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Fábio Silva (ou Henrique),
...acho que o texto abaixo, é oportuno, isento, e só reforça o que comentamos, acho que é o equilíbrio - dê só uma olhadinha.
PALAVRAS SEM FRONTEIRAS
EMPRÉSTIMO DE TERMOS ESTRANGEIROS PODE EVITAR "AUTISMO" LINGUISTICO DE UM INDIOMA
Muito se combate a penetração de palavras estrangeiras na nossa língua. Se até certo ponto esse combate se justifica, todo radicalismo, como exigir o banimento puro e simples de todo e qualquer termo estrangeiro do idioma, cheira a preconceito xenófobo, fanatismo cego e, mais ainda, ignorância da real dinâmica das línguas. Antes de lançar ao fogo do inferno tudo o que vem de fora, é preciso tentar compreender sem paixões por que os estrangeirismos existem. Se olharmos atentamente para todas as línguas, veremos que nenhuma tem se mantido pura ao longo dos séculos: intercâmbios comerciais, contatos entre povos, viagens, grandes ondas migratórias, disseminação de fatos culturais, tudo isso tem feito com que as línguas compartilhem palavras e expressões. Até o Islandês, que, para muitos, é a língua mais pura do mundo, sem nenhum termo de origem estrangeira, é na verdade um idioma altamente influenciado por línguas mais centrais e hegemônicas. O que ocorre é que o Islandês traduz os vocábulos que lhe chegam de fora, usando material nativo. Mas, sendo a Islandia um país bem pouco industrializado e bastante periférico em termos culturais, é natural que seja muito mais um polo atrator do que disseminador de criações culturais - e de palavras. No Islandês, os estrangeirismo estão apenas camuflados. Aliás, a política oficial do país de traduzir todas as palavras estrangeiras (eles contam até com uma academia especializada em propor essas traduções, chamadas "decalques") beira o ridículo e a esquizofrenia eugenista. Por exemplo, chamar telefone de sími (antiga palavra vernácula que significa "cabo") é querer que a língua se mantenha uma espécie de código secreto. Afinal, em viagens pelo mundo, é reconfortante reconhecer vocábulos familiares como "telefone", "hotel", "restaurante", táxi", "hospital", ainda que ligeiramente modificados pela fonética e ortografia do país que visitamos. Reconhecer "universidade" no polonês uniwersyter ou "polícia" no Indonésio polisí facilita muito as coisas. Quem viaja vai concordar comigo de cara. Portanto, quando se trata de discutir uma política de proteção do idioma contra uma suposta "invasão bárbara", é preciso, em primeiro lugar, compreender que nenhuma língua natural passa incólume às influências de outras línguas, e que isso, na maioria das vezes, é benéfico tanto para quem exporta quanto para quem importa palavras. Toda língua se vê enriquecida com contribuições externas, que sempre trazem novas visões de mundo, por vezes simplificam a comunicação e, sobretudo, tiram o idioma de uma situação de "autismo" lingüístico. Assim como viajar para o exterior é saudável e enriquecedor, acolher em nossa terra influências externas (na culinária, moda, música, tecnologia e, por que não, na língua) tem o mesmo efeito salutar. Dando por assentada a questão de que o empréstimo de palavra estrangeira é um fenômeno legítimo da dinâmica das línguas e, acima de tudo, inevitável, cabe então distinguir quando um empréstimo é necessário ou não, quando é oportuno ou inoportuno. Afinal, uma coisa é a introdução em nossa sociedade de um novo conceito (por exemplo, uma nova tecnologia, um fato social inédito, uma nova moda) que, por ser originário de outro pais, chegue até nós acompanhado do nome que tem na língua de origem. Foi assim com o whisky (ou uísque), a pizza, o futebol (e os nomes das posições dos jogadores, depois traduzidas para o português), a informática (a campeã de broncas), e assim por diante. Outra coisa é dar nomes estrangeiros a objetos que já têm nome em português, como chamar "entrega" de delivery ou "salão de beleza" de esthetic center (que muitos donos de salões, por ignorância da língua inglesa, girafam sthetic, stethic ou coisa pior). Os empréstimos oportunos acabam algumas vezes traduzidos ou aportuguesados, outras vezes não. Mas, se eles existem na nossa língua, é porque somos grandes importadores de objetos e fatos culturais inventados por outros povos. Ou seja, importamos palavras mais do que exportamos porque, no fundo, somos pouco criativos em matéria de tecnologia ou cultura, exceto talvez na música e, no esporte, capoeira e alguma coisa de futebol. “Moda” Criticam-se muito os estrangeirismos na língua, em particular no comércio, e muitos culpam uma suposta classe média emergente por querer associar-se a signos de status, como, por exemplo, palavras em inglês - Mas será que as lojas estampam sale em lugar de "liquidação" e off em vez de "desconto" por uma pressão da clientela, que só compra nessas lojas se a vitrine estiver em inglês? Ou será que foram os lojistas que inventaram essa moda besta de escrever tudo em inglês? Que me conste, o freguês – o “bom” freguês - deseja produtos bons e baratos, pouco importa se eles estejam sendo vendidos com desconto ou off price. E se compra é porque entendeu. Na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, existe um shopping center chamado New York City, que tem até uma réplica da Estátua da Liberdade (o que faz todo o sentido). As estatísticas não indicam que o afluxo a esse shopping seja maior do que a outros da cidade só por causa da sua aura "ianque". Tampouco me parece que esthetic centers tenham mais clientela do que salões de beleza convencionais. Pelo menos a mim o que interessa é que o hairstylist - quer dizer, o cabeleireiro - seja competente e, de preferência, não muito caro. Ou seja, essa história de sale, off e outras patacoadas do gênero parece ser invenção de comerciantes desinformados, que acreditam aumentar os lucros com tais macaquices (azar o deles). O máximo que a maioria dos clientes faz em relação a isso é não fazer nada (ninguém vai deixar de comprar numa lojá só porque o letreiro está em inglês, a menos que seja um nacíonalista à moda do Policarpo Quaresma de Lima Barreto). E aí todos nós ficamos com a pecha de bregas, macacos, subservientes ao capitalismo global e toda aquela lengalenga pra lá de conhecida. Mas não estarei eu sendo ingénuo em afirmar que nenhum consumidor se sente atraído por letreiros e anúncios em inglês? Sem dúvida, há aqueles emergentes (tolos) que, tendo subido de classe graças ao desenvolvimento do país e aos programas sociais do governo, são atraídos por esses sinais fúteis e enganosos de status. Eu mesmo conheço algumas pessoas assim. São, em geral, indivíduos de um nível cultural bem baixo (ainda que tenham um alto poder aquisitivo) e, por isso mesmo, altamente manipuláveis pelas estratégias de marketíng. E aqui chego ao ponto chave da questão: o emprego desses estrangeirísmos estapafúrdios no comércio apela ao nosso "espírito de colônia", àquele mito altamente enraizado em nossa cultura de que tudo que é estrangeiro é melhor e, portanto, mais digno das pessoas de alto nível. “O canto da Sereia”
Mas insisto no ponto de que essa tendência a idolatrar as palavras estrangeiras e usá-las maciçamente para vender surge da indústria e do comércio, não de uma reivindicação dos próprios consumidores. O marketing, braço armado do capitalismo e de sua ética do vale-tudo em busca do lucro, é quem cria nas pessoas o desejo por coisas de que elas efetivamente não precisam. Portanto, não são os clientes das lojas que exigem que a vitrine estampe sale e 50% off, são as lojas que utilizam esses artifícios como “canto da sereia” para atrair (poucos) consumidores pouco críticos e, portanto, vulneráveis a esse tipo de apelo. Mas existe um outro fenômeno, tão ridículo em sua artificialidade quanto chamar "liquidação" de sale ou "desconto" de off: é o excesso de purismo. Muitos textos, especialmente sites do governo ou blogs de professores de português, trazem "sítio" em vez de "site", "câmpus" em lugar de "campus" (assim mesmo, com circunflexo), "doçaria", "leitaria", "carroçaria", "joalharia", além de "linque", "blogue", e assim por diante. Grande parte dessa paranóia purista vem sendo incitada por aquilo que Marcos Bagno chamou, em seu livro Preconceito Linguistico: O que é, Como se faz, de comandos paragramaticais: professores de português (multi)midiáticos, consultores gramaticais, autores de manuais, colunistas de revistas, rádio e TV que, partindo do pressuposto de que "brasileiro não sabe falar português", se propõem corrigir a fala "espúria" do nosso povo prescrevendo arcaísmos e o aportuguesamento de termos estrangeiros que não têm a menor chance de prosperar. Pegam carona nisso para atacar sua real preocupação que é a anglofobia. Ora, em questões de língua, como em tudo mais na vida, a virtude está no meio: nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Portanto, não se deve adotar nem uma postura de servilismo ao que é estrangeiro nem uma atitude chauvínísta em relação ao que é nacional. Afinal, o purismo linguístico é algo tão írrítantemente pedante quanto o estrangeirismo mercadológico, o gerundismo e outros tantos ismos.
(não sou só eu que acho isso não)
ALDO BIZZOCCHI é doutor em linguística pela USP e autor de Léxico e Ideologia na Europa Ocidental (Annablume) e Anatomia da Cultura (Palas Athenas)
Fonte: Revista - "LINGUA Portuguesa", 58 ano 5 (agosto de 2010) - recomendo a todos
E como já dissemos - com relação a ter medo só do inglês, a anglofobia - existem muitos países, mas, muitos mesmos, que amam tanto seu idioma como nós amamos o nosso, que usam o idioma inglês como um todo, como sua segunda língua, e nem por isso, nestes anos todos, aconteceu nada de diabólico com eles, nem seu idioma principal sofreu qualquer dano maior. Por que aqui aconteceria?
E quem cultuar esse inglês de loja, ou da informática, dos comerciais, dará com os burros n´água pois este é "ouro de tolo", não tem o menor valor.
"Portanto não temais" - basta manter-se a frente - a informação, a cultura, o estudo, o desenvolvimento é a melhor defesa - abaixo a ignorância!.
-------Mensagem original-------
De: Fabio Silva
Data: 15/02/2011 14:24:32
Assunto: Res: Res: [Idioma] NOSSA LINGUA: Coitada da Nossa Língua - agora é oficial.... o pior é que será da forma considerada "errada" Manoel, no vocabulário padrão da ABL consta "presidenta", portanto, se considerarmos que o vocabulário padrão reflete o idioma oficial, então, não precisamos nos preocupar com a correção da mesma. As "aberrações" ais quais eu me referi são mais prejudiciais ao nosso idioma porque elas podem desnecessariamente serem incluída no nosso vocábulo e gerarem aportuguesamentos piores do que a invenção de "presidenta". Fábio Henrique Usuário Linux: 100457 - Registre-se é de graça - http://counter.li.org BROffice.org, faz tudo o que o MS-Office faz e ainda é de graça. http://www.broffice.org.br De: Manoel <msrx...@gmail.com> Para: WW-MNDLP <nosso-...@googlegroups.com> Enviadas: Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011 21:45:11 Assunto: Res: [Idioma] NOSSA LINGUA: Coitada da Nossa Língua - agora é oficial.... o pior é que será da forma considerada "errada"
___________________________________________________________________ O texto acima é de inteira e exclusiva responsabilidade de seu autor, conforme identificado no campo "remetente", e não representa necessariamente o ponto de vista do MNDLP. ________________________________________________________________ O MNDLP visa valorizar, defender e proteger o nosso idioma; trabalha pela contenção do uso desnecessário de estrangeirismos; mantém independência de partidos políticos, religiões etc.; não é xenófobo; louva o aprendizado no País de línguas estrangeiras; reconhece como enriquecedoras, se aportuguesadas, as contribuições de outras línguas e busca a melhoria do ensino do Português. ___________________________________________________________________ http://www.novomilenio.inf.br/idioma Assinar a lista: Nosso-Idiom...@googlegroups.com Cancelar assinatura: Nosso-Idioma...@googlegroups.com http://groups.google.com.br/group/Nosso-Idioma/ | ||||||||
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O meu texto , abaixo, tampouco traz nada de novo; é de 2003 e continua sendo oportuno e necessário.
Porque rejeito os estrangeirismos
Instaurou-se no Brasil, de uns tempos para cá, o uso corrente de termos e expressões da língua inglesa em meio ao português e mesmo com exclusão deste, como sinal de sofisticação e requinte. Criou-se um valor cultural: o de que ostentar-se um certo idioma estrangeiro importa em prestígio para quem assim pratica.
É patético que tal mentalidade se tenha constituído em um país em que há analfabetismo e, de parte dos alfabetizados, um desapego acentuado à leitura e pois, ao convívio com as formas melhor articuladas do idioma. Tornou-se prestigiante ostentar-se o inglês embora não se tornasse proporcionalmente pejorativo saber-se mal o português, padecer-se de pobreza vocabular, incorrer-se em erros de sintaxe, de concordância, de regência de tempo verbal.
Inverteram-se os valores, dispensando-se a qualidade no que é essencial, no que nos é próprio e indispensável, em favor da ostentação artificial de um idioma estrangeiro.
Tal fenômeno deve-se em parte à globalização. Porém não iludamos os fatos: enquanto parece natural, talvez mesmo inevitável, o uso do inglês no mundo comercial e técnico e a importação da tecnologia norte-americana (sobretudo informática), razão nenhuma existe para introduzirmos o idioma inglês como se fosse nosso ou indispensável. Ao contrário, dotados que somos de idioma próprio, antigo de séculos, rico de imenso vocabulário, farto em recursos de expressão, cultivado no Brasil (e não só) por escritores admiráveis e belo de ouvir-se quando bem falado, sobram-nos razões, estas e outras, para sermos ciosos dele como de um dos nossos melhores patrimônios, como um aspecto de nossa identidade cultural, daquilo que somos enquanto povo caracterizado no mundo globalizado.
De importarmos a tecnologia ianque, não se segue que devamos fazê-lo em inglês: recebamos do estrangeiro o que nos falta e usemo-lo com o que nos sobra, quero dizer, com vocabulário próprio. Não é muito mais natural dizermos “programa” ao invés de software, e ratinho ao invés de mouse, em traduções compreensíveis por toda a gente ?
De tanto insistir-se nos anglicismos, muitos brasileiros e, o que é mais preocupante, os jovens, vão desaprendendo o vernáculo, ainda que inconscientemente, aplicando em certas situações apenas os americanismos e nenhum equivalente em português, quando o normal seria precisamente o inverso. Quem saberia já o equivalente de “show”, de “hobby” de “ranking” ? (Recordo-os: espetáculo ou concerto, passatempo, tabela ou lista, tudo do bom e velho português).
Algumas pessoas aderiram à mania de inglês na convicção de que através dela tornar-nos-íamos iguais aos EUA. Todavia imitando uma língua estranha, qualquer que seja, o máximo que conseguimos é poluir a nossa. Dos estadunidenses devemos imitar, isso sim, o espírito público dos seus governantes, a eficiência de suas instituições, a produção de suas universidades, seu patriotismo, seu apego à sua bandeira, a sua história, a sua cultura, ao seu... idioma.
Seremos semelhantes aos EUA quando alguns de nossos valores assemelharem-se aos deles, quero dizer, quando nos sentirmos convictamente brasileiros, assim como sentem-se eles convictamente nortea-mericanos, e quando afirmarmos nossa brasilidade, assim como eles fazem quanto à sua condição nacional. Ombrearemos com os EUA e com o primeiro mundo em geral, quando um de nossos ciúmes e de nossos zelos for nosso idioma.
São lamentáveis os nomes em inglês de lojas comerciais e de edifícios, que uma vez atribuídos, tendem a eternizarem-se, constituíndo testemunhos de uma fase em que adotamos a postura de colonizados culturalmente e em que a mentalidade de nosso povo estupidificou-se.
Porque, afinal de contas, encher o português de anglicismos por puro modismo ou por preguiça de traduzir ou de inventar, além de nada honroso, encarna uma forma de colonialismo, e do pior tipo, daquele em que o colonizado toma a iniciativa da subalternização.
O espírito de mimese chegou ao ponto de, em Curitiba, haver o “Curitiba Trade Center “ e o “Batel Trade Center”, pedantescas imitações do Centro Mundial de Comércio, as duas torres de Nova Iorque, de infausta memória. Em Curitiba ainda, um modesto centro comercial acrescentou uma letra ao seu nome, Batel, convertendo-se em “Battel”, certamente para recordar “Seattle” e outros termos de sonoridade análoga, o que reputo de uma cretinice lapidar.
Serão inevitáveis os estrangeirismos em geral e os americanismos em particular? É claro que não: qualquer estrangeirismo ingressa em um idioma porque os seus usuários empregam-no (por ignorância dos equivalentes vernaculares, por pedantismo ou por mera imitação) e deixa de ingressar e de se difundir se estes mesmos usuários, conscientemente, resistem-lhes, preferindo os equivalentes na sua própria língua e criando neologismos vernaculares, quando preciso.
Longe de inevitável, o avanço dos estrangeirismos pode e deve ser contido por cada indivíduo, na sua vida profissional, na sua família, no âmbito das suas relações, ao evitar empregá-los, ao criticar-lhes o uso, ao ponderar-lhes a desnecessidade, ao enaltecer o amor ao vernáculo, ao introduzir substitutivos em português, facilmente difundíveis por imitação. Faça cada qual, conscientemente, a sua parte, em favor do idioma, ao invés de, inconscientemente, fazê-la contra ele.
É mais do que oportuno que cada brasileiro tenha um momento de reflexão acerca dos seus usos lingüísticos e dos valores que neles se contém, e pondere se ambiciona ser brasileiro de fato ou apenas macaquinho do Grande Irmão. Quanto a mim, já me decidi, pelo meu país, pela minha cultura e pelo meu idioma. E você ?
Aos argumentos hostis aos estrangeirismos, levantam-se logo algumas objeções, como a de que o ingresso de importações representa um fato normal na existência dos idiomas e a de que se devêssemos expurgar o português dos americanismos, deveríamos fazer o mesmo com os termos de origem, por exemplo, francesa ou árabe, o que significaria empobrecê-lo, máxime no segundo caso.
É verdade que as importações vocabulares verificam-se nas línguas em geral, e que influenciam sobremodo os idiomas cujos países durante certa época preponderam do ponto de vista econômico, científico ou literário, como foi o caso do francês durante o século XIX no Brasil, quando uma parcela avultada dos livros aqui lidos provinha da França, então centro intelectual do mundo ocidental.
Naquelas circunstâncias e por força da familiaridade das pessoas com o idioma francês, os galicismos penetraram a pouco e pouco, quase insensivelmente, o que, claro, não os legitima pois nada legitima o emprego de um estrangeirismo, de qualquer proveniência, com sacrifício de um vernacularismo.
Por sua vez, a influência árabe desenvolveu-se no âmbito de um fenômeno muito mais extenso do que o verificado no caso do francês: dada a presença moura na península ibérica ao longo de setecentos anos, sua cultura enraizou-se largamente no seio das populações preexistentes, acabando por originar o moçárabe, misto de cristãos e de muçulmanos, em quem fundiram-se as culturas respectivas. Nada mais natural, em decorrência de um hibridismo sócio-cultural multisecular, que dezenas de vocábulos árabes adquirissem feição portuguesa (e espanhola) e se incorporassem ao português.
No caso dos francesismos, a influência deveu-se ao convívio prolongado com o idioma francês; no dos arabismos, da fusão de duas culturas; no dos americanismos, ela deve-se à crença feiticista de que o objeto nominado em inglês contrai uma suposta qualidade superior, à escassa identidade cultural dos brasileiros, ao complexo de inferioridade por ela originada, à imitação mecânica e irrefletida dos que usam-nos porque ouvem os demais a usarem-nos, à preguiça de traduzir ou de criar neologismos, ao desleixo com que se trata o vernáculo, à idiotice pura e simples ou à idiotice convicta de si própria (aquela cujo detentor alega o seu direito de exprimir-se livremente, o que não lhe nego, exonerando-se com esta simples alegação de todo critério com que escolha a forma como se exprime).
Há ainda outra causa, o pedantismo: é o caso do professor universitário que a todo momento vomita “papers” ou o homem de negócios que viaja a “business”, realiza “fundings” etc, quiçá na tenção ou na convicção de que assim impressiona os seus ouvintes ou talvez mesmo para dissimular a sua falta de conteúdo profissional ou acadêmico.
Não se diga que evitar os estrangeirismos equivale a paralisar a evolução do idioma e que, destarte, toda e qualquer importação é bem-vinda: um idioma evolui quando os seus detentores encontram soluções próprias para as suas necessidades de comunicação, quando traduzem, adaptam ou inovam e não quando incorporam acriticamente como seu o que é alheio, renunciando à sua identidade lingüística.
Não se alegue tampouco que, após certo estrangeirismo haver entrado em circulação, preferir-lhe um termo vernacular implica adotar, censuravelmente, um preciosismo, a exemplo de pormenor ou minúcia, ao invés de detalhe.
Qualquer vocábulo “precioso” (no que incluo os arcaísmos) que se empregue, por mais inusual e geralmente ignorado que seja, corresponde a uma forma de expressão inteiramente legítima, desde que vernacular. Um estrangeirismo não é menos estrangeirismo por ser mais corrente; um vernacularismo não é menos vernacular por andar deslembrado, caso em que o seu emprego afigura-se-me duplamente desejável: enquanto encarna um vocábulo próprio do idioma e na medida em que, reingressando em circulação ou circulando mais freqüentemente, recordará as pessoas de uma forma de expressão de que deixavam de servir-se por o ignorarem ou porque menos empregado pelos demais.
Em ambas hipóteses, o “preciosismo” em uso enriquecerá o vocabulário de quantos o ignoravam, até o ponto em que o que até certo momento constituía um preciosismo, deixe de sê-lo e passe a encarnar um termo corriqueiro. Tal resultância obter-se-á mediante a leitura de bons livros, a consulta aos dicionários e ...ao emprego do que neles se adquiriu.
Será isto, talvez, ligeiramente trabalhoso, porém, certamente, mais inteligente. É o humano o ser dotado de mais desenvolvida inteligência, dentre quantos existem. Pois então que a use!
Há quem vislumbre no combate aos estrangeirismos uma condenável manifestação de nacionalismo xenófobo.
Ora, o nacionalismo significa o apego à Nação a que se pertence, aos seus valores, à sua cultura, às suas realizações históricas, aos seus vultos maiores e mesmo à ufania destes elementos, condições em que encarna um elemento saudável e desejável na psicologia dos povos. Trata-se, pois, de afirmar o que nos pertence, enquanto nosso.
Ele, em contrapartida, torna-se em elemento censurável e indesejável quando o apreço pelo nacional traduz-se em desprezo pelos elementos humanos ou culturais metecos, em decorrência unicamente da sua condição de estrangeiros. Trata-se de menosprezar o alheio, enquanto alheio.
Originando-se da valorização do idioma nacional e jamais do repúdio aos demais, a animadversão aos estrangeirismos rege-se pelo nacionalismo sadio e não pela xenofobia.
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Tai Fabio,
...como eu previa, reações super bem intencionadas, mas... distorcidas, equivocadas, romanticas - uma bem calcada, erudita, educada, outra, nem tanto. Mas enfim, cada um dá o que tem. Se você observar sem preconceito, verá que os dois artigos são muito semelhantes, só que um tem uma visão objetiva e realista, já o outro fica no idealismo com tendências para o romântico, para o perfeccionismo irreal.
Pegando apenas uma frase lapidar, do brilhante texto do Arthur, que realmente vale a pena: |
"Há quem vislumbre no combate aos estrangeirismos uma condenável manifestação de nacionalismo xenófobo.
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Originando-se da valorização do idioma nacional e jamais do repúdio aos demais, a animadversão aos estrangeirismos rege-se pelo nacionalismo sadio e não pela xenofobia" - perfeito!
E´ isso aí. Eu não poderia sintetizar melhor (outros escrevendo... talvez me entendam melhor).
A preocupação, para o devido sossego e tranquilidade dos espíritos, estes sim complexados por achar ser nosso idioma tão frágil a ponto de correr risco com estas bobagens, (mas como dizia, a preocupação...) deveria ser a de contra argumentar, com elementos objetivos, por exemplo, a questão: "como pode acontecer, de vários países, pobres ou ricos, adotarem o idioma inglês "americano", como segunda língua, e não como fazemos, usando apenas pedaços como: sale, off, mouse, hardware, nomes de lojas com palavras inglesas etc etc, mas sim, usando o idioma inteiro, na totalidade da sua complexidade, concorrendo com o idioma pátrio, e ensiná-lo regularmente em seus estabelecimentos de escolares sem nenhum medo ou pudor, e nada de terrível acontecer!?" Como pode? Por que? que medo é esse? o que acontecerá ao nosso que não acontece com os outros?
Isto, não significa nos acomodarmos não. Façamos cada um a nossa parte. Estudando, lendo, divulgando o nosso melhor português com a nossa evolução... como diz o belo artigo,
"Seremos semelhantes aos EUA quando alguns de nossos valores assemelharem-se aos deles, quero dizer, quando nos sentirmos convictamente brasileiros, assim como sentem-se eles convictamente norteamericanos, e quando afirmarmos nossa brasilidade, assim como eles fazem quanto à sua condição nacional. Ombrearemos com os EUA e com o primeiro mundo em geral, quando um de nossos ciúmes e de nossos zelos for nosso idioma." eu acrescentaria...
Sem medo da aproximação e do confronto. Por exemplo: brigando, e acompanhando, para que seja um dos idiomas oficiais na ONU; lecionando o uso correto idioma; divulgando-o no exterior na medida do possível de cada um; escrevendo e editando bons livros; nos impondo o nosso perante aos outro países que usam o português nestes acordos que ninguém dá muita bola; tentando verificar, o mais possível, pessoas protegidas e apadrinhadas que lecionam oficialmente nosso idioma lá fora, verificando se são realmente preparadas para isso; o gerundismo; nos indignando quando políticos e representantes do governo praticam a malversação da nossa língua em público, dando maus exemplo em função do eles representam para muita gente simples; se a midia, principalmente a impressa, de um modo geral, está fazendo a mesma coisa etc etc. (a lista pode ficar imensa). Ou seja, há muito o que vigiar, e cuidar que não apenas o anglicismo menor, que vira é mexe, parece que é a única coisa que importa - isso sim é complexo de inferioriadade!
-------Mensagem original------- |
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Infelizmente é isso mesmo Fabio. Você está totalmente certo, e pelo que deu prá notar, pelo menos, você não está no grupo dos xiitas do idioma e satanizam pura e gratuitamente os "americanismos".
Não acho que devemos ficar quietos não com relação a isso, falar e reagir sempre, porém sem dar essa ênfase ao estrangeirismo americano, até para não prestigiá-los por tabela, para não se acharem tão importante como muitos pensam. São estrangeirismo desnecessários como tantos outros, da mesma forma que é um mal como tanto outros, com origem aqui dentro mesmo, que devemos combater também, a questão é dar a importância relativa que cada caso merece e não exorbitar porque não se gosta de americanos - pois aí, já passa a ser complexo de inferioridade, entendeu?
Eu, em correspondência para a Dilma, coloco lá, como ela quer "presidenta", mas não deixo de informá-la que está errado segundo a norma culta, da mesma forma que fiz com o Lula, quando ele tacou un "menas" uma vez (todo mundo entendeu, como entendem a Dilma, mas que está errado está - talvez seja a hora de chamarmos o Bechara, o Celso Cunha e mandar que eles comecem a incluir tanto "presidenta" como "menas" em suas gramáticas como aceitável, até que, com o tempo, passem a ser o correto após incluírem a "exceção" lá no particípio presente).
Beleza! Um ponto para a razão.
Abraço,
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