É uma
vitória do Movimento Negro a imposição do 20 de Novembro em lugar do 13 de Maio
no calendário de celebração da luta contra a escravidão. A data que lembra a
assinatura da Lei Áurea omite que os ex-cativos foram jogados na marginalidade
do sistema produtivo.
Um século depois da Abolição, em 1992, o sambista Geraldo Filme lembra sua infância.
Nos anos 1930, em São Paulo, ele frequentava o Largo da Banana, um dos berços
do samba paulistano:
Lá no Largo da Banana, na Barra Funda... a rapaziada, o
ordenado era pequeno, o soldo era pequeno. Então, (...) por cada tantos cachos
carregados, eles ganhavam um. Então eles colocavam ali na praça para o comércio.
E na hora em que folgavam um pouquinho, eles armavam um samba.
A beleza
da arte negra surgindo em meio a tantas dificuldades não diminui a feiura da superexploração
que a inspira. No centro capitalista do País, parte dos miseráveis salários que
os negros recebiam era paga com a mais barata das mercadorias.
Desde então, a realidade mudou muito. Mas a injustiça social de corte racista persistiu.
Mais de 95% dos empregos criados nos últimos 10 anos são de qualidade e remuneração
baixas. A grande maioria de seus ocupantes são mulheres e jovens. Elas e eles, quase
todos negros.
Estes setores serão os maiores atingidos pela liberação da contratação terceirizada.
Também estão entre as principais vítimas das medidas neoliberais que vêm sendo
aprovadas pelo Congresso por iniciativa do governo.
E as vitórias da resistência negra continuam a ser ofuscadas pela tradição inaugurada
pela princesa branca. A da liberdade como punição.