Sex, 11/03/2016 às 12:51
Luan Santos
Edilson Lima | Ag. A TARDE
Escritor João Augusto de Lima Rocha contesta versão do Regime Militar de que Anísio morreu em queda
Com base em laudos técnicos, exames cadavéricos, fotos e relatos, o escritor João Augusto de Lima Rocha, professor da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (Ufba), chegou à conclusão de que o educador baiano Anísio Teixeira foi assassinado em 1971 e não sofreu um acidente, segundo informa a versão oficial apontada pelo regime militar.
O relatório feito por Rocha foi apresentado na manhã desta sexta-feira, 11, quando se completam 45 anos do desaparecimento de Anísio, no auditória da Escola Politécnica.
O relatório traz provas de que Anísio foi morto e depois levado para o fosso do elevador de um prédio no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro - na versão do regime militar, ele caiu acidentalmente no fosso do elevador.
O trabalho de João Rocha será incluído no relatório feito pela Comissão da Verdade, que deve ser concluído e entregue, até o final deste mês, à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, que deverá investigar a autoria, motivação e demais detalhes do crime.
O relatório conclui que, com base nas fotografias do local do crime e no laudo do IML (Instituto Médico Legal), seria impossível Anísio Teixeira ter caído no fosso de um elevador. Segundo o laudo, a causa da morte de Anísio foi resultado do impacto sobre o lado esquerdo do crânio, que provocou uma fratura cominutiva, isto é, esmagamento ósseo, de abertura retangular externa de 3 cm por 4 cm.
Os óculos usados pelo educador, mesmo com o impacto tão forte na cabeça, permaneceram intactos e foram "suavemente depositados sobre uma das vigas de suporte do elevador", conforme o relatório.
"Considero que somente a última constatação seja suficiente para desfazer a versão oficial de que Anísio morreu em consequência de queda num fosso de elevador. Verifica-se que é absolutamente incompatível com as leis do movimento, o fato de os óculos ficarem intactos e na posição em que foram encontrados, após a suposta queda", disse Rocha.

Teixeira era considerado um dos mais importantes educadores do país (Foto: Divulgação)
O ex-deputado federal Haroldo Lima, sobrinho de Anísio, lembra que quando o tio sumiu, a família procurou o então governador da Bahia, Luiz Viana Filho, que informou que o educador havia sido detido pela Aeronáutica, mas que logo seria liberado.
"Então, é muito provável que ele tenha morrido sob tortura, sendo acrescidos ao corpo traumas posteriores, com o intuito de simular uma queda no fosso do elevador", aponta o relatório feito por João Rocha.
Outra prova trazida pelo documento é uma avaliação técnica apontando a impossibilidade de - levando em consideração a hipótese de queda - o corpo de Anísio ter passado entre duas vigas, num espaço de 20 centímetros, para atingir o fundo do fosso.
"Nosso objetivo é provar que ele não morreu na queda. Pelo visto, o contexto da morte de Anísio é, em muitos aspectos, assemelhado aos das mortes de Rubens Paiva, ocorrida em janeiro, e de Stuart Angel Jones, em maio do mesmo ano de 1971. Portanto, o roteiro de investigação do assassinato de Anísio pode ser montado a partir de caminhos abertos pelas duas últimas investigações", afirma Rocha.

Reprodução da página do laudo cadavérico de Anísio Teixeira