Ialorixá de um dos terreiros de candomblé mais tradicionais do Brasil faz 90 anos de idade, equilibrando tradição e modernidade
Quatro dias atrás, Salvador
festejou as nove décadas de Maria Stella de Azevedo Santos. O nome
completo disfarça a identidade de uma das mais importantes líderes
religiosas do Brasil. É Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô
Afonjá, centenário terreiro de candomblé da capital baiana. À frente da
casa há 39 anos, a anciã impressiona pelo talento em zelar pelas
tradições e, ao mesmo tempo, ser agente da modernidade. Sacerdotisa de
um culto de transmissão oral, publicou livros. Representante de uma fé
perseguida pela intolerância, montou uma biblioteca multirreligiosa para
espalhar espiritualidade. No terreno do templo, preserva uma área de
mata fechada e abriga uma escola municipal, que ensina história e
cultura afro-brasileiras. Orienta devotos a não poluírem mar, rios e
florestas com oferendas não orgânicas. Chega aos 90 anos cheia de
alegria. E projetos. “A vida é bela, convém gozá-la”, declarou ao
“Correio da Bahia” às vésperas do 2 de maio de 2015.
Mãe Stella foi iniciada no
candomblé aos 14 anos. Recebeu o nome Odé Kayodê, que em iorubá
significa “o caçador traz alegria”. Assumiu em 1976 o terreiro fundado
por Eugênia Anna dos Santos, em 1910. É Mãe Aninha que dá nome à escola,
inaugurada em 1978. A unidade nasceu como creche. Em meados dos anos
1980, passou a oferecer ensino fundamental, até a 4ª série. Foi
municipalizada em 1998; hoje atende a mais de 300 alunos da vizinhança
de São Gonçalo do Retiro, no bairro do Cabula. É desde sempre reverente à
educação formal. Fez Escola de Enfermagem e Saúde Pública; trabalhou na
área por mais de 30 anos. Estimula todos os filhos de santo a “estudar
sem constrangimento”, disse numa conversa com a colunista, meses atrás.
A
ialorixá já lançou uma dezena de livros. Tem mais dois prontos e outro
tanto a publicar. Um dos primeiros, “Meu tempo é agora”, de 1993,
carrega no título a resposta à carga de resistência que sofreu dos
irmãos de fé. Líderes do candomblé condenavam o projeto de pôr no papel
explicações sobre mitos, histórias, rituais e símbolos da religião dos
orixás. Por tradição, alegavam, a transmissão do conhecimento era oral.
“Eles diziam: ‘no meu tempo não era assim’. Pois, meu tempo é agora,
respondi. Isso virou o nome do livro”, contou.
Já nos anos 1990,
antes da era da internet, Mãe Stella se preocupava com a multiplicação
de versões sobre orixás e rituais, resultado do aumento constante da
população. Quando ela nasceu, em 1925, o Brasil não tinha 40 milhões de
habitantes. Hoje, ultrapassa 200 milhões. O planeta Terra saiu de 1,7
bilhão para sete bi. É tanta gente que os livros podem ajudar a proteger
preceitos básicos da religião. Segredos e tabus continuam preservados.
“O que a gente não registra, o vento leva”, resumiu.
Há dois
anos, tornou-se membro da Academia Baiana de Letras. É a primeira mulher
negra da casa. Ocupa a cadeira 33, que tem o poeta Castro Alves como
patrono. Em 2014, inaugurou a Animoteca. A biblioteca itinerante circula
por municípios baianos com livros e vídeos sobre diferentes cultos.O
acervo tem a Bíblia, o Alcorão e o evangelho espírita de Allan Kardec. É
um libelo contra o preconceito religioso. “Não gosto da palavra
tolerância. Quem tolera não respeita. Prefiro respeito”, disparou.
Sábado
passado, o ‘povo do santo’, autoridades (incluindo o governador da
Bahia, Rui Costa) e artistas (Margareth Menezes, João Jorge e o Grupo
Olodum, Regina Casé e Estevão Ciavatta) estiveram no terreiro para
reverenciar Mãe Stella. A ela, vida longa.
Por Flávia Oliveira