https://www.youtube.com/watch?v=r693DBt7Qqw
Dois momentos interessantes do pensamento de Eduardo Galeano:
O vídeo "É tempo de viver sem medo" e um artigo sobre o Haiti que é bela reflexão sobre o racismo e serve para pensarmos este mal de forma global.
A história do Haiti é a história do racismo, artigo de Eduardo Galeano
Publicado em janeiro 23, 2010
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Ecodebate]
A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de
vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era
uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada
pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde,
ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores
militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente
Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por
voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de
querer um país menos injusto.
O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura
sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil
páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe
permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu
sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais
poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo
Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha
eleito nem sequer com um voto.
Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que
Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para
dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses,
não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que
é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos
pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os
professores dão o exame por perdido.
O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal
chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da
Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.
E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf,
consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país
mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a
Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro
quadrado.
Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado
pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos
pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está
superpovoado… de artistas.
Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.
A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até
1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as
dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia vender
as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de
Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a
raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem “uma tendência
inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização”. Um
dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos
antes a ideia sagaz: “Este é um povo inferior, incapaz de conservar a
civilização que haviam deixado os franceses”.
O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma
grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das
leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: “O açúcar seria
demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os
referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz
tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável
que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo
uma alma boa, num corpo inteiramente negro”.
Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os
escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros
eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza,
cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo
e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo
na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo
de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica:
“Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos”.
Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado
que o negro “pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o
papagaio que fala algumas palavras”.
A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de
Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à
raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados
Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio
milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco.
Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são
iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.
A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra
haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas
calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia
caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi
condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a
reconhecia.
O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem
de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia
podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a
Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo
haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a
única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não
havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas
depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as
costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas
à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.
Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do
fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio
francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos
porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o
Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que
destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida
francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França
uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito
da dignidade.
A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem
dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização
ocidental.
Eduardo Hughes Galeano