É provável que as cartas de Sigmund Freud a seu amigo mais íntimo,
Wilhelm Fliess, constituam, isoladamente, o mais importante conjunto de
documentos da história da psicanálise. Sem que jamais houvesse intenção
de publicá-las, as cartas vão de 1887 a 1904, período que abarca o
nascimento e desenvolvimento da psicanálise. Durante os dezessete anos
da correspondência, Freud escreveu algumas de suas obras mais
revolucionárias: Estudos sobre a Histeria, A Interpretação dos Sonhos,
“A Etiologia da Histeria” e o famoso caso clínico de Dora.
Aqui apresentados, sem nenhum corte, acham-se 133 documentos nunca
trazidos a público anteriormente, e mais 139 antes publicados apenas em
parte. A tradução se baseia num texto alemão novo e corrigido e as notas
discretas auxiliam o leitor nas alusões difíceis, mas permitem uma
interpretação individual do material apresentado. É raro o criador de um
campo totalmente novo do conhecimento humano revelar, tão abertamente e
com tantos detalhes, os processos de pensamento que conduziram a suas
descobertas. Nenhum dos escritos posteriores tem o imediatismo e o
impacto dessas primeiras cartas, nem tampouco revela tão dramaticamente
os pensamentos mais profundos de Freud em pleno ato da criação. Aqui
vemos Freud esboçar e aperfeiçoar suas teorias, sentir a rejeição dos
colegas de ciência e vivenciar seu isolamento profissional. À medida que
a amizade com Fliess cresce e se aprofunda, os dois homens se encontram
periodicamente para trocar idéias e apoiar-se mutuamente em seus
esforços. Freud se volta cada vez mais para o amigo enquanto “platéia de
uma só pessoa”, mas, no final, é desdenhado também por Fliess.
Entremeados nas atividades intelectuais de Freud acham-se trechos
referentes aos acontecimentos do cotidiano — as artimanhas de seus
filhos, suas férias de longas caminhadas, suas preocupações financeiras e
seus esforços para deixar de fumar. Nenhuma biografia conseguiria
retratar tão integralmente o homem multifacetado que ganha vida no texto
dessas cartas.