Aquilino Ribeiro - Jardim das Tormentas - 1913.part1

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Dr. Mauricio Garcia

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Aug 5, 2020, 10:52:22 AM8/5/20
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SINOPSE

«Tinha Deus aposentado Adão e Eva no Jardim das Delícias, onde viviam como os mais desabusados regalões. O homem era esbelto e sólido, embora nunca houvesse exercitado os tendões da marcha, nem apurado os bíceps a colher o antílope no laço; ela um lambisco de primeira, esgalgada e especiosa, a quem os cabelos vestiam de oiro à maravilha, sem pensar na folha de parra para a nudez, num cinábrio para a boca, que de seu sinal era rubicunda. Não sabiam de onde eram, nem como estavam ali, nem tão pouco se importavam de saber, acharam-se dentro do horto uma boa manhã, e todas as demais manhãs, na plenitude de um gozo inapreciável, porque nunca espinho, sol mais destemperado ou hora amarga lhes ensinara que aquilo era o sumo bem. Se alguma coisa soubessem desejar, o seu Senhor provê-los-ia instantânea e abundantemente como o mais solícito mordomo; mas nem desejos nem cobiças, nem necessidades picavam os seus corações inocentes; não admiravam, porque tudo era admirável; júbilos, ternuras, esperanças não sentiam que Deus gerara a vida, mas ainda não concebera a morte. No céu, sempre azul, o sol trazia o dia, levava o dia, sem que sombras ou raios mais vivos ferissem as suas pupilas bem-aventuradas. Eram uns felizes felizardos, usufrutuários dum regalo tão sem balizas que não o sabiam avaliar, mas em que criam de boa fé porque assim lhes fora dito. De beatitude tão absorta, apenas um aviso de Deus os distraía, se a isso se chama distrair, numa punção doce, mais leve que a sombra dum reflexo de cuidado.»

Aquilino Gomes Ribeiro (Tabosa do Carregal, 13 de Setembro de
1885 — Lisboa, 27 de Maio de 1963) foi um escritor português.
É considerado por alguns como um dos romancistas mais fecundos da primeira
metade do século XX. Inicia a sua obra em 1907 com o folhetim "A Filha do
Jardineiro" e depois 1913 com os contos de Jardim das Tormentas e com o romance
A Via Sinuosa, 1918, e mantém a qualidade literária na maioria dos seus textos,
publicados com regularidade e êxito junto do público e da crítica.
 

Cronologia
 

  1885 - Nasce no Carregal (concelho de Sernancelhe) em 13 de Setembro. É
  baptizado na Igreja Matriz dos Alhais(Concelho de Vila Nova de Paiva).
  1895 - Frequenta o Colégio da Lapa. Faz exame de instrução primária.
  1900 - Entra no Colégio de Lamego, em Lamego. Estuda Filosofia em Viseu. Entra
  depois no Seminário de Beja, obedecendo a um desejo da sua mãe que queria
  fazê-lo sacerdote.
  1903 - Por falta de vocação, abandona os seus estudos durante a primeira parte
  do Curso Teológico no Seminário de Beja e fixa-se em Lisboa.
  1904 - Regressa a Soutosa.
  1906 - Vai para Lisboa. Colabora no jornal republicano A Vanguarda.
  1907 - Em parceria com José Ferreira da Silva escreve A Filha do Jardineiro,
  obra de ficção de propaganda republicana e de crítica às figuras do regime.
  1907 - Entra para a Loja Montanha do Grande Oriente Lusitano, em Lisboa, a
  convite de Luz de Almeida.
  1907 - É preso por ser anarquista na sequência de uma explosão no seu quarto
  na Rua do Carrião, a 28 de Novembro, em Lisboa, na qual morre um carbonário.
  1908 - Evade-se da prisão em 12 de Janeiro e durante a clandestinidade em
  Lisboa mantém os contactos com os regicidas, refugiado numa casa de Meira e
  Sousa, na Rua Nova do Almada, em frente da Boa Hora.
  1910 - Estuda na Faculdade de Letras da Sorbonne. Vem a Portugal após o 5 de
  Outubro e regressa a Paris, onde conhecera Grete Tiedemann.
  1912 - Reside alguns meses na Alemanha.
  1913 - Casa com Grete Tiedemann e regressa a Paris. Publica o livro Jardim das
  Tormentas.
  1914 - Nasce o primeiro filho, Aníbal Aquilino Fritz. Declarada a 1ª Guerra
  Mundial, Aquilino regressa a Portugal, sem ter terminado a licenciatura.
  1915 - É colocado como professor no Liceu Camões, onde ficará durante três
  anos.
  1918 - Publica A Via Sinuosa.
  1919 - Entra para a Biblioteca Nacional de Portugal, a convite de Raul
  Proença. Convive com o chamado grupo da Biblioteca onde pontificam Jaime
  Cortesão e Raul Proença. Publica Terras do Demo, e a primeira versão do seu
  conto "Valeroso Milagre" na Revista Atlântida (nº 32), cuja trama se passa no
  Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa, situado na sua freguesia
  natal,aquando das invasões francesas. É na Biblioteca Nacional que Aquilino
  Ribeiro é procurado por pessoas de suas relações para lhe mostrarem uma Acta
  do Regicídio.
  1921 - Integra a direcção da revista Seara Nova.
  1922 - Publica O Malhadinhas integrado no livro Estrada de Santiago, o qual
  inclui também uma nova versão do "Valeroso Milagre".
  1927 - Entra na revolta de 7 de Fevereiro, em Lisboa. Exila-se em Paris. No
  fim do ano regressa a Portugal, clandestinamente. Morre a primeira mulher.
  1928 - Entra na revolta de Pinhel. Encarcerado no presídio de Fontelo (Viseu),
  evade-se e volta a Paris.
  1929 - Casa com Jerónima Dantas Machado, filha de Bernardino Machado.
Em Lisboa é julgado à revelia em Tribunal Militar, e condenado.
  1930 - Nasce-lhe o segundo filho, Aquilino Ribeiro Machado.
  1931 - Vai viver para a Galiza.
  1932 - Volta a Portugal clandestinamente.
  1933 - Recebe o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa,
  pelo seu livro As Três Mulheres de Sansão.
  1935 - É eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.
  1946 - Publica Aldeia, Terra, Gente e Bichos.
  1951 - Publica Geografia Sentimental.
  1952 - Faz uma viagem ao Brasil onde é homenageado por escritores e artistas,
  na Academia Brasileira de Letras.
  1956 - É fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.
  1957 - Publica A Casa Grande de Romarigães.
  1958 - Publica Quando os Lobos Uivam. É nomeado sócio efectivo da Academia das
  Ciências de Lisboa. É militante da candidatura de Humberto Delgado à
  presidência da República.
  1960 - É proposto para o Prémio Nobel da Literatura por Francisco Vieira de
  Almeida, proposta subscrita por José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira,
  Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Mário
  Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta, Vergílio
  Ferreira, entre muitos outros.
  1961 - Vai a Londres e Paris.
  1962 - Nasce-lhe a primeira neta, Mariana, a quem dedica O Livro da
  Marianinha.
  1963 - É homenageado em várias cidades do país por ocasião dos cinquenta anos
  de vida literária. Morre no dia 27 de Maio. Nessa mesma hora, a Censura
  comunicava aos jornais não ser mais permitido falar das homenagens que lhe
  estavam a ser prestadas.
  1972 - É publicado o livro de memórias Um Escritor Confessa-se. Como escreve
  José Gomes Ferreira no prefácio Aquilino sabe mentir a verdade.
  1980 - Vila de Oeiras. um livro sobre a vila de Oeiras
  2007 - A Assembleia da República decide homenagear a sua memória e conceder
  aos seus restos mortais as honras de Panteão Nacional.
 

A obra
 

 
Assinatura de AquilinoA linguagem de Aquilino Ribeiro caracteriza-se
fundamentalmente por uma excepcional riqueza lexicológica e pelo uso de
construções frásicas de raiz popular, cheias de provincianismos.
Aquilino foi sobretudo um estilista e, por isso, a sua linguagem vernácula e sem
estrangeirismos é arejada, frequentemente condimentada nos diálogos com
expressões entre grotescas e satíricas.
Apesar de ter optado por uma literatura de tradição, Aquilino procurou ao longo
da sua vida uma renovação contínua de temas e processos, tornando-se assim muito
difícil sistematizar a temática da sua vastíssima obra.
Num número considerável de obras, Aquilino reflecte, ainda que distorcidas pela
imaginação, cenas da sua vida: o convívio com as gentes do campo, a educação
ministrada pelos sacerdotes, as conspirações políticas, as fugas rocambolescas,
os exílios.
Até 1932, ano em que fixa residência na Cruz Quebrada, todos os ambientes,
contextos e personagens que Aquilino cria, remetem para a sua querida Beira
natal. O Malhadinhas, Andam Faunos pelos Bosques e Terras do Demo constituem o
melhor exemplo desta situação. De facto, ver-nos-emos, com uma extrema
facilidade, envolvidos com as suas personagens beirãs, os seus costumes,
tradições e modos de falar típico. Aquilino Ribeiro como escritor não pode ser
enquadrado em nenhuma das escolas e tendências da sua época.
 

Obras
 

  Contos
 

  A Filha do Jardineiro (1907)
  Jardim das Tormentas (1913)
  Valeroso Milagre (1919)
  Estrada de Santiago, onde se inclui o Malhadinhas (1922)
  Quando ao Gavião Cai a Pena (1935)
  Arca de Noé I, II e III (todos de 1963)
  Sonhos de uma Noite de Natal (1934)
  Romances e novelas
  A Via Sinuosa (1918)
  Terras do Demo (1919)
  Filhas da Babilónia (1920)
  Andam Faunos pelos Bosques (1926)
  O Homem Que Matou o Diabo (1930)
  A Batalha sem Fim (1932)
  As Três Mulheres de Sansão (1932)
  Maria Benigna (1933)
  Aventura Maravilhosa (1936)
  S. Bonaboião, Anacoreta e Mártir (1937)
  Mónica (1939)
  O Servo de Deus e a Casa Roubada (1941)
  Volfrâmio (1943)
  Lápides Partidas (1945)
  Caminhos Errados (1947)
  O Arcanjo Negro (1947)
  Cinco Réis de Gente (1948)
  A Casa Grande de Romarigães (1957)
  Quando os Lobos Uivam (1958)
  Casa do Escorpião (1963)
  O Romance da Raposa (1959)
 

Na cultura popular
 

Televisão
 

  A série "O Dia do Regicídio" produzida pela RTP em 2008.
  O filme "Quando os lobos uivam" produzido pela RTP em 2008.
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