Antônia, usei o vermelho para comentar sua mensagem. Obrigada pela oportunidade que você me ofereceu para refletir sobre Educomunicação!
Almerinda
Eu sou fascinada por este tema das Comunidades Virtuais de
Aprendizagem. Desde 1998 estou aprofundando o conceito da
Educomunicação (aproximação intencional entre Comunicação e Educação
com o objetivo de ampliar o coeficiente comunicativo das relações). O
conceito vem sendo estudado e sistematizado pelo Núcleo de Comunicação
& Educação da ECA/USP e tem o professor Ismar de Oliveira Soares como
o principal expoente no Brasil e no mundo. O conceito é fruto da
Teoria da Recepção - teoria das mediações - oriunda da América Latina
desde os anos 70 e tem Jesús Martín-Barbero e Nestor Canclini como
principais estudiosos da área.
Antonia, se você está fascinada, eu mais ainda com o conceito de Educomunicação,
eu mais ainda. Explico: na graduação fiz Letras/4 Semestres de Comunicação/Letras (conclusão).
Daí me tornei professora de Inglês e de 2000 até hoje trabalho utilizando projetos de aprendizagem
de línguas em meio eletrônico; e pesquisei p/ meu mestrado em Linguística Aplicada (conclusão em 2004) a interação em um desses projetos
entre Taguatinga-DF e o Iran. Faço parte de uma rede de aprendizagem por projetos (iEARN) e continuo
estudando e desenvolvendo projetos com o uso de tecnologia.
em
O Professor Ismar fez um estudo no seu pos-doutorado com Rena Palloff
e Keith Pratt nos EUA estudando sua perspectiva e fazendo ligação com
a Educomunicação. Desde essa época, eu não deixei mais de ver os
estudos dos americanos como essência educomunicativa e tenho procurado
colocar essa perspectiva em tudo que faço, tanto que quero fazer meu
mestrado nessa área.
Estou quase em final de carreira como professora mas olhe, sua mensagem me surpreendeu de tal forma que se for continuar
meus estudos, gostaria que fosse nessa área, pois acredito que, por muitas práticas já realizadas e por minha abordagem de ensinar, acredito que sou uma Educomunicadora com grandes perspectivas de ampliar meus conhecimentos com a ajuda também das comunidades de aprendizagem como esta. Acredite que sua mensagem me trouxe inspiração.
A Educomunicação se materializa em algumas áreas de intervenção
social, tais como: Formação para a Comunicação, Expressão e Artes,
Mediação Tecnológica e Gestão da comunicação nos espaços educativos.
"No caso caso da educação a distância, o tema pode ser incluído na
área das mediações tecnológicas. A educomunicação distingue, contudo,
o conceito de mediação tecnológica do tradicional conceito de
tecnologia educativa, por entender este último demasiadamente
comprometido com a perspectiva funcionalista e mecanicista de
educação. Sobre outra ótica, incorpora o coneito de tecnologia
educativa sempre que seu destino compreenda a ampliação do coeficiente
comunicativo de todos os atores do processo educativo." (SOARES, 94
in: SILVA, 2006 - Livro Educação Online que tem Marco Silva como
organizador).
Você me ajudou a dar nome ao que eu faço: Gestão da Comunicação nos Espaços Educativos.
Na escola onde leciono (CILT) me chamam de Coordenadora de Projetos, mas sou mais que isso.
Tenho uma forte expeeriência em questões de mediação e comunicação. Explico: o último projeto internacional
que foi realizado, aconteceu com a presença de duas professoras estagiárias da Universidade de Queens
no Canadá. Toda a comunicação com elas e planejamento dos projetos das turmas de lá com nossas turmas
foi feita online e teve início em Setembro/2008. Elas passaram 3 semanas entre nós interagindo com nossos
alunos e professores. E a interação continua na Wiki que fizeram para acolher os projetos.
Soares fala da EAD como geradora de comunidades virtuais. Eu gostaria
de partilhar alguns pontos de suas reflexões a partir da perspectiva
de Palloff e Prat:
Os autores "examinam o problema das interrelações presentes no ato de
ensinar/aprender a distância. (...) O objeto de sua pesquisa é a busca
do coeficiente de comunicação existente nas relações que se produzem
em torno dos programas de ensino a distância. Suas perguntas mais
comuns são: como descobrir se os alunos estão ou não envolvidos com o
programa de estudos? Como avaliar a frequência com que se mantêm
conectados e qual sua efetiva participação? Como saber se os
estudantes estão ou não passando por dificuldades em entender o que
lhes é sugerido aprender? É possível perceber e seguir as emoções dos
estudantes no ato de aprender? Como devemos trabalhar com os conflitos
e os mal-entendidos que coma frequência surgem nas relações entre
professor (instrutor) e alunos? (e fundamentalmente,) Como se
articulam as relações - entre os participantes dos cursos e as
máquinas que operam? Entre o facilitador e os estudantes? Entre os
próprios estudantes?" (idem, p. 97)
A busca de coeficiente é um conceito matemático. Seria então uma pesquisa quantitativa?
Será que é possivel medir tal coeficiente? Seria possível medir o envolvimento dos alunos
com o programa de estudos? A frequência com que se mantém conectados já é detectada pelo
Moodle em minutos - há como medir. As outras perguntas têm a ver com o conceito de interação que por sua vez tem a ver com a aprendizagem colaborativa e há uma relção direta entre os dois conceitos: quanto maior a colaboração, maior será a interação. Isso porque a interação tem origem na identificação no conhecimento pessoal de cada participante ... quantas coisas não estou deixando escapar de mim mesma aqui nas entrelinhas do meu texto ???
Soares continua dizendo que buscando respostas a esses
questionamentos, os autores identificaram alguns aspirações comuns aos
que procuram EAD: "a expectativa de serntirem-se online (...) a
necessidade de comunicação ou de sentir-se conectadoi representa um
objetivo maior que o próprio conteúdo do curso a que estão
vinculados". (idem). Afirma que os autores americanos "acreditam que
os relacionamentos criados no espaço virtual podem ser mais intensos
emocionalmente do que as inibições criadas pela comunicação face a
face" e acreditam que o fator da comunicação gera o conhecimento mais
que o conteúdo transmitido.
Me fez lembrar Krashen e sua teoria do filtro afetivo - quanto mais baixo o filtro afetivo, mais descontraído o aluno
se sente para se comunicar. Em ambiente eletrônico, o filtro afetivo é consideravelmente mais baixo que em ambiente
presencial. Acredito que é importante se sentir online/conectados, talvez mais que o conteúdo do curso. Mas o que origina disso
é o aluno ser aceito por um grupo; ser parte; estar dentro de uma comunidade como em nossa época de adolescentes quando
era tão importante ser aceito pela turma.
O professor Ismar continua aprofundando os estudos de Palloff e Prat
também sob o enfoque da gestão de processos comunicacionais (outra
área da educomunicação) que exige um profissional (educomunicador) que
responda às perguntas formuladas anteriormente. Para Soares uma
pergunta básica e fundamental nesse processo é "como evitar que seu
empreendimento seja tão somente um projeto de marketing educativo
visando o lucro fácil e rápido, convertendo-o num efetivo sistema
comunicativo facililitador do processo de construção do
conhecimento?" (idem, p. 99). Ismar diz que os autores respondem a
essa questão falando da maneira como os gestores concebem suas
relações com os cursistas e defendem "um fluxo livre e interativo de
aprendizagem".
Trabalho atualmente coordenando um projeto da Adobe chamado "Criando com proposta"( creating with purpose). Utilizamos
os programas de foto e vídeo que nos mandam atualizados há dois anos. Os professores treinados desenvolvem com suas turmas amostras de mídias com a utilização dos softwares e trocam disponibilizam tanto na comunidade Adobe quanto em outro recurso como o Youtube. Quando li sobre projeto de marketing, claro que pensei que dentro dos projetos ditos "educativos" há os que tentam unir os interesses comerciais aos educacionais. Como evitar eu não sei. Mas acredito que dependendo dos programas, há como conciliar propostas sérias com práticas eficientes de profissionais sérios, responsáveis e comprometidos com a causa maior da educação que é a construção do conhecimento.
Após uma reflexão sobre a redefinição de comunidades virtuais, Soares
diz:
"As experiências de Palloff e Prat demonstram que as comunidades
virtuais seguem o caminho semelhante ao percorrido pelas comunidades
presenciais: elas se formam, criam normas, entram em conflitos, se
desenvolvem e se reestruturam. Os autores chamam a atenção de que os
conflitos são necessários para consolidar atais comunidades, pois
possibilitam que as pessoas se posicionem e busquem elementos de
conciliação de seus interesses.(...) Outro benefício do conflito é o
auxílio que prestam ao próprio processo de aprendizagem."( idem, p.
100)
Os conflitos podem auxiliar na construção do conhecimento. É pela argumentação e pelas
relações dialógicas que aprendemos e ampliamos nossos conceitos e nossa aprendizagem.
Para Soares a proposta desses autores é essencialmente construtivista
e educomunicativa, pois "enfatiza o senso de participação, o pleno uso
dos recursos tecnológicos da informação, a autonomia dos sujeitos, o
espírito de iniciativa, o pensamento crítico, o diálogo colaborativo e
o compromisso com o crescimento conjunto de todos os membros da
comunidade virtual.(...) Soares defende que o educomunicador, por já
ter dado extrema contribuição à preparação e lançamento do curso, pode
agora, "agir como gestor de processos comunicativos, incentivando a
participação de todos e promovendo ambientes de descontração quem, em
certas circunstâncias, levarão a desvios de atenção em relação a
conteúdos específicos dos cursos, sempre úteis se o objetivo for
permitir a permanência do interesse de todos no processo de
aprendizagem." (idem, p. 101)
Pela minha experiência como aluna virtual, percebo que poucos ainda entendem a questão de " compromisso com o crescimento
conjunto da comunidade virtual". Os diálogos acontecem, mas nem sempre todos os alunos são "abertos mentalmente" para receber e oferecer da mesma forma. As participações podem melhorar nesse aspecto dependendo como/o quanto o tutor
estimula. Há uma melhora, entretanto o que eu percebo é que o tempo é curto para estabecermos laços, cultivarmos a interação. Falo por mim mesma, pois nem sempre tenho tempo disponível para ampliar minhas relações nos ambientes dos cursos online.
Quis partilhar essas citações com vocês por acreditar que a
contribuição dos autores americanos enriquecem o conceito
educomunicativo e pode proporcionar a vivência de comunidades virtuais
de aprendizagem pautadas na negociação de sentido e conteúdos, na
valorização das contribuições dos aprendizes e na democracia
construída conjuntamente entre os atores do processo formativo. Isso
porque a educomunicação é democrática, dialógica e interdiscursiva.
Antônia, acredito não falar muito adequadamente sobre os tópicos pois sou educadora, mas não da área da educação em si. Agora, como educomunicadora, o que eu acho é que esses estudos Palloff, Prat e Soares ampliarão nossos conceitos das relações online. Como você, também gostaria de saber mais sobre tais conceitos que, certamente, irão auxiliar nos novos modelos/planejamentos de cursos a distância e mesmo os presenciais. Afinal, a comunicação perpassa todas as áreas profissionais e contribuem para relações mais voltadas ao respeito aos seres humanos.
Obrigada
Almerinda Garibaldi
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Almerinda Garibaldi
iEARN-Brasil
Educadores Globais
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