You do not have permission to delete messages in this group
Copy link
Report message
Show original message
Either email addresses are anonymous for this group or you need the view member email addresses permission to view the original message
to opo...@googlegroups.com
COMPLEXO DE CHICÓ
por Dartagnan da Silva Zanela (*)
Se tem um trem que as pessoas na sociedade moderna gostam de se ufanar é das suas opiniões e, quando se vangloriam disso, fazem questão de destacar que as suas opiniões sobre tudo e sobre todos não são opiniões chinfrim; nada disso, meu amigo, elas são “opiniões críticas”.
Mas o que há de tão especial nisso para nos gabarmos? Como nos lembra o professor Gregório Luri, quando alguém começa a dizer que é muito crítica, a única coisa que esse abençoado está querendo dizer é que despreza e rechaça tudo aquilo que destoa dos seus pontos de vista e que irá tratar a pão de ló qualquer pataquada que esteja de acordo com tudo aquilo que ela supostamente pensa.
Ui! Eu escrevi que muitas pessoas supostamente pensam? Sim. Eu queria ver — ah, como eu queria — essas mesmas alminhas críticas realizarem um inclemente exame de consciência sobre suas formosas opiniões a partir de uma questão, tão simples quanto modesta, como essa: quantas das nossas amadas e idolatradas opiniões são apenas e tão somente a repetição de frases que nós ouvimos aqui e acolá? Tempo (tic-tac-tic-tac). Pois é. E essa é toda a criticidade das nossas mimadas opiniões.
Há muito tempo, José Ortega y Gasset, em seu livro “A rebelião das Massas”, nos chama a atenção para isso quando nos lembra, de forma lacônica, que uma opinião, seja ela crítica ou não, seria apenas um estranho que nos habita (lá ele). Só isso e olhe lá.
Ora, se nós afirmamos e defendemos algo que não sabemos claramente como chegou até nós, cujo fundamento somos incapazes de explicar e esmiuçar, como podemos dizer que esse trem seria o nosso ponto de vista? Complicado, não é mesmo?
E o mais engraçado nisso tudo é que todos os indivíduos que permitem que suas mentes e corações sirvam de caixa de ressonância para ideias, ideais e valores que não compreendem, exigem que as “suas opiniões” sejam respeitadas por todos, mesmo que eles nunca tenham se dado ao respeito de parar para matutar um pouco sobre o que estão falando.
Por essa razão, opiniões não foram feitas para serem respeitadas, muito pelo contrário: elas existem para serem discutidas e questionadas para, com o tempo, podermos superá-las.
*
(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.