Discurso de Bento XVI no Congresso sobre a Imprensa Católica

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Alexandre Magno Brito de Medeiros

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Oct 20, 2010, 11:00:01 AM10/20/10
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Quinta-feira, 7 de outubro de 2010, a Canção Nova Notícias disponibilizou tradução não-oficial, de Leonardo Meira, do Discurso do Papa Bento XVI aos participantes no Congresso Internacional sobre a Imprensa Católica e Novas Tecnologias promovido pel Pontifício Conselho das Comunicações Sociais. Também existe tradução em português no site do Vaticano.

Seguem alguns extratos da fala do Papa Bento XVI. A tradução usada é aquela publicada pelo site do Vaticano. Eu tomei a liberdade de comentá-los. Se erro, por favor, tentem colaborar com acertos.

O desenvolvimento das novas tecnologias e, de modo particular, a difundida multimedialidade parecem pôr em discussão o papel dos meios mais tradicionais e consolidados.

Bento XVI cuidadosamente fala de "parecer pôr em discussão" porque pode-se incluir em "meios mais tradicionais e consolidados" até mesmo aquele meio principal que tem sido usado através dos séculos pela Igreja e por seu próprio Fundador: a pregação oral e direta, "de boca para ouvidos". Os novos meios parecem anular os efeitos obtidos por esse meio, cada vez mais.

A seguir eu desmembrei um parágrafo em três partes, para melhor apreciar o que o Santo Padre diz através dele.

A busca da verdade deve ser empreendida pelos jornalistas católicos com a mente e o coração apaixonados, mas também com a profissionalidade de agentes competentes e dotados de meios adequados e eficazes. Isto é ainda mais importante neste momento histórico, que requer que a própria figura do jornalista, como mediador dos fluxos de informação, realize uma mudança profunda.

Interessante notar que o tradutor - e quem sabe, o próprio Santo Padre - não usou a palavra "profissionalismo" (um "ismo"). Ele usou "profissionalidade". Pode parecer, para alguns, que a comparação nada tem a ver, mas isso me lembrou a(s) distinção(ões) que é/são feitas entre "homossexualidade" e "homossexualismo". É como que o sufixo "ismo", nesses casos, denuncia um valor menor.

Na citação acima, se na segunda oração do primeiro período ele fala de profissionalidade, competência e meios, é razoável ler na primeira oração "católicos com a mente e o coração apaixonados [por Cristo, pela Verdade]". Também por que logo em seguida o padre nos lembra algo que ele espera do jornalista (presumo: especialmente o católico): mediar os fluxos de informação de modo a realizar uma mudanças profunda (presumo também: na sociedade, e no modo de pensar da sociedade).

Leio assim, e não penso que deturpo as palavras do Santo Padre. Admiro a sinceridade dele, a qual faz "rirem" dele. Porque hoje em dia (mas já há muitos anos, e talvez há séculos), vem lá vem cá, torna-se moda uma auto-defesa sem cabimento, possivelmente sem consciência: afirmar que "ninguém quer fazer a cabeça de ninguém". Afirmação desonesta! (...) A afirmação honesta substituta, mesmo sendo ridícula para a idiotisse alastrada mundo afora, é preferível. Pois não é possível pregar a Verdade sem verdade. O Espírito Santo é o interessado por excelência em nos persuadir d'Ela, em refazer com a Verdade (com verdade) a nossa "cabeça corrompida". Ele tem seus meios; alguns existem exclusivamente para cada um de nós.

Hoje, por exemplo, na comunicação o mundo da imagem assume uma importância cada vez maior, com o desenvolvimento de tecnologias sempre novas; contudo, se por um lado tudo isto comporta aspectos indubitavelmente positivos, por outro, a imagem pode tornar-se também independente do real, pode dar vida a um mundo virtual com várias consequências, a primeira das quais é o risco da indiferença em relação à verdade. Com efeito, as novas tecnologias, juntamente com os progressos que elas proporcionam, podem tornar o verdadeiro e o falso intercambiáveis, podem induzir a confundir o real com o virtual.

Quero aproveitar as palavras acima, de Bento XVI, para rapidamente fazer link com as situações envolvendo campanhas difamatórias injustas, das mais variadas, aquelas que são realmente difamatórias injustamente. Já mencionei, em outro e-mail, a  grande eficiência de novas mídias para esse tipo de aplicação, principalmente daquelas envolvendo som, vídeo ou simplesmente imagens.

De que o Papa estaria falando quando falou que "a imagem pode tornar-se também independente do real, pode dar vida a um mundo virtual" e falou em "o risco da indiferença no confronto com o verdadeiro"?

Eu penso que ele inclui aí as mais variadas situações em que se faz uso de imagens para se propagar mentiras.
  • Nisso ele pode estar incluindo a difamação injusta (criminosa) de uma pessoa.
  • Nisso ele pode estar incluindo também, por exemplo, filmes fantasiosos que desorientem nossas crenças; sejam aqueles encontrados na prateleira ficção, na prateleira infantil, ou em outra.
  • Nisso ele pode estar incluindo o que acontece muito de "tele-jornais sensacionalistas" fazerem: deturpação.
  • Nisso ele pode estar incluindo o trabalho de "desconstrução" presente - muitas vezes discretamente - em programas de auditórios e reality shows que nos ofereçam "novos" critérios de julgamentos para situações práticas de nossas vidas.
Nisso ele pode estar incluindo isso tudo (ou muito do listado acima) ou muito mais!

Ou pode não estar incluindo conscientemente algumas dessas coisas, ou todas elas. Mas acredito que de uma forma ou de outra, estando o Santo Padre, ao pronunciar aquelas palavras, ciente de todas aquelas possibilidades (listadas acima) ou de muitas delas, ou mesmo de nenhuma delas, o Espírito Santo tenha incluído elas na mensagem que chega a cada um de nós. Acredito.

Mas acredito também, considerando a própria inteligência do Papa, na capacidade que ele tem de expandir significações. E é através  disso que acredito também que, mesmo ele tendo feito a exemplificação pontual (a seguir), ele considera muitas aplicações daquela percepção que teve logo antes dela (acima). Ou seja, não é por que em determinado momento ele resolveu se referir especificamente a "filmagens de acontecimentos" que as palavras anteriores perdem necessariamente abrangência.

Além disso, a filmagem de um acontecimento feliz ou triste pode ser vista como espectáculo, e não como ocasião de reflexão. Então, a busca de caminhos para uma autêntica promoção do homem passa em segundo plano, porque o acontecimento é apresentado principalmente para suscitar emoções. Estes aspectos soam sempre como um sinal de alarme: convidam a considerar o perigo que o virtual afaste da realidade e não estimule à busca do verdadeiro, da verdade.

Aqui Bento XVI quiz deixar um pouco de lado a abstração que fazia até a fala anterior. Isso não significa que a análise dele volta-se completamente ao contexto da filmagem de acontecimentos. O que ele fala sobre filmagem de acontecimentos é uma exemplificação que ele emendou no discurso, principalmente por estar falando a pessoas da "imprensa Católica", a quem interessa especialmente o que diz respeito a "coberturas de eventos" e outros trabalhos jornalísticos. Não é por isso que a aplicação a outros contextos, que fiz acima, da abstração dele, envolvendo imagens e tecnologias, torna-se desonesta. Não torna-se. Justamente por naquela altura Bento XVI ter feito "abstração".

Com o exemplo, o Papa quer chamar a atenção para um dos "frutos" do sensacionalismo que foca em suscitar emoções: colocar em segundo plano a busca de caminhos para uma autêntica promoção do homem. No meu entendimento, o sinal de alarme referenciado pelo Papa é: a "realidade virtual" criada pelo sensacionalismo entendido dessa forma afasta o homem da realidade viciando-o cada vez mais a não buscar verdade. O homem deixa de fazer questão pela verdade. Bento XVI não menciona nessa ocasião, mas isso também tem a ver com uma postura associada a utilitarismo e pragmatismo: "Se algo 'que parece informação' é útil e prático, nem que seja apenas para 'justificar' meu comodismo, então 'está muito bem', eu não preciso verificar se é verdade".

[...] a Igreja, Corpo místico de Cristo, presente contemporaneamente em toda a parte, alimenta a capacidade de relacionamentos mais fraternais e mais humanos, colocando-se como lugar de comunhão entre os crentes e ao mesmo tempo como sinal e instrumento da vocação de todos para a comunhão.

Com muita sinceridade o Papa fala, separadamente, de "comunhão entre os crentes" e (em outras palavras) de "chamamento de todos para a comunhão" - leia-se: chamar a "crer em Deus (Verdade)". Por que a Igreja coloca-se como lugar de comunhão "entre os crentes (na Verdade)", apesar de (genericamente) "alimentar" a capacidade de relacionamentos mais fraternais e mais humanos.
 
A sua força [da Igreja, Corpo místico de Cristo] é Cristo, e em seu Nome ela «segue» o homem pelos caminhos do mundo para o salvar do «mysterium iniquitatis», insidiosamente presente nele.

A força da Igreja é a Verdade. É com verdade que a Igreja acompanha o homem pelos caminhos do mundo, para salvar o homem do "mistério da iniquidade" que está presente no mundo.

Sobre esse mistério, encontramos em três parágrafos (385, 463 e 675) do Catecismo da Igreja Católica:

385. [...] «o mistério da iniquidade» (2 Ts 2, 7) só se esclarece à luz do «mistério da piedade» (259). A revelação do amor divino em Cristo manifestou, ao mesmo tempo, a extensão do mal e a superabundância da graça (260). [...]

463.
[...] todo o espírito que confessa a Jesus Cristo encarnado é de Deus» (1 Jo 4, 2). É esta a alegre convicção da Igreja desde o seu princípio, ao cantar «o grande mistério da piedade»: «Ele manifestou-Se na carne» (1 Tm 3, 16).


675. Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes (639). A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra (640), porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A suprema impostura religiosa é a do Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado (641).

A ideia de viver «como se Deus não existisse» demonstrou-se deletéria: o mundo tem necessidade sobretudo de viver «como se Deus existisse», embora não tenha a força para crer, caso contrário produzirá apenas um «humanismo desumano».

Leio também assim: Viver alienando-se da verdade é prejudicial. Os homens estão no mundo mas precisam da verdade. Se você vive como se a Verdade existisse (e ela existe!), você encontra verdade. Não adiantar achar que o homem pode verdadeiramente se beneficiar sem verdade.

Leia também o texto completo (via site do Vaticano): Discurso do Papa Bento XVI aos participantes no Congresso Internacional sobre a Imprensa Católica e Novas Tecnologias promovido pel Pontifício Conselho das Comunicações Sociais.

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Alexandre Magno
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