Os fios da memória
Adriana Lisboa
Editora Rocco, 1999
Gênero: romance brasileiro
Numeração: rodapé, 223 p
Digitalizado e revisto por Virgínia Vendramini
Março de 2020
contracapa
Posso afirmar que, de modo geral, fui feliz durante estes quase dois anos em que reduzi minhas fronteiras físicas aos muros que cercam esta casa. Não fiz coisa alguma além de tecer sonhos descompromissados
e errar poemas e compor descompromissos pelo jardim denso como se o tempo e a existência mesma fossem algo muito pouco precioso. No entanto, as coisas mudam. Hoje acordou-me a inusitada vontade
de contar uma história, uma história bastante específica. Decidi escrever para relatar a história singular de todos esses seres tumultuosos que me antecederam ou preferiram decretar-se
meus contemporâneos e que posso abarcar sob um epíteto pouco elucidativo: família."
Orelhas
Na mágica solidão de uma biblioteca que
ninguém mais freqüenta está Beatriz; esta é sua história e sua História. Sob seus olhos estão nomes incontáveis, muitos rostos, muitas datas. Muitas páginas. A memória desenrolada como um fio. Diários
de família (voluntariosos, desejando ser lidos a qualquer custo) tecem fantasias infinitas: remetem a antepassados obscuros e à época em que no país vigia a escravidão. A monarquia. Uma época em que barões
recém-inventados passeavam entre seus cafezais e, por esporte, deitavam-se com suas escravas. Também desenham personagens desimportantes, como Manoel Brasil, o mestiço forro que resolveu carregar
o país no nome. Ou "homens públicos" como Aureliano, ex-comunista cuja filha guerrilheira teve de fugir às pressas para o exílio. Retratam sonhos, como aqueles misteriosos de Domingos, que acreditava
em Deus, e delírios, como os Poemas para Susanna, que Manoel insistia em publicar. Elegem segredos, como o corpo de Catarina. À medida que vai tomando posse deles, Beatriz depara consigo mesma, no nível
familiar das relações cotidianas e também no que diz respeito à sua delicada inserção em outra complexidade (real ou fantasiosa?) chamada: Brasil. O que ela deseja, porém, é o processo (não o desfecho)
enquanto compõe suas... talvez memórias. "Cacos, pedaços gelatinosos de lembranças e híbridas reflexões? Inventário de imaturidades? Que coisa significam estas palavras em assembléia? É preciso que signifiquem
algo?"
Adriana Lisboa nasceu em 1970 no Rio de Janeiro e cresceu entre a cidade e a fazenda de sua família no interior do estado. Morou na França nas cidades de Paris e Avignon. Estudou música e trabalhou
como cantora, flautista e professora. Vive hoje no Rio de Janeiro com o marido e o filho. Este é o seu primeiro romance.
Virgínia Vendramini
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