[ARTIGO - DARTAGNAN ZANELA] - A VISÃO AQUÉM DO ALCANCE
1 view
Skip to first unread message
Dartagnan Zanela
unread,
Feb 12, 2026, 5:13:43 PMFeb 12
Reply to author
Sign in to reply to author
Forward
Sign in to forward
Delete
You do not have permission to delete messages in this group
Copy link
Report message
Show original message
Either email addresses are anonymous for this group or you need the view member email addresses permission to view the original message
to opo...@googlegroups.com
A VISÃO AQUÉM DO ALCANCE
por Dartagnan da Silva Zanela (*)
O ditado popular afirma que, em terra de cego, quem tem um olho é rei; porém, há quem desconfie de que, em terra de cego, quem tem um olho pode ser tido na conta de maluco. Bem, diante das duas possibilidades, algo me diz que a segunda seja a mais razoável.
Compreender qualquer coisa com um mínimo de profundidade sempre nos traz uma sensação de satisfação, porque dissipa as brumas que até então turvavam o nosso entendimento a respeito de um determinado assunto; mas também, de lambuja, projeta sobre nós a impressão de que uma fatia significativa das pessoas irá nos olhar de soslaio, como se fôssemos uma figura esquisita, para dizer o mínimo. E está tudo bem.
E está tudo bem porque conhecer não é repetir aquilo que nós e nossos semelhantes já sabemos. Aliás, fazer isso é apenas reforçar o senso comum que cultivamos e partilhamos com os demais. Conhecer é expor-se ao risco de equivocar-se e, equivocando-se, sentir-se obrigado a corrigir-se ou ser corrigido; e, como todos nós muito bem sabemos, esse é um trem danado de desconfortável.
Todo aquele que se esforçou para aprender algo sabe muito bem quantas e quantas vezes nós temos que, humildemente, repetir um exercício; quantas e quantas vezes precisamos reler um texto para realmente compreender algo com um mínimo de maestria. Como dizem os antigos, a repetição é a mãe do aprendizado. Ou, dito de outro modo: a insistência é a mãe dos bons hábitos, a perseverança é o pai da autodisciplina e, juntas, elas forjam o nosso conhecimento e, consequentemente, formam o nosso ser; pois, como os escolásticos nos ensinam, quanto mais eu sei, mais eu sou.
Tendo isso em vista, podemos dizer que a substancialidade do conhecimento que construímos em nosso ser é a medida do nosso caráter — ou da falta dele. Não tem lesco-lesco.
Detalhe importante: quando falamos que o nosso conhecimento é a medida do nosso ser, não estou me referindo à quantidade de títulos e diplomas que ostentamos; refiro-me, sim, àquilo que se encontra integrado à nossa personalidade e que transparece em nosso modo de agir.
Sim, eu sei — todos sabemos — o quanto nós, brasileiros, damos importância para os títulos, diplomas e canudos e, ao mesmo tempo, ignoramos soberbamente o conhecimento. Essa idolatria bacharelesca que impera nestas terras brasílicas, desde a aurora de nossa triste nação, fala mais a respeito da alma que anima a nossa cultura — ou a precariedade dela — do que qualquer outra métrica atualmente utilizada para avaliar os resultados obtidos pelo nosso sistema educacional.
No fundo — e não é tão fundo assim —, somos uma nação de diplomados iletrados que cobiçam vantagens, benesses e cargos, mas que raramente cogitam cortejar o conhecimento unicamente pelo valor intrínseco que ele tem. Por isso, em nossa sociedade, não são muitos os que ousam olhar para além dos olhos de nossos concidadãos e dos olhares dos nossos semelhantes.
*
(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros.