Luiza Garnelo – Poder, Hierarquia E Reciprocidadeby Livr'Andante |

Luiza Garnelo - Poder, Hierarquia E Reciprocidade: Saúde E Harmonia Entre Os Baniwa Do Alto Rio Negro
Coerente com os modelos baniwa de organizar o universo, o livro de Luiza Garnelo, produto de sua tese de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trabalha com três círculos concêntricos - correspondentes às três partes que o compõem - e as conexões entre eles.
O primeiro, e o mais fundamental, se refere aos sentidos que os Baniwa atribuem ao seu mundo, o cosmos, e o lugar central que a doença ocupa nele. É a parte mais densa do livro, mas com bastante habilidade a autora apresenta ao leitor esse complexo mundo.
Não é uma descrição pura e simples do cosmos em sua relação com os mitos de criação, pois ela mostra que existe uma profunda conexão entre os atos de criação ou transformação pelos seres primordiais, as divindades, e a política.
A criação envolve a política; todo ato de criação envolve - como se fosse em troca - um ato de destruição, o lado negativo que geralmente é manifesto na doença. Esta foi introduzida no mundo nos primórdios da humanidade e é inerente à natureza da existência humana.
A própria divindade, chamada o Senhor das Doenças, é ao mesmo tempo a fonte e origem dos instrumentos sagrados mediante os quais a vida se reproduz e pelos , quais os humanos podem se destruir através da doença, geralmente atribuída à feitiçaria.
Todos os atos de criação elaborados nos mitos acontecem por intermédio de enredos políticos tramados entre os atores. São inúmeras as histórias de 'tribos' primordiais que ameaçam destruir a ordem e a harmonia desejada pelo Criador ou tentam impedir que tal ordem se reproduza.
O drama cosmogônico que acaba criando o eixo vertical do cosmos, associado à réprodução da ordem, é traduzido no mundo humano nas histórias políticas, relações de guerra, no comércio e matrimônio, os quais definem o eixo horizontal do mundo baniwa, as relações entre as fratrias e os sjbs Baniwa e outros povos - os Tukano, os Maku, os Maquiritare e outros do noroeste amazônico (alguns desses povos, como os Maquiritare, vivem na Amazônia colombiana).
Do mesmo modo que, no eixo vertical, a identidade humana só se define através de uma tensão constante com a alteridade, no eixo horizontal das relações entre grupos atuais, a história consiste de tramas políticas com os 'outros'.
Esses 'outros' abrangem desde os aliados e afins potenciais até os inimigos com quem faziam a guerra. Os afins potenciais representam uma ameaça particularmente ambígua porque, como ensinam os mitos, podem matar os parentes por meio de feitiçaria e doenças, mas, no entanto, são a fonte de bens e descendentes. São um mal necessário da vida.