Contraste entre texto e contexto
Marcelo de Mello
18.02.2015
15h58m
Quase tão cruel quanto a ditadura que assola a Guiné Equatorial é
o contraste entre texto e contexto no desfile da Beija-Flor de
Nilópolis, que cantou o país africano na Sapucaí. Se o regime de Teodoro
Obiang Nguema Mbasogo, há 35 anos no poder, merece o repúdio de
qualquer cidadão com um mínimo de bom senso, o que se viu na Passarela
do Samba quando a escola de Nilópolis passou foi admirável.
Do
ponto de vista estritamente carnavalesco, o desfile da campeã foi de
uma competência impressionante. O aspecto mais evidente são as alegorias
imponentes e as fantasias exuberantes, concebidas mais para demonstrar
poder do que para encantar. O samba-enredo, a meu ver, só não foi
melhor do que o da Imperatriz Leopoldinense, e a bateria veio numa
cadência mais lenta que a maioria, bem ao gosto dos puristas. O primeiro
casal de mestre-sala e porta-bandeira, Claudinho e Selminha, juntos há
mais de duas décadas, poucas vezes dançou tão bem. E todos os
componentes cantaram e evoluíram morrendo de fome de vitória.
Uma
pena que tanto talento tenha servido aos interesses de uma ditadura. E
não vale aqui o argumento da escola de que cantou a história, a arte e a
cultura, e não o regime. Embora isso seja verdade, Mbasogo teve o
gostinho de ver o país que comanda com mão de ferro associado a uma
beleza deslumbrante por milhões de espectadores no Brasil e no mundo.
Por mais consciente que fosse a plateia, diante do banquete para os
olhos e ouvidos que a azul e branco ofereceu, dificilmente evitou pelo
menos um segundo de relaxamento na justificável vigília contra a
incorreção política do enredo. O governo da Guiné Equatorial é corrupto,
a população sofre com a pobreza e a Anistia Internacional o acusa de
tortura, prisões arbitrárias e violações dos direitos humanos.
O
título foi justo? Sim e não. Sim, no texto, porque o desempenho da
escola em quase todos os quesitos em julgamento foi excelente. Não
porque, no contexto, melhor seria que a Beija-Flor usasse sua
competência em favor de causas nobres. Uma boa ideia seria a Liga
Independente das Escolas de Samba (Liesa) cobrar das suas filiadas que,
dada a repercussão do espetáculo, os enredos contribuam de alguma
forma para o enriquecimento cultural, a educação (política, inclusive) e
a conscientização da plateia em relação a questões de interesse
público. Mas aí haveria algo mal resolvido: banqueiros do bicho que
controlam a Liesa e mandam na maior festa nacional são os últimos a
ter autoridade moral para condenar o ditador africano. E isso é um
problema tipicamente brasileiro.