A caixa
Gunter Grass
Título original: Die Box
Tradução de Marcelo Backes
Rio de Janeiro: Record - 2013
Gênero: Romance alemão
Numeração: ausente, 222 p
Digitalizado e revisto por Virgínia Vendramini
Outubro de 2020
Contracapa
"Pois tudo teria sido mais doloroso, ora mais, ora menos constrangedor. Mas uma coisa é certa: até chegar ao fim, Mariechen fotografava, pouco importando a posição em que estava, até mesmo ao pular.
E se ela e sua câmera não tivessem existido, o pai saberia menos de seus filhos, o fio teria se rompido por vezes demais, seu amor não conseguiria abrir caminho pela porta traseira aberta apenas uma
fresta - por favor não a batam! - e não haveria histórias da câmara escura, nem as mais distantes, que até agora foram silenciadas, ou então apenas insinuadas: assim como durante a Idade da Pedra,
há estimados 12 mil anos, já que a fome imperava, os filhos e filhas podiam ser vistos formando uma horda, e - supostamente atendendo um desejo dele - abatiam o pai com seus machados, lavrados em pederneira,
e com cunhas de rocha abriam seu corpo longitudinalmente, arrancando seu coração, o fígado, os rins, o baço e o estômago, depois seus intestinos, e o trinchavam em pedaços para deixar peça a peça assar
aos poucos e ficar bem crocante sobre as brasas, ao que nas últimas fotos todos aparecem saciados e satisfeitos..."
ISBN 978-85-01-09285-4 788501 092854
Orelhas
Günter Grass expõe as feridas e lembranças de uma família, em uma narrativa quase experimental, sob a forma de transcrições de conversas entre oito irmãos, que, a pedido do pai idoso, começam a gravar
o que dizem a respeito da infância, seus fracassos, ressentimentos e o que mais emergir do passado. Nesse processo de resgate e acerto de contas, constantemente em meio a fartas refeições, os irmãos
percebem a presença constante de Marie, amiga e confidente do pai, um escritor premiado sempre envolvido com seu último livro. Marie, esteio firme diante de qualquer mudança, separação, novo casamento
ou reviravolta na vida dos pais, tirava fotos com uma câmara analógica, a Agfa, fabricada em formato de caixa. Uma máquina que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e aos incêndios de Berlim e que,
de algum modo, avança e retrocede no tempo. As fotografias de Marie eram especiais, capturavam imagens que ainda não existiam. Não se tratava de prever o futuro, mas de projetar sonhos, consequências
de atos impensados ou os mais profundos desejos: uma caixa de memórias e do porvir. Marie é a própria imaginação e tem a habilidade de evocar imagens e costurá-las em histórias, como uma musa do patriarca,
que questiona frequentemente a importância da sua escrita. Visto pelas reminiscências de seus descendentes, o pai vive uma existência paralela, sempre trabalhando
no sótão enquanto a família constrói uma rotina ao redor dele e as crianças se sentem supérfluas e solitárias. Esses sentimentos vêm à tona e transbordam em relatos tão humanos quanto familiares. Com
um texto cortante e preciso, o premiado e polêmico autor conjuga extremo domínio da linguagem e de sua arte, mantendo o leitor entregue à leitura, inteiro diante dos fragmentos dos personagens deste
livro. Uma leitura memorável.
Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1999, o alemão Günter Grass é autor dos romances O tambor- considerado uma das obras-primas da literatura europeia do século XX _, Um campo vasto, A ratazana,
Anos de cão, O linguado e Maus presságios. Há ainda a reunião de contos Meu século e o polêmico livro de memórias do autor intitulado Nas peles da cebola, ambos publicados pela Editora Record.
Virgínia Vendramini
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