
| Na
tradição do ser como olhar, que, ao ver-se, vê especulativamente toda a
realidade e numa realização-limite da ideia aristotélica de que só o
olhar incolor vê todas as cores, o De Visione Dei tem de ser lido no
duplo sentido de genitivo subjetivo e objetivo. No primeiro sentido, o
ver é absoluto, infinito, reflexivo e envolvente, abarcando tudo e
todos, permanente na mutabilidade das coisas vistas, criador, enquanto
“complicatio” e “explicativo”, dos seres-imagem, força “complicativa e
explicativa”, que une e separa, palavra, que é gerar e conceber, falar e
criar. Ao contrário da Unidade de Proclo, a unidade do Olhar Absoluto
ou da Visão de Deus, no sentido de genitivo subjetivo não exclui o
múltiplo mas desenvolve projetos de mundo como explicitações do Ver
Absoluto, que relativamente ao mundo é liberdade. No sentido do genitivo
objetivo, o De Visione Dei é o ver finito e múltiplo, a contração
limitativa e singularizada do Ver Absoluto, sempre presa do ângulo
parcial de uma perspetiva e, portanto, conjetural e mutável. É a
“explicatio” enquanto participação da pureza e simplicidade da
“complicatio”, é um ver plural, que é ser visto pelo mesmo Olhar
envolvente, é um olhar singular e coletivo, que jamais pode fugir à
incidência do Ver Absoluto. O Ver invisível do Absoluto manifesta-se nas
imagens teofânicas e, sobretudo, nos olhares finitos dos homens, que
acende, criando. O Ver Absoluto, ao fundar a visão de si no ver criado, é
por “complicatio” o próprio ser-visto pelo olhar do outro e se, uma vez
fixado na pintura, parece mudar com as nossas mudanças e seguir-nos
como sombra, nós é que somos as sombras vivas e as verdades mudadas e
agitadas pelo desejo, enquanto Deus é a coincidência da sombra e da
verdade, da imagem e do paradigma, como ensina o De Visione Dei. O
encontro destes dois olhares no duplo sentido do genitivo objetivo e
subjetivo é relação dialógica imagem-paradigma, pintura-pintor,
livro-autor, espelho conjetural – espelho do Olhar Absoluto,
iluminação-comunicação vinda do mais fundo da Luz, que é “muro” e noite. (Do prefácio de Miguel Baptista Pereira) | ||