Cícera Alves de Sena tornou-se parte das estatísticas que comprovam a necessidade de existir uma lei como a do
Feminicídio:
foi assassinada por seu companheiro ao ter a cabeça batida diversas
vezes no chão. Depois de morta, levou um tiro, tudo porque desconfiou de
uma ligação recebida pelo noivo em seu celular.
O
feminicídio foi
tido como corriqueiro inclusive pela mídia, que ajudou a disseminar o
estigma envolto no tipo de trabalho exercido pela vítima. Cícera, mais
conhecida como Amanda Bueno, era uma dançarina de funk que participou do
grupo Gaiola das Popozudas, do qual fazia parte também Valesca
Popozuda.
As manchetes traziam os dizeres: “Dançarina de funk é morta pelo
noivo”, ou “Dançarina de funk é assassinada”. A humanidade de
Cícera/Amanda foi-lhe retirada à força devido à sua profissão. Apesar de
parecer surpreendente aos ouvidos de alguns, ser dançarina é um
trabalho tão digno quanto qualquer outro. O problema é que Amanda
dançava funk, um estilo musical ainda visto com preconceito por parte da
população brasileira, principalmente por ser associado à cultura negra e
periférica.
Temos aqui um combo: além de ser mulher, ela subvertia os
estereótipos de moralidade impostos. Dentro de uma sociedades como a
brasileira, isso significa que há justificativa para qualquer tipo de
violência contra ela, já que Amanda não fazia parte do seleto grupo das
“mulheres que se dão ao respeito”.
Reportagens publicadas sobre o caso reduziram Amanda à sua
profissão, como se o fato de ela já ter dançado funk fosse relevante às
motivações de seu assassinato. Isso deu margem para que ocorresse uma onda de ódio propagada pelas redes sociais, culpando-a por ter ficado com um homem violento ou dizendo que ela mereceu por ser “vulgar”.
Nesse caso, emergem o elitismo e o eurocentrismo que permeiam a
rejeição ao funk, ao rap e ao hip-hop brasileiros, três estilos
musicais tratados como subculturas, das quais fazem parte os grupos mais
marginalizados do país: negros/negras, pobres e travestis.
A origem dessa mentalidade se encontra numa elite que lucra com o
turismo vendendo a imagem do País do funk, das bundas, das mulatas e do
samba, enquanto impõem à população uma cultura oposta, branca,
eurocêntrica e colonizada. A nossa origem negra/indígena é exaltada aos
gringos como “exótica” ao mesmo tempo em que, para nós, ela é suja,
vulgar e de mau gosto.
Em resumo: o Brasil é “modificado” para ser vendido para fora e
recebe, em troca, toda a bagagem que eles trazem consigo. Isso até
lembra a nossa colonização: nos exploram, humilham e desculturalizam. É
dessa maneira que o funk se torna, além de marginalizado, subordinado a
um suposto “bom gosto” baseado em costumes europeus.
Amanda Bueno, portanto, foi vítima não apenas do
feminicídio,
mas também de um País que não aceita suas raízes e, ao contrário, faz
de tudo para apagá-las ou associá-las a valores morais considerados
negativos.
Ela era “só” uma dançarina de funk, então estava "pedindo". Ela era
“só” uma dançarina de funk, então fez por merecer. Ela era “só” uma
dançarina de funk, então não era um ser humano digno de direitos e de
respeito.