[ARTIGO - DARTAGNAN ZANELA] - A SUTIL E PERIGOSA LINHA DA GALHOFA
0 views
Skip to first unread message
Dartagnan Zanela
unread,
Jul 16, 2026, 7:45:36 PMJul 16
Reply to author
Sign in to reply to author
Forward
Sign in to forward
Delete
You do not have permission to delete messages in this group
Copy link
Report message
Show original message
Either email addresses are anonymous for this group or you need the view member email addresses permission to view the original message
to opo...@googlegroups.com
A SUTIL E PERIGOSA LINHA DA GALHOFA
por Dartagnan da Silva Zanela (*)
O filósofo Cornelius Castoriadis dizia que a crença expressa pelas sociedades democráticas no poder do sufrágio universal seria similar à crença dos católicos na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento.
Ao lermos essas palavras do referido filósofo, podemos ficar um tanto aturdidos com o seu viés anarquista e um tanto anticlerical; porém, suas observações são, no meu entender, de grande relevância para melhor compreendermos os assim chamados “ataques à democracia”.
Dito isso, vem comigo: como todos nós sabemos, há muitíssimos casos de transubstanciação eucarística que foram cuidadosamente documentados, e o foram porque, antes de qualquer coisa, são submetidos a uma rigorosa série de exames. Aliás, este é o procedimento adotado pela Santa Sé quando o assunto são milagres. Trocando em miúdos, esse babado é levado muitíssimo a sério.
Agora, quando o assunto é a expressão cristalina da vontade popular através do sufrágio universal, nós podemos colocá-lo à prova? Podemos colocar em dúvida o poder dos votos dos cidadãos? Eis aí uma pergunta que há séculos é examinada por inúmeros filósofos, a partir dos mais variados prismas e pontos de vista.
Mas por que cargas d’água tantos filósofos questionaram — e questionam — a segurança da democracia? Ora, meu caro Watson, porque não são poucas as pontas soltas apresentadas pela história dos experimentos democráticos, e muitos são os descaminhos trilhados por tais experimentos; por isso, tais questionamentos não representam uma ameaça ao “Estado Democrático de Direito” — muito pelo contrário, eles são de fundamental importância para o seu aprimoramento.
Lembremo-nos: nenhuma instituição humana se fortalece se for mantida imune ao exame, em uma bolha asséptica.
De mais a mais, todo aquele que tem um conhecimento minimamente razoável sobre a história sabe muitíssimo bem que o questionamento é a principal ferramenta desenvolvida pela humanidade para o aprimoramento dos indivíduos e das instituições edificadas por nossas mãos através dos séculos. Se não houvesse dúvidas (que em sua época eram consideradas indevidas e inapropriadas), talvez não tivéssemos nos tornado uma nação independente - e mais ou menos soberana - não é mesmo? Ou, quem sabe, as ditaduras que assombram a história republicana brasileira poderiam ter durado muito mais tempo.
Enfim, por essas e outras que, como nos lembra Sócrates, uma vida que não se permite ser examinada é uma vida indigna de ser vivida; e isso, caríssimo, vale também para as obras, ações e instituições humanas.
Se não levantarmos dúvidas sobre as nossas instituições e a respeito de nós mesmos, e se virmos a mera possibilidade de crítica como um ataque, uma ameaça ou algo que o valha, é sinal de que algo morreu em nossa alma e que, com o tempo, levará à bancarrota tudo aquilo de mais elevado que foi forjado por mãos humanas através dos séculos.
E, como diria Stanislaw Ponte Preta, é bom ultrapassarmos de tempos em tempos a sutil e perigosa linha da galhofa, porque tudo aquilo que não pode ser satirizado, definitivamente, não merece ser levado a sério — nem um pouco.
*
(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.