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Uma das coisas mais preciosas que havia na cidade era o trem de passageiros Montes Claros / Belo Horizonte e vice-versa. Posso contar aqui uma série de passagens nossas nesse trem, tanto indo como voltando da capital.
Desde os cinco anos de idade eu viajava de trem com a minha família: pai, Zé Bitaca; mãe, Elvira; e uma penca de irmãos. Compadres e amigos também. Não é que eu seja antigo assim, mas já viajei de Maria-Fumaça. Uma vez só, ao que me lembro. Fiquei encantado com o apito estridente da máquina.
Mas logo a máquina a óleo chegou a Montes Claros e a viagem até a capital ficou mais breve. Durava em média 15 horas. Com a Maria-Fumaça eram 24 horas de viagem. O trem saía às 5h e às 5h do dia seguinte desembarcava os passageiros na Estação de Belo Horizonte.
Para a meninada tudo era festa, mas para os adultos era um deus-nos-acuda, inda mais porque tinham a responsabilidade de tomar conta das crianças, além de malas e mais malas.
Claro que não dá para contar muitas histórias duma vez e então vou me concentrar numa, anos à frente, quando fui prestar, sem sucesso, vestibular de Odontologia em Diamantina. Salvo engano, o trem saía de Montes Claros às 19h. Fiquei namorando até as 18h30 e saí correndo para casa a fim de pegar a mala e voar para a estação ferroviária.
Quando cheguei próximo do viaduto, pouco depois da passagem de nível da Rua São Francisco, o trem acabava de sair da estação. Parei e fiquei esperando a passagem dele por mim e foi a continha de segurar a mala com a mão direita e com a esquerda agarrar a alça do vagão de passageiros para tentar pisar no estribo da entrada do trem.
Fiz tudo direitinho. Ou quase.
Não contava com a velocidade crescente do trem e, com o peso da mala na mão direita e a mão esquerda agarrada na alça de entrada, mais a velocidade do trem que me fazia correr sem querer, eu não tinha força para arremessar a mala para dentro do vagão. Tropeçava nas britas colocadas na lateral da linha férrea.
Duas eram as opções, e eu precisa escolher uma, rapidamente: continuaria correndo, agarrado ao trem, ou soltaria a mão da alça do vagão? Por livre e espontânea pressão, tive que tomar a segunda opção. Larguei a alça do vagão e sem querer saí em desabalada carreira pisando nas britas, com a mala na mão direita, até me estrebuchar no chão.
Fiquei com os braços e as pernas esfolados, mas em compensação, evitei estragar a mala a mim emprestada por minha irmã Wanda com mil recomendações. Perdi o trem. Mas não o “trem” da mala.
Limpei a roupa da melhor maneira que pude e me dirigi ao ponto de táxi da Praça Francisco Sá, onde o antigo ex-ministro, que levou a ferrovia a Montes Claros, ganhou uma estátua, e na postura em que está parece ainda pronunciar a frase história sobre a cidade: “Coração robusto do sertão”. Tomei um táxi e pedi ao motorista para rumar, depressa, para Bocaiúva.
Cheguei lá muito antes do trem, em tempo de fazer surpresa aos colegas que pensavam antes de eu aparecer: “ele não é mineiro, perdeu o trem e o vestibular”.
Era muito bom debruçar na janela do vagão de passageiros e observar a paisagem que parecia passar rápida, mais do que o trem. Sentir o chacoalhar das rodas de ferro em contato com os trilhos, o balanceio dos vagões. Tomar cerveja no vagão do restaurante. Conhecer pessoas. Pessoas boas. Outras nem tanto.
Nunca me conformei com o fim do trem de passageiros Montes Claros / Belo Horizonte e vice-versa. Para dizer a verdade, achei isto uma estupidez. Trem é de grande economia e eficiência. Ainda mais hoje em dia, quando os trens modernos viajam a toda velocidade, como o “Trem Bala”, do Japão, que experimentei um dia.
Trem de ferro é mais eficiente do que caminhão. Caminhão desgasta rapidamente. Exige manutenção freqüente e cara, dos veículos e das rodovias, ao contrário do trem e da linha férrea.
Trem seria a melhor opção, principalmente para o nosso país, de extensão territorial comparável a de um continente. Além do transporte de passageiros, um vagão transporta mais cargas do que muitos caminhões juntos.
Quando o trem de passageiros apitava na estação, o da máquina a óleo, diferentemente do apito da Maria-Fumaça, repercutia no peito com força nostálgica. Sempre achei o apito do trem semelhante ao dum navio quando deixa o porto e navega rumo às águas da vida, quebrando as ondas do mar adentro.
Este causo foi enviado por: Por Alberto Sena - Jornal Norte de Minas
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Postado por Anderson Nascimento no CFVV - SUL DE MINAS em 12/11/2015 10:46:00 PM