A ESCRITA: Platão, Thoth, Manoel de Barros e O menino que carregava água na peneira.

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Manoel

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Jun 26, 2012, 5:08:41 PM6/26/12
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O EQUÍVOCO DE PLATÃO

 

“(...)

O menino aprendeu a usar as palavras

Viu que podia fazer peraltragens com as palavras.

E começou a fazer peraltragens

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro

botando ponto no final da frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.

Até fez uma pedra dar flor!

(...)” – Manoel de Barros – O Menino que Carregava Água na Peneira.

Esta arte onde como rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto com a escrita inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria” – Platão através do deus egípcio Thoth – A Invenção da Escrita.

 

A escrita é um instrumento de criação, e mesmo o grande Platão subestimou a sua utilidade futura para toda a humanidade. Provavelmente, o deus Thoth, que segundo Platão, inventou a escrita, não imaginava o quanto ela auxiliaria a humanidade e não só ao povo de uma única e antiga cidade do Egito. Muito menos o governador de Tebas, Tamuz, sabia o quanto estava equivocado quanto à ineficácia da escrita. Como se chega a conclusão deste equívoco?

           Platão, em seu texto “A Invenção da Escrita”, após citar o diálogo entre o deus Thoth e o rei Tamuz, praticamente concorda duplamente com o segundo, visto que o texto é de sua autoria, com relação à eficiência duvidosa da escrita.

Para Tamuz, a escrita seria de utilidade duvidosa, visto que ela lançava mão de recursos externos ao homem, como uma ferramenta, e com isto, iria acomodar as mentes preguiçosas a não se esforçarem em reter dentro de suas próprias cabeças o conhecimento necessário sobre os fatos e, as coisas de um modo geral para um uso mais imediato. E diz Tamuz referindo-se a Thoth o chamando de grande artista. Não é a mesma coisa inventar uma arte e julgar da utilidade ou prejuízo que advirá aos que a exercerem. E diz também que ele como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. E conclui que tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meios de sinais e em si mesmo.

E Platão reforça esta dúvida, quando a compara ao discurso e a pintura. Ele achava que estes se limitam apenas a se mostrar, quantas vezes se fizerem uso deles, sem acrescentar nem responder a nada que já não esteja ali citado ou representado, afirmando que o uso da escrita tem um inconveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras têm a atitude de pessoa viva, mas se alguém as interrogar, sobre algo que não esta ali, conservará gravemente calada. O mesmo sucede com os discursos. Falam das coisas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto eles se limitam a repetir sempre a mesma coisa.

           Segundo o deus Thoth, a sua invenção, a escrita, “apenas” auxiliaria aos egípcios a memorizar mais fácil as coisas, quando a chama de um grande “auxiliar” e, que com isto o causaria um aumento de “sua” sabedoria.

 

Em um texto bem mais recente, apenas para citar um, em versos como o de Manoel de Barros – “O Menino Que Carregava Água Na Peneira” – o homem-humanidade, aqui representado pelo poeta, também cria e recria virtualmente a realidade a seu gosto, no uso direto da escrita enquanto arte.

Estava Platão equivocado, através de seus personagens Thoth e Tamuz, pois eles consideraram a escrita apenas a curto prazo – uma vida humana, talvez menos – e em pequenos volumes como o cotidiano da época. Mas, com o passar dos anos, e dos séculos, o poder e a utilidade da escrita como instrumento potencial para a criação ficou patente. Em primeiro lugar quando retém as informações referenciais para um uso futuro – história da humanidade, técnicas e conhecimentos a serem passados a novas gerações – de modo a se poder reproduzir o processo sempre que desejado. E, em segundo lugar, através da arte de escrever, na literatura, recriando a realidade a seu modo e no seu tempo.

Manoel Silva Rodrigues

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