Contraste entre texto e contexto

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Romilson Madeira

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Feb 19, 2015, 6:58:49 AM2/19/15
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Contraste entre texto e contexto


Marcelo de Mello 18.02.2015 15h58m

Quase tão cruel quanto a ditadura que assola a Guiné Equatorial é o contraste entre texto e contexto no desfile da Beija-Flor de Nilópolis, que cantou o país africano na Sapucaí. Se o regime de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, há 35 anos no poder, merece o repúdio de qualquer cidadão com um mínimo de bom senso, o que se viu na Passarela do Samba quando a escola de Nilópolis passou foi admirável.

Do ponto de vista estritamente carnavalesco, o desfile da campeã foi de uma competência impressionante. O aspecto mais evidente são as alegorias imponentes e as fantasias exuberantes, concebidas mais para demonstrar poder do que para encantar. O samba-enredo, a meu ver, só não foi melhor do que o da Imperatriz Leopoldinense, e a bateria veio numa cadência mais lenta que a maioria, bem ao gosto dos puristas. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Claudinho e Selminha, juntos há mais de duas décadas, poucas vezes dançou tão bem. E todos os componentes cantaram e evoluíram morrendo de fome de vitória.

Uma pena que tanto talento tenha servido aos interesses de uma ditadura. E não vale aqui o argumento da escola de que cantou a história, a arte e a cultura, e não o regime. Embora isso seja verdade, Mbasogo teve o gostinho de ver o país que comanda com mão de ferro associado a uma beleza deslumbrante por milhões de espectadores no Brasil e no mundo. Por mais consciente que fosse a plateia, diante do banquete para os olhos e ouvidos que a azul e branco ofereceu, dificilmente evitou pelo menos um segundo de relaxamento na justificável vigília contra a incorreção política do enredo. O governo da Guiné Equatorial é corrupto, a população sofre com a pobreza e a Anistia Internacional o acusa de tortura, prisões arbitrárias e violações dos direitos humanos.

O título foi justo? Sim e não. Sim, no texto, porque o desempenho da escola em quase todos os quesitos em julgamento foi excelente. Não porque, no contexto, melhor seria que a Beija-Flor usasse sua competência em favor de causas nobres. Uma boa ideia seria a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) cobrar das suas filiadas que, dada a repercussão do espetáculo, os enredos contribuam de alguma forma para o enriquecimento cultural, a educação (política, inclusive) e a conscientização da plateia em relação a questões de interesse público. Mas aí haveria algo mal resolvido: banqueiros do bicho que controlam a Liesa e mandam na maior festa nacional são os últimos a ter autoridade moral para condenar o ditador africano. E isso é um problema tipicamente brasileiro.




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