Sobre compatível

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Dec 15, 2013, 1:42:19 AM12/15/13
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Compatível

 

Termo desgastado em medicina por excesso de uso no contexto médico.

 

Seu sentido literal é sofrer junto ou juntamente, segundo o étimo latino medieval compatibilis, talvez criado por influxo do francês compatible, de compati, simpatizar (Houaiss, 2009; A. Nascente, Dic. da ling. port, 1988), ter compaixão, ter pena (Lewis CT, Short C. A latin dictionary, 1975); de cum, com, e patior, pati, suportar, sofrer (A. Ferreira, Dic. de lat. port 1996); do grego pathós, sofrimento, doença (Houaiss, ob. cit.).

 

Embora tenha seu sentido exato literário desvirtuado, passou para a língua portuguesa, como numerosos outros exemplos de desvios, no sentido de passível de coexistir ou conciliar-se com outro ou outros, capaz de funcionar conjuntamente; harmonizável (Houaiss, 2001), que pode coexistir, conciliável, harmonizável (Aurélio, 2004).

 

R. Bluteau (1728), autor do primeiro dicionário da língua portuguesa,  registrou compatível como coisa que se pode acomodar com outra (http://www.brasiliana.usp.br/pt-br/dicionario/1/compativel). P. J da Fonseca registra compatível como "que pode estar com outro sem o destruir", que pode com outro conciliar, que podem conciliar entre si (Dic. port. e lat, 1771).

 

Numerosos dicionários dão atualmente compatível como equivalente a conciliável, cujo sentido essencial é conexo com ato ou efeito de apaziguar-se com; pacificação, reconciliação, que pode justificar o sentido original de compatível com a coexistência com sofrimento, que houve litígio seguido de conciliação.

 

Caso análogo ocorre com simpatia, que, do grego sympátheia, originalmente, significa participação no sofrimento de outrem (Houaiss, 2001).

 

Em casos em que se deseje evitar compatível, pode-se substitui-lo por termos equivalentes. No contexto etimológico, em dizeres como “resultados compatíveis (coincidentes, corroboram, concordantes ou em conformidade, conciliam-se) com os da literatura”, “quadro compatível com (sugestivo de, concordante com, indicativo de) apendicite”, “antibiótico compatível com (de escolha para) estreptococos”, “diagnóstico compatível com (condizente com) o quadro”, “imagem radiológica compatível com (indicativo de) espinha bífida”, compatível não está bem empregado.

 

 

Refere-se comumente a condições ou circunstâncias não conflitantes entre si, que podem ser adaptadas uma/s à/s outra/s. O uso corrente é a chave maior da compreensão dos sentidos de uma palavra, não o sentido etimológico. Mesmo o sentido dos étimos apresenta variações como se vê nos dicionários etimológicos ou das línguas de onde se originam. Quando for necessária a desambiguação de um nome, convém, entretanto, buscar o étimo em seu sentido próprio, isto é, em geral, o primeiro sentido registrado em dicionários de primeira linha. Frequentemente isso é possível. Pathos, por exemplo é amplamente dado como sofrimento relacionado a sentimentos e doenças.

 

Importa observar que compatível é dado como procedente do francês compatible, conexo com simpathizer e, em ambos pathos tem o sentido de sentimento (A, Dauzat, Dictionnaire Etymologique, 1938). Nesse caso, pode-se dizer, mas sem exclusividade, que o sentimento poderia estar na pessoa que compara coisas, não nas próprias coisas, que não têm sentimentos. Assim, compatível estaria mais apropriado a ter uso relacionado a sentimentos entre pessoas. A. Sacconi dá compatível como primeiro sentido ou sentido próprio “que pode conviver ou coexistir em harmonia ou em segurança: casal compatível, animais compatíveis”, mas cita os demais sentidos em relação a coisas e menciona “sangue compatível” (Grande Dic. Sacconi da Língua Portuguesa, 2010). Em seu Diccionario Critico de Dudas Inglés-Español de Medicina (2006), F. Navarro, verbete consistent,  observa que indicativo e sugerente (sugestivo em português) é melhor tradução que compatible em inglês. Mesmo a respeito de coisas inanimadas, compatível fica mais adequado com o sentido de coexistência possível entre elas, sentido comumente exposto em muitos dicionários, frequentemente o único, como ocorre em S. Bueno, que dá apenas “que pode coexistir conjuntamente” (Dic, da L. Port., sem data). O Aurélio (2009) traz apenas os sentidos de coexistir e conciliável, harmonizável.

 

O sentido de conciliável parte do suposto de ter havido discussão prévia, o que justificaria a indicação de um diagnóstico: quadro de sinais e sintomas compatível com apendicite aguda. Tal disposição liga-se indiretamente a sentimentos de um ou de vários discutidores da questão.

 

Em dependência do contexto, compatível pode ser permutado por expressões ou adjetivos adequados, como: análogo, amparo da literatura, coincidente, concordante, condizente, conforme, de acordo com, correspondente a, equivalente, equiparável, idêntico, igual, semelhante, similar, sugestivo de; ou: Nossos dados corroboram os da literatura, guardam semelhança com, estão de acordo com, são consentâneos com, tem respaldo ou amparo da literatura, corresponder à literatura e expressões análogas.

 

Na frase “O exame histopatológico é compatível com granuloma”, compatível pode ser substituído por é sugestivo de, é indicativo de; ou: indica, sugere.

 

O nome sugestivo parece ser bom substituto, pois sugestão significa proposta, conselho, ideia, instigação,  lembrança -- todos com o sentido mais apropriado em relação a um achado do qual o examinador não tem certeza do valor real. 

 

Pelo seu uso consagrado, apesar do sentido literal indicar forma questionável, a aplicação de compatível nos sentidos dicionarizados é legítimo por seu amplo uso e compreensão geral. Em registro erudito, e tendo em vista a própria coerência etimológica, torna-se mais adequado usar compatível em sentido próprio em relação a pessoas  com foco em seus sentimentos (pathos) voltados à convivência, à concórdia entre elas e, por extensão, a possibilidade de coexistência de coisas em funcionamento, como sangue em relação ao organismo (compatibilidade sanguínea).  Parece incoerente haver o pathos como sentido principal ou conotativo entre coisas, mais sim entre pessoas e seus sentimentos. Não poderia ser padrão de perfeição o uso de desvios sêmicos como adequados e próprios para uso científico ou técnico. Nesse contexto, outros nomes, como sugestivo, indicativo ou equivalentes, poderiam ser dados como preferenciais, sem discriminações ou radicalismos.

 

Simônides Bacelar

Brasília, DF

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Dec 15, 2013, 1:48:14 AM12/15/13
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Compatível

 

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