RIOAclamado diretor de filmes como "Fama", Mississippi em chamas", "O expresso da meia-noite" e "Evita", Sir Alan Parker morreu nesta sexta-feira aos 76 anos, "aps uma longa doena", como informou um de seus representantes.
Nascido em Londres em 1944, Parker iniciou sua carreira publicitria como redator, passando em seguida para direo de comerciais. Em 1984, Bafta o homenageou com o Michael Balcon Award por sua excelente contribuio ao cinema britnico. Isso foi seguido, em 2013, pela prestigiada Bafta Fellowship. No entanto, Parker, que virou cavaleiro do reino em 2002, nunca foi homenageado no Oscar, apesar de ter sido indicado duas vezes para melhor diretor, por "Mississippi" e o "Expresso".
Apontado como um dos redatores publicitrios mais talentosos de Londres, Alan Parker trabalhou para a agncia Collet Dickinson Pearce (CDP) na dcada de 1960 e no incio dos 70 comeou a dirigir seus prprios roteiros. Ele deixou a CDP para se tornar um diretor de comerciais em tempo integral.
No entanto, assim como os contemporneos Adrian Lyne e Ridley e Tony Scott, Parker tinha ambies para a telona e, depois do filme de TV "The evacuees", estreou no cinema com "Quando as metralhadores cospem" (1976), um filme de gangster com crianas (entre elas, uma iniciante Jodie Foster) jogando tortas de espuma de barbear e disparando armas de mentira. Um projeto que ele mais tarde diria ao jornal "Guardian" ser "uma idia ridcula que realmente no deve funcionar".
Mas funcionou e chamou a ateno de Hollywood, que o contratou para dirigir um roteiro de Oliver Stone, "O expresso da meia-noite" (1978), filme que lhe rendeu sua primeira indicao ao Oscar. Logo em seguida, o musical "Fama" (1980), sobre um grupo de estudantes de artes cnicas, apaixonou uma gerao de jovens, enquanto seu trabalho subsequente, "A chama que no se apaga" (1982), veio em ntido contraste - era um drama sobre o colapso conjugal, estrelado por Albert Finney e Diane Keaton. No mesmo ano, Parker lanou "Pink Floyd - The Wall", filmagem de roteiro de Roger Waters, lder do Floyd, sobre as neuroses de uma estrela de rock, vivida pelo cantor Bob Geldof.
O diretor voltou a Hollywood com o drama da guerra do Vietn "Asas da liberdade" (1984), estrelado por Matthew Modine e Nicolas Cage; depois disso, veio o thriller cult "Corao satnico" (de 1987, com Robert de Niro como o diablico Louis Cyphre), e o thriller sobre a batalha por direitos civis nos EUA "Mississippi em chamas" (1988).
Adaptao de um romance de Roddy Doyle, "The Commitments" (1991) levou Alan Parker de volta aos musicais. Em 1996, ele dirigiu a cantora Madonna em uma verso cinematogrfica do musical "Evita", de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice. Em seguida, ele adaptou as memrias do irlands expatriado Frank McCourt em "As cinzas de ngela" (1999). Seu ltimo longa como diretor foi "A vida de David Gale" (2003), estrelado por Kevin Spacey.
Em 2005, Alan Parker publicou o livro "Will write and direct for food", um compndio de suas observaes muitas vezes satricas sobre como fazer filmes no Reino Unido e nos EUA. Em 2018, ele doou sua extensa coleo de roteiros e documentos de trabalho ao Arquivo Nacional do British Film Institute. Segundo uma porta-voz da famlia, o diretor passou a aposentadoria satisfazendo sua paixo por serigrafia e pintura. Ele deixa esposa, Lisa Moran-Parker, cinco filhos e sete netos.
Uma histria que marcou a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e que permaneceu aberta por quatro dcadas est chegando a seu final. No 41 aniversrio da morte de trs jovens ativistas no estado do Mississippi, um tribunal da cidade de Filadlfia condenou ontem Edgar Ray Killen, um ex-membro da Ku Klux Klan, por trs acusaes de homicdio culposo. O veredicto, no entanto, foi mais brando do que a promotoria desejava: o jri rejeitou as acusaes de homicdio doloso contra Killen, mas o considerou culpado por recrutar uma multido para matar os jovens.
Os assassinatos de Michael Schwerner, de 24 anos, Andy Goodman, 20 (dois ativistas judeus de Nova York), e James Chaney, 21 (sulista negro), em 21 de junho de 1964 mexeram com os americanos e com os movimentos de direitos civis. O crime no condado de Neshoba inspirou o filme "Mississippi em chamas", de 1988, com Gene Hackman e Willem Dafoe.
Sentado numa cadeira de rodas que usa desde um acidente em maro e respirando com a ajuda de um tubo de oxignio, Killen ouviu o veredicto sem demonstrar emoo alguma. Aos 80 anos, o pastor batista e ex-serralheiro foi imediatamente preso e pode ser condenado a 20 anos de priso, segundo a sentena que ser anunciada amanh. Mas seu advogado anunciou que vai recorrer.
Os promotores primeiro acusaram Killen de assassinato premeditado, mas embora houvesse provas de seu envolvimento no compl para matar os ativistas, no conseguiram comprovar a presena dele no momento das mortes. Por isso, acabaram acusando-o de homicdio culposo, uma acusao que o jri, formado por nove brancos e trs negros, aceitou melhor.
- O fato de alguns desses jurados terem vivido aqueles anos e no reconhecerem que (os casos) foram assassinatos indica que ainda h pessoas que preferem olhar para o outro lado, que escolhem no ver a verdade - disse Rita Bender, viva de Schwerner.
As trs vtimas ajudavam a registrar eleitores negros durante o "Vero da liberdade", em 1964, e investigavam o incndio de uma igreja pela KKK na Filadlfia. Os jovens chegaram a ser presos por excesso de velocidade - por um subxerife mais tarde condenado a quatro anos por envolvimento nas mortes. Aps serem libertados, seu carro foi perseguido pelos membros da KKK. Eles foram mortos a tiros e seus corpos foram encontrados 44 dias depois numa represa.
Dos 18 homens julgados um ano depois, sete foram condenados de trs a dez anos de priso, mas nenhum cumpriu mais de seis anos. Killen fora absolvido porque o jri chegara a um impasse: 11 membros queriam sua condenao, mas uma jurada se recusou a condenar um pastor.
Na ltima dcada, uma nova gerao de promotores, estimulados por novos depoimentos, pelas famlias das vtimas ou por memrias da juventude, reabriram alguns famosos casos da era da luta por direitos civis. Como resultado, em 1994 Byron de la Beckwith foi condenado pela morte em 1963 do lder de direitos civis Medgar Evers. Mais recentemente, o corpo de Emmett Till, um adolescente negro de 14 anos seqestrado e morto em Mississipi em 1955, foi exumado a pedido de promotores que reabriram o caso.
No caso dos ativistas, o processo foi reaberto aps surgirem novas provas, com a entrevista de um membro da KKK publicada no jornal "Clarion-Ledger". Novos depoimentos levaram acusao de Killen, em janeiro. A defesa admitiu a ligao do ru com a KKK, mas afirmou que ele no teve participao nos crimes, nem estava presente quando eles ocorreram.
FILADLFIA, Mississippi. Os nova-iorquinos Michael Schwerner e Andrew Goodman eram forasteiros que defendiam a integrao social e votos para negros. Mas no s eles eram vistos como forasteiros nessa cidade do Mississippi: outros como judeus e comunistas tambm eram. Quarenta e um anos depois, a tenso entre os moradores da regio e os chamados forasteiros ainda encontra ecos, enquanto eram julgados os assassinatos de Schwerner, Goodman e de um terceiro ativista de direitos civis, James Earl Chaney, de uma cidade prxima.
Esse um lugar onde restaurantes so decorados com fotos de netos dos donos, onde clientes de uma loja conhecem o problema de sade do proprietrio, onde um caso envolvendo a Ku Klux Klan - organizao racista que na dcada de 1920 chegou a ter dois milhes de membros - pode dividir famlias.
At o juiz Marcus Gordon e o condenado Edgar Ray Killen, so ligados: o pastor Killen oficiou os funerais dos pais do juiz. Mas ningum acusou Gordon de beneficiar a defesa. Para as pessoas essas conexes so inevitveis num condado pequeno como Neshoba.
Embora Stanley Dearman, ex-dono do semanrio local "The Neshoba Democrat", no acredite que relaes de bastidores tenham afetado o resultado do julgamento, acha que elas podem ter contribudo para o atraso de 40 anos na condenao.
- H o que eu chamo de poltica enraizada e isso tem muito a ver com o que acontece e no acontece - disse Dearman, lembrando-se de um chefe de polcia que se recusava a executar ordens de priso por medo de perder votos para o cargo.
Dearman tambm est indiretamente ligado ao caso. Killen disse que na noite das mortes estava num velrio - o de uma menina de 4 anos, filha de Carolyn Barrett, atual mulher de Dearman. Carolyn ainda tem o livro de condolncias com a assinatura de Killen e sua irm testemunhou a favor do ru.
Jornais locais dos anos 60 mostravam os defensores de direitos humanos como aventureiros, intrusos de cabelos compridos, sujos, em busca de problemas. Deborah Posey se lembra quando finalmente viu as fotos de Chaney, Goodman e Schwerner e ficou chocada como pareciam "pessoas normais".
Michael Schwerner e Andrew Goodman saram de Nova York para participar do "Vero da liberdade" em Mississippi, um projeto que visava a expandir o registro de eleitores negros no Sul dos Estados Unidos e que convidava jovens universitrios a ajudarem no programa, na virada de 1963 para 1964. O estado de Mississippi era um dos locais estratgicos para a campanha. Em 1962, apenas 6,7% dos negros no estado estavam registrados como eleitores - um dos menores ndices do pas.
Em Mississippi, o programa estabeleceu ainda cerca de 30 escolas da liberdade, para desenvolver a organizao comunitria. O ensino estava a cargo de voluntrios e o currculo inclua histria afro-americana e filosofia dos movimentos de defesa dos direitos civis. No vero de 1964, cerca de trs mil pessoas freqentaram essas escolas, que foram alvo freqente de grupos racistas. Naquele ano, cerca de 30 casas e 37 igrejas foram queimadas e 80 voluntrios foram espancados, numa onda de violncia que culminou nas mortes de Goodman, Schwerner e James Chaney.
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