[ARTIGO - DARTAGNAN ZANELA] - COM QUANTAS GRACINHAS SE FAZ UMA DEMOCRACIA
0 views
Skip to first unread message
Dartagnan Zanela
unread,
Jul 30, 2026, 7:37:19 PMJul 30
Reply to author
Sign in to reply to author
Forward
Sign in to forward
Delete
You do not have permission to delete messages in this group
Copy link
Report message
Show original message
Either email addresses are anonymous for this group or you need the view member email addresses permission to view the original message
to opo...@googlegroups.com
COM QUANTAS GRACINHAS SE FAZ UMA DEMOCRACIA
por Dartagnan da Silva Zanela (*)
Uma frase que é repetida por inúmeras pessoas após um pleito eleitoral é aquela que, com todas as letras, afirma que o povo não sabe votar, e que esse seria o grande problema da nossa sociedade.
Aliás, sempre achei muito gozada essa mania pequeno-burguesa da esquerda engajada, da direita militante e dos isentões petulantes de fazer cara de desdém e dizer, com empáfia e nojinho, que o povo não sabe isso e não sabe aquilo.
Pois é, mas seria apenas o tal do povo — sempre ele — que não sabe votar? Para ser bem franco, eu mesmo não sei votar. Sim, sei muito bem apertar os botões das maquininhas de pililim que animam a festa da democracia brazuca, mas confesso que não sei escolher muito bem os nossos representantes.
Isso mesmo que você acabou de ler, cara-pálida. Desde que me conheço por gente, venho votando errado pelas razões certas e, de vez em quando, votando certo pelas razões erradas.
E tem outra! Não tenho a menor dúvida de que, provavelmente, irei votar errado novamente; mas tentarei, com sinceridade, não cometer os mesmos erros que já cometi nos pleitos anteriores — tentarei, mas, "sacumé", a carne é fraca.
Dito isso, voltemos ao ponto do conto. Todo pleito eleitoral é um trem encenado às pressas para chamar a atenção dos cidadãos; e essa encenação é, em grande medida, acertada e orquestrada em acordos firmados bem longe da vista de todos. Acordos esses que irão determinar os rumos da nossa nação. E aí, eis que vem a questão que não quer calar: quem de nós sabe o que foi acertado nestes acordos velados? Pois é.
Uns dizem que sabem muito bem o que foi acordado, mas, na real, estão apenas repetindo um monte de frases feitas e um punhado de bordões. Outros afirmam não apenas que sabem o que Cicrano fará se ganhar, mas também o que Beltrano fará se sair vitorioso; mas, na verdade, são apenas indivíduos que alegremente servem de câmara de eco para as opiniões prontas que são apresentadas pelos grupos interessados como contrainformação para animar esse picadeiro [nada]republicano.
Ah! E existem aqueles que sempre votam na mesma legenda, sem pestanejar, sem questionar, sem avaliar, porque, é claro, se consideram críticos — críticos demais para ponderar sobre a possibilidade de estarem redondamente errados.
Tendo isso em vista, penso que todos nós, pouco importa qual seja a nossa inclinação ideológica, deveríamos bater no peito e, com sinceridade e humildade, reconhecer que erramos muitas e muitas vezes nos pleitos eleitorais porque, como bem nos lembra Vilfredo Pareto, o universo político, por sua própria natureza, em muitas de suas facetas, é regido pelas inclinações irracionais que se agitam na alma humana.
Aliás, lembremo-nos de que Platão, com toda a sua sabedoria, apoiou duas aventuras políticas e, nas duas ocasiões, se ferrou de verde e amarelo; logo, se ele, com toda a sua fodereza platônica, errou, quem somos nós na fila do pão nosso de cada dia para jamais termos errado? Sei. Estou sabendo.
Por isso, digo e repito: que atire a primeira cédula quem nunca votou errado em sua vida; caso contrário, guardemos silêncio e reflitamos sobre a nossa abjeta covardia [depre]cívica de cada dia.
*
(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.