Gírias médicas

3,122 views
Skip to first unread message

Simônides Bacelar

unread,
Apr 16, 2011, 12:49:26 AM4/16/11
to undisclosed-recipients

Gírias médicas.

 

Certas lexias parecem-nos sobremaneira familiares e temos a impressão de serem compreendidas por todos em qualquer lugar, mas em verdade, em muitos casos, são de uso de grupos e indiscerníveis fora dele. A gíria deve ficar restrita à linguagem oral de cunho familiar, espaço onde nasce e se desenvolve mais facilmente (J. C. Leal, A arte de escrever com arte, 2006, p. 81). Lançar mão de linguagem giriátrica em relatos científicos falados ou escritos, banaliza o texto e é improcedente, pois a maioria não consta nos dicionários ou têm sentidos diversos do usual, como beuba, pacote, brocotoma, paletar, fazer gato, engundado, ficar voando.

 

Por insuficiência vocabular, falta de familiaridade com linguagem precisa e pelo hábito da linguagem coloquial -  é frequente, no âmbito médico, o uso de termos do jargão popular em discursos formais, como “à bessa”, “dar uma força”, “emplacar uma vitória”, “forçar a barra”, “furar o acordo”, “cair na real”, “entrar pelo cano”, “foi uma fria”, “matar o serviço”, “quebrar o galho”, “numa boa”, “aparelho pifado”, “Pintou um caso desse na clínica”. “O paciente vai pintar no ambulatório”. “O diagnóstico passou batido”, “dar pitaco”, “está tudo beleza”, “custa 600 pilas”, “pedir um exame de cara”.  

 

As gírias médicas  faze parte das chamadas gírias de grupo, palavras com sentidos entendidos quase só por médicos, assim como há gírias de motoristas, de economistas, de advogados, de estudantes. São gírias médicas: abscesso frio (v. este); alça satélite (alça fixa); achismo, achômetro, achometria, achometrista (relativos à opinião própria); consultorreia (muitas consultas a colegas); beuba (porção de tecido insignificante, langanho), bexigoma (distensão vesical, repleção vesical, globo vesical, retenção urinária); bisturi frio (em oposição ao eletrocautério); brocotoma (massa), enfermesa (enfermeira burocrata que passa grande parte do período de serviço em sua escrivaninha); empurroterapia (transferência de paciente com doença complicada, para vários médicos); esmeraldite (tratar médico ou parente de médico), esquisitoma (massa de natureza desconhecida); massaroca (massa de tecidos, tumor), macetuário (caderninho de notas práticas sobre rotinas, tratamentos, medicamentos e outros itens úteis ao médico); pacote (cadáver enrolado com pano), pepino (paciente com doença de difícil trato), píssico (amalucado), filé (doença de tratamento gratificante), galo (tumor na cabeça, decorrente de pancada), jacaré (doente inculto, mal educado), laparotomia branca (laparotomia não terapêutica, sem achados cirúrgicos), limpar a enfermaria ou o pronto socorro (dar alta a todos os pacientes), dar um piti (fazer cenas de histerismo, pitiáticas), nódulo frio ou quente de tireóide;operoma (tumor com indicação cirúrgica), paciente babando ou com babação de sangue, (paciente com hemorragia pouca e persistente), particulóide (paciente muito exigente em hospital público), paciente chumbado (com estado geral precário); poliesculhambose, psicada (sintoma psicológico), hipertensão do jaleco branco (hipertensão pela presença do médico), drenar (desviar) pacientes para clínica particular, Dr. Au-Au (médico que costuma encaminhar seus pacientes a outros médicos: ao neurologista, ao ortopedista, ao psiquiatra); síndrome de JECA (paciente em estado grave terminal: sigla de Jesus está chamando); seca-meleca (cateter de oxigenação nasal), ratinho, operar um ratinho (recém-nascido muito pequeno, de baixo peso).

 

Em seu livro sobre gírias médicas, C. Peterson, Trambiclínicas, Pilantrópicos, Embromeds, um ensaio sobre a gíria médica, anotou alguns termos de gíria colhidos de médicos do Rio de Janeiro: Acades vulgaris (acadêmico de medicina), DPP (deixa para o próximo plantão), Embromed (plano de saúde fictício), empurroterapia (receber medicamento sugerido por balconistas), FDA (for development abroad – medicamentos testados no Terceiro Mundo antes de entrar no mercado norte-americano), parece ser (parecer médico cuja veracidade é posta em dúvida), Plano Pafúncio (procedimentos hospitalares em hospital público para favorecer fuincionários do hospital ou parentes), vírus e-bala ou intoxicação aguda por chumbo (lesão por projétil de arma de fogo) s

 

Importa acrescentar que o português vulgar é comumente adotado em todas as classes. A respeito, escreveu Tenório D’Albuquerque: “Lamentavelmente, nas chamadas classes elegantes, é comuníssimo o emprego de termos de gíria, de deturpações de vocábulos, inclusive descaradamente por pessoas que não se envergonham de usar a mesma linguagem de ladrões e prostitutas” (Dicionário de Linguagem, 1953, p. 108). Mas em estados de exacerbações emotivas, as adjetivações chulas grosseiras e agressivas até poderiam fazer falta se não existissem nos idiomas em geral. Em seu contexto formal, a linguagem científica deve ter nobreza e ser desprovida de chulices e expressões populares. Também, em sua relação com os doentes, é desaconselhável que o médico use de jargão médico com gírias, sobretudo as que soam como termos técnicos como nos exemplos retromencionados.

 

Simônides Bacelar

Brasília, DF

Animacoes GRATUITAS para seu e-mail – do IncrediMail! Clique aqui!
faint_grain.jpg
stampa_girl_line_pt.gif
Reply all
Reply to author
Forward
0 new messages