As palavras ríspidas proferidas neste livro acerca de algumas das
principais figuras intelectuais da humanidade não são motivadas, quero
crer, por um qualquer desejo meu de as diminuir. Nascem antes da minha
convicção de que, para que a nossa civilização sobreviva, temos de
quebrar o hábito da deferência para com os grandes homens. (…) [Este
livro] Esboça algumas das dificuldades que a nossa civilização enfrenta –
uma civilização que podia talvez ser definida por almejar a humanidade e
a razoabilidade, a igualdade e a liberdade; uma civilização que está
ainda na sua infância, por assim dizer, e que continua a crescer apesar
do facto de ter sido muitas vezes traída por tantos dos próceres
intelectuais da humanidade. O livro tenta mostrar que esta civilização
ainda não se recompôs por completo do choque do seu nascimento – a
transição da sociedade tribal ou “fechada”, com a sua submissão a forças
mágicas, para a “sociedade aberta”, que liberta os poderes críticos do
homem. Tenta mostrar que o choque dessa transição é um dos fatores que
tornam possível a ascensão desses movimentos reacionários que têm
tentado, e continuam a tentar, derrubar a civilização e regressar ao
tribalismo. E sugere que aquilo a que hoje chamamos totalitarismo
pertence a uma tradição que é tão velha, ou tão nova, quanto a nossa
própria civilização.