas e o protagonista.

O que segue a sequncia de infortnios decorrentes desse pedido. O desconhecido, fruto da inexperincia, ento revelado por Machado como o verdadeiro prazer da nossa humana condio. Mas para que o leitor perceba esta inteno, dissimulada no palimpsesto machadiano, preciso no se contentar com o que lhe oferece uma leitura apenas superficial do conto. Talvez a desconfiana seja o caminho para pensarmos em algumas das infinitas dobras desse texto.

Poesia e morte: por esses temas, o autor elabora sua resposta ao que nos desconhecido e constri outros dilogos, como o que nos remete condenao da poesia feita por Plato, no clebre dilogo entre Scrates e Glauco, no livro X da Repblica.

O que primeira vista parece contradio logo se apresenta como coerncia, se pensarmos na inteno de Machado ao criar conexes que atendessem ao seu propsito primeiro: dar uma resposta artstica a esse indefinvel algo que nos escapa, que constitui o discurso potico.

Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma famlia pobre, mal estudou em escolas pblicas e nunca frequentou universidade.[10] Para o considerado crtico literrio norte-americano Harold Bloom, Machado de Assis o maior escritor negro de todos os tempos,[11] embora outros estudiosos prefiram especificar que Machado era mestio,[12] filho de um descendente de negros alforriados e de uma portuguesa da ilha de So Miguel. Seus bigrafos notam que, interessado pela boemia e pela corte, lutou para subir socialmente abastecendo-se de superioridade intelectual e da cultura da capital brasileira.[13] Para isso, assumiu diversos cargos pblicos, passando pelo Ministrio da Agricultura, do Comrcio e das Obras Pblicas, e conseguindo precoce notoriedade em jornais onde publicava suas primeiras poesias e crnicas. Machado de Assis pde assistir, durante sua vida, que abarca o final da primeira metade do sculo XIX at os anos iniciais do sculo XX, a enormes mudanas histricas na poltica, na economia e na sociedade brasileira e tambm mundial. Em sua maturidade, reunido a intelectuais e colegas prximos, fundou e foi o primeiro presidente unnime da Academia Brasileira de Letras.[14]

A extensa obra machadiana constitui-se de dez romances, 205 contos,[15] dez peas teatrais, cinco coletneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crnicas.[16][17] Machado de Assis considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a publicao de Memrias Pstumas de Brs Cubas (1881).[18][19] Este romance posto ao lado de todas suas produes posteriores, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esa e Jac e Memorial de Aires, ortodoxamente conhecidas como pertencentes sua segunda fase, em que notam-se traos de crtica social, ironia e at pessimismo, embora no haja rompimento de resduos romnticos. Dessa fase, os crticos destacam que suas melhores obras so as do que se passou a chamar de "Trilogia Realista".[1] Sua primeira fase literria constituda de obras como Ressurreio, A Mo e a Luva, Helena e Iai Garcia, onde notam-se caractersticas herdadas do Romantismo, ou "convencionalismo", como prefere a crtica moderna.[20]

Sua obra foi de fundamental importncia para as escolas literrias brasileiras do sculo XIX e do sculo XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadmico e pblico para entender o Brasil e o mundo.[21] Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo Bilac, Lima Barreto, Drummond de Andrade, John Barth, Donald Barthelme e muitos outros. Ainda em vida, alcanou fama e prestgio pelo Brasil e pases vizinhos.[22] Hoje em dia, por sua inovao literria e por sua audcia em temas sociais e precoces, frequentemente visto como o escritor brasileiro de produo sem precedentes,[23][24] de modo que, recentemente, seu nome e sua obra tm alcanado diversos crticos, influenciados, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. Machado de Assis considerado um dos grandes gnios da histria da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Cames.[25] Machado de Assis e Ea de Queiroz so considerados os dois maiores escritores em lngua portuguesa do sculo XIX.[26][27][28] Foi includo na lista oficial dos Heris Nacionais do Brasil[29] e homenageado pelo principal prmio literrio brasileiro, o Prmio Machado de Assis.

Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, ento capital do Imprio, em pleno Perodo Regencial.[30][31][32] Seu pai foi Francisco Jos de Assis, mulato que pintava paredes, filho de Francisco de Assis e Incia Maria Rosa, ambos pardos.[33] A me foi a portuguesa Maria Leopoldina Machado da Cmara, branca, filha de Estvo Jos Machado e Ana Rosa.[33] Os Machado haviam emigrado para o Brasil em 1815, oriundos da Ilha de So Miguel, no arquiplago portugus dos Aores.[31][34][35] Ambos os pais de Machado de Assis sabiam ler e escrever, fato incomum na sua poca e classe social.[36] Ambos eram agregados da Dona Maria Jos de Mendona Barroso Pereira, esposa do falecido senador Bento Barroso Pereira,[37] que abrigou seus pais e os permitiu morar junto com ela.[30][31]

As terras do Livramento eram ocupadas pela chcara da famlia de Maria Jos e j em 1818 o terreno comeou a ser loteado de to imenso que era, dando origem rua Nova do Livramento.[38] Maria Jos tornou-se madrinha do beb e Joaquim Alberto de Sousa da Silveira, seu cunhado, tornou-se o padrinho, de modo que os pais de Machado resolveram homenagear os dois nomeando-o com seus nomes.[30][31] Nascera junto a ele uma irm, que morreu jovem, aos 4 anos, em 1845.[39][40] Iniciou seus estudos numa escola pblica da regio, mas no se mostrou interessado por ela.[41] Ocupava-se tambm em celebrar missas, o que lhe fez conhecer o Padre Silveira Sarmento, que, segundo certos bigrafos, se tornou seu mentor de latim e amigo.[30][31]

Em seu folhetim Casa Velha, publicado de janeiro de 1885 a fevereiro de 1886 na revista carioca A Estao, e publicado pela primeira vez em livro em 1943 graas Lcia Miguel Pereira, Machado fornece descrio do que seria a casa principal e a capela da chcara do Livramento: "A casa, cujo lugar e direo no preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era-o realmente: datava dos fins do outro sculo. Era uma edificao slida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criana, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dois portes enormes, um especial s pessoas da famlia e s visitas, e outro destinado ao servio, s cargas que iam e vinham, s seges, ao gado que saa a pastar. Alm dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso s pessoas da vizinhana, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sbados".[42] A vizinhana, de forte influncia catlica, frequentava a missa na capela; a casa era "uma espcie de vila ou fazenda",[38] onde Machado passou sua infncia.

Ao completar 10 anos, Machado tornou-se rfo de me. Mudou-se com seu pai para So Cristvo, na Rua So Lus de Gonzaga n 48. Seu pai viria a casar em segundas npcias, em 18 de junho de 1854, com Maria Ins da Silva,[43] mulata e lavadeira, mulher de grande corao que viria a ser o amparo da sua infncia.[44] Maria Ins cuidaria do menino aps a morte de Francisco, algum tempo depois.[45] Segundo escrevem alguns bigrafos, a madrasta confeccionava doces numa escola reservada para meninas e Machado teve aulas no mesmo prdio, enquanto noite estudava lngua francesa com um padeiro imigrante.[30] Certos bigrafos notam seu imenso e precoce interesse e abstrao por livros.[43]

Tudo indica que Machado evitou o subrbio carioca e procurou a subsistncia no centro da cidade.[46] Com muitos planos e esprito aventureiro, fez algumas amizades e relacionamentos. Em 1854, publicou seu primeiro soneto, dedicado "Ilustrssima Senhora D.P.J.A", assinando como "J. M. M. Assis", no Peridico dos Pobres.[47] No ano seguinte, passou a frequentar a livraria do jornalista e tipgrafo Francisco de Paula Brito. Paula Brito era um humanista e sua livraria, alm de vender remdios, chs, fumo de rolo, porcas e parafusos,[48] tambm servia como ponto de encontro da sua Sociedade Petalgica (peta=(), s. f. 1. Mentira, patranha).[49] Um tempo mais tarde, Machado se referiria Sociedade da seguinte forma: "L se discutia de tudo, desde a retirada de um ministro at a pirueta da danarina da moda, desde o d do peito de Tamberlick at os discursos do Marqus do Paran".[50]

No dia 12 de janeiro de 1855, Brito publicou os poemas "Ela" e "A Palmeira" na Marmota Fluminense, revista bimensal do livreiro.[47] Estes dois versos, reunidos junto quele soneto para a Dona Patronilha, fazem parte da primeira produo literria de Machado de Assis. Aos dezessete anos, foi contratado como aprendiz de tipgrafo e revisor de imprensa na Imprensa Nacional, onde foi protegido e ajudado por Manuel Antnio de Almeida (que anos antes havia publicado sua magnum opus Memrias de um Sargento de Milcias), que o incentivou a seguir a carreira literria.[51] Machado trabalhou na Imprensa Oficial de 1856 a 1858. No fim deste perodo, a convite do poeta Francisco Otaviano, passou a colaborar para o Correio Mercantil, importante jornal da poca, escrevendo crnicas e revisando textos.[47][52] Durante esta poca o jovem j frequentava teatros e outros meios artsticos. Em novembro de 1859, estreava Pipelet, pera com libreto de sua autoria baseada em Os Mistrios de Paris de Eugne Sue[53] e com msica de Ferrari. Escreveu ele sobre a apresentao:

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